Bound To You.
4 3. The Plan
Notas iniciais

Dois dias mais tarde, eu me levantei da cama com uma enxaqueca terrível. Estava estourando meu prazo para deixar o dormitório e Pedro estava me pressionando para saber se Elijah tinha retornado a me contatar ou não.
Tinha tudo planejado com ambos os homens e, é claro que Elijah sabia mais detalhes do que Pedro, afinal, ele seria o personagem morto de todo o teatro. Ele me encontraria ainda pela manhã, hoje, no alojamento, onde eu e Pedro fingiríamos uma conversa. Ouvi as batidas apressadas na minha porta e a atendi, antes mesmo de escovar os dentes.
― Bom dia, D. Grande dia este! – exclamou meu melhor amigo, animado demais para matar um vampiro Original. – Então, que horas ele vem?
― Acho que as 10h – respondi, com um bocejo e caminhei para o banheiro, onde finalmente realizei minha higiene matinal. – Você realmente quer fazer isso?
― É claro! Eu nunca tive a chance de matar um vampiro de uns quinhentos anos – disse ele, ingenuamente. Eu mordi meus lábios com força. Elijah tinha mil anos, era cinco séculos mais forte do que Pedro estava planejando e eu tinha dito para que ele não se entregasse fácil.
Tudo teria que ser muito convincente, de modo que Elijah tinha que resistir ou Pedro suspeitaria. Não era como se meu amigo fosse um completo idiota. O que eu realmente temia era o tipo de resistência que o original demonstraria. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo alto e firme e troquei meu pijama por uma roupa fresca de verão, voltando ao quarto com meu colega.
― E se ele for mais velho do que isso? – perguntei, tentando ao máximo alertá-lo da força bruta que estava prestes a enfrentar, sem realmente dizer alguma coisa que revelasse o quão por dentro da história eu estava.
― D, relaxe. Não é a primeira vez que faço isso, ok? – ele respondeu, dando de ombros e quase não se preocupando. – Escute, depois nós precisamos nos livrar do corpo, então pensei em enterrá-lo naquele terreno que ninguém frequenta.
― Isso soa ótimo – respondi, completamente desanimada com a ideia de ter que cavar para enterrar Elijah e depois retirar toda a terra de cima, quando ele acordasse. Pedro me olhou um pouco desconfiado, mas não teve tempo para contestar meu ânimo, pois nosso convidado especial anunciava sua chegada com duas batidas na porta.
Atendi tão rápido quanto pude, olhando para Elijah e acenando minimamente com a cabeça, como se aquele gesto fosse uma garantia de que estava tudo certo. Ele acenou de volta e, para minha surpresa, marcou o local onde Pedro iria enfiar a estaca, contendo um sorriso. Revirei os olhos. Era possível que ele fosse tão convencido de si?
― Entre – convidei, tomando o cuidado de não mencionar seu sobrenome, talvez aquilo estragasse tudo.
Ele desviou de mim e sentou-se numa cadeira vaga, de frente a uma escrivaninha vazia. Analisando com olhos críticos o meu querido amigo e caçador de vampiros Pedro.
― Podemos conversar a sós? – ele perguntou e se eu não soubesse o que estava acontecendo, poderia jurar que ele falava sério.
― Tudo o que quer me falar, pode ser dito na frente dele – eu disse honestamente, lançando um olhar cúmplice para Pedro.
― Está certo, então – ele respondeu, retirando um bloco de cheques de uma maleta profissional que ele carregava e eu sequer tinha notado. – Eu disse que estaria disposto a pagar qualquer valor para que você trabalhe para mim em Nova Orleans. Então diga, qual o seu preço?
Algo nas palavras de Elijah soava incrivelmente acusatório. Como se o talão de cheques apoiado na escrivaninha tivesse alguma relação direta com a estaca de madeira que Pedro segurava escondido em suas costas. Aquele era o preço que eu queria e que ele estava disposto a pagar. Antes mesmo de eu responder, Pedro se levantou e eu me perguntei se ele era obtuso de alguma maneira.
― Com licença – ele falou, sem graça. – Vou até o banheiro.
O banheiro ficava na posição exata para que ele acertasse Elijah pelas costas. Eu o segui com o olhar e esperei que ele ficasse onde estava planejando. Piscou travessamente para mim e fingiu fechar a porta quando, na verdade, continuou ali, parado. Ele fez um novo gesto com as mãos, para que eu continuasse a conversa, distraindo-o.
― Eu não sei ao certo, senhor – disse lentamente, baixando meu olhar para o homem de terno lentamente. – Preciso de uma casa em Nova Orleans e móveis, para começar.
― Claro – ele respondeu, baixando os olhos e retirando uma caneta do bolso interno de seu paletó, rabiscou alguns números na folha de cheque e, quando Pedro deu o primeiro passo em sua direção, ele falou sem elevar os olhos do papel — Eu não ouvi seu amigo trancar a porta do banheiro.
― Que? – eu perguntei, engolindo em seco. Lancei a Pedro um olhar que dizia “não faça nada estúpido” e esperei que Elijah tornasse a falar.
