Born For This
27 Graduation Day
– Oh caramba – eu olhei para o teto do meu quarto, a cabeça ainda girando e meu corpo totalmente em puro êxtase. Rose se afastou de cima de mim para deitar ao meu lado, colocando o cabelo para trás, com sua respiração forte em meu pescoço. Enquanto eu ainda me recompunha, ela acariciou o meu rosto suado, e riu da minha cara cansada. Nossas pernas estavam praticamente entrelaçadas. – E eu achando... impossível... que um dia eu... fosse ficar ainda mais perfeito nisso...
Rose olhou para mim, rindo.
– Você é tão convencido. Eu já devia estar acostumada com isso. Só porque você é o único com quem dormi em minha vida toda, isso não me faz ser boa suficiente para receber um elogio também?
– Faz você ser perfeita – sorri.
– É, nem venha com esse sorriso lindo porque eu já passei da época de ficar derretida só com sorrisos.
– Agora você quer elogios – adivinhei, mesmo assim ainda sorri, passando um dedo pelo seu cabelo despenteado. – Rose, você é maravilhosa. Em todos os aspectos, a garota mais incrível que eu conheço.
Ela sorriu mostrando os dentes e falando docemente:
– E se eu disser que eu já sei disso?
– Aí você também é muito convencida.
– Isso é contagiante. Preciso parar de conviver com você, pelo amor de Deus – ela deu um suspiro forte e também olhou para o teto. Eu me movi para pegar sua mão e me deitar sobre ela, conseguindo ver seu rosto.
– Ainda bem que diz isso de forma irônica, porque eu não quero. Eu gosto de ter você nos meus dias, dizendo o que eu devo fazer, dizendo como sou convencido, e de como ainda preciso amadurecer para chegar aos seus pés. E como hoje é dia da nossa formatura...
– Você perdeu a aposta. Por isso estamos de manhã e não de noite, como foi o combinado.
– Não me arrependo – acrescentei. – Percebi como você queria que eu conhecesse sua família, Rose, e como você não parava de me seduzir por isso.
– Eu? Seduzindo? E desde quando isso dá certo?
– Dá certo comigo, acredite.
Eu nunca ia pensar que fosse tão importante para Rose que eu conhecesse sua família inteira, se ela não tivesse feito aquela aposta estúpida de não transarmos até a formatura. Na primeira semana até que eu estava conseguindo me controlar... e Rose? Nunca vi tanta força de vontade nela. Mas quando estava faltando dois dias e nenhum de nós feito nenhum joguinho para prender o outro em nossas teias... Rose estava desesperada.
Passávamos o tempo no jardim, Albus conversando comigo sobre alguma coisa sem importância, quando de repente Rose olhou para o céu e suspirou: “Que calor, não acham?” Ela sabia perfeitamente qual era meu ponto fraco. Três, quatro botões de blusa feminina aberta, a gravata desajustada no pescoço e o comportamento de quem não tinha a mínima idéia do efeito que estava causando em mim. Outro dia ela largou um livro perto de mim e se esticou para pegar ao meu lado no sofá, praticamente sentando em cima do meu colo.
– Você queria que eu perdesse – lembrei, agora com ela em minha cama e eu sem nenhum arrependimento ou orgulho ferido, no final das contas. – Eu podia me segurar mais um tempo... mas isso ia acabar fazendo meu braço ficar maior que o outro, então...
– Ai, Scorpius – ela passou a mão no rosto, tentando não gargalhar. – Você é tão idiota, tão tonto, desde... desde sempre! Como é que eu posso amar tanto alguém que só fala merda e... E, bem – ela parou para olhar quando me afastei e inclinei-me até o criado-mudo ali do lado. Debruçou-se em minhas costas, espiando o que eu queria pegar. Beijou o lóbulo da minha orelha. – Onde você arruma tanta camisinha?
Eu ri um pouco, voltando a ficar deitado.
– Dessa vez não é isso – falei.
Abri a palma da minha mão, mostrando-lhe o anel prateado. Quando fiz isso, Rose estava ajeitando o cabelo atrás da orelha... e essa mão dela caiu como se tivesse ficado mole.
Não tinha nada a ver com casamento, obviamente, a gente só tinha dezessete e dezoito anos. Por que eu iria querer me casar com ela agora? Nem pensava nisso. Mas...
Ajeitei-me na cama, sentando e encostando-me a cabeceira. Rose sentou também, séria.
– O que é isso?
Nós dois o observávamos.
