Born For This
4 This Is Halloween
Capítulo 4. This is Halloween
A Sala Comunal estava agitada, com os alunos se preparando para a festa de Halloween. Albus acabou usando mesmo a fantasia do fantasma e eu acabei mesmo usando apenas uma blusa e uma calça jeans qualquer. Sinceramente, usar fantasias era ridículo.
Saí do quarto que eu dividia com Albus e dois garotos estranhos. Um deles tinha o nome estranho que eu nunca lembrava e nem fazia esforço para lembrar, já que toda vez que nós dizíamos bom dia a ele, o garoto dizia o dia e o ano em que íamos morrer. Era bem difícil manter uma conversa com esse colega. O outro garoto, Elliot Edwards, conseguia ser mais estranho ainda. Usava óculos com lentes grossas e seus olhos ficavam gigantes por trás deles. Vivia na parte restrita da biblioteca e, naquele momento em que saía do quarto, ele me parou e fungou:
– Posso pegar um pedaço do seu cabelo? Dizem que se juntar com bosta de Dragão você...
– Não, cara – eu disse depressa, afastando-me dele. Fiquei feliz que, sendo monitor, eu não precisava mais dormir no mesmo aposento que esses garotos. Por sorte, alguém segurou a minha mão e não precisei virar o rosto para saber que era Amber atrás de mim.
– Oi, lindo – ela disse, sorrindo, e me fez virar para ela.
Eu não disse muita coisa, só sorri. Amber estava incrível, os cabelos jogados para os lados meio que selvagens e os lábios vermelhos de batom. Usava uma roupa toda preta, de couro e a calça estava justa, assim como a camisa. A princípio não entendi sua fantasia, mas ela estava muito...
– Amber, você está... hum...
– Vampira.
– Eu ia dizer gostosa – sorri e me inclinei para beijá-la.
– Você já está pronto? – perguntou. – Porque marquei com Hanna de nos encontrarmos no salão principal mesmo.
Eu fiz que sim, ainda sorrindo como um idiota sem esquecer a promessa que ela fez sobre me deixar tirar essa roupa no fim da noite.
Zimmer Davis estava passando por nós e ao me ver ele apontou o dedo.
– Tira esse sorriso da cara, Malfoy.
– Dá um tempo, Zimmer – exclamou Amber, saindo comigo da sala comunal.
No caminho até lá, Albus nos alcançou quando subimos as escadas e chegamos até o salão, enfeitado perfeitamente para a ocasião, pelas mãos de Rose e ajudas de professores e outros monitores.
A música era meio sinistra, cantada pelo coral da escola, mas já estávamos acostumados. Amber se aproximou de sua amiga, Hanna Hathaway, perto das mesas. Ela não gostava de mim, eu sentia quando estava perto dela. Nunca me cumprimentava e sempre que podia tirava Amber do meu caminho para elas conversarem sozinhas. E não foi diferente quando chegamos à festa. Hanna alegou que tinha algo importante para contar a Amber e as duas foram até uma mesa, enquanto eu e Albus ficamos olhando as pessoas e as fantasias dessas pessoas, a medida que chegavam para a festa.
– Você tem sorte de ter a Amber – Albus constatou. – Eu gostaria de ter uma namorada igual a sua, a fantasia dela está demais.
No momento que ele disse isso, Rose se aproximava sorridente, como se nunca tivesse marcado um duelo com Dimitre para o dia seguinte. Estava com o mesmo vestido que eu a ajudei a fechar. Ela acenou para nós, com um sorriso acanhado, e logo atrás estava Natalie.
– O quê? – Albus praticamente gritou, assim que reparou que Natalie estava com amesma fantasia de Amber. Com a diferença, é claro, de que Natalie realmente parecia uma vampira, o rosto pálido virado em nossa direção. Especialmente em Albus, como se estivesse provocando ele.
– Oi, meninos – passou por nós meio que desfilando. Albus quebrou a máscara que segurava com força.
– Não é Natalie – ele tentou se convencer baixinho. – Não é ela, não é ela, não é ela.
Amber reapareceu e ficou encarando Natalie como se ela estivesse se vestindo de barata.
– Você copiou minha fantasia – acusou, com as mãos na cintura.
– Sinceramente, Davis, sua fantasia não é original.
– Claro, agora que você copiou ela!
– Vamos, Natalie – disse Rose, sensata, segurando o braço dela. Eu não duvidava que Natalie e Amber fossem armar uma guerra por conta disso. Albus olhava para as duas, com animação, mas quando Natalie saiu do modo de ataque contra Amber, ele pareceu bem decepcionado.
– Só porque você pode me dar detenção se eu arrancar os dentes dessa garota – disse Natalie, pretensiosa. As duas se afastaram para uma mesa onde uma turminha do Taylor Scott estava sentada. Enquanto Rose se divertia com seu novo namoradinho, eu tive que ouvir Amber reclamar de Natalie, pelo menos, a festa inteira.
As atrações eram os professores. Todos estavam usando fantasias indecifráveis e bizarras, arrancando risos e não sustos. Não havia ninguém particularmente assustador. Só que quando Albus estava bebendo suco de abóbora na pista de dança, Andrew Smith apareceu berrando atrás dele. Albus derrubou o copo no chão, assustado.
Andrew era o mais assustador de lá, o que era, na verdade, muito irônico. Ele estava usando uma máscara. Soubemos que era ele por causa de sua voz. Quando Albus se recuperou do susto, a risada idiota e inconfundível do garoto saiu abafada por trás da máscara:
– Poxa, eu consegui assustar um Potter!
– Você me pegou desprevenido, Smith! – retrucou Albus.
