Born For This
9 Undisclosed
Undisclosed
– Ainda bem que temos muitos meses até recebermos nossas pontuações – Natalie suspirou aliviada e a mão dela estava meio trêmula quando se aproximou de nós três na mesa do Salão Principal. – Como vocês foram?
Eu dei de ombros, Albus não respondeu e Rose fingiu não ter escutado a pergunta.
– Até você foi mal, Rosie? – ela arregalou os olhos.
– Não, Rose só não quer dizer que provavelmente gabaritou o teste – Albus disse. – Sabe, só para não ficarmos com essa sensação ruim de que não prestamos para nada. E não venha dizendo que você foi mal também – acrescentou para Natalie, meio sem paciência. – Você sempre fala que vai mal e que não sabia de nada, mas depois aparece entre as melhores pontuações.
– Isso não é verdade! – reclamou Natalie. – Eu realmente vou mal quando digo que vou mal. Ok, talvez eu exagere um pouco algumas vezes. Mas realmente acho que fiz uma cagada durante o teste de Transfiguração.
– Que acha de não comentarmos nada sobre isso? Pelo menos até recebermos nossas cartas – sugeri. Ou Albus ia ter uma combustão.
– Então não fiquem com a gente – disse Natalie, segurando o braço de Rose e puxando-a para outro canto, onde as duas podiam comentar sobre os testes dos N.O.M’s, sem que escutássemos.
Albus e eu voltamos a caminhar e eu estava tentando me lembrar de alguma coisa que fiz, mas foi como ter ficado bêbado durante as avaliações que o professores fizeram. Eu esperava apenas que o resultado não tivesse sido terrível. Fora isso, eu parecia confiante o suficiente para não ficar me remoendo.
Depois dos N.O.M’s, maio acabou rapidamente. Tivemos um tempo de descanso, embora os treinos de Quadribol tenham ficado mais cansativos à medida que a final contra a Grifinória se aproximava na primeira semana de junho. Albus e eu voltávamos para as masmorras com as piores dores possíveis, pois Zimmer não era nada piedoso quando se falava de final contra a Grifinória.
– Nós temos que vencer – ele dizia, praticamente gritando. Ele não era um cara de muitas palavras. Apenas repetia que devíamos vencer. E, claro, quebrar a cara de alguém se fosse preciso para vencer.
Minha mãe mandou uma carta naquela tarde dizendo que ela e meu pai iam viajar até Hogwarts para assistir a partida. A princípio a idéia parecia que não ia dar certo, porque a família de Albus estaria por lá também, e então era possível imaginar o conflito... mas os dois pareciam muito animados em me ver jogar, acreditava que não estavam ligando muito para o que iam dizer. Ou meu pai pensava em ir disfarçado.
Eu não os vi chegarem antes da noite da partida, o que no começo achei bom porque assim eles não me procuraram. Eu acabei de almoçar e estava caminhando com um colega meu até o vestiário, quando Rose me parou e desejou boa partida. Achei que ia me beijar na frente de todo mundo, mas apenas me deu um beijo rápido no rosto.
Mesmo assim, na ponta dos pés, levou os lábios para perto do meu ouvido e cochichou:
– Não diga a Albus que eu fiz isso. Ele ainda acha que é o único.
Eu apenas sorri para ela quando voltamos a nos encarar. Pensei que talvez o pai dela não estivesse na escola. Rose fez um tchauzinho e se afastou de novo. Avistei Albus lá no fundo do salão, recebendo boa-sorte de pelo menos sua família inteira. Estava o pai, a mãe, a irmã... todos vestidos de verde e vermelho, numa mistura da torcida, pois ninguém iria sair perdedor entre eles.
Quando a partida começou e eu estava voando pelo campo enquanto ainda nos aquecíamos, tentei procurar meus pais na arquibancada dos convidados.
Bem, pensei, talvez só estivessem tentando me animar quando disseram que iam estar lá, mas eu sabia que eles não perderiam o tempo deles para me verem durante uma partida. Meu pai sempre evitava algo relacionado aos Potter e que estavam ali naquele momento. Não podia exigir nada assim deles.
– Malfoy, presta atenção – mandou Zimmer ao passar por mim voando.
