Bound To You.
7 6. Vessel

― Cavalheiros e damas, obrigado por comparecerem – Elijah era sempre o porta-voz nas reuniões, mesmo quando Klaus estava presente. As outras facções nutriam por ele um respeito maior.
Desta vez a reunião era exclusivamente com a facção humana. Aquela, talvez, era a menos problemática de todas, já que sua preocupação deixara de ser sobre o Quarter e sim com dinheiro. Políticos corruptos na sua maioria eram os representantes, assim como oficiais de polícia e médicos dispostos a encobrir os deslizes de vampiros.
Aquela reunião nunca durava muito mais do que uma hora, eles combinavam os números de turistas que poderiam ser mortos e feridos por cada festividade, Elijah e Klaus ofereciam a prefeitura uma boa quantia em dinheiro, que era suficiente para mantê-los calados, quando o medo de morrer não era suficiente, davam aos médicos algumas amostras de seu sangue, que eles utilizavam para curar doenças dos cidadãos da cidade em completo segredo e para os policiais disponibilizavam ajuda sobrenatural para os gângsteres mais perigosos da cidade. De modo que o crime, saúde e outros assuntos referentes a políticas mantinham-se exemplares na cidade.
― Eles realmente acham que tem o controle sobre nós – Klaus debochou enquanto entrava no carro, com seu irmão mais velho no assento do passageiro. – Esquecem de quem nós somos e de que ajudamos a fundar a cidade.
― Se isto é necessário para que eles se mantenham calados e escondam os deslizes de nossos vampiros mais descuidados, que assim seja.
― Eu não gosto de ser submisso a humanos, Elijah – Klaus esclareceu, com uma de suas mudanças de humor súbitas.
― O que você não gosta, irmão, é de concordar com os termos necessários para manter a paz – Elijah rebateu duramente, olhando de maneira fixa para a estrada pela qual Klaus dirigia de volta para casa.
― Nem você, aparentemente – o híbrido rebateu.
― O que quer dizer? – Elijah perguntou, não compreendendo. Ele elevou uma sobrancelha na direção do irmão.
― Eu vi você e Hayley na festa – Klaus murmurou de mau humor e aquilo fora suficiente para fazer com que Elijah perdesse a razão tão rápido quando água evaporando em um dia quente.
O mais velho ficou calado e tornou a olhar para frente, agradecendo mentalmente por seu celular tocar em seu bolso interno do paletó. Ele identificou o número rapidamente, era Davina quem fazia a ligação, atendeu rapidamente.
― Elijah, será que você poderia vir até o cemitério Lafayette? Tem algo aqui que eu acho que você vai querer ver – o tom de Davina era preocupado, o que induziu a preocupação por parte do vampiro.
― Não posso entrar no cemitério, Davina – ele esclareceu. – As bruxas barraram a entrada de vampiros. O que está acontecendo?
― Eu libero você para entrar – ela respondeu, como se fosse óbvio. – Prefiro que você veja pessoalmente.
Elijah chegou ao cemitério meia hora mais tarde, depois de convencer Niklaus a ficar na mansão com Hope. Davina parecia preocupada demais, o que levou o Original a pensar que a garotinha precisaria de mais proteção do que Marcel poderia proporcionar. O vampiro observou os portões do cemitério, estavam abertos, mas ele sabia que a barreira não era física.
Ele deu um passo a dentro do cemitério, sentindo a barreira mágica criada pelas bruxas contornar seu corpo.
― Davina! – ele chamou, em alto e bom som, suficiente para que a bruxa o escutasse independente da área do cemitério em que estivesse.
― Aqui! – ela respondeu, alguns túmulos a diante.
Elijah correu, tão rápido que sua forma anuviou e tornou-se apenas um vulto. Ele seguiu o som da voz da bruxa, encontrando-a dentro do túmulo que dava passagem para uma caverna subterrânea. Encontrou Davina de braços cruzados, observando fixamente a parede. Aproximou-se a passos lentos e bem calculados, de forma inaudível aos ouvidos humanos e viu o que o corpo da bruxa estivera ocultando.