Ele tirou a máscara e o rosto estava todo suado. A expressão dele era totalmente boba, dando contraste imenso e mais assustador ainda com sua fantasia.
– Estou assustador, não estou?
– Agora não – eu disse sincero. Ele tirou alguma coisa do bolso. Era um tipo de inalador, só depois eu reparei que ele o usava para recuperar o ar, já que sempre sofreu de asma.
– Vou tentar ficar com a máscara até o Jogo do Terror! – disse, animado.
– Cuidado para não morrer sufocado, amigo – avisou Albus, sempre muito conselheiro. Assim que Smith saiu para assustar as garotas, Albus olhava para ele com um certo tipo de pena. – Estou falando sério, é melhor alguém avisar ele que essa máscara vai sufocá-lo.
Mas uma música agitada começou a tocar e Albus saiu de perto quando uma garota do quarto ano o puxou para dançar. Eu fiquei ali parado com o suco na mão, encarando na direção de Amber com a amiga dela. Não que eu estivesse desejando algum tipo de atenção, mas seria legal se eu não parecesse um idiota desacompanhado, e era isso o que Hanna estava me fazendo parecer, tirando Amber de mim toda hora.
Eu saí e me sentei à mesa, que ficava perto da de Rose e Scott. Eu espiei enquanto os dois conversavam animadamente, sem repararem na minha presença ali do lado. Houve um momento que Scott segurou a mão dela e a levou para a pista de dança. Rose não dançava absolutamente nada, mas estava fazendo o seu melhor, como sempre. Albus reapareceu e sentou ao meu lado meio ofegante, como se a garota do quarto ano tivesse tirado o seu fôlego.
E ele estava com a boca vermelha.
– Esse Jogo do Terror vai ser demais – ele comentou sorrindo.
– Você não vai dar um soco em Taylor Scott? – quis saber.
– Por quê? Ah, ele está dançando com Rose – notou.
– Por que não está bravo? Ele pensa que Rose é gostosa!
– Ele é monitor chefe – falou. – Vou me arrepender se eu socá-lo.
Senti-me esquisito quando pensei que eu não me arrependeria. Abanei a cabeça, aquilo nem era da minha conta. Tentei observar mais a festa. Amber e Hanna ainda conversavam. Albus voltou a dançar com aquela garota do quarto ano. Hollie Cooper estava sentada no outro lado do salão principal com Zimmer Davis, mas os dois não pareciam entretidos. Hollie olhava para todos os lados, até que parou em um ponto específico. Eu segui seu olhar.
Sabia.
Lá estava o professor Parrish, vestido de caubói. Eu nem perderia meu tempo vendo aquilo, mas algo chamou minha atenção. Ele conversava com Andrew perto das mesas de comida e bebida. Pareciam estar discutindo alguma coisa. As pessoas veriam e acreditariam que eles estavam falando sobre os N.O.M’s. Mas eu tive essa impressão de que não tinha nada a ver com isso, desde a noite em que Andrew soube que Parrish estava pegando a Hollie. Andrew estava com a máscara para cima, destampado o rosto, enquanto olhava o professor, que falava algo para ele. Com um movimento imperceptível, Andrew deixou a bombinha de asma dele em cima da mesa. Erro grave, desatento. Pois quando se afastou, esqueceu de verificar se havia pegado de volta. Ele saiu, deixando aquilo que o mantinha em fôlego em cima da mesa.
Parrish reparou no mesmo que eu. Olhou a bombinha, mas não se mexeu para avisar que Andrew estava se esquecendo dela. Em vez disso, trocou olhares com Hollie, e saiu de perto, sem dar a mínima para aquele objeto, ou pelo fato de que Andrew poderia sofrer um ataque se não tivesse aquilo no bolso.
Eu me levantei, mas não para tirar satisfação com o professor. Eu me levantei para entregar o negócio ao Andrew, porque ele parecia não saber viver sem aquilo. E o Jogo do Terror estava para começar.
No caminho até a mesa de comidas, Amber me puxou para perto dela.
– Hanna não nos deixa em paz. Vamos dançar.
– Amber – comecei a protestar, mas ela agarrou meu braço com força. Dancei algumas musicas idiotas com ela. Quando começou a me beijar, foi difícil me lembrar de Andrew e sua bombinha de asma.
Somente quando as luzes do castelo começaram a se apagar, lentamente, os alunos receberam informações do objeto que deveria ser encontrado, e começaram a se espalhar pelo castelo. Eu fui até a mesa, onde ainda havia a bombinha de Andrew, mas antes que eu pudesse encontrar o garoto com a máscara de caveira, as luzes se apagaram completamente.
Alguém puxou minha camisa. Era Albus.
– Você procura no corredor da torre da Grifinória. E eu volto para a masmorra.
Ele estava falando do objeto. Tirei a mão dele da minha camisa. Albus tinha esse defeito de levar os jogos que ele se dava bem a sério. Eu não. Eu pouco me importava com esse jogo.
Mas eu segurava a bombinha de Andrew e alguma coisa me dizia que eu devia encontrar o garoto primeiro. Acho que foi a lembrança de um episódio no terceiro ano, quando ele desmaiou no meio da sala de aula, por ter esquecido a bombinha no dormitório. E ele estava sentado ao meu lado quando isso aconteceu. As enfermeiras do castelo até tentaram dar poções a ele, mas de nada adiantaram. Todos conheciam Andrew como o garoto da asma.
A varinha de Albus se acendeu e ele me encarou.
– Por que está segurando isso?
Outro defeito de Albus era perguntar as coisas e nunca exigir respostas. Ele ouviu gritos das garotas fora do salão e então correu ajudá-las. A iluminação desapareceu, de modo que tive de acender a minha varinha.