Segurei o bastão, deixando minhas impressões de lado. A torcida da Grifinória era ensurdecedora e tirava nossa concentração, mas Albus estava se saindo bem contra o próprio irmão para capturar o pomo de ouro. Eu via Natalie berrando para Grifinória, mas depois gritando o nome de Albus, o que lhe rendeu algumas discussões ali no meio da torcida. Rose estava com as outras amigas, aplaudindo cada aro que eu acertava com as goles, ou alguma manobra que Zimmer fazia, ou quando o pomo de ouro tirava Albus e James do caminho um do outro, confundindo-os. Os dois se provocavam e o narrador do jogo tentava fazer uma tradução simultânea das piadinhas que um fazia com o outro. A partida estava acirrada e muito patética.
– Potter está alcançando! – era a Roxanne Weasley narrando o jogo. – Está alcançando o Pomo! Não, o Potter moreno. O ruivo. Opa, agora é o moreno de novo. E temos mais pontos para Grifinória, com um golaço incrível de Zacharias Farro. Estamos fazendo uma enquete aqui do garoto mais bonito da partida. Eu voto no Potter-Moreno, e vocês?
A torcida berrava em concordância.
– Mas como fica o Potter-ruivo numa situação dessas? Ele também não é de se desperdiçar!
A torcida berrava mais ainda.
– Tio Harry deve estar assistindo a partida nesse momento. Oi, tio Harry! Ei, espere, temos um imprevisto aqui... Estão pedindo para que o jogo fique paralisado. Ora, por quê? Ah, uma mensagem a Scorpius Malfoy! Será que estamos falando de uma fã?
Eu parei de voar quando ouvi meu nome. A voz de Roxanne ficou mais séria quando voltou do silêncio, tanto dela quanto das arquibancadas:
– Malfoy, estão chamando você lá embaixo. Pediram para que eu avisasse.
– Temos que terminar a porra dessa partida! – gritou Zimmer enquanto eu aterrissava no gramado. Não escutei mais nada, porque estava com uma impressão ruim. Nunca paralisavam uma partida para que um aluno saísse do campo, através de mensagem.
No caminho até o castelo, procurei quem queria falar comigo. Foi então que me deparei com a diretora McGonagall. Ela parecia carregar más notícias. Eu estava ofegante quando me aproximei dela.
– O que houve?
– Recebi uma mensagem de sua avó.
– O que houve? – repeti a pergunta, tentando não parecer impaciente antes do tempo.
– Seu pai está internado no hospital st. Mungus e sua avó autorizou que você fosse enviado para lá imediatamente, para visitá-lo. Parece que houve um incêndio na sua mansão esta manhã.
Minhas preocupações até então estavam sumidas, e elas reataram com impacto em minha cabeça. Eu estava particularmente alegre com as coisas que andaram acontecendo nesses últimos meses, apesar do estresse dos estudos. Eu fui estúpido por ignorar aquela carta do ex-professor Parrish. Fui estúpido por achar que meus pais não veriam minha partida de quadribol sem motivo. Minha mãe sempre quis me ver em campo, e ela tinha um bom motivo para me explicar porque não estavam ali naquele momento.
Sem saber se Albus capturou o pomo ou não, eu corri trocar de roupa para ser enviado ao hospital st. Mungus, mesmo detestando hospitais e preferindo não encarar aquela situação. Precisava saber o que realmente aconteceu, se meu pai estava bem, e eu reconhecia isso. Fui avisado de que algo do tipo aconteceria. Foi uma ameaça e aconteceu.
Eu queria matar Parrish. E não estou exagerando. Sabia que era culpa dele quando fui levado à sala e encontrei meu pai deitado na cama, o rosto virado para o outro lado em que minha mãe estava sentada na cadeira, de modo que ele não me encarava. Não tive certeza se estava dormindo.
Ele não tinha hematoma, pelo menos não no ângulo que eu via.
Minha mãe estava ao lado da cama dele e sorriu assim que me viu. Segurou o braço do meu pai, chamando sua atenção.
– Draco, Scorpius chegou.
– Eu disse para não trazerem ele aqui – murmurou.
– Você sabe que nunca te obedeço – respondeu minha mãe. Foi quando ela levantou o braço dele, o braço cuja mão dela entrelaçava a dele, que vi seu primeiro hematoma. O antebraço do meu pai estava queimado.
– Onde ele está? – perguntei, sentindo minha garganta seca. Seca de raiva. De ódio. – Onde aquele filho da puta está, vou matá-lo! Ele fez isso com o senhor, não fez?