– Comprei numa loja depois que fui sequestrado. Eu não tinha certeza se íamos voltar, mas... acho que tinha sim. E prometi a mim mesmo que se a gente voltasse... ia ser para valer. Olha, é só de compromisso. É que agora que vamos sair de Hogwarts, eu não sei para quais lugares você vai, e nem eu sei para onde vou... mas ter isso aqui vai nos fazer lembrar do que é realmente importante, certo? Vários anos de amizades. De algumas cagadas. E de alguns beijos.
Após dizer isso, colei meus lábios nos dela sem pressão alguma. Rose estava indecifrável, mas eu podia jurar que havia emoção em seus olhos. Eu não pretendia fazê-la chorar nem nada, só queria entregar aquilo para ela e ter certeza de que ele iria usar um negócio desses, mesmo que soasse tão sério e tão... adulto.
– Você quer usar isso? – perguntei.
– Isso é muito sério – ela não sabia se sorria ou se continuava séria. Se eu estava falando sério ou era só uma brincadeira. – Quero dizer, muito sério. Você não se preocupa em ser zoado? Quero dizer, tem bastante menino que fica zoando-
– Olha para a minha cara de quem dá a mínima para o que aqueles caras que não fazem sexo com a mesma garota que eu faço pensam – pedi.
No segundo seguinte, Rose pulou em mim e me lascou um beijo na boca.
– Eu te amo, Scorpius Malfoy. Muito.
Eu lhe entreguei o anel e Rose o colocou no dedo. Ela sentou em meu colo, segurando meu pescoço e olhando para os meus olhos. Quando também coloquei o outro, nós sorrimos.
– Agora só falta conhecer sua família – eu disse, colocando meus lábios suavemente pelo pescoço e pelos ombros dela.
– Só dez tios, mais ou menos.
– Isso não é justo – prendi meus dedos em sua cintura e foi a vez dela de me esquentar com os beijos. – Eu só tenho meus pais e meus avós para você como obstáculo.
– Está brincando? Seus pais são as pessoas mais intimidadoras que eu conheço – ela disse. – Sério. Eu não consigo decifrar o que eles pensam. Você acha... você acha que não fico preocupada com o que vão pensar de mim? Quero dizer, sou uma Weasley, eles devem... sei lá... é difícil para mim também.
– Não se preocupe – assegurei. – Se tiver a oportunidade de viver com eles durante uns dois ou três dias, vai perceber que meu pai é o cara mais piadista do mundo, e minha mãe está sempre fazendo comentários divertidos. Principalmente sobre como eu era um bebê muito fofo. Você iria gostar dela.
– E você acha que... ela iria gostar de mim?
– Ela sempre me desejou garotas que botassem juízo em mim. Claro que ela vai gostar de você, Rosie.
Depois disso, apenas voltamos a nos beijar, saboreando cada parte de nosso corpo. Aquele provavelmente seria o melhor dia de nossas vidas, e talvez o mais triste também. Não sabíamos o que ia rolar depois. A única coisa que tínhamos certeza era meu corpo movimentando-se contra o dela e os seus gemidos indicando o fim aonde isso ia levar. Nada tão misterioso, mas ainda prazeroso. O calor do orgasmo e de todo o amor que eu sentia por ela num ato quente e irresistível, minhas mãos alcançando toda a parte do seu corpo, e as dela, macias e confortáveis, respondendo aos meus toques, nunca antes com tanta sincronia. É, nós estávamos em sincronia.
– Anel de compromisso então? – Albus olhou para nós dois quando saímos do quarto e sentamos no sofá. Ele estava contando todas as figurinhas de sapos de chocolates que ele adquiriu durante os sete anos escolares. Natalie estava ao lado dele, observando todas e até ficando um pouco admirada com a quantidade. Albus cutucou o braço dela. – Eles vão casar.
– Quê? Não, não vamos casar – apressei-me a dizer. – É só...
– Agora não, claro. Mas e depois? Todo mundo fala que vocês vão casar. Não é novidade pra ninguém isso – disse Natalie.
– E vocês dois? – debochou Rose. – Estão namorando há quase tanto tempo quanto eu e Scorpius!
– Eu? Casar com esse cara? Rose... olhe para nós? Dia da formatura e Albus preferiu ficar contando as figurinhas dele, e não me mostrando anéis de compromisso.
– Você pediu – lembrou Albus.
– Queria ter certeza de que você tinha uma da Lorena Palmer sem roupa.
– Aquela eu não mostro para ninguém. Só para o Scorpius.
