Notas iniciais
Olá pessoal, como vocês estão? Muitos estão me pedindo mais momentos Dalijah, mas paciência. Eles vão se reencontrar em breve, ok?

Fui convencido por meus irmãos a finalmente trocar de lugar com Rebekah. Então dirigi, a contragosto, até a cidade onde minha sobrinha estava escondida. Com Dhalia sem um corpo físico, não precisei me preocupar em ser rastreado. Os boatos que corriam por Nova Orleans era que as bruxas que aliaram-se a Dhalia tinham finalmente virado a casaca e retornado para o lado do Coven que Davina estava prestes a liderar.

Durante o caminho eu notei que pensava com frequência naquela bruxa, no modo como seus dedos delicados ficaram elegante e confortavelmente entrelaçados nos meus, nos lábios, no sabor deles. Por muito tempo eu existi desencantado com o amor, mas desde o meu retorno a Nova Orleans, ficava cada vez mais difícil não sentir, Davina era a segunda mulher pela qual meu coração fazia-me agir de maneira irracional.

Eu estaria mentindo se dissesse que quando a vi, em Harvard, não notei o quão bela estava, mas minha mente ainda estava presa a imagem adolescente de Davina e meu coração ainda ligado a Hayley. Agora aquela imagem sumira, bem como qualquer sentimento além do amor familiar pela híbrida, mãe de minha sobrinha, e a responsável por isto era a bruxa que tentou me matar há tempos. Sorri, completamente sozinho no carro, ao constatar aquilo. O tempo era algo cruel, de certa forma. Ela envelheceu e eu continuei exatamente igual. Em cinco anos o rancor que ela nutria por mim transformou-se em um beijo cálido.

Pude ver a casa a poucos metros de distância e então minha mente voltou para o presente. Onde a mesma bruxa me pediu paciência e garantiu-me que estava bem e é claro que eu não acreditava totalmente. Não por duvidar de suas habilidades mágicas, mas por não confiar em suas companhias, que eu sequer sabia quem eram. Estacionei meu carro, estranhando o silêncio da casa e caminhei tranquilamente pela varanda no estilo vitoriano, tentei abrir a porta, mas senti minha mão queimar, então com um resmungo baixo retirei rapidamente a mão, ao passo que Alexis, a melhor amiga de Davina, atendia a porta.

― Verbena? Muito inteligente – elogiei, presumindo que se a maçaneta estava embebida de verbena, a passagem para vampiros também deveria estar barrada.

― Pode entrar – Alexis convidou, sorrindo para mim. Era estranho o modo que ela me olhava, como se estivesse disposta a soltar qualquer piadinha carregada de duplo sentido. – Rebekah diz que há verbena e acônito, assim estamos livres de vampiros e lobisomens. As bruxas não podem encontrar a casa, algum tipo de feitiço de invisibilidade e confusão.

Ela falava demais. Explicara toda a magia para mim sem eu ter ao menos perguntado. Às vezes eu me perguntava como Davina e ela tornaram-se melhores amigas. Sorri novamente, com gentileza. Às vezes aquilo fazia com que Alexis parasse de falar.

― Tio Elijah! – Hope cantarolou e correu em minha direção, abraçando-me fortemente na altura de meu quadril. Ela tinha crescido consideravelmente enquanto estivera fora.

Eu a segurei pelas axilas e a joguei um pouco para o alto. Também estava mais pesada, proporcionalmente aos centímetros que havia ganhado. Ela riu com um gritinho histérico, estava acostumada com aquele tipo de recepção, já que todos de sua família tinham força sobrenatural.

― Olá, lobinha – respondi, inevitavelmente rindo também e colocando-a no chão. Aquele era um apelido no mínimo apropriado, que fora colocado por Klaus e que a garota parecia apreciar. – Está gostando de sua nova casa?

Alexis me olhava de uma maneira surpresa e encantada, eu captei seu olhar minutos antes de ela desvia-lo de mim e caminhar em direção a cozinha, deixando-me sozinho com minha sobrinha na sala de estar.

― Aqui é legal – ela respondeu minimamente.

― Onde está sua tia? – perguntei, incapaz de captar os batimentos cardíacos de Rebekah ou senti-la na casa.

Hope deu de ombros, ela costumava fazer aquele gesto quando não considerava uma pergunta importante o suficiente para ser respondida, exatamente a mesma coisa que eu faria. Beijei-a na testa e a deixei na sala com uns livros de colorir. Segui para a cozinha, onde ouvia Camille e Alexis conversando em sussurros. Recostei-me no batente da porta, deixando transparecer uma expressão sarcástica.