Eu encontrava algum garoto assustado por aí e perguntava se havia visto Andrew. Provavelmente entrevistei dez pessoas até chegar à torre da Grifinória, mas ninguém realmente o tinha visto.
– Scorpius! – exclamou uma voz. Eu me virei e iluminei o rosto de Amber. – Por que você me deixou sozinha?!
– Você viu Andrew? – perguntei.
– Andrew Smith? Ele veio à festa?
– Está com uma máscara de caveira e...
– Não, eu não vi. Scorpius, será que não podemos sair daqui e voltarmos para a masmorra?
– Está com medo?
– Não! Esse jogo é ridículo e-
Ela parou de falar. Seu olhar congelou além da minha direção. Ela apontou com sua varinha e eu girei meus calcanhares, para me dar de cara com um trasgo de três metros atrás de mim, no fim do corredor. Ele olhava para nós, como se estivesse com fome. Apesar de ter consciência de que era apenas uma imagem e de que o Trasgo não faria nada para matar a gente ou qualquer coisa assim, Amber saiu correndo e antes que eu pudesse correr com ela, Amber já havia desaparecido de vista. Era esse o obstáculo da escuridão.
Voltei a ficar sozinho, exceto com a companhia desse novo amigo. Se havia um trasgo protegendo aquela região do castelo, teoricamente o objeto poderia estar perto da torre da Grifinória. Teoricamente, eu devia lutar contra o monstro.
– Bem, cara, prefiro correr – conversei.
Eu disparei até o outro lado do corredor. Infelizmente, estava silencioso demais. Eu não tinha a mínima idéia do que poderia encontrar nos próximos caminhos. A Murta-que-geme ou um casal gemendo? Eu estava esperando tudo, no entanto, exceto aquilo.
Trombei em Rose quando virei o corredor e ela caiu de costas no chão, soltando uma exclamação de dor e surpresa. Eu caí sobre o corpo dela e fiquei feliz que tudo estivesse escuro naquele momento.
– Olhe por onde anda! – eu exclamei nervoso ao perceber quem era. Ela me empurrou de cima dela, não porque desprezava meu corpo quente contra o seu, mas porque o Trasgo não tinha desistido de mim. Ela gritou: “Cuidado!” me empurrando para o lado e ela mesma soltou um feitiço que congelou o Trasgo, antes que ele me acertasse na cabeça. E arrancasse ela com toda força.
– Obrigado, Weasley, mas esse trasgo não ia me causar dano nenhum – eu disse quando nos levantamos.
– Esse é o verdadeiro.
– Hum?
– O professor Inaldo, de Defesa, disse que teria um trasgo a solta, de verdade, essa hora. Ainda bem que você foi esperto e não tentou lugar com ele.
– E como você sabe que esse é o de verdade?
– A cor dele. Mais escura. Os hologramas parecem trasgos verdes fofinhos. Então eu salvei sua vida.
– Mas não se acostume com isso – eu disse orgulhoso. Ela deu de ombros. Tive vontade de abraçá-la, tão agradecido eu estava. Mas me contive, uma vez que ainda tínhamos o trasgo ali perto e eu nem congelado ele era simpático.
– Você parece um pouquinho assustado – Rose iluminou minha cara com a varinha.
– Não é verdade.
– E por que está segurando a bomba de asma do Andrew? – quis saber.
– Oh – eu lembrei. – Ele esqueceu na mesa, mas não deu tempo de procurá-lo para entregar de volta.
Ela não hesitou em dizer, preocupada e realmente assustada:
– Vamos procurar ele.
Enquanto corríamos depressa, iluminávamos cada pedaço do caminho nos corredores e procurávamos Andrew. Rose não parou de se culpar, dizendo que ela tinha avisado para Andrew não sair por aí com aquela máscara, sendo que ele tinha problemas respiratórios. Ela até constatou que a essa hora, ele poderia ter desmaiado. Ou pior.
– Precisamos acabar com o jogo – ela constatou. Ninguém nunca havia acabado o jogo. Quando um aluno queria desistir, ele soltava um feitiço para que chegasse até a diretora e as luzes voltavam a iluminar pelo castelo. Mas ninguém gostava de cortar todo o barato, só por causa disso. Iam zoar eternamente.
– Está bem – eu disse.
E foi então que eu tropecei em alguma coisa com os pés e caí de beiço no chão. Com esforço, voltei a me levantar, e então vi Rose agachada ao corpo inerte de Andrew ali do lado, onde eu tinha tropeçado e chutado sem querer. Eu engatinhei até eles.
– Andrew! – exclamou Rose. Ela havia tirado a máscara dele. Andrew estava ensopado de suor no rosto, e não se movia.
– Você tem algum feitiço para acordá-lo?
– Ele está desmaiado – ela disse, e eu admirei a forma como pareceu calma nessa situação. – Ele tem que ser levado à ala hospitalar.
Sem demora, o feitiço de aviso saiu pela ponta de sua varinha e oscilou pelo corredor, na direção do Salão Principal, onde os professores estariam concentrados caso ocorresse algo grave e alguém precisasse de socorro. Pelo visto, esse ano, eles estavam mais preparados. Um minuto depois, as luzes começaram a se acender, e no próximo minuto, Minerva e os demais professores vieram em nosso encontro.
– Weasley, o que houve? – perguntou a diretora.
– Smith está desmaiado, ele perdeu a bomba de asma dele e...
– Está na mão do Malfoy. – Era a voz de Perrish. Eu quis socá-lo quando o vi. Era como se ele estivesse me acusando de ter escondido o objeto de Andrew.