– Eu não vou mentir dizendo que isso foi culpa dos ovos que sua mãe estava tentando cozinhar hoje de manhã – ele disse e finalmente virou o rosto para mim. Engasguei. Estava horrível, a pele do rosto queimada, um pedaço dos lábios descascados. Tive a impressão, mesmo assim, que aquela era uma imagem melhorada do resultado das queimaduras, como se os efeitos das poções que tomava estivessem dando certo. Meu pai abriu um sorriso irônico, porém irreconhecível com uma parte dos lábios anestesiada, que não se mexia. – Imagem do inferno, hein?
– Eu vou matar aquele cara.
– Matar mais uma vez? Ele se afogou no próprio fogo – contou, mas isso não me deixou mais feliz. – Um destino justo ao estrago que queria causar. Sua avó está arrasada porque não sobrou muita coisa do piano. Nem reparo parece que vai conseguir concertar. Mas Lucius está improvisando outro, então não se preocupe com isso. A Mansão ainda está em pé.
– Mas o senhor...
– Estou feio, eu sei. – Ele olhou para minha mãe e disse baixinho: – Eu entendo se quiser pedir o divorcio, querida.
Ao contrário do que eu pensava, mamãe não estava chorando. Em vez disso, ela sorriu e se inclinou para lhe dar um beijo nos lábios, na parte que não sofreu queimadura.
– Ainda está sexy para mim.
– Mentirosa – ele conseguiu rir.
– Viu como eu me sinto quando diz que ainda estou com os peitos bonitos? – ela indagou, levantando-se para se aproximar de mim. Beijou-me o rosto e pediu baixinho: – Ainda bem que está aqui... fique um pouco com ele.
Eu sabia que ela também odiava hospital, mas tive a impressão que o fato de ter saído de lá não foi por esse motivo. Sentei-me na cadeira e meu pai confirmou minha impressão quando ela saiu:
– Por mais forte que sua mãe seja, é difícil se acostumar a olhar para isso daqui. Os médicos disseram que pode demorar um pouco para essas queimaduras sumirem.
– O que aconteceu?
– Eu não sei, nós estávamos em nossa sala. O fogo começou na cozinha. Vimos o rapaz e ele parecia, de longe, muito bêbado. Álcool move a gente para fazer loucura, mas ele também tinha ódio, então não posso culpar inteiramente aquela garrafa que ele segurava.
– Foi minha culpa, se eu não tivesse feito ele ser expulso-
– Não se culpe – ele disse zangado. – Só faltava essa. Vamos, peça para que eles me tirem daqui e isso será o suficiente.
Fiz o que ele mandou no momento que uma enfermeira entrou na sala para verificar as queimaduras. Meu pai rebateu que ele estava ótimo e que podia ir para casa, no entanto ele ainda precisaria continuar passando aqueles remédios e bebendo aquelas poções com a supervisão de alguém. Foi nesse momento que minha mãe interveio a enfermeira:
– Nós vamos para casa. Ele não está sozinho, e se é de ajuda que ele precisa, nós daremos isso a ele.
As duas ficaram se encarando e parecia haver mais do que apenas o evidente entre aquela discussão. Até que a enfermeira não conseguiu sustentar o olhar da minha mãe e disse:
– Vou chamar o doutor para autorizar a saída.
– Muito bem – Astoria elogiou na medida em que observava os passos da mulher bonita até ela sair dali. Depois anunciou para o meu pai: – Ela ainda acha que vai ter a chance de te ver pelado, Draco.
– Ora, e qual seria o problema? Aquela área preciosa foi poupada. Eu adoraria que ela me visse pelado, assim tiraria essa atenção que estão dando ao meu rosto.
– O que nós combinamos de nunca ficarmos pelados para outras pessoas? – ela indagou, erguendo as sobrancelhas. – Lembra, quando nos casamos?
O humor deles era o que me acalmava diante daquela situação. Se ainda faziam piadinhas, era porque a situação não foi pior. Meu pai tentou levantar o tronco, mas fez careta e minha mãe se aproximou para ajudá-lo a se sentar.
– Estou bem, Astoria – ele disse e me encarou. – Só me tirem daqui.
O médico apareceu e trazia uma cadeira de roda. Merda. Meu pai iria precisar usar aquilo durante um tempo. Cada vez que via o esforço dele para não parecer atingido pelas queimaduras, mais eu queria que Perrish revivesse das cinzas para que eu pudesse socá-lo até a morte, novamente.
O médico deu algumas receitas para que minha mãe seguisse e ajudasse com meu pai. Ela parecia muito disposta a tirar aquelas queimaduras do rosto, dos braços e das pernas dele. Saímos do hospital instantes depois e voltamos a Mansão, onde minha avó e meu avô ajeitavam com magia o estrago causado pelo incêndio. Por sorte, apenas poucas coisas não foram poupadas. A sala tinha a falta do piano de cauda e mesmo que ainda houvesse lareira e sofás, parecia muito vazia sem aquele instrumento.