― Vocês sabem que posso ouvi-las, certo? – perguntei, sorrindo de maneira presunçosa.

― Você sabe que ninguém realmente se importa, certo? – Alexis devolveu de maneira sarcástica e confrontou-me com os olhos.

Hope acabou por perder o interesse em seu material de pintura, seguiu-me até a cozinha e com uma voz manhosa pediu-me para pegá-la no colo. É claro que como todo adulto que é manipulado facilmente pela expressão apiedada de uma criança, eu a elevei do chão e a segurei no colo. Ela deitou a cabeça em meu ombro. Alexis riu.

― Ela não faz isso com Rebekah – comentou e Cami acenou em concordância com a cabeça.

Dei de ombros. Sabia que não. Hope comportava-se daquela maneira comigo e com o pai. Com as mulheres da família já parecia com uma adolescente, ou pelo menos uma criança mais velha.

― Isso me traz memórias – Cami disse, olhando fixamente para mim.

― É como um dejavu, não? – Respondi, sorrindo na direção da mulher

― Do que vocês estão falando? – Alexis perguntou tranquilamente, mas com bastante interesse na voz.

― Eu, Camille e Hope já estivemos juntos em outra casa, quando ela era apenas um bebê – esclareci.

― Casa que você casualmente explodiu – Camille adicionou com um sorriso irônico nos lábios.

Não respondi, em vez disso virei um pouco minha cabeça na direção de Hope, que estivera tão quieta que senti-me incomodado.

― Hope? Sua tia continua dando aulas a você? – Perguntei, num tom um pouco mais sério.

Nos tempos que Nova Orleans era mais segura, Hope teve a chance de frequentar uma escola comum e relacionar-se com humanos, mas agora era arriscado demais. Portanto concordamos em continuar seus estudos em casa, enquanto as coisas estavam instáveis.

― Sim, tio – ela me respondeu, sua voz era como uma melodia. – Gosto de aprender música.

― É claro que gosta – incentivei tranquilamente. – Hora de ir para o chão, sim? Deixe os adultos conversar – orientei, colocando-a no chão. Notei em seu rosto infantil uma expressão de desagrado e ela deixou a cozinha a contragosto, porém sem questionar o que eu havia dito.

Assim que os ouvidos jovens demais de minha sobrinha estavam longe da cozinha, eu me senti mais à vontade com as mulheres. Abri a geladeira lentamente, procurando por uma bolsa de sangue que eu sentia necessidade de consumir. Rompi o lacre de segurança e despejei uma quantidade considerável em um copo de whisky. Era inevitável captar os olhares incomodados de Camille e Alexis.

― Então, minha irmã disse a vocês o motivo de eu estar aqui, trocando de lugar com ela, quando sou obviamente mais útil em Nova Orleans? – perguntei, deixando que minha entonação demonstrasse o quão infeliz com aquilo eu estava.

É claro que por um lado estava feliz por estar com Hope e poder ajuda-la nas lições escolares e acompanha-la em brincadeiras, mas não era como se eu não soubesse que Klaus e Rebekah estavam conspirando por minhas costas. Eu era considerado instável em NO e aqui, perto de Hope, meus pensamentos não poderiam focar-se em Davina, já que estava próximo da parte mais importante de minha família.

Elas se entreolharam, como se estivessem lendo os pensamentos uma da outra. Não pude evitar rir de uma maneira sem humor.

― Você é útil aqui também, Elijah. Se algo acontecer, pode explodir a casa de novo – Cami falou, estava hesitante apesar de haver uma zombaria em sua voz.

― Que história é essa de explosão? – Alexis quis saber.

― Uma bem longa – disse, de mau humor. Deixei o copo sobre o balcão da cozinha depois de beber tudo o que eu havia colocado e guardei novamente a bolsa de sangue na geladeira. O gosto do anticoagulante não era muito agradável, o que explicava o motivo de muitos vampiros preferirem beber direto da fonte.

― Você é sempre amargo assim? – Alexis perguntou, trocando o apoio das pernas.

Eu não pude evitar estreitar os olhos na direção dela. Uma simples humana tinha tamanha audácia para me desafiar daquela maneira. Lambi meus lábios lentamente, enquanto preparava uma resposta e notei que Cami nos deixava a sós. Antes de responder, ouvi a mulher levando minha sobrinha para o andar de cima, já era tarde.

