Born For This
5 Rumor Has It
Parrish jogou o teste na minha carteira, sem dizer nenhum “razoável”. Acho que a coisa já estava ficando repetitiva demais. Então ele optou em dizer, quando olhei para ele com expectativa de ouvir mais um daqueles comentários que fazia meu dia:
– Já não bastava um aluno filho de assassino. Agora temos dois. E da mesmafamília. Detestável.
Eu estava sentado ao lado de Rose, e quando ele foi entregar o teste para ela, eu disse:
– Bem, obrigado, professor. Todos nós fazemos algo que nos arrependemos. Matamos, pegamos uma aluna na sala de Transfiguração à noite. Mas nem por isso somos condenados, não é mesmo?
Ele bateu a mão na minha carteira, assustando a classe inteira. Eu sorri quando sua cabeça ficou perigosamente perto da minha, no momento em que rosnava as palavras:
– Detenção. Sete horas. Na minha sala.
– Oh, diga que não é assim que você e Hollie Cooper se comunicam – falei com um temor fingido. – Porque, o senhor sabe, não faz o meu tipo. Muito velho.
– Saia da minha sala, agora.
– Com prazer – eu disse, pegando a minha bolsa com tanta rispidez que quase a acertei em Rose. Ela desviou a tempo, olhando-me incrédula. Eu não olhei para ninguém. Acho que afetei o ambiente com o que eu disse. Então saí da sala. Nem me preocupei em levar o teste corrigido comigo.
Passei a tarde toda fora das aulas, deitado no sofá da Sala Comunal, que estava vazia. Uma hora ou outra entrava alguém, mas eu nem dava atenção. Na mesinha ali a frente o Profeta Diário estava estendido na página que revelava os suspeitos sobre a morte de Markus Moore. A poção da verdade indicava que Dafne não estava mentindo quando afirmava não ser a culpada. A varinha da minha tia fora usada para matar o homem, justamente no horário do assassinato, perto da casa dela. Ou ela conseguiu enganar a poção da verdade – o que era impossível – ou alguém queria muito ferrar a pele dela, cometendo o ato – o que não era nadaimpossível.
Ainda estavam tentando encontrar o verdadeiro assassino, mas enquanto não encontravam, algumas pessoas não duvidavam de Dafne. Pelo menos ela havia se livrado de uma estadia na prisão.
Dimitre era o que estava sofrendo mais conseqüência. Ultimamente andava sem a companhia dos melhores amigos. Passava a maior parte do tempo sozinho e não conversava com ninguém. Ou ele estava apenas depressivo, ou ele estava tramando alguma coisa, em silêncio. O mais estranho disso tudo era que ele nem estava mais ligando para Rose, nem voltou a desafiá-la a um duelo.
Antes de cumprir a detenção, fiquei com Amber, dentro do armário de vassouras. Estávamos suados com nossos uniformes, com a minha calça aberta apenas no quadril, enquanto ela tentava se mover sobre mim, e a calcinha jogada ali perto. Aquilo era tão irresponsável, tão louco, tão errado, que eu sorria, tentando não gemer muito alto. Alguém podia passar ali perto e nos escutar. Amber ficava séria o tempo todo. Não era para ser divertido?
Ela saiu de cima do meu colo, sem dizer nada.
– Podemos fazer isso todos os dias – eu comentei, tirando a camisinha.
– Acho que a gente devia parar de fazer isso todos os dias – ela falou, jogando os cabelos para trás. Aquilo me deixou surpreso.
– Você não gosta?
– Sim, é legal.
– Mas...? – adivinhei a oposição.
– Eu queria que você fosse o meu primeiro, Scorpius – ela disse. – E agora não precisamos continuar, você sabe... já deu, entendeu? Literalmente.
– Achei que estivéssemos namorando – exclamei incrédulo.
– Então estamos terminando agora.
– Ah, entendi. Queria apenas transar comigo.
– Por que esse tom de surpresa, afinal de contas? Você queria andar comigo de mãos dadas e me apresentar aos seus pais? Sabe, nós somos iguais, Scorpius.
– Quer dizer então que vai me deixar assim? – eu perguntei irritado, apontando para minha calça aberta. Ela olhou e fez uma expressão indiferente, antes de abrir a porta do armário de vassouras e sair dali.
Sabe, aquela saída não me doeu em nada. Fiquei mais frustrado por ela ter saído enquanto eu ainda estava duro do que pelo fato dela ter terminado tudo assim tão abruptamente.
Definitivamente aquele não foi um dia bom, porque o terminei escrevendo uma redação sobre como era errado desrespeitar os professores e dizer mentiras sobre eles, na detenção com o sr. Parrish. Tive de sair de lá e fazer rondas com Rose. Só que no momento em que cheguei ao corredor, eu a flagrei beijando Scott.
Certo, dona Monitora! Vivia reclamando dos casais que se pegavam na frente de todo mundo e agora estava assim, agarrada ao monitor-chefe num corredor vazio! Onde o mundo ia parar!? Do que está falando, Scorpius? Você transou com Amber no armário de vassouras! Como se ver Rose beijando um garoto fosse um insulto perto disso. E ela estava beijando de língua, porque eles não se soltavam nunca. Droga, quando é que ele ia soltar ela? Está passando dos limites, chefe.