― Mas o que é isso? – ele indagou, perplexo, fazendo com que a bruxa tivesse um sobressalto e levasse a mão direita ao peito. – Desculpe, não queria assustá-la.
― Eu não tenho ideia do que é isto. Só tive permissão para entrar no cemitério ontem e encontrei isso aqui – Davina retirou da parede uma foto de Hope. A garota estava sozinha na figura, brincando sorridentemente nos jardins da mansão Mikaelson.
― Como conseguiram essa foto? – Elijah perguntou, com a voz dura.
― Eu não tenho a menor ideia, Elijah. A mansão é protegida? – Davina indagou num tom de quem trata de negócios. – Olha, este símbolo significa poder... É uma língua antiga.
― É viking – ele esclareceu, com os olhos estreitos feito duas fendas. O vampiro observava os entalhes na parede da caverna. Passou dois dedos sobre as letras e símbolos e soube que aquilo era recente. – Seja lá quem fez isto aqui, conhece bem o tipo de magia que minha mãe pratica. Há alguma chance de ser a garota que assume a liderança de seu coven?
― Eu não sei, Elijah. Não a conheço – disse a bruxa, passando a foto de Hope para Elijah e afastando-se de parede que causava-lhe calafrios. – O que é que está escrito aí?
― É um tipo de aviso. Diz que Hope é um receptáculo para uma bruxa poderosa. Eu não entendo, uma bruxa precisa de um receptáculo?
Davina precisou de um momento para pensar em uma resposta. Ela ainda estava meio enferrujada no quesito história da magia e nos detalhes que dizia respeito aquele assunto. Talvez tivesse levado tempo demais para responder, pois o Original virou-se para olhá-la.
― Há uma lenda antiga sobre uma bruxa específica – Davina respondeu, sentindo-se ligeiramente pressionada pelo olhar inquisitório do vampiro a sua frente. Ela observou Elijah cruzar os braços lentamente e então continuou: – Mas ninguém nunca confirmou, é só um tipo de folclore.
Elijah respirou profundamente, esperando que a história do receptáculo fosse realmente apenas uma lenda. Voltou a olhar fixamente para a parede, onde os dizeres tinham sido entalhados, estudou-os lenta e atenciosamente. Ele sabia que até mesmo Esther tinha limites para aquele tipo de magia negra e só o mais simples pensamento no tamanho poder que aquela bruxa poderia ter por praticá-la causou-lhe arrepios.
― Eu tenho que alertar Hayley e Niklaus – ele sussurrou, mal percebendo que estava realmente falando.
― Escuta, eu tenho um livro que conta a lenda dessa bruxa. Não consigo me lembrar o nome, é uma história quase infantil. Se quiser, nós podemos... – Davina formulava um convite, mas fora interrompida pela voz firme do Original.
― Eu ficaria grato se pudesse dividir qualquer outra informação sobre isto. Não sei se devo levar a história a sério, mas vampiros, bruxas e lobisomens também deveriam ser folclore.
Davina não sentia-se completamente confortável por pegar carona com aquele homem, ainda mais quando ele demonstrava abertamente estar infeliz. Ela tomou a liberdade de analisar as feições do vampiro e deparou-se com uma expressão dura, a mandíbula completamente cerrada e as sobrancelhas unidas, mas seus olhos mostravam sua ausência mental. Ela nunca tivera a chance de conhecer Hope, mas era óbvio que aquela garota era protegida 24 horas por dia, todos os dias, o que a fez criar uma ligação mental consigo mesma.
Quando era procurada pelas bruxas, por ter fugido da Colheita, era vigiada constantemente e não poderia detestar mais aquilo. Ela sabia que a garota iria se rebelar quando chegasse a adolescência e pode imaginar o que os Originais fariam para defende-la.
― Elijah, quantos anos Hope tem? – ela perguntou, notando que o vampiro desviara os olhos da estrada para olhá-la rapidamente e depois retornou a concentrar-se na direção.
― Completou seis alguns dias antes de eu viajar para Boston – ele respondeu formalmente.
