Bound To You.
2 1. Graduation
Notas iniciais

Tomei meu lugar em meio a tantos outros formandos, meu colegas de faculdade e futuros de profissão. Não podia acreditar que tinha finalmente terminado o curso de Engenharia Biológica.
Dando uma rápida olhada no passado, eu ficava orgulhosa de mim mesma. Marcada para morrer em um ritual pagão sinistro e depois manipulada por vampiros, quase morta por um deles, o qual eu mesma trouxe de volta a vida. Eu era uma adolescente estúpida e um pouco obsessiva naquela época, tinha de admitir. Talvez fora o excesso de poder que fizera isso comigo.
— Está pronta para fazer o discurso? – perguntou minha colega de quarto, em um sussurro ao pé do meu ouvido, fazendo-me despertar de meu pequeno devaneio.
Sorri nervosamente para ela, eu dominava a técnica e sabia exatamente o que eu diria ali na frente, no púlpito. Mas talvez meu emocional abalado pela ansiedade me atrapalhasse um pouco.
— Mais ou menos – respondi, esfregando minhas mãos que começavam a suar espontaneamente, enquanto o diretor e reitor faziam seus discursos clássicos de formatura. Era como se suas vozes fossem como o despertador tocando quando você está em sono profundo. Você escuta, mas não consegue reagir propriamente. – Estou nervosa.
— Vai dar tudo certo – ela me encorajou, entrelaçando seus dedos aos meus.
Esperei até que o professor escolhido como representante da turma terminasse de falar sobre o quanto ele sentia-se orgulhoso por nós. Ele era um homem engraçado, um pouco abaixo da estatura considerada normal para o sexo masculino, seu cabelo estava sempre bem penteado para trás, no estilo anos 50 e mantidos fixos com muito gel, tinha todas as características orientais gritantes em seu rosto e era extremamente inteligente, como se todos os assuntos fossem banais para ele. Eu me sentia completamente burra em suas aulas.
— E agora, sem mais delongas, eu convido a senhorita Claire para tomar meu lugar e fazer o discurso de aluna – ele falou, com sua voz um pouco esganiçada no microfone e eu me levantei, um pouco entorpecida.
Caminhei com dificuldade entre os alunos, até chegar no corredor, onde me senti um pouco tonta. Talvez pelo nervosismo, talvez por ter levantado rápido demais. Não me lembro exatamente como subi no palco e me posicionei no púlpito. Toquei o microfone com a ponta dos dedos, causando um pequeno contato e um silvo das caixas de som. Sorri o mais confiante que pude e comecei a falar:
— Hoje é o primeiro dia de nossas vidas. Adultos e independentes pela primeira vez. Consigo me lembrar de todos os momentos que passamos aqui, desde o primeiro ano até hoje. Uns foram mais difíceis do que outros, é claro – fiz uma pequena pausa para limpar minha garganta, que parecia ter um nó ou algo do tipo, impedindo que minha voz saísse propriamente. Olhei de relance para o professor que havia me ajudado a realizar o sonho de estudar células tronco e que graças a sua influência conseguimos uma pequena nota no jornal local. Ele sorriu para mim e fez um gesto de incentivo com a cabeça, então prossegui: — Gostaria de agradecer a todos pelos ótimos anos que me proporcionaram. Meus amigos pela companhia constante, festas incríveis e é claro, por sua amizade. Aos professores, por me fazerem crescer pessoal e profissionalmente. Obrigada!
Ouvi aplausos calorosos em seguida, meus colegas começavam a ficar em pé conforme eu saía do palco e retornava ao meu lugar, também aplaudindo. Era uma vibração contagiante, impossível de não aplaudir a si mesmo por ter completado uma etapa tão importante de uma vida.
— Você foi ótima lá em cima – comentou Pedro, um aluno brasileiro e meu amigo mais próximo. — Parabéns!
— Obrigada! – agradeci, abraçando-o com um único braço. Ele era incrivelmente mais alto do que eu, mas não me importei em ficar na ponta dos pés para alcançar seu pescoço.
O reitor terminou a cerimônia chamando um a um até o palco e entregando nossos diplomas, em seguida a cena mais do que clássica onde jogamos nossos chapéus para cima e seguimos para o coquetel de recepção a família. É claro, eu segui sozinha.