Eu acenei, sem muito orgulho disso. Assim, ficamos conversando o resto da tarde e discutindo outros assuntos. Não teria aula o dia inteiro; as aulas tinham acabado para os outros anos e a escola só não estava vazia porque alguns alunos mais novos participariam da festa de Formatura. Mesmo assim, podíamos jogar uma partida de Quadribol sem compromisso de ganhar, apenas nos divertir. Tentei até ensinar Rose a voar numa vassoura, o que não deu muito certo, porque nós dois ficávamos discutindo um com o outro. Mas logo no fim da tarde, antes das garotas subirem para se trocarem e ficarem estonteante para o baile, Rose pegou minha mão e me puxou até a sala de troféus.
Achei que ela queria fazer alguma loucura ali dentro outra vez, mas... não tinha nada a ver com isso. Rose estava sorrindo, orgulhosa, apontando para a lista deMonitores.
Meu nome estava lá, junto ao dela e dos demais alunos.
– Como? Meu distintivo foi retirado – falei, sentindo-me como se tivesse ficado bombado sem ter feito um dia de academia.
– Parece que McGonagall reconhece seus esforços, Scorpius. Você foi realmente um bom monitor durante os anos que você foi um.
Eu a abracei e ela acariciou minhas costas. Quando nos soltamos, Rose olhou para o meu peito e confessou:
– Estou louca pra te ver de smoking.
Beijei-a.
– Vou ficar maravilhoso.
– Aproveita e beija teu espelho.
Saímos da sala, rindo. Finalmente Rose teve que voltar para o seu dormitório e ficou se aprontando um tempo enorme por lá. Eu e Albus esperamos que faltasse meia hora para o baile quando colocamos nossos smokings.
– Bem, estou patético – Albus saiu de seu dormitório e me mostrou o resultado. – Pareço um pinguim, não? – Ele olhou para mim. – Como consegue ficar bem com isso?
Ajeitei o nó da gravata no colarinho, sorrindo.
– Sou um Malfoy. Ficamos bem em tudo.
Ele girou os olhos e foi pentear o cabelo. Por causa disso acabamos nos atrasando um pouco, ele não conseguiu alinhar os fios. E também foi uma tentativa perdida de penteá-los, porque quando ele e Natalie se encontraram no saguão de entrada, ela totalmente fez careta e os despenteou com os dedos.
– Você fica muito melhor assim, Potter.
– Parece que todos os pais já estão lá dentro do salão – disse Rose, aproximando-se.
– Céus, você está linda – eu cheguei até ela e a beijei nos lábios, tendo certeza de que manchei minha boca do batom que usava. Ela passou um dedo para tirar a mancha.
– Ah, é – lembrou Albus. – Você também está linda, Natalie.
Ela girou os olhos e cochichou para Rose:
– Meu namorado aprendendo a ser um namorado com o seu namorado, faça alguma coisa – alertou.
As duas estavam mesmo incríveis. Rose tinha o cabelo preso em um coque, alguns fios caindo sobre o rosto. O vestido era o melhor, um vestido azul em que mostrava seus ombros nus. Naquele dia, parecia que os olhos de Rose estavam ainda mais claros e as sardinhas mais charmosas. É, ela era incrível. Natalie só tinha a mostra um dos ombros, num vestido extremamente agarrado, que era suficiente para Albus ficar com ciúmes dos olhares que nossos outros colegas começou a lançar na direção dela.
Naquele momento, vários parentes de alunos começavam a chegar, passando pelo saguão e nos cumprimentando. Eu não conhecia quase ninguém, mas acenava. Fiquei só surpreso quando reconheci as três pessoas que acabavam de chegar. Lá estava... sim, lá estava Dimitre, com cadeira de roda, ao lado de uma Amber-mãe que segurava uma bebê no colo. Elizabeth Davis cresceu nesses últimos meses, tinha os cabelos loiros, tão loiros quanto o de Amber.
– Vocês? – não acreditei. Os dois se aproximavam em nossa direção.
– E perder sua formatura, primo? – sorriu Dimitre. Ele usava um smoking com gravata borboleta. Dimitre também ficava bem com esse traje.
– É meio triste voltar aqui – disse Amber.
– Aaawwnn – Rose passou por mim quando viu Elizabeth no colo de Amber. A bebê olhou para Rose com seus olhos grandes e ficou tímida. Não sei de quem ela herdou essa timidez em seu olhar. – Ela está tããão... nossa! Oooi, bebezinha-
– Ei, não mima muito ela – advertiu Dimitre. – Ela é uma Greengrass.
– O sobrenome é Davis, já discutimos isso, Dimitre – retrucou Amber.
– Mas ela tem meu sangue. E eu não quero que ela seja mimada.
– Desculpe – pediu Rose sinceramente.
Dimitre riu.
– Estou brincando. Essa garotinha vai ganhar tudo o que ela quiser.