― Aposto que ela é uma graça – Davina falou, mexendo nervosamente no cabelo. – Vocês a protegem constantemente?
― Ela é extremamente inteligente – Elijah respondeu, relaxando um pouco sua postura ao falar da sobrinha, ele girou o volante para a esquerda, entrando na rua em que o prédio de Davina era visível. – Sim, ela está sempre sobre a proteção de alguém que confiamos, que ultimamente resume-se em Niklaus, Hayley, Marcel e a mim.
Ele não sabia exatamente porque dizia a Davina quem eram as pessoas que protegiam Hope, mas o fez de qualquer forma, sem sentir medo de uma armadilha. Estacionou o carro em frente ao condomínio e saiu do veículo, acompanhando Davina até o elevador, onde subiram em silêncio.
― Então, pode se sentar, eu já volto – ela falou conforme ambos entravam na residência.
Elijah acenou polidamente com a cabeça e embora não sentisse vontade de sentar, aceitou o convite e o fez, aguardando pacientemente que a garota procurasse o livro.
Eu não acredito que o convidei para subir. O que é que eu estava pensando? O que é que o porteiro vai pensar? Oh meu Deus, o porteiro. Amanhã todos saberão que eu trouxe um cara mais velho em plena luz do dia. É melhor que eu faça isso rápido, se eu não perder tempo, ninguém vai achar que nós estávamos transando. A menos que ele fosse um coelho. Talvez eu entregue o livro e mande ele ler na casa dele. Quer dizer, Elijah é um homem inteligente, ele sabe ler e interpretar uma fábula sem a minha ajuda. Elijah é um vampiro com super audição, Davina, sua estúpida! Pare de falar sozinha em sussurros.
― Elijah! Se estiver ouvindo, pode parar! – ela gritou do quarto, fazendo com que ele tivesse que segurar uma risada.
Finalmente naquele dia Elijah sentira o impulso de rir. Naturalmente. Ele justificou para si mesmo que escutaria o que Davina estava fazendo para certificar-se de que ela não estava armando nenhum tipo de armadilha para ele, no maior estilo Niklaus de paranoia, mas intimamente, ele não soube dizer o motivo para bisbilhotar a garota.
― Do que você está falando? – ele respondeu, um pouco mais alto que o de costume, disfarçando a diversão em sua voz.
Ótimo, agora ele vai pensar que você é maluca. Ela sussurrou mais uma vez e ele sorriu, aguardando pacientemente que ela retornasse à sala, o que ocorreu menos de um minuto mais tarde.
Davina sentou-se ao lado de Elijah e depositou o livro no colo do Original, indicando a página certa que falava tudo sobre a bruxa e o seu receptáculo. Para sua infelicidade, ele não manifestou nenhum tipo de reação sobre ler em sua própria casa. Ele abriu o livro e mergulhou completamente nele.
― Você quer beber alguma coisa? Um café? – ela ofereceu, dez minutos mais tarde, completamente entediada pelo silêncio de Elijah, que mais parecia uma estátua, de tão imóvel que encontrava-se ao ler o grimório feito para crianças. Ele elevou os olhos para Davina, desconcentrando-se de sua leitura pela primeira vez e sorrindo na direção dela.
― É claro, obrigado.
Ela levantou-se num pulo e correu para a cozinha, preparando o café rapidamente. Olhou de esguelha para Elijah, que retornara a posição imóvel no sofá, estudando até mesmo as letras do livro. Pensou que ele era sempre tão educado que poderia se acostumar com ele como hospede e imaginou quanto tempo demoraria para que ele se oferecesse para lavar a louça.
― Talvez eu peça uma pizza se você for continuar estudando a idade das páginas do livro, Elijah – ela não conseguiu segurar as palavras provocativas, fazendo com que o vampiro tornasse a olhá-la, mas desta vez de uma forma penetrante. Ela depositou a garrafa com café na mesinha de centro e permitiu que ele mesmo se servisse da quantidade que achasse necessária, sustentou o olhar do vampiro com certo divertimento e então continuou, mudando de assunto – Então, o que você achou?