Ouvi muito de meus colegas me parabenizarem pelo discurso e pela própria formatura, eu fazia o mesmo e agradecia. Conheci os familiares de Pedro, que vieram unicamente para ver o único filho formar-se. Eles estavam visivelmente emocionados apesar de compreenderem muito pouco do nosso idioma. Ele tinha me ensinado a dizer algumas palavras em português e eu fiz questão de usá-las com os pais do rapaz.
— Ela é tão linda, filho! – disse a mãe dele e eu pude compreender apenas parte, mas soube que ela elogiava minha aparência. – É sua namorada?
Não pude evitar uma risada divertida. Ele também riu. Os limites da amizade eram bem definidos entre nós e nunca tinha acontecido algo que fizesse alguém duvidar disso. Ouvi Pedro responder envergonhadamente para a mãe que éramos apenas amigos e ela pareceu desapontada. Pedi licença e caminhei até a mesa onde eles serviam comidas variadas, servi-me de uma torrada com patê e desloquei o peso do corpo para a perna esquerda, observando orgulhosamente a decoração e as pessoas.
Notei que o professor que fora orador de nossa turma conversava animadamente com um homem, que estava de costas para mim, mas ao julgar seu ânimo, a conversa deveria ser sobre física quântica. Ele gesticulava sem parar e parecia desenhar formulas no ar. Minha atenção foi automaticamente atraída para o segundo homem, que vestia um elegante terno preto e tinha os cabelos castanhos, aquilo era tudo o que minha visão me permitia ver, de modo que minha curiosidade foi ativada.
Confesso, tive interesse pela aparência do homem que conversava com meu professor. Queria saber se parecia tão inteligente ao ponto de levar o pequeno homem ao êxtase total em uma simples conversa. Usando a desculpa de pegar uma bebida, contornei o salão, de modo que agora o professor ficava de costas para mim.
Não acreditei no que vi. Estava surpresa e ligeiramente apavorada para me mexer ou realmente pegar uma bebida. Amaldiçoei-me por ter pensado em Nova Orleans naquela manhã, talvez fosse essa a razão de ele estar em minha formatura. Era inacreditável.
— Moça? – ouvi o bartender me chamar e pela impaciência em sua voz aquela não era a primeira vez que tentava atrair minha atenção. Virei-me finalmente na direção dele, com a esperança de que quando eu voltasse a olhar para o professor Tanako, aquele homem não estivesse mais ali. Eu deveria estar pálida, pois o homem mudou sua expressão quando me viu. Ficou próxima a preocupação. – Está tudo bem? Quer uma água?
— Estou bem – garanti. – Eu aceito um Martini.
— Hei, Davina! – minha colega de quarto, Alexis, posicionou-se ao meu lado, mas logo sua expressão feliz deu lugar a uma de preocupação. – Você está pálida! Está se sentindo bem?
— Eu estou bem, Al. Obrigada – respondi rapidamente, pois suspeitei que ela colocaria o dorso de sua mão em minha testa, para checar minha temperatura.
Ela deu de ombros, pegando uma bebida para si e divagando sobre finalmente estar formada e ter se livrado de um professor particularmente chato que fazia de tudo para reprova-la. Ela dizia que era ódio sem motivos, eu retrucava dizendo que era porque ela sempre dormia nas aulas dele.
— Pô, quem precisa dessa matéria ridícula? Não é como se não soubéssemos física avançada – ela reclamou, com uma risada tranquila.
Seus olhos correram pelo salão e pararam exatamente na direção que eu temia olhar novamente. Ela sorriu com certa malícia e me cutucou com o cotovelo, indicando a direção que queria que eu olhasse com a cabeça. Seria engraçado se não fosse tão sombrio.
— Quem é aquele gostoso que o Tanako tá discutindo as origens da vida, hein? – ela sempre me fazia rir, independentemente da situação na qual nos encontrávamos. Olhei na direção que ela indicava e para minha infelicidade, meu olhar se cruzou com o do homem que conversava com meu ex-professor.
Ele pareceu finalmente me notar, para meu total desespero. Pediu licença ao homem com quem conversava e iniciou uma rápida caminhada em minha direção.
— Oh meu Deus, ele está vindo para cá – Alexis exclamou o óbvio. – Como eu estou?
Eu não respondi. Também não deu tempo para isso. Ele tinha chegado rápido demais e eu não estava preparada para encontrar-me novamente com a metade sobrenatural de minha vida no dia de minha formatura.
— Davina – ele cumprimentou formalmente. – Parabéns pela formatura.
Alexis olhou para mim de uma forma quase acusatória. Eu conseguia ouvir o que ela me diria assim que ficássemos a sós. “Você o conhecia e não apresentou para mim?”