– Claro, você foi preguiçoso demais para ocupar as suas, não é? – alfinetei.
– Não sei do que está falando.
– Esperem! – disse a diretora. – Inaldo e Perrish, por favor, levem Smith para a ala hospitalar. Rápido.
Os dois atenderam a ordem da diretora, embora Perrish não parecesse muito animado com a idéia. Mesmo assim, Inaldo carregou o garoto com sua ajuda. A diretora se voltou para nós dois enquanto eles saíam:
– O que aconteceu?
– Malfoy estava procurando Andrew para entregar a bomba de asma, mas não o encontrávamos – disse Rose. A diretora olhou para mim.
– Você ia entregar a ele?
– Sim, ele havia esquecido em cima da mesa pouco antes do jogo – eu apenas disse. Se parecia que eu estava mentindo ou não, foda-se. Eu não estava mentindo e sabia disso. Não tinha que convencer com mais nenhuma palavra.
– Vinte pontos para a Sonserina, então – ela disse, analisando-me. – Por uma atitude que não vemos em qualquer sonserino.
Ela deu as costas para sair, murmurando algo como: “Ou em qualquer Malfoy”, mas deve ter sido impressão minha.
Rose deu um tapinha em meu braço.
– Ganhou pontos!
– Mas Andrew desmaiou.
– É uma atitude. Amber, por exemplo, não teria a mesma disposição de encontrá-lo, ou ao menos perceber que ele precisava desse negócio.
Eu ia retrucar por ela ter falado da minha namorada assim, mas acontece que Rose tinha razão. Além disso, ela até parecia um pouco impressionada. Então era isso que a agradava?
– Eu não fiz nada demais.
O que mais me impressionou não foi Minerva ter dado vinte pontos para mim, o que me impressionou foi ela não ter questionado se eu estava ou não mentindo. O que me impressionou foi ela ter confiado que eu realmente tive intenção de ajudar meu colega, e não atrapalhá-lo.
– Acho que você fez grande coisa, Malfoy. Ou só está sendo humilde demais?
– Estou só sendo humilde – pisquei um olho, ajeitando a gola da minha camisa, com presunção admitida. – Ei, quando descobrirem que você acabou com o jogo, vão te odiar para sempre.
– Mais do que eles já odeiam quando dou bronca depois que ganhei esse distintivo? Acho impossível. – Ela levou isso na brincadeira, enquanto voltávamos para o Salão Principal juntos. – De qualquer modo, espero que Andrew não sofra graves conseqüências.
– Eu também não. Escute... – De repente eu havia segurado o braço dela e a feito se virar para mim. Antes de entramos no salão eu falei com a voz baixa: – Perrish. Eu estava vendo ele conversando com Andrew. Andrew deixou a bomba dele em cima da mesa e esqueceu de pegar depois. Perrish viu tudo, mas não devolveu ao Andrew. Não foi impressão minha.
Rose franziu a testa, tentando entender o que eu queria dizer com aquilo.
– Scorpius – eu percebi aquele tom de voz. Aquele tom de quem não acreditava muito na minha conclusão de que Perrish poderia querer ver Andrew ferrado, só para não haver perigo de que Andrew saísse contando para todo mundo que ele estava pegando Hollie. – Uma coisa é ele gostar de Hollie e outra é ele querer causar danos em Andrew para...
– Você acha que só estou falando isso porque não gosto daquele professor? Eu não desvio as coisas para o lado pessoal, Rose, mesmo assim eu estou desconfiado.
Ela ia dizer alguma coisa, mas Tyler Scott se aproximou tão preocupado que você poderia ver a ruga no rosto dele depois de abraçar Rose com força.
– Está tudo bem? Por que chamou os professores? Estão falando que aconteceu alguma coisa e-
– Estou bem, Tyler – ela disse. – Estou bem, quem não está é Andrew Smith. Ele desmaiou. Tinha perdido a bomba de asma e Malfoy achou, mas não deu tempo de devolver.
– Bem, espero que não seja nada grave.
– Acho que a coisa mais grave vai acontecer quando Albus brigar comigo por eu ter feito o jogo ser parado – ela disse toda otimista.
– Que nada – eu coloquei as mãos no bolso, olhando enquanto Albus comemorava com o pessoal da Sonserina no centro do salão. Ele sorria e segurava entre o dedo indicador e o dedão uma moeda. Era esse o objeto, uma moeda antiga. Estava orgulhoso e satisfeito por tê-la encontrado. – Acho que ele conseguiu encontrar o objeto em tempo recorde esse ano.
Depois da vitória, a Sonserina havia passado a Lufa-Lufa e com os meus vinte pontos extras ela estava empatada com a Corvinal. Debochei de Rose, mas não deu tempo de aproveitar o empate porque ela preferiu se afastar com Scott para eles comerem alguma coisa, e eu voltei a me encontrar com Amber. Ficamos olhando as pessoas, sentados, com ela segurando a minha mão, enquanto a festa rolava depois de um intenso e rápido Jogo do Terror. Nós não conversamos muito. Não éramos assim.
Já no final da festa, voltei com Amber para a sala comunal, aproveitando que Albus estava ocupado demais discutindo com Natalie, e Rose... bem, ela estava em algum canto com Scott. Assim que entrei com Amber na sala, nos animamos ao vê-la um pouco vazia ainda.
– Você parece calado – ela me disse, puxando-me até o sofá. – Bem, parece maiscalado. Você está preocupado com o que aconteceu ao Smith? Eu sei que eu não sou a melhor pessoa com ele, mas não é mentira quando eu digo que o garoto desmaia uma vez por semana. Então por que se preocupar? Ele está bem.
