Bound To You.
21 20. A little bit of vampire blood
Notas iniciais
O dia não demorou muito para amanhecer e graças a minha noite acordado tinha planos para manter Hope entretida. Eu sabia o quanto minha sobrinha cansava fácil de brincadeiras pouco estimulantes, então antes mesmo que ela acordasse me certifiquei de que a mesa do café de manhã estaria feita.
Levantei-me do sofá lá para as sete, Hope nunca passava das oito. Retirei minha gravata, deixando-a sobre o sofá, arregacei as mangas de minha camisa social e fui até a cozinha. Eu devo dizer que estava muito mais preparada do que a do complexo, talvez por ter mais humanos vivendo na casa do que vampiros.
Escolhi uma toalha de mesa qualquer e a estendi sobre a mesa, em seguida coloquei uma fruteira de cristal sobre a mesa. Deixei preparado lugar para quatro pessoas, demarcados por xícaras de café viradas de ponta cabeça em seus respectivos pires e, em seguida, fiz o café. Enquanto a bebida era coada, ouvi movimentos no andar superior. Sorri para mim mesmo enquanto lembrava-me do dia em que cozinhei para Davina, desejando que ela estivesse junto comigo agora, para partilharmos o café da manhã.
― Que cheiro bom – Camille me elogiou com a voz suave.
Eu virei-me para ela, sabendo que não tinha feito nada de especial além do café e continuei exibindo o mesmo sorriso de antes. Ela ainda estava de pijama.
― Obrigado – respondi minimamente, apontando um lugar na mesa para Cami.
Poucos minutos mais tarde, Alexis também levantou e, ao contrário de Camille ela parecia estar com um humor sombrio. Seus olhos estavam inchados e seu cabelo sem pentear, reprimi uma risada por vê-la tão ao natural e esperei que Hope acordasse, já que ela sempre o fazia sozinha.
Sentei-me na mesa logo após minha sobrinha aparecer e ela se sentou ao meu lado. Tomávamos café da manhã em um silêncio agradável, eu só podia querer que as cortinas estivessem abertas, mas não poderiam.
― Tio? – Hope chamou e eu soltei um ruído com a garganta, estimulando-a a continuar o que dizia. – Por que temos que ficar com as cortinas fechadas?
Notei que Alexis lançou um olhar nervoso para Camille, mas não perdi tempo tentando analisar aquilo a fundo, então me virei para Hope e mostrei a ela meu anel da luz, completamente afuncional.
― Está vendo esse anel? – Perguntei com a voz suave. – Eu o uso para que o sol não machuque minha pele, mas no momento ele não está funcionando.
― E por que não está funcionando? – Ela perguntou, visivelmente interessada.
Não respondi, não sabia exatamente o que falar e Hope conseguia pressentir um clima tenso tão rápido quanto qualquer adulto, então ela não insistiu na pergunta. Não era algo que nós tivéssemos ensinado, ela simplesmente era natural.
Levantei da mesa, fazendo menção de retirar as louças sujas, mas Alexis levantou ao mesmo tempo e me impediu.
― Pode deixar com a gente, Elijah – ela disse apressadamente. – Vá aproveitar o dia com sua sobrinha.
Aquilo era irônico e ela sequer notou, eu não poderia aproveitar a luz do sol com Hope enquanto a maldita maldição do sol e da lua não fosse quebrada. Sorri sombriamente ao lembrar-me de Katherine e da maldita selenita. Tantos problemas por tão pouco, refleti.
― Hope, vamos para sua lição de música – eu chamei, caminhando até o piano de cauda que ficava próximo ao sofá da sala de estar. Era apertado, mas tinha espaço suficiente para dois.
Após uma longa manhã com Hope, decidi que já era hora de deixar que ela brincasse. Lições escolares poderiam ser bem tediosas para uma criança que aprendia tão rápido.
Não demorou muito para que eu compreendesse Alexis totalmente. Não tinha muito o que se fazer naquela casa, ainda mais com o sol da tarde brilhando alto no céu. Ela bisbilhotava a rua por uma fresta da cortina, tomando o devido cuidado para que não entrasse muita luz na casa.
― Elijah, sei que você não pode ver agora, mas tem algo estranho acontecendo – ela me falou, com a voz preocupada.