Minha mãe olhava para o vazio daquele canto com uma expressão angustiada e mesmo que meu avô tivesse comprado um novo logo depois, não pareceu ocupar o mesmo espaço. Era apenas um detalhe, algo fácil para se superar, mas não foi para ela. Fiquei com mais raiva ainda do ocorrido, quando a peguei tentando tocar o novo piano sem um pingo de emoção, como se fosse obrigada a gostar dele.
– Eu gostava tanto do outro – comentou uma vez. – Significou a minha vida.
Eu não vi exagero em suas palavras.
Quis dizer coisas para consolá-la e, principalmente, para consolar meu pai.
Recusava-se a se olhar no espelho. Recusava-se a ter minha mãe tomando conta dele. Os dois brigaram naquela noite e eu ouvi enquanto passava pelo quarto deles.
– Eu não preciso de ajuda para isso, Astoria!
– Você não consegue fazer isso sozinho!
– Pare de agir comigo como se eu fosse uma criança ou um bebê! Você não é minha babá, você é minha mulher!
Tentei voltar a Hogwarts, mas vendo os dois brigando daquela forma me permitiu ficar mais um tempo. Tentei impedir que meu pai tomasse alguma coisa ou voltasse a colocar cigarro na boca. Uma vez ele tentou acender um isqueiro, mas ao ver o fogo dali ele jogou o isqueiro com força contra o vidro do espelho. Além disso, qualquer reflexo que ele via de si mesmo, tentava distorcer, quebrar.
Acordei naquela noite com o som de copos se quebrando. Minha mãe tentava impedir um Draco Malfoy bêbado quebrar as garrafas de whiskys da sala. Eu sabia que o problema não era apenas o incêndio causado por um homem que o odiava. Aqueles ataques de fúria e raiva eram por tudo, por ainda ter aqueles que nutriam esse sentimento por ele. Era por ter a falta de confiança das outras pessoas. De não poder sair à rua e não ser lembrado que fora para o lado errado da guerra. Por ter feito parte do preconceito e do problema que foi gerado através disso. Por ter colocado a vida de sua mulher em risco.
Da escada, observei minha mãe agarrar o braço dele, pedindo para que ele se acalmasse. Achei que ele ia agredi-la, mas ela conseguiu segurar o corpo dele com os braços e sussurrar:
– Eu sei... não vai acontecer de novo, Draco, não vai...
Meu pai rosnava:
– Se você ou Scorpius se machucar por minha causa, eu nunca vou me perdoar. Nunca, nunca.
Ela apenas o abraçava e não ousei interrompê-los, voltando para o meu quarto.
Eu nunca deixaria isso acontecer de novo com eles. Ainda não era o suficiente Parrish ter morrido ao conseguir tacar fogo ali em nossa casa. Então o mínimo que poderia fazer era com que a gente não merecesse esse tipo de ato das outras pessoas novamente. Eu só não fazia idéia de como.
Quando as coisas em casa se acalmaram, o que levou uma semana, precisei voltar para os dias finais do ano letivo. As pessoas já estavam sabendo do incêndio, pois saiu algo relativo no Profeta. Quando reencontrei Albus, ele nem citou o jogo que perdemos, e perguntou se estava tudo bem. Contei sobre a situação que meu pai se encontrava e teve consideração de parecer preocupado. Foi otimista a ponto de garantir:
– Pelo menos Parrish já era.
Na sexta-feira, durante o almoço, Hollie Cooper se aproximou de nós dois na mesa da Sonserina. Ao invés de socar o braço de Albus, ela olhou para mim e perguntou:
– Então... é verdade? É verdade que Jason morreu?
– Tentando tacar fogo no pai de Scorpius – relembrou Albus. – Não pense que o cara é santo agora, ok?
– Mas com Malfoy não ocorreu nada grave! – ela gritou, e isso provou que as fofocas estavam bem distorcidas quando chegaram aos seus ouvidos.
Pensei em socá-la. Acho que nunca tive tanto ódio de uma garota gostosa antes. Desse modo, então, decidi ignorar e prestar atenção no frango do meu prato, mas Albus de repente se levantou e ficou a sua altura, embora ainda fosse dois centímetros ou três mais baixo que ela.
– E nós não nos importamos com você. Não conseguia ver que aquele cara era desprezível?