– Não, não estou pensando nisso – eu disso, tranqüilo, e então ela fez algo alucinante quando me sentei no sofá. Ela jogou a perna direita para o meu lado, e sentou em meu colo. – Estou pensando naquilo que você disse... – eu segurei uma mecha do seu cabelo loiro. – Sobre você precisar de ajuda para tirar essa roupa. – E abri meu melhor sorriso, pelo menos para que ela entendesse minha vontade.
Para a minha sorte, ela começou a me beijar. Quando o beijo já estava quente o suficiente para eu perder o fôlego, perguntei:
– Não tem zíper, certo?
– Hum?
– Eu sou péssimo em fechar zíper ou sequer abri-los...
– Do que está falando, Scorpius?
Eu estava com essa lembrança sobre o vestido de Rose na minha cabeça, o que achei estranho. E errado. E ridículo.
– Nada – falei depressa, ainda sorrindo. Eu voltei a beijá-la, passeando minhas mãos nas suas costas. Beleza, nenhum zíper. Ia ser fácil.
– Você quer ir pro meu quarto? – perguntou quando consegui arrancar sua blusa e ela apenas estava de sutiã a minha frente.
Tanta faz, pensei beijando o seu pescoço. Vamos fazer aqui mesmo, não me importo, só tira essa roupa logo e...
Ela afastou meu rosto, saiu do meu colo, e me levou até o quarto dela. Eu não reparei nos detalhes daquele lugar. Só sabia que tinha várias camas e, quando voltamos aos beijos, eu só tive vontade de chegar até uma. Não importava qual.
Ela suspirava forte e, louco com a idéia de finalmente transar, eu tirei meu casaco e depois a minha camisa. Abria os botões com dedicação. Amber parou de me beijar, sorrindo, e a mão direita dela se ocupou em abrir o zíper da minha calça. Enquanto isso eu abria a calça dela também beijando o seu pescoço.
Aquela mão direita entrou em minha calça. Já havia acontecido isso algumas vezes. Amber sempre foi ousada. Enquanto ela apertava minha ereção com seus dedos delicados, eu abafei um gemido. Depois que ela abaixou minhas calças, acho que nunca me vi tão excitado.
Nós caímos na cama e eu a ouvi falando alguma coisa sobre aquela não ser a dela, mas estávamos pelados demais para nos importarmos.
Ela não parecia nenhum pouco virgem, só que quando eu já estava em cima dela, direcionado a sua entrada, ela disse desesperado:
– Calma. Eu... tenho medo...
– Medo? – Eu estava transpirando, duro entre minhas pernas. – Vai ser bom.
O que diabos eu fui garantir? Eu não sabia de nada. Só queria penetrá-la. E ela confiou em mim.
Chorou quando fiz isso. Não desesperadamente, mas eu vi as lágrimas. No entanto, não me fez parar. Ainda bem. Eu fiquei escondido com a cabeça em seu ombro e só me lembro de ter gemido muito. Não me lembro de ter escutado um som sequer da sua voz. Acho que nem cheguei a reparar. Era mais instinto do que experiência; foi a primeira vez que transei com alguém. Qualquer prazer que ela havia sentido, foi só pela minha intenção de dar, porque eu não fazia a menor idéia do que estava fazendo.
Ficávamos nos movendo, o corpo frágil dela embaixo do meu. Os dedos apertando meus cabelos. Eu só sentia isso, a explosão chegando, meu pênis deslizando dentro dela em cada movimento do meu quadril. Eu finalmente voltei a encará-la. Ela estava séria, ofegante, como eu. E eu nunca tinha reparado que os olhos dela eram verdes, a cor de um lago perto da mansão. Ela ficava mandando que eu me movesse com mais velocidade e cada vez que eu obedecia, mais perto de acabar com aquilo eu ficava.
– Vou gozar – avisei, gemendo. Antes que ela entendesse, eu já o havia feito, não dentro dela, já que eu havia vestido uma camisinha. Mesmo assim, continuei impulsionando meu quadril contra o dela, que se inclinava na minha direção, gemendo meu nome baixinho e reprimido. Estávamos suando quando ela me abraçou com força e nos acalmamos.
Saí de cima dela e fiquei ao seu lado olhando para o teto. Eu sentia seu olhar sobre mim, mas não retribuía. Nenhuma vez cheguei a querer pensar que ela havia se decepcionado. Meu prazer era tanto que meu egoísmo e estranheza pareciam imperdoáveis.
– Então... fizemos isso mesmo – comentei baixinho.
– Sim – ela disse cobrindo-se com o cobertor. – Foi...
Não deu tempo de ouvir, porque a maçaneta do dormitório fez barulho. Alguém queria entrar. Amber exclamou:
– Hanna! Oh meu Merlin, Scorpius... – cochichou, me arrastando fora da cama. – Coloque as roupas e...
Ela pegou minha cueca e minha calça e me enxotou até o banheiro. Por último, antes de fechar a porta, jogou minha camisa na minha cara também. O banheiro dela era cheiroso e rosa, cheio de maquiagens. E eu estava pelado lá dentro, o espelho refletindo meu corpo.
– Amber – ouvi a voz de Hanna lá do quarto. Estava abafada, como se estivesse chorando. – Você não sabe o que aconteceu... Oh! Por que você desmanchou a minha cama? E que sapatos são esses... você... Oh! Não!
– Hanna, calma, eu explico.
– Vocês dois transaram na minha cama! Como tem coragem?
Eu me limpava rapidamente, pois caso ela resolvesse verificar o banheiro eu precisava me aparentar menos imprestável, e com mais roupas.