― Costumo ter o humor menos propenso a sorrisos quando a mulher que eu... – hesitei de uma forma patética. Alexis elevou as sobrancelhas para mim e cruzou os braços, com seus lábios formando um maldito sorrisinho irônico. Quem eu estava tentando enganar se não a mim mesmo?

Virei as costas para Alexis e subi para o segundo andar antes que ela fosse capaz de piscar. Notei que minha presença repentina assustou Camille, que estava ajoelhada ao lado da cama de Hope, com um livro de histórias.

― Eu assumo daqui – falei tranquilamente.

Ela se levantou e cruzou comigo e notei sem olhar em sua direção que ela não tinha saído do quarto.

― Elijah? – Ela chamou e eu fechei os olhos lentamente, pressentindo um conselho. – Se gosta dela, porque importa-se tanto em esconder?

Camille nunca me deu a chance de responder aquela pergunta. Ela fechou a porta atrás de si e então notei que aquela era a intenção, deixar-me com aquele pensamento tomando conta de minha mente.

― Conta uma história para mim, tio? Aquela sobre nossa família – Hope pediu e eu assenti, enquanto caminhávamos para o andar superior.

Ela trocou de roupa sozinha, escolhendo partes diferentes de calça e camiseta do pijama. Não pude evitar sorrir para aquilo, ela tornava-se mais independente a cada dia. E só então notei o quanto sentia falta de sua presença inocente. Cobri Hope com o edredom pesado, a noite sempre fazia frio.

Retirei meu paletó e o deixei sobre a cômoda, ajoelhando-me ao lado dela. A história que ela queria ouvir era aquela sobre como nos tornamos vampiros, era sombria, mas todas as vezes em que eu contava, eu aveludava os cantos muito afiados e era incrível como cada um de meus irmãos tinha uma versão diferente.

― Então a história de sempre? – perguntei, divertido, mas em um tom baixo. Ela assentiu veementemente com a cabeça e então comecei. – Quando éramos jovens, Klaus, Rebekah e eu éramos como Camille e Alexis – todas as vezes eu exemplificava com um humano diferente. – Até que um dia, uma benção nos fez mudar para algo melhor. Ficamos mais fortes, mais rápidos e até podíamos ouvir melhor, mas havia uma consequência, não poderíamos andar durante o dia, pois o sol machuca nossas peles e nossa aparência mudou, também – eu nunca citava a sede e que nos alimentávamos de sangue, apesar de achar que Klaus contava essa parte e Rebekah sempre dizia como jamais envelheceríamos. Nenhum de nós citávamos nossos pais. – Os anos passaram e nós criamos mais como nós, dividimos nossa benção com outras pessoas normais. Nós também não morremos, então estamos vivos há mil anos.

Hope bocejou. Por mais que gostasse da história, estava cansada e já começava a piscar de uma maneira mais longa, demorando mais para abrir seus olhos depois de cada vez que piscava.

― Mil anos é muito tempo, tio – ela comentou entre um bocejo e outro. – Como é viver mil anos?

― É... – hesitei em responder. Ela nunca tinha feito essa pergunta, eu não sabia que Hope compreendia o tempo. – Interessante.

Ela sorriu para mim e coçou seus olhos infantilmente. Eu sabia o que viria depois.

― Mostra os olhos, tio – ela pediu.

Eu não compreendia a fascinação de Hope por nossos olhos. A forma que eles ficavam todas as vezes que ficávamos próximos a sangue, com muita fome, muito irritados ou todas as vezes que queríamos causar uma impressão. Ela já tinha notado a diferença dos olhos de Klaus para os meus e os de Rebekah, mas parecia gostar dos dois. Ela gostava dos olhos de Jackson também, lembrei-me. Provavelmente minha demora em conceder seu pedido a deixou impaciente, pois senti sua mãozinha em meu braço, sacudindo-o.

Fiz um gesto negativo com a cabeça e deixei que minha esclera avermelhasse, minha pupila dilatasse e as veias negras saltarem na pele abaixo de meus olhos. Senti os dedinhos de Hope exatamente nas veias, ela experimentava a textura delas. Era de certa forma incrível o modo como ela lidava com todo o sobrenatural de sua vida, o potencial de uma criança de aceitar as coisas me deixava estupefato.