– Como se o dele não fosse. – Apontou a cabeça para mim. Lágrimas escorriam seus olhos. – E não sei nem porque está defendendo eles, Potter!
– O pai dele não quebrou a minha cara, quebrou?
Hollie ficou olhando Albus como se nunca tivesse visto ele na vida. Sua voz era intrigante quando disse:
– Você nunca foi como eu pensei.
Ele ia retrucar algo, mas Natalie estava se aproximando e ela cutucou o ombro de Hollie. Quando a garota se virou, Natalie disse:
– Eu achei que tínhamos deixado bem claro aqui que nenhuma garota como você iria perturbar meu namorado.
– Namorado? – Albus engasgou e pareceu esquecer que estava brigando com Hollie.
– Eu não quis dizer isso. – Mesmo assim, Natalie ainda encarava Hollie com um olhar meio que hostil e perigoso. – Vamos, deixe-o em paz. Na verdade, deixe todo mundo em paz e vai pegar alguém do seu tamanho, tá legal?
– Não manda em mim, garota – Hollie nunca pareceu ser do tipo que brigava, mas ela, naquele momento, estava muito capaz de fazer isso. Natalie, que havia dado as costas para sair dali, virou-se lentamente.
Eram em momentos como esses que eu via a diferença gritante entre Natalie e Rose. Natalie estava com os punhos fechados e se não fosse por Rose, poderia partir para cima de Hollie.
– Você vai entrar em encrenca, Natalie, e eu sei que não quer isso – avisou Rose postando-se entre as duas. – Além disso, os professores estão olhando.
– Já disseram que seu cabelo é terrível? – provocou Hollie. Rose até olhou para ela, achando que estava se referindo ao seu cabelo, mas Hollie não tirou os olhos na direção de Natalie, que ofegou devido ao insulto. – Parece até que foi sua mãe quem o cortou.
– Foi ela sim, algum problema com isso?
– Insulto a moda! Parece um garoto. Nem mesmo seu namorado te acha bonita! Quem acharia?
Algo estranho aconteceu. Hollie continuou insultando Natalie, principalmente seu estilo e suas atitudes. Aquilo passou além de ciúmes em relação à Albus. Natalie apertava os punhos com raiva e seus olhos estavam cheios de lágrimas, embora ela fizesse esforço para que não se rebaixasse a humilhação pública. A essa altura eu já esperava que Natalie pudesse dar umas boas surras em Hollie, mas ela só ficou calada.
Quando Hollie jogou os cabelos para trás e deu as costas, desfilando para fora do salão, um silêncio se formou entre as mesas.
– Natalie – tentou dizer Rose, intrigada. – O que ela disse não é verdade, você não pode pensar em acreditar...
Ao tentar se aproximar cautelosamente, Natalie tirou a mão de Rose de seu ombro e se afastou. Querendo ou não, ainda tiveram colegas que davam risadinhas. Não tolerando mais isso, ela saiu correndo. Nunca a vi tão humilhada, e ela sempre foi uma garota durona que brigava com os garotos quando eles ofendia suas amigas. Sabia disso porque ela já me enfrentou. Pelo menos por fora, era uma garota forte e tudo o mais... até xingarem seu corte de cabelo.
Rose lançou um olhar a Albus, que compreendeu e saiu da mesa para alcançar a garota. Assim que ele desapareceu de vista, Rose mudou o olhar quando nos encaramos. Não sorriu, e era porque estava ainda intrigada com as coisas que Hollie disse sobre Natalie. Mas provavelmente sorriria. No entanto, reparei que cada momento em que ninguém reparava em nós dois, ela tinha um olhar diferente sobre mim, como se quisesse me dizer alguma coisa, algo que ninguém mais podia ouvir.
No meio da aula de Herbologia, então, enquanto fazíamos um trabalho final na estufa, ela pousou um bilhete ao meu lado, exatamente no momento em que Albus e Natalie estavam distraídos demais discutindo sobre Hollie. Agora que a sensação de humilhação havia passado, nunca ouvi tantos palavrões saindo da boca de uma garota antes. Abri o bilhete de Rose, aproveitando que elas não estavam olhando.
“Vamos à torre de Astronomia hoje, se quiser conversar”, escreveu. Minha resposta foi um sorriso, e ela sorriu de volta.
Pouco depois da sete horas, saí da sala comunal e me dirigi a Torre. Eu estava ansioso, de algum modo, porque a única forma de Rose e eu ficarmos era quando estávamos sozinhos. E isso aconteceu poucas vezes. Eu queria aproveitar mais essas poucas vezes, ainda mais estando tão estressado pelas coisas que aconteceram, eu precisava disso.