Merda.
– Opa, opa! – eu exclamei nervoso, aproximando-me deles meio que batendo palmas como se estivesse enxotando um cachorro. – Que farra é essa agora?
Os dois se soltaram imediatamente. Rose estava vermelha.
– Mal-
– Não tem desculpas! Eu venho aqui, disposto a trabalhar contigo, e então vocês ficam agarrados enquanto temos que dar detenções a pessoas que não seguem as regras? Que tipo de exemplos vocês são?
Eu era tão escroto.
Scott girou os olhos e ele voltou a segurar a cintura de Rose.
– Até o jantar – ele disse, depositando um beijo no rosto dela. Rose piscou, depois sorriu para ele. Scott se afastou, olhando-me como se eu fosse um idiota. Rose parou de sorrir ao me encarar.
Eu coloquei as mãos na cintura quando ficamos sozinhos.
– E aí, qual é a sua explicação? Está apaixonada? Se estiver, aí eu perdôo.
– Cala a boca, Malfoy.
– Foi seu primeiro beijo? Parece que babou um pouquinho demais, não é?
– Qual é o seu problema?
– Meu? Eu não estou com problema nenhum. Só achei que devesse colocar ordem no recinto. Corredor não é lugar-
– Oh, claro, esqueci que você e Amber são bastante comportados.
– Amber e eu terminamos.
Ela fingiu tristeza.
– Hum, coitadinho.
– Sabe, meio que cansa ficar com uma garota só durante muito tempo. É impossível aguentar. – Ela deu as costas para mim, começando a andar. Não estava interessada nos meus pensamentos. Mesmo assim eu continuei: – Eu nem gostava dela mesmo. E tem tantas outras garotas boas em Hogwarts. Será que Jane House está solteira? Não que isso vá me impedir de tentar alguma coisa. Quem sabe a Drina do quarto ano? Se bem que ela ainda nem tem peit-
– Você está com ciúmes. – Rose parou de andar como se tivesse feito uma descoberta.
– Hein? – eu pisquei.
– Você me viu beijando Tyler. E está com ciúmes.
Comecei a rir. Na verdade, gargalhei.
– Ciúmes? Ciúmes? Me poupe. Eu só acho injusto, sabe? Eu que deveria estar pegando alguém agora, mas então você estava fazendo isso há três minutos e isso não faz nenhum sentido!
– É bom você se acostumar às coisas que não fazem sentido, Scorpius. E é bom se acostumar com o fato de que você está com ciúmes! – ela disse de um jeito provocativo, como se estivesse debochando de mim. Até cruzou os braços, com um sorrisinho. Aquilo me deixou mais irritado e de mau humor ainda.
– Ciúmes de uma garota como você? – perguntei com desprezo. – Por que eu teria?
O sorriso dela desapareceu. Rose ficou me encarando e havia outra expressão em seu rosto, quando me perguntou:
– Eu te incomodo tanto assim, Scorpius?
– Pensa que sempre está certa – respondi. Depois não consegui sustentar o olhar. – Mas você está errada agora. Talvez você queira que eu esteja com ciúmes, para ficar se iludindo enquanto beija Scott imaginando que aquela é a minha boca.
– Você é tão desprezível.
– Conheço meus desfeitos.
– Nem precisa se incomodar em me ajudar na ronda hoje! – ela se zangou. Essa garota me deixava nervoso, muito nervoso. Às vezes tão sem motivo que eu me sentia confuso. – Porque eu não preciso dessa sua companhia insuportável!
– Eu já estou saindo daqui, Weasley. Só te aturo porque Albus é seu primo!
– Eu só te aturo porque... eu NUNCA te aturo! Quer saber, por que você não tira esse distintivo – de repente ela se aproximou de mim e apertou meu peito, tirando o meu distintivo de monitor – e diga a diretora McGonagall que cansou? Que você prefere ficar com Amber e tirar a roupa dela, do que monitorar? Por que você não diz logo que isso não serve para você? Muda de dupla, se eu o incomodo! Não precisa me aturar também só para continuar andando com Albus. Eu não te obrigo a isso!
– Você que pensa. Está aparecendo toda hora sem ser convidada! Você é irritante, Weasley. E pessoas irritantes nunca saem da vida das pessoas. Ficam lá... apenas irritando!
Ela me empurrou e saiu pisando firme. Dez passos depois, ela deu meia-volta e jogou o distintivo na minha direção. Eu desviei antes que acertasse meu rosto. Voltou a sair do corredor, sem dizer mais nada. Apenas bufando.
Eu voltei para a Sala Comunal, com raiva de mim mesmo. Arranquei a gravata do uniforme e me joguei na cama. Eu ia colocar minha mão dentro da calça, para aliviar a droga daquela tensão que vinha me consumindo de um jeito insuportável, mas a aparição de Penélope, minha gata, sobressaltou-me. Ela pulou na cama e se aproximou de mim, lentamente.