― Agora chega, vá dormir – eu pedi polidamente, sentindo meu rosto voltar ao normal. Arrumei o edredom sobre os ombros de minha sobrinha, depositei um beijo em sua testa e continuei. – Amo você.

― Também amo você tio – ela disse e bocejou em seguida.

Eu fiquei em pé, ajeitei minha calça, peguei meu paletó e saí do quarto, apagando a luz e fechando a porta atrás de mim. Encostei na parede por um minuto, respirando fundo. Hope era incrível. Era impossível não pensar em ter um filho depois de conviver com ela, mesmo que por poucas horas. Senti meu coração pesar no peito, não por mim, já tinha aceitado meu destino sem filhos há muito, mas por Rebekah. Que a esta altura, já estava de volta a Nova Orleans.

― Ela é demais, não é? – Quando retornei à sala, disposto a beber mais da bolsa de sangue aberta na geladeira, Alexis estava sentada no sofá, vendo tv com os dois pés sobre o sofá. Ela suspirou e quando voltou a falar, referiu-se a Davina – Como ela está?

― Bem, — respondi com cautela, já que não poderia ter tanta certeza daquilo. – Pelo menos ela me garantiu estar.

― Agora entendo porque ela não gostava de falar da cidade natal – ela comentou, enquanto eu fui até a cozinha pegar o sangue que desejava. Alexis não aumentou o tom de voz, ela sabia que eu escutaria. Estava se acostumando a conviver com vampiros. – Entendo porque ela não queria visitas.

― Eu também – respondi, sentando ao seu lado no sofá e entregando-lhe uma cerveja já aberta. Ela olhou-me com surpresa.

― Obrigada, eu acho – ela agradeceu com a voz carregada de incerteza. Eu não sabia se era por eu ter feito a gentileza de lhe trazer cerveja ou por estar sentado ao seu lado. – O gosto disso daí é igual a ferro não é?

Ela se referia ao sangue. Havia um vinco entre suas sobrancelhas e sua expressão era de total asco.

― Tem um sabor diferente para vampiros. Não sentimos o gosto de ferro que tem para os humanos. O que eu acho bom, afinal ninguém quer humanos sugadores de sangue – notei que ela bebeu um longo gole da cerveja. – Está cansada de ficar de babá para minha sobrinha, não é? – ela hesitou para responder. – Pode ser sincera comigo, Alexis. Não vou quebrar seu pescoço se disser que cansou de brincar de esconde-esconde o dia todo.

Ela relaxou os ombros um pouco. Ouvi Camille ressonar em seu quarto. Éramos só nós dois, afinal.

― Eu me formei em engenharia biológica, não imaginei que passaria esse tempo todo confinada em uma casa, de babá para uma criança sobrenatural e com vampiros bebendo sangue o tempo inteiro – a sinceridade em sua voz era completa. – Quero dizer, há meses eu nem sabia que tudo isso é real.

― Está livre para ir embora, quando quiser – minha voz estava calma. Eu a compreendia. – Não terá problemas com Klaus

― Irei ficar por Davina – ela esclareceu. Bebericando a cerveja novamente e olhando de relance para o sangue em meu copo.

Notei que havia algum tipo de vontade ali, mas talvez por estar tão próxima a mim, ela estivesse receosa, afinal nunca tínhamos conversado civilizadamente.

― Eu deveria oferecer a você? – Perguntei, mostrando o copo. Estava realmente na dúvida sobre aquilo.

E para minha surpresa, Alexis tirou o copo de minha mão e experimentou. Fazendo uma careta e bebendo vários goles de cerveja por cima. Ri suavemente daquilo e afrouxei o nó de minha gravata, em seguida desabotoei o primeiro botão de minha camisa. Ela me devolveu o copo.

― Ainda sinto o gosto de ferro – ela esclareceu.

― Ainda é humana – Notei que minha voz soou um pouco superior.

― Você e Cami já tiveram um lance? – Ela me perguntou, provavelmente sentindo-se mais à vontade agora que já tinha provado da mesma bebida que eu.

Peguei-me pensando que Alexis seria uma ótima vampira do círculo de confiança. Mas logo abandonei aquele pensamento. Ri novamente com a pergunta dela, agora com mais divertimento em minha risada.

― Não. Está enganada sobre meu par romântico anterior, Alexis. Tomando a liberdade de fazer uma pequena fofoca, Cami tem interesse recíproco por outro Mikaelson – informei tranquilamente.