– Ok, não exagera – disse Amber. – Bem, parabéns por terem agüentado isso daqui até hoje – ela se virou para nós. – Vamos tentar achar uma cadeira para sentarmos lá dentro agora. Até mais.
– Está bem. Tchau – dissemos.
Rose suspirou.
– Eu vou ser a única a dizer que aqueles dois até que fizeram um bom trabalho. A garotinha é realmente linda.
– Ela me assusta – admitiu Natalie.
– Bebês te assustam, vamos combinar – retorquiu Rose.
– Aqueles olhos enormes e a boca sempre babando? Palmas para Amber por ter conseguido sobreviver a isso!
Enquanto eles discutiam, alguém cutucou meu ombro com o dedo. Eu me virei e Andrew Smith me chamou para conversar em particular. Nós fomos atrás de um pilar do saguão.
– Que foi?
– Eu... eu fui encarregado... eu fui encarregado de fazer o discurso hoje – ele disse, praticamente ofegando. Estava até com a bombinha de asma dele na mão. – Mas... minha família inteira está lá e eu sou péssimo com as palavras.
– Esquece. – Já sabia o que ele ia pedir.
– Scorpius, por favor...
– Esquece, não vou fazer discurso nenhum! Era esse o seu trabalho, larga a mão de ser medroso.
– E-eu tenho pavor de platéia. Não entende. É sério. Eu não consigo respirar quando estou olhando para tanta gente...
– Por que não pede para outra pessoa?
– Está brincando? Você é o melhor orador da turma.
– Eu?
– Claro que sim! Os trabalhos que você já apresentou, todos os professores elogiaram você!
– Então por que eu não fui escolhido primeiro de tudo?
– Porque foi sorteio. Mas McGonagall disse que eu podia mudar de idéia, se achasse que eu não daria conta... Cara, eu não quero estragar a formatura gaguejando lá na frente. Acredite, isso fica para sempre e vou ser zoado para sempre...
Eu ia continuar negando até que ele precisasse me matar, mas McGonagall se aproximou de nós naquele exato momento.
– Sr. Smith, preparado para o discurso?
– Diretora, estou começando a passar mal só de pensar nisso.
Eu percebi, mas McGonagall tentou esconder a preocupação.
– Vai ficar tudo bem, Smith, são só palavras que você tem que ler.
– Scorpius quer fazer o discurso! – E depois dessa despejada mentirosa para cima da diretora, Andrew Smith saiu praticamente correndo antes que eu o matasse.
McGonagall olhou para mim. Eu percebi, mas ela tentou esconder o alívio que sentiu.
– Fico feliz pela sua escolha, sr. Malfoy.
– Mas eu-
– Eu nunca pensei que ficaria orgulhosa de um Malfoy antes. E, para falar a verdade, estou orgulhosa de dois hoje.
– Dois?
– Draco criou um bom filho. Estou ansiosa para ouvir seu discurso, sr. Malfoy – dizendo isso, ela saiu parecendo muito tranquila.
Então foi assim. Assim que eu fui encarregado de preparar um discurso para a minha formatura em menos de dois minutos. Ótimo. Realmente excelente. Todos os pais de meus colegas estavam lá. Alguns deveriam odiar meu sobrenome, mas não era exatamente isso o que me preocupava. Se eu falasse alguma merda? Algo que ninguém entenderia? A família inteira de Rose estava lá, inclusive seus primos mais novos e mais velhos. E os tios. E os pais.
Ajeitei minha gravata novamente, afrouxando-a para não parecer muito enforcado.
Relaxa, cara, depois você pensa em assassinar Andrew Smith por isso.
Aquele medroso filho da-
Antes de continuar xingando-o em passamento, eu o vi rindo tranquilamente com suas amigas. Fui até ele, bravo:
– O que significou aquilo? Você se curou da sua asma, idiota!
– Fala sério, Scorpius, eu tinha que fazer isso por você. As pessoas ali naquele salão devem saber que você é um cara demais. Lembro quando me salvou no Jogo do Terror. É a sua chance de se fazer escutar, calar a boca de quem sempre xingou a sua família. Vai lá, cara.
– Vai me pagar. Quem te deu essa idéia?
– A sua Rose ali.
– Você me paga – cochichei em seu ouvido. Nossa turma formou a fila e eu era logo atrás de Rose. McGonagall clamava um belo discurso para acompanhar a nossa entrada triunfal pelo salão.
– Você vai me agradecer.
– Você me paga.
– Você vai me agradecer.
Continuamos nessa discussão até que finalmente os primeiros da fila começaram a desfilar entre as mesas dos convidados e dos pais.
– Você me paga.