– Agora não, Penélope – falei irritado, empurrando-a.
Ela miou. Nunca tinha miado daquele jeito. Eu olhei para ela de novo, com outro tipo de atenção. Seu olhar estava recaído e o miado foi sofrido.
– Que foi? – como se uma gata fosse responder. Ela deitou, encostando-se a mim, e ficou imóvel, ronronando. Demorou um tempinho até eu descobrir que ela estava doente. Passou três dias sem querer comer ou beber água, ficava miando insuportavelmente e toda vez que alguém tentava passar a mão em seus pêlos, ela miava e mordia, como se isso fosse dolorido e não confortável. Não soube o que estava acontecendo, mas ela não estava bem. E eu não sabia o que fazer para ajudá-la, a não ser esperar que isso passasse.
O que melhorava o dia eram os treinos de quadribol. Três vezes por semana, uma hora. Albus ainda estava meio transtornado depois que contei sobre Hollie Cooper estar pegando o professor Perrish, mas quando voltamos aos treinos, decidiu deixar isso de lado e pareceu pouco se importar... para alguém que suspirava o nome da garota a noite, era um ótimo avanço.
– Cadê a Rose? – perguntei quando reparei que não havia ninguém assistindo ao treino. Albus estacionou a vassoura a minha frente.
– Não sei. Acho que com Scott.
– Então a coisa está séria?
– Ela parece gostar bastante dele. Por quê? Ciúmes? – brincou, jogando a gole na minha direção. Eu a peguei e ameacei tacar nele.
– Cala a boca, Potter. Eu acho que eles são perfeitos um para o outro. Chatos iguais. Almas gêmeas.
– Ei, mariquinhas! – gritou Zimmer do outro lado do campo. – Parem de ficar batendo papinho e voltem a treinar!
À medida que novembro chegava à metade, as chuvas eram trilhas sonoras nas horas dos estudos. Os professores começaram a exigir e tirar tempos extras do nosso dia para nos ocuparmos com as revisões das matérias dos N.O.M’s, além dos treinos de quadribol para o jogo contra a Corvinal na próxima semana.
O fato de que um professor estava pegando uma aluna tornou-se um boato, não teve como evitar. Os alunos criavam piadinhas, outros achavam o assunto mais sério. Não havia dúvida de que eu espalhei aquele boato, mesmo sabendo que o professor Perrish não ficaria feliz em saber. Mesmo assim, não me importei. Ele estava me colocando em detenção quase todos os dias. E eu tinha que ficar escrevendo textos e textos com palavras hipócritas.
Na última detenção, eu estava a caminho da sala de aula quando o Perrish apareceu a minha frente. Achei que ele ia dizer que eu não precisava mais pagar detenção, mas de repente ele agarrou o colarinho da minha camisa e me empurrou contra a parede, meio que me enforcando.
Olhei para os lados, desesperado, e o corredor estava vazio. Tentei soltar sua mão do meu pescoço, mas o cara parecia diabolicamente zangado e rosnou:
– Sabe quem veio falar comigo hoje, Malfoy? A diretora. Foi você quem começou o boato, porque Smith aprendeu a lição dele. Mas você não. Você nunca aprende a lição, não é, garoto?
– Não sei... do que está...
– É claro que sabe! Contou para todo mundo que estou tendo encontros com Hollie Cooper!
– Posso ter falado algo sobre iss-
– Escuta aqui, Malfoy, não vai ser você que vai ferrar o meu emprego aqui, está entendido? Se continuar os boatos eu posso fazer coisas ruins, não para você, mas para sua família. Ou pelo menos o que restou dela.
Sem querer, um riso de deboche passou por mim.
– O que pode fazer? Você só é um professor de História da Magia.
Achei que ele ia me dar um soco. Se realmente ia, não tive certeza. Fomos interrompidos.
– Ei! – ouvimos alguém gritar e Perrish se afastou. A voz era conhecida.
Dimitre estava correndo em nossa direção, gritando: “Solta meu primo, filho da puta!” ou era só impressão minha?
Dimitre empurrou Perrish com tanta força que ele nem reagiu. Nem se pudesse, Dimitre não ousou lhe dar tempo. A cada soco que dava no professor, ele gritava: “Ninguém. Mais. Vai. Ferrar. A minha família!” E houve um momento que conseguiu derrubá-lo no chão. Eu tentei impedir que ele continuasse chutando o corpo do professor, mas Dimitre me empurrou para o lado, e tirou a mochila das costas. Antes que ele voltasse a agredir o professor com ela, como se ele fosse o assassino de seu pai, alunos apareceram no corredor e viam a cena.
– Dimitre, pare! – falei, segurando-o. – Você vai ser expulso, idiota. Pa-
– O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?
Era como se alguém tivesse chamado por socorro, e o professor de Herbologia aparecesse de repente. Dimitre estava ofegando, com os punhos fechados, quando ele se aproximou, incrédulo. Depois a expressão de Longbottom era... era muito indecifrável. Eu fiquei com medo.
– Para a sala da diretora. Os dois jovens. Agora.