– Confundimos a cama, apenas isso! – argumentou Amber, o que não era uma mentira. – Pare de chorar! Está agindo assim, como se tivesse inveja, e eu não-
– Inveja? Não chega nem perto disso! Idiota... Nunca mais fale comigo!
– Hanna, espere!
– Nunca mais vou olhar para você! Estou com nojo de você!
A porta do quarto bateu tão forte que o lugar até estremeceu. Eu saí do banheiro, notando que Amber voltara a ficar sozinha.
– Hum, você está legal? – Eu vi que ela estava com lágrimas nos olhos quando se virou para mim. Fez que sim, embora estivesse na cara que não. Eu jurava que ela tinha gostado, eu jurava que... Talvez esse não fosse o problema, afinal de contas. Talvez ela estivesse chateada porque a amiga dela agora brigara com ela. Garotas eram assim, não eram?
Quando se aproximou de mim, achei que ia me beijar, achei que ainda ia querer transar de novo. Mas passou por mim e entrou no banheiro, trancando a porta, sem dizer nada.
Acho que aquele foi um tchau.
Amber fazia coisas piores do que transar na cama da melhor amiga, então eu acabei não entendendo porque ela parecia tão arrependida disso. Percebi o quão sonolento eu estava à medida que caminhava até o quarto dos monitores. Tomei banho e me joguei na cama, dormindo imediatamente. Estava extasiado, com a lembrança fresca na mente sobre ter tido uma garota inteiramente nua embaixo de mim, pela primeira vez.
E a vontade de ter isso de novo? Inexplicável.
No café da manhã do dia seguinte, tudo o que se ouvia dos alunos eram os comentários sobre a festa, o que aconteceu e não aconteceu durante ela. Ninguém, no entanto, perguntou sobre Andrew. Ele ainda estava na ala hospitalar, desmaiado. Tentei encontrar Amber na mesa da Sonserina, mas não a vi a manhã toda.
Albus sentou ao meu lado e estava tão cansado que derrubou a cabeça na mesa. Na verdade, dentro do pode de geléia.
– Noite ruim, pelo visto – eu disse, rindo para a sua miséria.
– Esgotado – respondeu. – Esgotado de tanto ódio. Por que Rosie tem que ser amiga daquela garota? Seria tão mais fácil para andarmos juntos... E você foi embora mais cedo da festa ontem, seu desgraçado.
Eu só mordi o pedaço de uma maçã, sorrindo, enquanto ele mesmo deduzia o motivo.
Pouco antes do almoço, cruzei com Amber no corredor. Se eu não tivesse segurado seu braço, ela ia passar por mim sem perceber.
– Oi – eu disse.
– Scorpius – ela afastou quando eu me aproximei para beijá-la. – Eu odeio brigar com Hanna. Escute, não é problema seu, então... eu prometo que a gente conversa depois que eu ajeitar as coisas, agora só... Eu preciso ir.
– Você está estranha, eu achei que você queria ontem e-
– Não é isso – ela sorriu um pouco. – Está tudo ótimo, não se preocupe. É que... fizemos essa besteira de usarmos a cama da Hanna. Ela nunca vai me perdoar.
– Então por que iria perder seu tempo pedindo desculpas? – eu perguntei secamente, e o sorriso dela desapareceu. Afastou a minha mão de seu braço. Não pensava que, alguém como ela, ia se preocupar com amizade ao lugar do sexo. Aquilo era uma novidade para mim.
Foi logo depois de ficar impressionado que alguém puxou a minha camisa quando eu estava virando o próximo corredor, sozinho. Era Rose e ela estava segurando a varinha.
– Epa, o que é esse seqüestro? – eu perguntei ao vê-la. Ela estava frustrada e nervosa.
– Eu não contei a ninguém sobre o duelo com Dimitre. Você não contou, contou?
Oh, o duelo! Eu tinha me esquecido completamente disso.
– Não – falei calmo. – Eu sei quando alguma coisa tem que ser mantida em segredo.
– Ok. Então se encontrar Dimitre, diga para ele me procurar na Sala Precisa que eu o estou esperando – ela rosnou. – Ah, e diga que ele pode trazer a torcida dele também. E diga também que...
– Tenho cara de coruja particular, por acaso, Weasley? – interrompi. Percebendo que ela estava muito agitada, eu falei: – Relaxa. Dimitre só vai deixar você inconsciente e... Não estou subestimando! – acrescentei. – Só estou dizendo que nada de grave pode acontecer. A não ser, é claro, McGonagall descobrir que você também participou de um duelo e aí você pode dizer tchau para o seu precioso distintivo de monitora que você tanto sonhou em ter.
– Cale a boca. E apenas faça o que eu pedi!
Ela saiu e eu concordei em fazer apenas o que ela pediu.
Eu devia ter cara de coruja particular mesmo, porque Dimitre me encontrou para me pedir a mesma coisa. Até que todos nós nos reunimos na Sala Precisa, prontos para o duelo. Quando cheguei, os amigos de Dimitre me saudaram. Mas eu os ignorei e fui até o lado de Rose, que mantinha a varinha firme entre os dedos, parecendo pronta e nervosa ao mesmo tempo. Encarou-me com um certo tipo de agradecimento por eu estar ali, meio que sendo o único a apoiá-la.
– Está traindo o movimento! – exclamou Dimitre, rindo, para mim. Então pegou a varinha do bolso e a girou entre os dedos, voltando a encarar Rose há quatro metros a sua frente. – Você quer que eu pegue leve?
– Se você quiser perder, por mim está ótimo.
Ele pareceu não gostar dessa resposta e Rose viu o olhar desafiador dele antes de se posicionarem um de frente ao outro. Rose era inteligente, sim, e ela sabia todas as respostas. Mas não sabia ler a mente das pessoas ou adivinhar o primeiro ataque.