Meu primeiro instinto foi chegar na janela e observar, mas eu me queimaria, então retesei-me.
― Descreva para mim.
― A rua aqui geralmente é deserta e tem um movimento estranho aqui na frente. Parece que as pessoas estão procurando por algo.
Aquilo era preocupante. Podiam ser bruxas que finalmente descobriram o paradeiro de Hope, então venci o medo de ser queimado pelo sol e me aproximei da janela. Afastei a cortina ainda mais, sentindo um raio solar incidir em meu rosto. Tentei não demonstrar o tamanho da dor que aquela queimadura causava, mas fui infeliz.
Observei rapidamente um movimento de pessoas que olhavam na direção da casa em que estávamos, mas pareciam não ver nada. Talvez aquele fosse o efeito do feitiço que Davina colocou na casa e logo as pessoas começaram a ir embora.
Afastei-me da janela apressadamente e Alexis virou para mim, preocupada e ligeiramente assustada pelas queimaduras. Virei meu rosto, afastando-me do olhar dela tempo o suficiente para me curar. Ela rapidamente disfarçou o espanto em seu rosto e continuou a me olhar de maneira firme.
― Preciso comprar umas coisas para a casa, mas antes, posso fazer uma pergunta?
― É claro – respondi lentamente.
― O gosto do sangue de vampiro tem o mesmo do sangue humano?
― Não é como se eu tivesse provado sangue de vampiro, sendo um humano – eu respondi tentando não soar sarcástico, o que foi quase inevitável.
Ela fez uma careta em minha direção e eu praticamente ri daquilo. Em pouco menos de dois dias eu sentia-me confortável com ela da mesma maneira que poderia ser com Rebekah, se minha irmã não fosse tão intrometida em alguns assuntos.
― Você é muito irônico pro meu gosto – ela criticou.
― E você está perguntando unicamente porque quer provar – eu acusei suavemente, dando de ombros e, quando Alexis fez menção de rebater o que eu havia dito, eu a cortei. – Não negue a verdade para si mesma.
Ela cruzou os braços de uma maneira infantil e fez beicinho. Era possível mesmo que estávamos discutindo como dois adolescentes? Eu devo admitir que aquilo não era tão ruim. Às vezes, livrar-me de toda aquela seriedade fazia bem. Alexis revirou os olhos e fez um aceno de cabeça com veemência.
Eu não fazia o tipo que compartilhava o sangue pelo simples fato de um humano desejar provar, mas talvez ela merecesse saciar aquela sede e matar a curiosidade afinal. Certifiquei-me que Camille não ouviria o pequeno show que eu estava planejando e então segurei Alexis firmemente pelos ombros e a arrastei para a sala secundária da casa, que estava vazia, prensando seu corpo contra a parede e deixando que ela visse exatamente como eu era quando deixava tudo transparecer.
É claro que os olhos azuis dela se arregalaram para mim e por um segundo olhou firmemente para meus lábios. Aproveitei o fato de minha manga ainda estar arregaçada e mordi meu punho, oferecendo-o para ela em seguida.
― Faça as honras – falei, praticamente encostando meu punho sangrento nos lábios de Alexis.
Ela hesitou, como todo humano faria. Olhou para a ferida causada por meus dentes e depois para mim. Para meus olhos, analisando-me e depois... Estranhamente falando, Alexis fixou-se em meus lábios, sujos pelo meu próprio sangue. Inevitavelmente eu retribui o olhar pouco discreto, fingindo no minuto seguinte que aquele clima não tinha acontecido. Ela sugou o sangue de minha ferida.
Fechou os olhos por um tempo enquanto experimentava a sensação de ter sangue de vampiro correndo pelo próprio corpo. Só depois de pensar duas vezes eu notei que podia ter feito besteira. Eu pude sentir pela conexão que se formava entre o vampiro e o humano que se alimentava, o motivo dela sentir-se tão desconfortável comigo. Ao passo que tudo aquilo era um passa tempo para mim, para ela era uma tentação.
― O sabor é diferente... Mas ainda assim não é muito agradável – ela falou, limpando os lábios a tempo de Camille não ver ou suspeitar do que fazíamos. – Tá na minha hora, nos vemos mais tarde.