Cinco minutos depois estava Dimitre e eu sendo encarados pelo olhar da diretora atrás de sua mesa e o olhar dela era bem difícil de se sustentar. Perrish estava na ala hospitalar a essa hora, provavelmente colocando as costelas no lugar. Enquanto isso, McGonagall nos falava sobre as regras da escola, sobre ser inadmissível a agressão física principalmente contra um professor. Até que finalmente Dimitre admitiu, com um aceno negativo na cabeça, quando Minerva perguntou se eu havia batido no professor também. Apenas ele levou a culpa.
E ficou estranho o tempo todo. McGonagall lhe dava perguntas, mas ele não respondia.
– Não vai me dizer por que estava batendo no professor? Sabe que sua mãe está vindo novamente para cá, não sabe, Dimitre?
Ele não respondeu de novo. Não a encarava.
– Sei que esse está sendo um momento difícil, pela morte do seu pai, certamente há uma tendência de agir impulsivamente...
Dimitre ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido antes da porta da sala se abrir e revelar Dafne. Ela cumprimentou a diretora e a mim com um aceno. Eu lhe dei o lugar para sentar, ao lado de Dimitre. Fiquei em pé enquanto esperava pela conversa.
Dafne não perdeu tempo.
– Quero fazer a transferência de Dimitre.
– Quê? – Dimitre finalmente reagiu com alguma expressão.
– Vamos conversar, sra. Greengrass – disse McGonagall, mas minha tia não queria conversar.
– Já está decidido, Minerva, Dimitre não vai mais estudar em Hogwarts. Já havíamos conversado sobre isso – Ela olhou o filho. – A senhora deu várias chances a ele, já passou dos limites. Espero que já tenha arrumado as malas, Dimitre. Não agüento mais ser chamada para falar sobre você e seu comportamento hostil. O que ele fez agora? Posso até adivinhar.
– Ele quebrou as costelas do professor de História da Magia – constatou Minerva. Dafne ofegou.
– Por que você faz isso comigo, Dimitre? – ela disse com lágrimas nos olhos e a voz fraca.
Ficou um momento em silêncio no qual Dimitre parecia se esforçar para dizer:
– Perdi a cabeça.
– Você sempre perde a cabeça! É um irresponsável, imaturo... eu estou tão envergonhada de você agora.
– Acho que recebi um exemplo óbvio, mãe. Pena que alguém matou ele.
– Não faça as pessoas sentirem pena de você!
McGonagall pigarreou e disse:
– A transferência é certa, sra. Greengrass?
Ela fez que sim.
– E para que escola?
Acho que a palavra mudou a vida de Dimitre. Minha tia tomou fôlego e respondeu, sem piscar:
– Para Durmstrung.
Diziam que se aprendia a tomar jeito em Durmstrang. Diziam que o diretor daquela escola, um homem que tinha hálito de sangue, sabia como punir os alunos de uma forma severa. A política deles era simples: cuidar para que nenhum bruxo seguisse os passos de um lorde das trevas. Ou de um vagabundo. Era, em outras palavras, uma escola temida. Respeitada pela fama de tornar os piores bruxos em os melhores.
Eu não imaginava Dimitre por lá. Mas ele não discutiu com Dafne. Ele não armou nenhuma outra briga. Arrumou as malas e não falou tchau para ninguém. Exceto a mim. Ele me pediu:
– Não deixe Perrish sair dessa, ileso. Ele sempre ofendeu nossa família. E eu não me arrependo de ter quebrado a cara dele. Tchau.
Depois daquele dia, demorei muito tempo para vê-lo novamente.
– Seu primo foi mesmo estudar na Durmstrang? – Passara-se uma semana desde então. Uma garota se aproximou de mim enquanto eu procurava um livro na estante da biblioteca. Ela era do sexto ano, mais velha, porém mais baixa, e estava mascando chiclete. Tinha cabelos negros curtos. Até aquele momento essa garota nunca tinha falado comigo. Eu não me lembrava o seu nome.
– Sim. Semana passada.
– É difícil ter alunos de outras escolas por lá, principalmente de Hogwarts nessa época do ano. Dizem que o lugar é barra pesada. Talvez ele fique responsável logo de uma vez, não é? Caramba, Perrish levou a maior surra da história. Se bem que o cara merecia. Então é verdade mesmo que o professor está pegando Hollie Cooper?
– Ele só não gosta muito de falar sobre isso – respondi, folheando o livro. A garota riu e me olhava, enquanto enrolava uma mecha do cabelo no dedo.
– E você viu eles se pegando?
– Mais ou menos – pensei. – Escutei.
– Opa! – ela riu de novo. Era uma risada divertida. Demorou um pouquinho para voltar a falar. – E também ouvi dizer que você e a irmã do Zimmer não estão mais se falando.
– Está por dentro do assunto da escola, hein? – Fechei o livro e encostei meu ombro na estante, aproximando-me dela.
– Sou informada – sorriu. Ela mexia na minha gravata. – Vi você no jogo ontem. Até que não é tão ruim assim no quadribol.
– Até que não sou tão ruim? – ergui as sobrancelhas. – Foi meu primeiro jogo.