― Disse que não ouvi seu amigo trancar a porta do banheiro. Da mesma forma que não ouvi nenhum som vindo de lá, seja de uma torneira aberta, uma descarga de água sendo acionada no vaso sanitário ou passos em direção até ele – confesso que nesse momento senti meu coração acelerar, mesmo sabendo que tudo aquilo era um teatro e que Pedro terminaria vencedor, tive medo de Elijah não honrar sua palavra. Olhei para o rapaz atrás de Elijah, ele estava imóvel. O vampiro continuou, elevando seus olhos para mim e umedecendo seus lábios. – De fato, consigo ouvir uma respiração bem atrás de mim.
Elijah ajeitou sua gravata friamente e deu uma piscadela para mim. Talvez tenha notado que começava a me apavorar. Em seguida, seus olhos ficaram vermelhos e veias negras o circuncisaram de uma forma grotesca, elas desciam em cascata livre até parte de suas bochechas e seus caninos estavam a mostra. Dei um passo para trás, realmente assustada, apesar de saber que ele não me machucaria.
Ele se levantou e avançou para mim, o que me surpreendeu. Segurou-me firmemente pelos braços e puxou minha cabeça para o lado bruscamente.
― Pensou que eu sou algum idiota, moleque? – ele falou, num tom impaciente. – Largue a estaca e eu posso não machucar sua amiga.
― Solte-a primeiro – Pedro exigiu, fechando sua cara em uma carranca.
Decidi que era hora de agir. Eu sabia uma coisa ou duas sobre defesa pessoal, o que seria completamente inútil contra a força descomunal de Elijah, mas para minha sorte – ou azar, senti que uma parte muito particular de seu corpo estava próxima de minhas mãos, presas atrás de meu corpo. Cerrei minhas mãos em punho e acertei com voracidade o local, ouvindo-o gemer alto de dor e me soltar. Aquilo foi agradável, na verdade. Talvez ele finalmente engolisse seu tom superior quando falava comigo depois daquele soco.
― Pedro, rápido! – eu gritei, apressadamente, observando meu amigo correr tão rápido na direção de Elijah que eu mal consegui vê-lo.
O vampiro livrou-se do primeiro ataque, desviando do golpe rapidamente. Andou um pouco curvado pela dor na região sensível e depois voltou a endireitar a posição.
― Vai pagar por isso – ele me falou num tom tão sério que pensei que era verdade.
O plano de Elijah era claramente me atacar para que Pedro tivesse uma chance, então tornou a vir em minha direção, ficando de costas para o caçador que quando viu sua chance empunhou à estaca no coração de Elijah, atravessando toda a estrutura de suas costas.
O vampiro caiu de joelhos no chão, com uma mão no peito, como se sentisse seu coração morrer lentamente. Sua pele tornou-se cinza e algumas veias ficaram visíveis abaixo da pele. Ele caiu em seguida, para todos os efeitos, morto. Ou pelo menos aquilo era o que Pedro pensava.
Respirei profundamente, estava com a respiração descompensada. Pedro quase saltitava de felicidade.
― Isso é o que eu chamo de final de ano bem sucedido, D! Agora vamos colocá-lo em um saco e levar para a propriedade. Já deixei a cova cavada.
― Você está animado demais para isso – critiquei, ajudando-o a colocar o corpo de Elijah no saco. – Espero que não sejamos vistos.
― Bobeira – disse ele. – Ninguém fica no campus nas férias.
Nós terminamos de enterrar Elijah depois das três das tarde e eu estava completamente suada e suja. Esfreguei minha testa com o braço, para livrar-me do suor e soltei a respiração de uma forma audível.
― Bom, acho que já vi coisas o suficiente para o resto da minha vida – falei, encarando a terra fofa e pensando no trabalho que daria para retirá-la dali. – Vou para casa agora, se me permite.
― Ei, D – ele me chamou. – Muito obrigada por isso, é muito mais do que eu poderia pedir.
― Amigos são para isso – eu dei de ombros, não queria soar esnobe, mas estava cansada demais para ser simpática. – Vá me visitar em Nova Orleans, ok?
Só depois parei para pensar no quão estranho era aquela despedida. Abracei forte Pedro, rezando para que ele nunca fosse para Nova Orleans. Como é que eu poderia explicar que Elijah estava vivo e que eu estava trabalhando com ele? Não. Era coisa demais para se explicar.
Duas horas mais tarde eu retornei para a cova de Elijah e ela já estava remexida, ajudei-o a sair dali e não pude descrever o quão infeliz ele parecia, mas era quase engraçado. Ver seu terno caríssimo sujo de terra e seu cabelo desgrenhado. Ofereci uma mão para que ele saísse daquele lugar, mas ele negou veementemente. Eu notei que Elijah pareceu ausente por um minuto ou dois, onde olhava fixamente para o horizonte e inspirava e expirava lenta e profundamente. Poderia ele estar tão irritado a ponto de precisar de um momento para se acalmar?, pensei.
― Tinha mesmo que socar meu... – ele ia falando, mas por algum motivo se interrompeu. Talvez pensasse que eu era criança demais para ouvir o que ele pretendia dizer.
― Tinha mesmo que me segurar por trás? – rebati, tentando segurar um riso.
― Espero que esteja pronta para ir embora – ele respondeu, carrancudo.
― Deixei tudo no seu hotel, como combinamos.
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