Mas enquanto subia a escadaria, avistei Amber, minha ex-namorada, sentada no primeiro degrau. Ela estava com a cabeça apoiada nas mãos e eu só soube que era ela por causa dos cabelos loiros, uma vez que seu rosto estava tampado. Ela parecia chorar. Eu me aproximei, piscando. Caramba, o que estava acontecendo com as garotas daquele castelo? Em pé ao seu lado, não deixei de pergutar:
– Problemas com garotos?
Ela levantou a cabeça, olhou para mim e limpou as lágrimas, ajeitando os cabelos. Sem dizer nada, me observou enquanto eu me sentava ao seu lado. Por um momento achei que ela ia me enxotar dali ou mesmo ir embora, mas acabou confessando com a voz estranha:
– Hanna brigou comigo, de novo. Odeio quando isso acontece, mas não tenho como evitar... desde que eu não sei o que diabos está acontecendo comigo. Eu não tenho... certeza.
– É bom que tenha... você terminou comigo por causa disso. – Mas eu não estava bravo.
– Você não gostava de mim, Scorpius.
– Isso não é verdade.
Ficamos um tempo em silêncio no qual ela pensava no que ia dizer.
– Sabe qual é o sonho da minha mãe? – perguntou. Eu esperei a resposta. – Me ver casada. Quando ela me via com você, dizia que você seria meu marido. É bonito e rico, o garoto perfeito para mim. E sabe o que é mais engraçado? Ela vive me perguntando de você.
– Ainda acha que estamos juntos?
– Pais vêem o que querem ver.
– E você sempre gostou de contrariar ela.
– Eu só não sinto com garotos o que eu sinto com... meninas. Quando seguro sua mão – ela a pegou e testou – não é a mesma coisa quando seguro a de Hanna.
Aquilo me deixou aturdido, mais porque ela estava segurando minha mão – coisa que nunca fez quando namorávamos – do que por ter confessado que era apaixonada pela amiga dela. Eu estava perigosamente perto de segredos que ela não compartilharia com outra pessoa. Por que comigo? A mão dela ainda segurava a minha, e nessa fração de segundo eu vi Rose no fim do corredor olhando para a gente.
Foi rápido. Soltei a mão de Amber e me levantei depressa.
O que eu ia explicar para ela, que pudesse fazê-la acreditar que não havia nadaentre mim e Amber agora? Ela viu nossas mãos juntas e para quem assistia de fora poderia ser bem sugestivo.
Mesmo assim, corri atrás de Rose quando ela deu as costas e fez menção de ir embora dali depressa. Eu segurei seu braço e confessei:
– Eu estava esperando você.
Acho que essas palavras não eram as palavras certas.
– Que jeito engraçado de demonstrar isso – disse zangada antes de tirar minha mão dela e sair pelo corredor, bufando. Merda.
Passei as mãos no meu cabelo, nervoso comigo mesmo. Segundos depois, Amber estava ao meu lado e ela parecia estar lendo meus pensamentos, pois disse:
– Só não teria explicação se eu estivesse com a mão dentro da sua calça, o que não foi o caso. Dá pra concertar isso.
– Hã? Você acha que Rose e eu... Não – apressei-me a dizer, dissimulado. – Não é o que você está pensando.
– Eu não sou tapada, Scorpius. E se é o que te preocupa, não vou contar a ninguém.
Entendi o que ela quis dizer. Uma forma de garantir que nenhum de nós contasse a ninguém sobre nossos respectivos segredos. Eu assenti, meio que agradecido. E ela passou por mim para ir embora também.
Voltei para o meu dormitório sem ter beijado ninguém e naquela noite tive um sonho esquisito, no qual Rose e eu gritávamos um com o outro e deixávamos de nos falar por um motivo mesquinho e besta. Eu não lembro exatamente os detalhes daquele sonho, nem mesmo os motivos, mas acordei com a sensação ruim de que eu não iria gostar caso isso acontecesse realmente. Além disso, eu fui para a aula no dia seguinte pensando em uma coisa: Não acredito que sonhei com ela.Nunca havia sonhado com ela. Por que estava sonhando com ela agora?