– Primeiro jogo? Ok, acho que isso muda um pouco as coisas. Foi uma vitória excelente, não pensava que o tal filho do Malfoy pudesse voar tão bem. – Ela girou os olhos azuis para o meu, sem abandonar aquele sorriso interessante. – Você meio que me surpreendeu.
– Acho que sei o que você quer.
– Sair com você, quem sabe. Ou, sei lá, podemos ir para o que interessa aqui mesmo. Não vou reclamar.
Ela sorriu e tirou o chiclete, grudando-o na estante ali do lado, dois segundos antes de avançar para me beijar. Não imaginava que ia acontecer rápido. A língua dela estava na minha boca e no começo eu até tentei me lembrar qual era o nome dela, mas acabou não importando muito. Nos beijávamos e havia entusiasmo de sua parte. Eu tentei gostar do gosto dela, porque ela era bonita e tinha pinta de quem sabia beijar bem. Não deixei de fazer comparação com Amber. Essa garota parecia ousada também, mas era como se estivesse me atacando. A urgência do beijo dela começou a ficar entediante. Abri os olhos antes dela finalmente afastar a boca da minha.
– Até que não foi tão ruim – ela sorriu como se estivesse me aprovando. Tinha um sorriso bonito, mas não o suficiente. Era como se estivesse faltando alguma coisa nela. – Boa sorte no próximo jogo, ok? Até logo.
Ela saiu dali, sem deixar de me olhar. Quando finalmente não estava mais olhando, eu enxuguei a boca da forma mais discreta possível e encontrei Rose e Scott sentados na mesa afastada dali. Tentei parar de ficar observando eles, mas o jeito que ela segurava a mão dele, enquanto lhe contava alguma coisa que parecia ser muito interessante, ficava me prendendo a atenção. Eles riam juntos. Conversavam juntos. Parecia um casal antiquado.
Acho que estavam mesmo namorando, embora eu tenha visto eles se beijarem apenas uma vez, na vez em que discutimos e ela parou de falar comigo. Será que me achava mesmo desprezível? Não importava. Nem sei por que importaria agora. Eu havia acabado de ficar com uma garota que eu nem sabia o nome, na biblioteca.
As rondas estavam começando a ficar diferentes. Mais insuportável do que antes. Pelo menos antes a gente ainda conversava e, pelo menos, discutíamos alguma coisa que me deixava empolgado. Agora Rose estava andando distraída. Às vezes eu a pegava sorrindo à toa. Imperdoável foi à vez que ela deixou um garotinho do primeiro passar por nós correndo, sem dar uma bronca. Eu acabei tendo que fazer isso, já que ela parecia ocupada demais pensando em Scott. E acreditei que a transferência de Dimitre a Durmstrang ajudava a melhorar o seu humor.
O meu estava ficando cada vez pior, desde que Perrish conseguiu convencer a diretora de que não estava mesmo pegando aluna nenhuma e que era um desrespeito ficar jogando esses boatos por aí. Ótimo! A diretora confiava mais nele do que em mim. E não consegui ter a chance de explicar que ele tentou ameaçar a minha família. Mas estava esperando a hora certa, com paciência, para entregar aquele cara.
Albus e eu estávamos estudando para o teste de Poções na biblioteca. Ele estava bastante concentrado, o que era quase um milagre. Eu, por outro lado, só conseguia folhear o livro, sem prender minha atenção por muito tempo em um único texto. Merda. Apoiei minha testa na mão, mas meus olhos desviaram curiosamente para o outro canto da biblioteca.
Como eles conseguiam estudar se queriam ficar se agarrando?
– Você está com tinta na bochecha – disse Scott. Ele hesitou, tentando tirar aquela mancha. Rose percebeu e sorriu.
– Aqui?
– Não, mais aqui – avisou, e finalmente conseguiu tocar o rosto dela.
– Valeu – Rose tirou a franja dos olhos e colocou atrás das orelhas coradas.
Quando notei, eu estava amassando a página do meu livro que falava sobre Poção Polissuco. E foi naquele momento que tive a idéia de como poderia entregar Parrish a diretora. Por que não tinha pensado nisso antes?
– Albus – eu o cutuquei, entusiasmado. – Albus, já sei como vamos provar que Parrish está se envolvendo com Hollie.
Ele olhou para mim.
– O que você pensou?
– Poção Polissuco. Um de nós nos torna o professor, marcamos um encontro com a Hollie fazemos com que a diretora apareça na sala a tempo! Podemos dizer que está pegando fogo. Literalmente, é claro. E quando ela entrar na sala, vai ter a prova de que eles estão envolvidos e ela vai expulsá-lo da escola!
– Não... não acho que seja uma boa idéia. Como vamos conseguir todos esses ingredientes? Nem sabemos fazer Poção Polissuco! É muito difícil, e ainda temos que pegar um pedaço de cabelo do professor. Vai ser impossível.
– Quer parar de ser pessimista? Se você me ajudar, vai ser fácil. São instruções simples! Veja.
Ele pareceu incerto.
– Vai valer a pena – eu insisti. – Sabe por quê? Imagine-se na pele do Perrish.