Eu sabia por experiência própria que Alexis não retornaria até depois do almoço, já que aqueles eram os únicos momentos que a humana tinha para se distrair do dever que ela tinha se oferecido a cumprir. Acenei com a cabeça minimamente e subi para o meu próprio quarto ao ver que Camille era a responsável por manter Hope entretida.
Deitei minha cabeça no travesseiro e aquilo serviu unicamente para aguça-la. Desta vez, imagens de minha noite com Davina surgiam. O banho que tomamos juntos, o sabor da pele dela, a textura, o cheiro.... Fechei os olhos como que para visualizar melhor, recordar-me de forma mais clara. E acabei acordando muito mais tarde.
Já passava das 18 horas quando desci para o primeiro andar. Hope cochilava tranquilamente no sofá e Cami olhava através da janela o começo da noite com uma expressão consternada.
― Alexis está demorando muito hoje, não acha? – puxei assunto minimamente, evitando o silêncio constrangedor que as vezes se instalava entre mim e a bartender loira.
― Talvez tenha acontecido algum imprevisto com o trânsito ou com o cartão de crédito – ela ponderou, mas sua voz traduzia a total falta de confiança em sua própria teoria.
Pensei subitamente nos movimentos estranhos pela casa hoje de manhã e então meu cérebro acendeu a luz vermelha de alerta de perigo. Inocentes nunca de davam bem após conviver com nossa família, provavelmente não seria diferente com Alexis e se algo acontecesse a ela, Davina jamais me perdoaria.
― Elijah...? – Camille chamou-me num sussurro, como se não quisesse acordar Hope.
Virei meu pescoço em sua direção a tempo de captar sua expressão horrorizada. Ela olhava fixamente para um ponto do lado de fora da casa e seus olhos claros pareceram ficar escuros por um momento.
― Alexis... – ela apontou na direção na qual olhava e derramou uma lágrima.
Aquilo foi suficiente para fazer com que eu irrompesse através da porta, movendo-me com o tipo de super velocidade característica de um vampiro. Assim que a vi o choque foi tão grande que me detive. Alexis caminhava curvada em direção a casa, seu braço estava posto sobre seu abdome e parecia segurar algo muito importante ali. Senti o cheiro de sangue antes de ser capaz de analisar qualquer outra coisa, era inebriante e pesado.
Tornei a correr na direção da garota, rápido o suficiente para apoiar seu corpo assim que suas pernas não foram mais capazes de mantê-la em pé. As roupas dela estavam ensopadas pelo próprio sangue e havia respingos no chão, formando o caminho pelo qual ela havia vindo desde o carro, que estava estacionado em frente a casa. A barriga de Alexis tinha sido perfurada várias vezes e dali brotava sangue o suficiente para fazer um vampiro jovem perder o controle.
― Quem fez isto com você? – Perguntei instintivamente, observando que os lábios de Alexis já não estavam tão corados quando antes.
Ela fez menção de dizer algo, mas nada saiu por sua boca. Estava tão fraca que o ritmo cardíaco já estava praticamente inaudível. Senti a mão de Camille em meu ombro, apertando com toda a força que ela aparentemente tinha.
― Faça alguma coisa! – ela ordenou para mim e eu rapidamente levei meu punho a boca, achando que seria capaz de salvar a vida de Alexis.
Mas não fui. Seu coração deixou de bater no exato segundo em que deixei meu sangue fluir para dentro de sua boca. Ela morrera em meus braços, com o meu sangue correndo por suas veias, fruto da brincadeira matinal.
― Não, não, não... – Cami repetiu várias vezes, eu nunca cheguei a ver seu rosto, mas sabia que ela chorava.
― Vá para dentro, reúna suas coisas indispensáveis. Nós fomos descobertos – alertei.
― Mas Elijah... Não podemos... Klaus vai...
― Pare de pensar no que meu irmão faria e preocupe-se com o que eu estou dizendo. Não posso proteger você e Hope enquanto espero Alexis voltar. Faça o que eu disse – minha voz era tão autoritária que nem mesmo eu não me obedeceria.
Cami correu para dentro da casa o mais rápido que pode enquanto eu levantava com Alexis no colo e ia em direção ao carro. Sabia que a bertender não tinha entendido sequer uma palavra do que eu havia dito sobre Alexis retornar, mas aquilo era algo para ser explicado em outra ocasião.
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