E ela não falou comigo a manhã inteira, o que me fez sentir obrigado e tentado a dar uma explicação. Qualquer uma. Verdadeira e objetiva. Resolvi fazer isso durante nossas rondas, mas como era sábado não haveria outra forma, a não ser esperar Albus e Natalie voltarem a se agarrar, a se distraírem. Mesmo assim, não existiam só eles naquele mundo. Toda vez que eu finalmente me via sozinho com ela, alguém a encontrava para pedir ajuda em uma lição. Ou alguém queria falar comigo. Ou com ela. Ou comigo de novo.
Depois de um dia inteiro assim, comecei a ter um pensamento idiota. Do tipo: “Não há nada sério entre nós, eu não preciso me explicar!” Orgulhoso, cruzei os braços e tudo o que fiz em relação aquilo foi esperar que ela deixasse de me evitar. Eu não fiz nada errado, eu não a traí, só tínhamos beijado umas três vezes no máximo! Ela que estava fazendo muito drama.
Se fosse outra garota, eu já teria enjoado disso e procurado outros lábios para ocupar os meus quando nada de interessante acontecia no dia. E, acredite, eu até iria fazer isso, da forma mais infantil possível, se eu não tivesse visto Michael McNair conversando com ela, no dia seguinte, no jardim durante a tarde.
Como Albus estava narrando um acontecimento entediante e eu fingia que prestava atenção, não podia ficar me remoendo visivelmente. Mesmo assim, olhava através dele, tentando descobrir se havia alguma outra coisa entre Rose e esse cara da Lufa-Lufa. Eu já ouvia história sobre ele, sobre o que ele fazia com garotas. Ficava com elas e depois as ignorava! Isso era um absurdo.
– Albus – interrompi a narração dele, sem muita educação. McNair fez Rose rir de alguma coisa. – Lembra que você disse para eu avisar caso visse Rose conversando com caras que acham ela gostosa? Então, olha lá.
– O quê? Onde? – virou-se e avistou o mesmo que eu. Depois do choque, perguntou a mim: – Eles estão ficando?!
– Não – eu respondi. – Claro que não. Ele só está com falsas esperanças!
E percebi que o sentimento que eu estava tendo enquanto via os dois rindo, poderia ter sido o mesmo que Rose teve quando me viu com Amber. Sim, tinha uma grande possibilidade de ser verdade. E tinha uma enorme possibilidade de eu ser o cara mais idiota do mundo.
– Então McNair beija melhor do que eu?
– O quê?
Rose girou os calcanhares quando ouviu minha voz. Somente em corredores vazios eu me sentia seguro para me aproximar dela, no intuito de resolvermos algumas coisas.
– Do que está falando? Eu não o beijei! – ela disse.
– Então por que me evitou nos últimos dias?
– Por que você me evitou nos últimos dias?
– Eu te evitei? Fiquei um tempão tentando dizer que não tem nada entre mim e Amber, mas você...
– Mas eu o quê?
– Você nunca está alcançável.
– Eu estou aqui na sua frente, Scorpius. Eu estou na sua frente o tempo todo, desde o primeiro ano.
– Parece que eu tenho que andar mil milhas para chegar até você mesmo assim.
– E você prefere não se esforçar – Rose parecia magoada. Olhei para ela.
– Você não me deixa.
– Você não quer.
– Eu estou aqui, não estou? – retruquei. – Eu não estaria aqui se eu não quisesse!
As palavras saíram tão rapidamente que tive o pressentimento de ter atropelado elas e gaguejado. Tomara que não. Ela devia ter entendido, mesmo tendo ficado calada por um tempo. Eu voltei a dizer:
– Posso não dizer coisas que você quer ouvir, mas é porque eu não sei o que você quer ouvir.
– Por que age como se eu fosse uma coisa complicada? Que não vai acreditar nas suas explicações? Eu sei que você é um cara verdadeiro, Scorpius. Você me provou isso no segundo ano quando disse que meu cabelo podia ser facilmente confundido com um espantalho.
Aquele dia eu estava nervoso porque ela tinha preferido fazer um trabalho, sozinha, a ser minha dupla. Ela tinha uma parcela de culpa naquele elogio simpático que soltei numa aula durante nosso segundo ano. Depois de relembrar a cena, olhei para ela, depois para o chão, e depois para ela novo.
– Eu só estava provocando você – expliquei. – Mas nunca se preocupou com a minha opinião, de qualquer maneira.
– Está brincando? Eu chorei como um bebê quando você disse aquilo. Até a Murta-Que-Geme ficou com pena de mim!
– Ora, não me faça sentir responsável!
– Não posso evitar, você me ofendeu. E não foi justo.
– Não foi justo? Você preferiu fazer o trabalho sozinha! Isso não foi justo.