Novamente ela me olhou de uma forma surpresa. Não esperava que eu fosse me soltar tão facilmente.

― Ok, então – ela me disse, um pouco envergonhada. Suas bochechas coraram em resposta.

Senti uma pontada de curiosidade, eu nunca a tinha visto corar daquela maneira, era divertido saber que eu a intimidava de certa forma e até então, quando estava próxima de Davina, ela disfarçava com ironias.

― Eu intimido você – afirmei, ouvindo o barulho da tv, sem realmente prestar atenção no que diziam.

Ela elevou uma sobrancelha na minha direção de uma maneira atrevida e sorriu. Já não estava mais tão vermelha quanto antes, sua cor voltara ao normal rapidamente. Ela terminou de tomar sua cerveja e depositou a garrafa sobre a mesa de centro.

― Se você soubesse o que pensei sobre você quando o vi, também se sentiria um pouco intimidado com toda essa proximidade estranha – ela falou tranquilamente, como sempre sendo muito sincera. – E não é como se uma simples mortal não tivesse um pouco de medo de um dos primeiros vampiros que pisou nessa terra.

Preferi não perguntar para ela o que ela havia pensado. Fiz um gesto negativo com a cabeça e desviei meus olhos dos dela. De fato, ela seria uma ótima vampira. Ganharia o anel da luz no primeiro dia, se dependesse de minha confiança.

― Já que estamos aqui sem nada para fazer – ela falou, com a voz um pouco mais alta, coisa que ela corrigiu rapidamente e me distraiu de meus devaneios sobre a condição mortal e seu corpo. – Por que não aproveita para dizer quem é o seu par romântico atual?

Elevei minha sobrancelha na direção dela. Analisando seu rosto por um segundo. Estava carregado de uma expressão sábia. Ela estava me testando. E aparentemente aquela era uma mulher que não perdia tempo no que queria. Ela pegara a deixa de pouco tempo atrás e agora que eu estava com o canal de comunicação aberto, ela desejava ouvir o que eu estava prestes a dizer.

– Estou profundamente interessado em sua amiga, se assim posso dizer – falei sinceramente. – Mas Davina é inocente e inocentes não se dão bem com minha família ou comigo.

― Você sabe como soar melancólico, não é? Sabe que não é só você que decide? – ela dizia num tom de quem aconselha, o que eu apreciei pela primeira vez desde quando nos conhecemos.

Ela era praticamente a única humana – e particularmente a única desde a porta vermelha, que me tratava como igual, apesar de sermos tão diferentes. Assenti com a cabeça lentamente.

― Se soubesse o que aconteceu com as mulheres que me relacionei...

― Que não devem ter sido poucas – ela me cortou, com uma tirada. – Posso palpitar sobre esse seu interesse por Davina?

Sorri ironicamente, pensando no que Rebekah diria daquela afirmação, eu quase podia ouvir a voz de minha irmã mais nova em minha cabeça, zombando. Estreitei meus olhos para a pergunta e franzi um pouco os lábios, curioso para ouvir o palpite e receoso ao mesmo tempo, finalmente assenti novamente com a cabeça.

― Ela é uma mulher forte, não vai ficar escondida atrás desses seus dentes afiados, não vai abaixar a cabeça. Para ninguém. Então não tente protege-la de algo que sequer aconteceu, ela não vai gostar. Não faz o tipo que precisa ser protegida.

Aquele foi o ponto alto de nossa conversa, não esperava que ela falaria daquela maneira direta comigo, até porque minutos atrás ela tinha dito que eu a intimidava. Elevei ambas minhas sobrancelhas e concordei.

― Sei disso. – informei.

― Ah, e aproveitando que estou dando palpites abertamente – entortei minha cabeça para o lado, ao passo que Alexis se levantava do sofá e pousava sua mão em meu ombro. – Não seja tão lerdo.

Ela caminhou em direção as escadas. Ouvi seu coração acelerar, talvez por ter achado o próprio conselho engraçado e seus passos em direção ao quarto que dividia com Cami. Eu não sentia sono, então resolvi continuar ali, sentado no sofá. Peguei meu celular e mandei uma mensagem breve para Rebekah, certificando-me que ela tinha realmente ido embora sem se despedir e logo ela me respondeu com uma afirmativa, o que me deixou mais tranquilo e livre para pensar em como eu poderia ser “menos lerdo”, de acordo com Alexis, quando Davina retornasse para mim.