– Urgh.
– Imagine-se beijando Hollie Cooper. Se você beber a poção, poderá ter o privilégio de sentir a boca dela. Não é isso o que sempre quis?
Ele entendeu e sorriu.
– Podemos entrar em confusão – ele disse. Antes que eu girasse os olhos, ele fechou os livros com força e disse entusiasmado: – Então pode contar comigo.
Continuamos discutindo as hipóteses e os planos, enquanto voltávamos para as masmorras. Eu estava empolgado porque podia dar certo. Viramos o último corredor escuro e nos assustamos quando o fantasma da Grifinória, Nick Quase Sem Cabeça, apareceu a nossa frente.
– Olá, Potter. Malfoy – tirou a cabeça do pescoço em um cumprimento.
– E aí, Nick – disse Albus. – Novidades?
– Eu não pude deixar de ouvir sobre o que vocês estavam falando – ele disse calmo. – Sobre usar Poção Polissuco. Vocês querem entregar o professor de História da Magia de um jeito que nunca iria dar certo.
– Hum? – fizemos, entreolhando-nos.
– Não sou bobo. Vejo o que acontece nessa escola. Além disso, Pirraça me ajuda bastante. Todo mundo sabe que o sr. Perrish não merecia estar lecionando nesta escola. E McGonagall, por mais que saiba sobre os pecados daquele professor, não poderia tirá-lo daqui.
– Por que não?
– Jason Perrish é sobrinho do Ministro da Magia. Agora que houve aquele incidente com o primo de Malfoy, ele pode ser muito bem capaz de contar o que aconteceu, e o Ministro pode fazer algo que deixe McGonagall em maus lençóis.
– Por que está dizendo essas coisas para nós?
– Porque sou parte dessa escola há muito tempo, e sinto falta de um grande amigo meu, que resolveu nos deixar, por infelicidade e insatisfação. – Ele viu nossas impressões e acrescentou: – Cuthbert Binns.
– O fantasma que dava aulas de História da Magia para os nossos pais? – perguntou Albus. – O que aconteceu com ele?
– Ainda não entendo. Disse que queria parar de dar aulas e desde então desapareceu. McGonagall insistiu a ele que continuasse dando aula, mas recusava tanto que a fez desistir. Posso garantir, meus jovens, que se Binns voltar a essa escola, vocês não precisarão... como se diz? Ah, ferrar o sr. Perrish. McGonagall aceitaria imediatamente, e expulsaria aquele rapaz do castelo.
– Ora, então podemos convencer o sr. Binns a voltar! – disse Albus, otimista. – É mais fácil que fazer Poção Polissuco, não?
– Não digo que é mais fácil, mas pode dar mais certo.
– Mesmo se tivéssemos poder de persuasão – eu disse – você acabou de dizer que ele desapareceu.
– Às vezes ele volta para cá – disse Nick, pensativo. – Em um lugar de Hogsmeade, nessa época do ano. Eu prometi guardar segredo, mas não foi um voto perpétuo. Afinal, estou morto há tempos.
– Por que o senhor não o faz voltar, já que ele é seu amigo? – quis saber Albus.
– Não sou um aluno. Por vezes penso que ele apenas gostaria de se sentir interessante para um aluno. Imagina o quanto ele iria se sentir importante se um aluno, um aluno como Potter, mostrar que quer ter aula com ele... talvez as coisas mudem.
– E nos livramos de Perrish – acrescentei, optando imediatamente por tentar aquela idéia. – Em que lugar de Hogsmeade ele mora? Podemos ir até lá.
– Vocês não podem chegar sozinhos. Devem ter companhia.
– O senhor poderia nos levar até lá – sugeriu Albus.
– Sim, claro, mas não estou falando desse tipo decompanhia. Binns aparece aqui todos os anos nessa época, porque há uma festa. E é obrigatório que levem seus respectivos pares para entrarem nela.
Albus e eu nos entreolhamos, preocupados.
– Vamos ter que levar alguma garota? – ele piscou.
– De confiança, de preferência, para que não ocorra perigo de nenhum mortal descobrir que há festa dos mortos em Hogsmeade. Confio em você, Potter. E espero poder confiar em Malfoy também.
– Não sou fofoqueiro – falei ofendido. – Só se eu descobrir que um professor está ficando com uma aluna.
– De qualquer forma, encontrem-me aqui amanhã, às oito horas. Levarei vocês. Eu não estaria fazendo isso se não fosse necessário. Mas não há mais professores exemplares nessa escola. Não esqueçam: roupa formal, pelo menos.
Ele deu as costas, sempre cabisbaixo. Albus olhava para a direção em que o fantasma desapareceu. Eu estava tentando me lembrar de alguma garota de confiança que pudesse me acompanhar a uma festa dos mortos, mas nenhuma me veio à mente. Albus suspirou.
– Bem, acho que vou chamar Rose – disse. – Além de confiável, ela pode nos ajudar a convencer Binns.