Mesmo assim, demonstrou-se a altura de Dimitre. Ela sempre estava disposta a superar qualquer expectativa.
No começo, Dimitre pareceu estar pegando leve. Dava uma ou duas risadas, garantindo que tudo estava bem para o seu lado, mesmo que Rose conseguisse revidar com feitiços impressionantes. Eu ficava assistindo, observando, meio que torcendo.
As coisas se tornaram interessantes quando Dimitre acionou o feitiço Estupefaça. Rose o bloqueou com Impedimenta. Uma parede de ar se formou entre os dois e Dimitre, dessa vez, não riu quando o feitiço se dissolveu, deixando de atingi-la.
– Nada mal – admitiu, embora estivesse quase rosnando essas palavras. Sem dar uma chance de Rose respirar e entender que havia bloqueado um feitiço contra ele, meu primo exclamou: “Locomotor Mortis!”.
As pernas de Rose se juntaram uma na outra. Tentou separá-las, mas estavam grudadas. Ela arregalou os olhos para Dimitre, que voltou a rir com os amigos.
– Isso não é engraçado – ela disse nervosa.
– Sei lá, eu achei engraçado – provocou, arrogantemente.
– Fique parada – dei força.
Rose só se moveu para virar o rosto em minha direção, com uma expressão irritada.
– Ah, valeu pela dica útil – e ela quase cuspiu a palavra “idiota” depois, mas preferiu dizer a Dimitre: – Bem, quer algo mais ridículo, então?
Mesmo assim, gritou: “Furnunculus” com a varinha apontada na direção dele.
– Não! – Dimitre exclamou, indignado, passando a mão no rosto à medida que pequenos furúnculos pipocavam sua pele lisa e morena. Antes que até os sonserinos rissem, inclusive os gêmeos Zabini, Dimitre ficou irritado: – Você vai pagar por isso, sua... sua... Everte Statum!
Rose foi atingida com força. Seu corpo se chocou contra parede da sala quando deu uma pirueta no ar e foi arremessada uns cinco metros. Eu apressei-me para socorrê-la. Achei que ela havia desmaiado, mas me enganei no segundo que segurei o braço dela e ela empurrou minha mão.
– Estou bem – rosnou nervosa, levantando-se. Ela proclamou rapidamente: –Expelliarmus.
A desarmação foi perfeita. A varinha de Dimitre deu mais piruetas que Rose instantes anteriores. Ser desarmado era como sofrer humilhação. Mesmo assim, Dimitre ainda riu mas não tão confiante como antes.
– Eu posso pegar a varinha de volta, viu?
Ele ia dar passos até a varinha, mas a porta da Sala Precisa se abriu, revelando um colega da Sonserina, um dos amigos de Dimitre. Ele parecia ofegante, como se tivesse corrido milhões de milhas para chegar até ali.
– Dimitre, corre, a diretora está procurando você!
– O quê? Como assim? Você contou a ela? – gritou para Rose, pegando a varinha do chão depressa e apontando para ela.
– Eu não disse nada – falou Rose depressa.
– Então por que ela estaria me chamando?
– Eu não sei, vai lá descobrir!
– Se for o que eu acho que é, vai ter vingança, Weasley, vai ter. E esse duelo ainda não terminou!
Ele pareceu aliviado por ter tido uma desculpa para poder sair de lá. Seus amigos o acompanharam, deixando-me sozinho com Rose ali na Sala Precisa.
– Até quando ele vai ficar com aquela cara nojenta? – perguntei, desejando nunca poder duelar com ela.
– Em dez minutos some – ela estava caminhando depressa para sair de lá também.
– Você realmente contou a ela sobre os duelos ilegais?
– Não – respondeu. – Não contei nada. Realmente não sei por que ela estaria chamando. Mas as chances dela ter feito a descoberta sozinha não são poucas, são?
Eu não respondi, embora estivesse concordando mentalmente. Mas, logo mais tarde, descobri que não tinha nada a ver com o que estávamos pensando, ou com o que estava acontecendo. Foi uma surpresa para mim, também, voltar a Sala Comunal da Sonserina e receber a visita especial da minha mãe. Ela nunca apareceu por lá antes, então quando a vi fiquei meio surpreso. Desci as escadas e me aproximei dela perto do sofá.
– O que está fazendo aqui, mãe? – perguntei.
– Eu precisava autorizar sua saída – ela disse, descruzando as pernas e se levantando. Meus colegas pelo canto da sala estavam olhando em nossa direção. E não era por curiosidade. Eles estavam olhando a minha mãe, como se nunca tivessem visto outra mulher na vida deles. Idiotas. Ela não parecia se incomodar com isso. Não que não notasse, apenas ignorava.
– Minha saída? Mas por quê?
Ela me afastou até um lugar mais escuro e confessou.
– Vamos ao enterro do pai de Dimitre. Alguém o matou ontem.
Eu não soube como reagir a essa notícia. Já havia visto o pai dele algumas vezes, um tal de Markus, que também tinha outros dois filhos de outra mulher, mas esses filhos estudavam na Durmstrang. Não foi um cara de dar muito orgulho. Abandonou minha tia quando estava grávida do meu primo e quase conseguiu roubar a Mansão da minha família. Eu não sabia de outras coisas para sentir muito sua morte. O que me intrigou foi saber que alguém o matou. Mas quem?
– O enterro acontecerá hoje a tarde, então você irá precisar sair hoje.
– E cadê o Dimitre?