― Dhalia, a bruxa que precisa de um receptáculo, é minha tia – ele esclareceu e Davina mudou sua feição de algo divertido para perplexo no mesmo segundo. – E eu acredito que isto seja verdade, mas há um porém. Hope só seria um receptáculo se manifestar-se como bruxa e isto ainda é uma incógnita para nós.
― Desculpe, não consegui seguir o raciocínio – ela falou, tomando um longo gole de seu café. – O que quis dizer com ela se manifestar como bruxa?
― A mãe de Hope é uma lobisomem e o pai descende de uma linhagem de bruxas poderosas, como Esther e Dhalia, mas também é um lobo – Elijah explicou com a paciência de um professor, gesticulando com uma de suas mãos ao passo que fechava o livro. – Se pensar em herdabilidade de genes...
― Ela seria uma loba, é claro – Davina completou, com um ar sonhador.
― Mas nossa família não pode sempre contar com a sorte – ele pontuou com um sorriso pequeno nos lábios.
Davina sabia que existia um feitiço que servia exatamente para aquele propósito. Descobrir se uma criança era bruxa antes mesmo que ela manifestasse seus poderes. Ela terminou seu café, olhando de esguelha para o de Elijah e notando que a xícara estava intocável, revirou os olhos para aquilo e, usando uma das coxas do vampiro como apoio levantou-se do sofá, dirigiu-se até a prateleira, onde sabia que tinha um grimório sobre feitiços domésticos, pegou-o o tornou a se sentar, observando a face confusa do Original.
― Você aceitou o café e o mínimo que pode fazer é tomá-lo. Por educação, sabe? – ela pontuou, os anos passados na faculdade ao lado de um brasileiro fez com que alguns costumes fossem adquiridos, principalmente aquele sobre desperdiçar comida que fora oferecida e feita especialmente para o convidado. – Olha, eu tenho um feitiço que pode ajudar vocês a descobrirem se ela será loba ou bruxa.
Elijah limitou-se a observar Davina, que procurava apressadamente o feitiço que havia mencionado. Aquilo seria um grande demonstração de que ela era confiável. Ele tomou seu café, esvaziando a xícara rapidamente e notando que ficar naquele apartamento causava-lhe uma sensação meramente agradável. O humor da bruxa sentada ao seu lado o agradava. Ele se aproximou, observando as palavras escritas em latim do feitiço e sentindo o mesmo perfume cítrico que havia sentido na festa. O cheiro também o agradava.
Davina mostrava e explicava lentamente como o feitiço deveria funcionar, tratando-se de uma criança, o comportamento deveria ser o mais previsível possível, para evitar falhas. Ela notou que Elijah exalava um cheiro amadeirado agradável e que sua gravata estava ligeiramente torta no pescoço e aquilo incomodou seu lado perfeccionista, mas controlou-se. Fechou o livro quando terminou sua explicação e levantou seu queixo para olhar para ele, sustentando a confiança que tinha para realiza-lo, mas notou que ele estava perto demais.
― Vá até minha casa amanhã pela manhã – ele convidou num tom de quem não aceitaria um não como resposta e tudo o que ela sentiu fora o hálito dele em seu rosto, tinha o cheiro do café que ele acabara de tomar e estava tão quente quanto a bebida. Ela piscou algumas vezes para livrar-se do rápido torpor que aquela proximidade causara. – Eu avisarei Niklaus e Hayley sobre o que descobrimos.
― Sem problemas – ela respondeu, afastando-se delicadamente, antes que cometesse o erro de desviar seu olhar para os lábios do vampiro.
Elijah levantou, ajeitando seu terno e instintivamente sua gravata. Exibiu um sorriso lateral para Davina e caminhou em direção a porta, girando a maçaneta para que ela abrisse. Deu um passo para fora e interrompeu-se, girando nos calcanhares e dizendo lentamente:
― Obrigado pelo café – algo em seu tom deixava claro que aquilo era uma piada, mas tudo se confirmou quando ele continuou divertidamente – Eu não acho que você é maluca.
Ela não teve o tempo suficiente para dar uma resposta à altura já que no instante seguinte, ele já não estava mais lá.
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