Nunca me incomodei quando Albus a mencionava, por isso não entendi porque senti vontade de sair de perto. Depois do jantar, eu tive de me encontrar com ela no mesmo lugar de sempre para monitorar as crianças do primeiro ano. Ela me dava gelo toda hora. Era completamente pessoal, porque quando Albus se aproximou, voltou a ficar toda alegre.
– Oi, Albus!
– Oi, Rosie. Podemos conversar?
– Claro. Vamos a um lugar que Malfoy não precise escutar.
– Scorpius pode escutar também – Albus permitiu. – Afinal, isso poderá envolver nós três. Vamos a um baile da morte. Quer ir comigo? Sei que está saindo com Scott, mas é só por algumas horinhas, até convencermos o ex-professor dos nossos pais, o Binns, a voltar para a escola.
Ele explicou melhor depois, quando ela fez cara de espanto, mas no fim, ao entender a importância, Rose aceitou. Numa boa.
– E não pode mencionar sobre nada disso ao seu namoradinho – eu disse, apontando o dedo. Ela agarrou meu dedo e afastou minha mão.
– Com quem você vai? Alguma garota disponível para enfrentar um baile da morte por você? – debochou.
– Muitas – menti. – Tantas que eu até perdi a conta.
– Ah, é, então quem? – insistiu em saber, com aquele sorrisinho irritante. Eu não ia dar satisfação a ela. No momento em que inventava um nome, Natalia Grace estava se aproximando.
– Natalie! – exclamei feliz e cheguei até ela. – Vamos ao baile da morte juntos?
Natalie sorriu sem perguntar do que diabos eu estava falando.
– Sem problemas, Scorpius. Eu não sabia que você também gostava dessas coisas!
Rose não estava mais dando aquele sorrisinho. Ótimo. Foi a minha vez de sorrir, colocando o braço ao redor dos ombros de Natalie. Eu estava tão satisfeito de tirar o sorriso da cara dela que nem dei atenção à expressão de Albus. Ele sim não parecia nada feliz com o que eu havia feito.
Ficamos de nos encontrar nas masmorras. Nick Quase Sem Cabeça foi pontual, já estava nos esperando por lá depois que Albus e eu saímos da sala arrumados. Terno e gravatas borboletas. Parecíamos ridículos e antiquados, mas era o máximo de roupa formal que tínhamos.
Rose e Natalie chegaram alguns minutos depois. Elas estavam com as mesmas fantasias do Halloween, o que não era exatamente formal, mas serviu. Natalie se aproximou de mim, quando Rose aproximou de Albus.
Nick nos levou até um quadro gigante e negro, no fim do corredor das Masmorras. Nunca havíamos entrado lá, pois era uma passagem secreta que exigia senha. Passamos por um túnel escuro e medonho, o qual fez Natalie agarrar meu braço. Não que eu pudesse protegê-la de alguma coisa.
– Esse lugar me dá calafrios – comentou Natalie.
– Viemos aqui só para encontrarmos o sr. Binns – disse Albus a medida que seguíamos o fantasma. – Não vamos precisar enrolar muito, então não vamos precisar nos socializar com os mortos, ouviram bem? Nem com ninguém.
Ele olhou feio para mim como se eu quisesse pegar Natalie! Até parece.
Finalmente chegamos ao fim do túnel. Assim que nos aproximamos, saímos por uma porta de madeira antiga e desgastada, e entramos finalmente no lugar que parecia ocorrer uma festa entediante.
Aquele foi o lugar mais estranho, medonho, bizarro e infeliz em que eu já estive. Era uma festa normal, com casais dançando e músicas zunindo nossos ouvidos. A exceção era que aqueles casais eram bruxos que haviam morrido há anos. As mesas estavam ocupadas por mulheres e homens, cujos olhares eram hipnotizantes de tanta agonia e tristeza.
– Sr. Nicolas – disse Rose, hesitante. O fantasma virou sua quase cabeça para ela. – O que exatamente esses fantasmas comemoram aqui?
– Não é uma comemoração – respondeu olhando para todos os lados. – É uma convenção.
– Convenção dos Mortos? Eu não sabia que isso existia – disse Natalie. – Interessante. Quem é o cara que devemos encontrar mesmo?
– Fiquem espertos em um homem de chapéu e óculos.
– Há muitos homens de chapéu e óculos – falei, observando o espaço com uma sensação gélida. Não era nada agradável estar ali. Estava frio demais.
Nós adentramos mais em direção ao salão, passando por algumas mesas. Os fantasmas tinham a mesma aparência de Nick Quase Sem Cabeça. Pelo menos, a maior parte deles. Jovens, infelizes e transparentes. Nós quatro éramos as únicas formas vivas daquele lugar. Deveríamos chamar atenção deles, não? Mas provavelmente estávamos tão pálidos que poucos reparavam que havia sangue circulando em nossas veias. Eu me sentia dentro de um sonho esquisito e gélido.
– Vou tentar encontrar Binns – disse Nick. – Encontrem uma mesa, para que eu possa achá-los novamente. E... vocês estão parecendo mais mortos do que nós! Fiquem normais.