– Está com Dafne agora. Mas eu aconselho a não chegar perto dele. Quando foi informado do assassinato, tentou quebrar a sala de Minerva. Troque de roupa, querido, vou esperar você lá fora.
– Tchau, sra. Malfoy – ouvi alguém dizer mas minha mãe saiu sem dar a mínima atenção. Eu ainda estava absorvendo a notícia, quando ouvi perguntarem a mim se eu poderia convidá-los para passar as férias na minha mansão.
Eu os empurrei para subir até o dormitório e trocar de roupa. Albus estava por lá e o avisei sobre o acontecimento. Ele também não soube reagir, como se o assunto o pegasse de surpresa. Hesitou, tentando encontrar algumas palavras. Só o que perguntou foi:
– Posso ficar com a sua cama no quarto dos monitores essa noite, então?
Eu não pude deixar de rir, incrédulo.
– Já te disseram que você é bem desprezível para um Potter?
– Bem, é que você nunca falou do seu tio. Não sei o que dizer realmente.
– Ele não é meu tio. É só um cara que o meu primo costuma chamar de pai.
– Então você não se ofendeu com a minha pergunta, certo?
– Contanto que você troque o lençol antes de eu chegar, não há problema.
Ele sorriu, garantindo que assim o faria. Fui me trocar e, depois, encontrei-me com minha mãe na sala da diretora, para podermos viajar pela lareira. Dimitre estava por lá também, calado e estranho, trêmulo. Nunca o tinha visto assim. Cumprimentei com um aceno a minha tia. Ela mal nos encarava e estava séria, mas não chorava. Nenhum de nós chorava.
Só que eu nunca havia ido a um enterro antes.
Os outros irmãos de Dimitre odiavam Dimitre. Desprezavam-no como se ele fosse um bastardo. Em vida, até mesmo o pai dele o desprezava como se ele fosse um bastardo. No entanto, ali no velório do cara, Dimitre viu o pai dentro do caixão e, afastando-se de minha tia, aproximou-se dele com um rosto contraído em desespero e incredulidade. Todos estavam distantes do caixão, apenas observando. Inclusive a outra ex-mulher dele. E a atual mulher viúva e a amante ali do lado. Minha tia tentava afastar Dimitre do caixão, principalmente quando ele começou a berrar para o pai, inerte pela morte e tranqüilo, talvez, no inferno.
E não eram palavrões. Bem, eram. Mas pareciam mais com uma súplica, do tipo “Acorde, desgraçado! Você está devendo os ingressos para o campeonato europeu de Quadribol que prometeu a mim!” Foi uma cena que eu não soube entender. Acho que fiquei com pena de Dimitre. Ele não tinha mais o pai.
Em outras palavras, meu primo era o mais caloroso e sentimental dali. Enquanto berrava e as pessoas olhavam, ele chorava debruçado ao caixão. Dafne havia desistido de tirá-lo ali perto e voltara a ficar ao lado da minha mãe, observando o filho sem nenhuma lágrima nos olhos.
Alguém segurou meu ombro e eu olhei. Meu pai estava entre nós, ao meu lado, com o braço dado com o de minha mãe. Não que eu não tivesse reparado, mas aquilo pareceu significar muita coisa de repente.
O enterro foi rápido e tão silencioso que fez com que eu quisesse sair de lá. Todos estavam com seus guarda-chuvas estendidos enquanto chuviscava. Dimitre estava ali a frente, o mais perto possível do caixão. Mas já havia se acalmado. Ou piorado, quando acabou. Agora estava olhando o vazio, com as mãos nos bolsos.
Deu-se por encerrado simplesmente quando aqueles bruxos começaram a ir embora do cemitério, logo depois que Markus fora enterrado.
– Vamos – permitiu minha mãe e não demoramos muito para sairmos também. Minha tia nos acompanhava, enquanto Dimitre mal se mexia. Tentamos chamá-lo, mas não respondeu nenhuma vez. Desse modo, nos afastamos do cemitério sem ele.
Na saída, um homem de sobretudo e óculos escuros nos parou abruptamente. Mostrou um distintivo – não como os dos monitores de Hogwarts, mas como os dos aurores do Ministério da Magia. Dirigiu-se a minha tia, com um discurso estranho. O que eu e meu pai entendemos foi:
– Acabou de ser registrado a execução da maldição imperdoável em sua residência no mesmo horário da morte de Markus Moore, sra. Greengrass. Exigimos que entregue sua varinha. – Minha tia não relutou. Tentou, mas encarou minha mãe e se conteve. Voltou a olhar para o auror e obedeceu, entregando a varinha de uma forma peculiar e leve. – A senhora está sendo acusada de homicídio e vamos prendê-la até o início do seu julgamento.
– Eu não fiz nada – disse minha tia enquanto o homem soltava um feitiço que algemava seus pulsos. – Astoria, diga a eles... diga a eles que eu não fiz nada.
Minha mãe havia se soltado de meu pai e parecia paralisada, sem saber o que dizer. E mesmo se soubesse o que dizer, não daria tempo. Quando Dimitre viu que sua mãe estava sendo levada e acusada de assassinar o cara que ele chamava de pai, só faltou ele ter quebrado as lápides daquele cemitério.
Um escândalo que não adiantou nada. Dafne fora para o Ministério mesmo assim, acompanhada aos homens de lá, algemada. Minha mãe tentou acalmar Dimitre, que teria socado ela se meu pai não tivesse o segurado antes. Mesmo com aquela agressividade, ela permitiu que meu primo passasse a noite na Mansão já que ele ficaria temporariamente sem nenhum responsável. Pelo menos não enquanto minha tia não provasse sua inocência. O problema era que isso não ia ser tão fácil assim.
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