– Por que estamos discutindo isso agora? Só tínhamos doze anos na época. Muitas coisas mudaram. Estamos fazendo trabalhos juntos sem reclamarmos agora. Por exemplo.
– E eu fico olhando toda hora para o seu cabelo, quando você deixa ele solto desse jeito. – Eu disse antes de saber que ia dizer aquilo. E toquei uma mecha da sua franja com um dedo antes de saber que eu ia fazer aquilo. Rose ficou paralisada, sem tirar os olhos de mim. Não achei que fosse me afastar, porque o tom de mágoa em seu rosto já havia desaparecido. Havia dado lugar para uma expressão um pouco desajeitada, mas encantadora. – Por exemplo – acrescentei, afastando minha mão.
De repente Rose a segurou por um tempo, dizendo:
– Você fez isso de novo.
– O quê? – minha voz estava mais baixa que o normal, porque me aproximei mais dela e não queria que ninguém escutasse.
– Não deve reparar que faz, mas você morde o lábio inferior antes de beijar alguém.
– Eu faço isso? – Meus dedos entrelaçaram o dela.
– Sim. É meio previsível. E não digo isso nas poucas vezes que beijamos. Você não era o exemplo de discrição com Amber, nem com Jenna, nem com Karla, nem com Katie, nem com Mila, nem com, você sabe, todas as garotas que Albus nunca conseguiu pegar.
– Você não parece ter ciúmes delas agora – reparei. Seus dedos brincavam com o meu, sem a gente perceber.
– Porque você não está me dando razão para ter, está?
Mordi o lábio dessa vez, por querer.
– Só por que sabe que eu vou te beijar?
Ela olhou para minha boca e confessou:
– Exatamente por isso.
Engraçado como em um momento parece que não agüentamos a presença um do outro, ou que nunca iríamos parar de discutir e brigar por coisas idiotas. Engraçado como em um momento, um simples beijo passa a ser o melhor que eu já dei e recebi. E não foi porque eu estava comparando Rose com as outras garotas que eu já fiquei. Fiz isso, confesso, no nosso primeiro beijo, mas a última coisa que eu fiz naquele foi pensar em outra garota. Talvez Rose nem beijasse tão diferente das outras, mas a sensação que ela passava para mim era diferente. De felicidade, estranheza, mas num sentido delicioso e imprevisível, que eu queria poder me acostumar.
Passava de curiosidade nesse, eu não soube no que se transformou, mas achei muito melhor quando senti nossas línguas entrelaçadas, seus lábios colados nos meus, e seu corpo se grudando ao meu. Eu a puxei para mais perto, segurando suas costas com uma mão e afogando seus cabelos com a outra. Como sempre, um beijo calmo e tranqüilo, mas com mais profundidade. Eu sentia o toque da ponta de seus dedos roçarem meu rosto, seria imperceptível se eu simplesmente não ficasse arrepiado com isso. E eu ficava.
Antes de parar, ela me deu dois rápidos beijos seguidos e percebi que seus braços estavam ao redor do meu pescoço. Não me soltou quando nossas bocas se afastaram. Eu fui o primeiro a sorrir, ao ver que ela não respirava perfeitamente. Não seria justo se só eu estivesse assim.
– Daqui cinco segundos o primeiro ano vai sair para a aula de Poções – anunciou Rose, num sussurro, o que não era algo que eu esperava ouvir dela depois de um beijo daqueles. Ergui uma sobrancelha.
– Interessante, Rose, muito interessante. Só que hoje é domingo.
– Oh. Ótimo, ainda bem.
Rindo, eu me inclinei e voltamos a nos beijar. De novo aquela sensação. Ficamos assim durante um tempo necessariamente longo para que, no momento em que descemos para jantar, Albus perguntasse na entrada do salão:
– Onde vocês estavam que não os encontrei em lugar nenhum?
– Biblioteca – dissemos em uníssono. E nem havíamos combinado desculpa alguma.
Achei que ele não ia acreditar. Engano meu. Albus saiu reclamando:
– Só vocês mesmo para estudarem num domingo dois dias antes das férias de verão, depois que já fizemos os N.O.M’s. Anormais!
Antes de nos afastarmos para nossas respectivas mesas, eu cochichei no ouvido de Rose:
– Parece que há uma vantagem em ter o título de nerd na família.
– Cala a boca – ela me deu uma cotovelada na barriga. Mas eu vi seu discreto sorriso enquanto ela se afastava para a mesa da Corvinal.
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