— Elijah – devolvi o cumprimento e não agradeci pela parabenização.
— Podemos conversar em particular? – ele pediu educadamente e eu me senti inclinada a recusar, usando Alexis como desculpa, mas minha querida amiga e colega de quarto me traiu quando dizendo que precisava dar atenção aos pais e caminhou para longe de nós de uma forma que demonstrava sua indignação.
Elijah acompanhou o andar de minha amiga e pude notar que ele tentava conter um sorriso, talvez tivesse escutado a opinião de Alexis sobre sua aparência e aquilo provavelmente tinha massageado seu ego que eu, particularmente, já achava inflado demais.
— O que você quer? – perguntei de má vontade, enquanto mostrava para ele o caminho para os jardins, onde sabia que estaríamos sozinhos.
— Preciso de um favor – ele falou cautelosamente, como se eu fosse gelo fino em um lago que ele precisa muito atravessar para o outro lado.
Curiosamente, ele parecia surpreso com algo. Seus olhos castanhos demonstravam uma remota emoção que não consegui identificar exatamente o que era, mas pensei que meu vestido estava sujo. Ele simplesmente não desviava o olhar e aquilo começava a me deixar sem graça. Arrumei minha trança e só por precaução chequei meu vestido, que estava impecável.
— E o que faz você pensar que eu ajudaria? – respondi o mais grosseiramente que pude. Não usava minha mágica há bastante tempo e, para um original vir até mim só podia ser aquilo que ele queria.
— A vida de Hope corre perigo novamente Davina, nós precisamos de uma líder de confiança para assumir a facção das bruxas.
Ele estava sendo sincero, conseguia sentir isso em seu tom de voz suave, mas para mim aquelas palavras soaram como piada. Tentei segurar a risada, mas fui incapaz. Primeiro por ele insinuar que eu seria a líder das bruxas loucas de meu antigo coven, segundo por ele sugerir que confiava em mim. Ele sequer me conhecia.
— Não! – respondi, assim que consegui parar de rir. Minha reação o irritou, pude notar isso quando ele contraiu sua mandíbula. – Eu deixei Nova Orleans por um motivo, Elijah. Eu quero ser normal e tomando a liberdade de lhe dar um conselho, você devia fazer o mesmo.
— Eu não posso abandonar minha família – ele respondeu rapidamente. – Compreendo seus motivos, mas devo insistir. Hope é só uma garotinha inocente, Davina.
— Que tem pais híbridos e um tio Original disposto a protegê-la. Não precisa de mim – completei, completamente indisposta a ser manipulada por chantagem emocional.
Ele passou os dedos pelos cabelos. Eu sabia que Elijah não desistiria fácil de me convencer a voltar para Nova Orleans, mas eu não queria voltar. O que eu disse sobre a criança fazia sentido. Por que eles precisavam de mim?
— Nós não queremos lutar contra as bruxas, por isso estou aqui. Há rumores por toda a cidade, uma nova líder se ergueu e ela usa métodos pouco ortodoxos para conseguir o que quer.
— Continue falando assim, está fazendo um ótimo trabalho incentivando-me a continuar por aqui, longe de toda essa loucura do Quarter. Desista, Elijah – eu falei duramente e observei ele dar as costas para mim, provavelmente irritado demais para mascarar com sua serenidade.
— Se você não voltar, Klaus irá matar todas elas e eu irei ajudar. Então, quando se cansar de fingir ser o que não é, não terá um lugar que pode chamar de lar para voltar, pois todas as bruxas estarão permanentemente banidas e caçadas pela cidade – ele falou, ainda de costas para mim, mas pude palpar sua raiva e soube que ele falava com os dentes cerrados.
— E aí está o monstro egocêntrico que eu me lembro tão bem – eu disse, completamente sarcástica. Estava adulta demais para me sentir intimidada por uma ameaça vazia. Até onde eu conhecia os Originais, tudo aquilo poderia ser mentira.
Elijah virou-se novamente para mim, com um sorriso tão sarcástico quanto meu tom, inclinou um pouco a cabeça para o lado e respondeu firmemente:
— Odiaria ter que discordar de você.
― Davina! – ouvi a voz de Pedro me chamar a distância e conforme ele se aproximava correndo o som tornava-se mais alto. Ele passou uma mão por meu ombro, de um modo protetor, lançou um olhar desconfiado a Elijah e por fim me olhou, dizendo: — Vamos lá para dentro.
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