Ele saiu, deixando-nos parados ali perto. A primeira coisa que fizemos foi encontrar uma mesa para nos sentarmos. Ultrapassamos alguns fantasmas para chegarmos até lá. Ficamos mais ou menos meia hora sentados, observando os fantasmas que passavam por nós. Alguns paravam e apontavam para Albus, perguntando-se o que um Potter fazia ali. Não vou negar que havia pessoas muito interessantes. Ex-jogadores de quadribol, autores de livros, todos fantasmas.
Foi quando Natalie começou a discutir com Albus sobre um fantasma no fundo do salão. Ela acreditava que fosse William Shields, um jogador de Quadribol, mas Albus teimava que era outro. Fizeram apostas, até que finalmente os dois foram conferir de perto, para tirarem suas dúvidas.
Então Rose e eu ficamos sozinhos na mesa. Bom, não por muito tempo. Ela reparou e se levantou depressa, passando pela pista de dança, em frente a um pequeno palco onde uma mulher elegante cantava deitada sobre o piano de cauda. Eu me levantei depois, seguindo-a. Acabei tendo a impressão de que ela vira o sr. Binns, mas acho que realmente levantei para ir atrás dela, segurar o braço dela e fazê-la virar para mim.
– Pare de ficar dando gelo em mim – falei, irritado.
– Não estou dando gelo.
– Mas está fugindo.
– Eu disse que não conseguia te aturar.
– Nós nos aturamos desde o primeiro ano, não sei por que seria diferente agora.
– Não sabe? – ela crispou, soltando-se da minha mão em seu braço. – Você está insuportável, Scorpius. Sinto muito se não consegue enxergar isso.
– Por quê? Foi só porque eu disse que você é irritante? Ou porque convidei Natalie em vez de você?
Cala a boca, Scorpius, cala a boca.
– Quero dizer – tentei concertar, mas a música que tocava parou tão abruptamente que meu cérebro ficou confuso. As pessoas fizeram murmúrios e olhei para o palco.
A mulher elegante se levantou do piano. Tinha movimentos graciosos. Parecia uma veela e sua voz era angelical, suavizando todo aquele lugar gélido e infeliz:
– A próxima música, eu gosto de cantá-la quando vejo casais por aqui. Olhem para os olhos de seus pares. Se estão aqui, é porque o amor é eterno. Juntem-se, colem-se, dancem ao som da música.
Aquilo foi estranho. Ridículo. Inesquecível, de certo modo. Os casais de fantasmas ao nosso redor dançavam colados, enquanto a música soava do piano, conectada a bela voz da cantora. Contagiante. Era lenta, romântica, e eu detestaria ouvi-la se já não a conhecesse de muito tempo.
De repente me vi confessando:
– Eu gosto dessa música.
– O quê? – Rose me encarou. – Vamos sair daqui.
Muitas vezes eu entrei na sala da Mansão, e ouvi a música do piano que minha avó tinha. Mas era minha mãe quem o tocava com uma habilidade invejável entre os dedos. A música, que meu pai tanto cansava de escutar, era a preferida dela, embora também debochasse de si mesma toda vez que se via tocando-a. Lembrei uma vez que eles brigaram por um tempo, e depois eu soube que tudo estava bem no momento em que ela voltara a tocar no piano, e meu pai voltara a assisti-la. Toda vez que eu os pegava dançando sozinhos, enquanto o piano tocava a melodia daquela tal música, eu fingia que vomitava e exclamava para eles arrumarem um quarto.
Mas, de algum modo, não sei por que, ouvir aquela música me fez ser impulsivo e segurar a cintura de Rose, como já vi meu pai fazer com a minha mãe e ela parecer gostar bastante daquilo.
– Não vamos parecer idiotas – eu expliquei a minha ação, somente depois de entender em quem eu a fiz. Juro que tentei me afastar, mas era como se eu tivesse congelado. – Todos estão dançando também.
– Bem, todos estão mortos. E o amor deles é eterno – ela ironizou, tirando minhas mãos da cintura. Quando ela fez isso, tentei de novo, me aproximando mais. Por que eu estava fazendo aquilo? – Scorpius – Rose piscou confusa, segurando meus punhos. E me encarou nos olhos, dizendo com a voz baixa como se eu fosse uma criança que precisava conhecer o certo e o errado: – Não pos... Não vou dançar com você.
A mão dela estava quente e, em meio aquele ar gélido e morto, o toque me deixou quente. Eu olhei para ela com desprezo, afastando-me. Não consegui dizer nada, desacostumado com aquela atitude de uma garota quando eu queria me aproximar.
– Porque nós temos que nos concentrar em encontrar o sr. Binns, esqueceu? Olhe – ela olhou para além de mim, como se não tivesse me deixado afetado nem nada. – O sr. Nicolas está voltando.
Nós viramos e Nick estava se aproximando, junto a um homem velho e com barba, de expressão gasta e entediante. Devia ser o sr. Binns. É, eu havia me esquecido desse detalhe, do verdadeiro motivo por estarmos ali. E daí? Desejaria ter esquecido também que fui rejeitado por Rose Weasley, numa festa dos mortos, usando uma gravata borboleta idiota. Mas, bem, não aconteceu. Isso não faziasentido.
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