– Você vai me agradecer!
– SHHHH – exclamou alguém atrás da fila.
As minhas foram às últimas palavras da discussão.
– Você me paga, Weasley.
Quando ficamos em pé a frente do salão inteiro para recebermos um por um o que os professores chamavam de diploma, Rose encerrou a discussão, num sussurro baixinho:
– Você vai me agradecer.
– Boa noite, senhora e senhores! – saudou McGonagall diante do silêncio que se formou, então não pude dizer mais nada a Rose. – Mais um ano letivo se encerrando e...
E McGonagall ficou falando durante um tempo necessariamente longo para que eu pudesse me concentrar apenas nas palavras que eu ia dizer. Tive que fazer uma pausa para cantar o hino de Hogwarts a respeito de todos os bruxos que sacrificaram suas vidas nas Grandes Guerras contra o Lorde das Trevas. Quando terminou, os professores entraram no salão para entregar os pergaminhos a cada um de nós, em ordem alfabética, tudo plenamente organizado.
O sr. Beans entregou o meu, o que foi bastante justo. Quando recebi o diploma de suas mãos fantasmagóricas, ele falou: “Obrigado, rapaz” e eu entendi o que quis dizer, mesmo depois de dois anos. Nós íamos apertar as mãos, mas aconteceu que isso não deu muito certo. Até ouvi algumas risadas quando a mão dele varou a minha. Apenas agradeci e voltei para o meu lugar.
E continuou assim até um certo tempo, finalmente quando todos voltaram a fazer silêncio e... McGonagall anunciar:
– Este aluno, de uma forma bem impressionante, conquistou amigos e professores, apesar do seu nome. Do seu sobrenome, cujo peso ainda é forte para os demais. Se alguns de vocês não concordarem agora, tenho certeza que vão mudar de idéia depois que ouvi-lo fazendo o discurso. Com vocês, para o discurso de formatura, o aluno da Sonserina: Scorpius Malfoy.
– Ela estava puxando o seu saco – sorriu Rose, discretamente, mas me empurrou sem cerimônia alguma.
Enquanto ouvia os aplausos – de educação, aposto – eu me dirigi até um palanque onde estava o microfone ou algo realmente muito parecido com isso.
E já era tarde demais para desistir, porque agora eu estava olhando para todas aquelas famílias, esperando que eu correspondesse a alguma expectativa. Achei que ia ficar nervoso e começar a sofrer de asma, mas... por algum milagre, eu não estava. Nervoso, quero dizer.
Minha voz estava ampliada, quando falei:
– Obrigado, hum, diretora. Hum... – para de falar “hum”. – Hoje de manhã eu acordei sem ter a mínima noção de que eu ia me encarregar de dizer o que todos os pais querem ouvir. Certo? Vocês querem ouvir o quão estamos orgulhosos de nossos esforços... e de como adoramos todos os dias aqui. Bem, acho que não vão ouvir isso, pelo menos não da minha boca. Isso soa um pouco frio, mas soa verdadeiro, também. Quero dizer, nunca somos totalmente felizes. Vi pessoas indo embora daqui, vi pessoas sendo mal tratadas, vi pessoas sendo descriminadas.
Lembrei de Amber e sua opção sexual. E de Andrew também.
– Essas coisas existem em qualquer lugar e Hogwarts foi incrível porque ela nos preparou para tudo isso. Não para uma vida cheia de belezas, porque ela não é assim... Todo mundo fala que nossa vida ainda vai piorar, então... bem, que venha o pior de nossos dias. Estaremos preparados, porque temos amigos. E dizem que os amigos que você faz na sua vida escolar ficam para a vida toda. Eu espero poder viver tempo suficiente para contrariar o cara que falou isso. Quero dizer... às vezes acontece de alguns irem embora, de se distanciarem, certo? Provavelmente não vou mais falar com alguns de vocês – eu disse olhando para a turma do sétimo ano. – Isso é um fato, não hipocrisia. Não somos perfeitos... e morreram aqueles que tentaram ser, que tentaram ser imortais. Isso não existe. Hogwarts me mostrou isso. Hogwarts não cria ilusões. Hogwarts é fria quando ela quer, depende de como você a encara. Hogwarts foram os melhores dias da minha vida, e os piores. Desde o dia da seleção das casas, quando a gente não sabe onde seremos selecionados, até quando eu descubro meia hora antes que tinha que fazer um discurso de formatura. Você me paga por isso, Weasley.
E foi assim que eu encerrei meu discurso de mais ou menos dois minutos. Enrolar em discurso é maçante, disso eu sei, então tentei falar o que foi essencial para mim. Fiz o que me foi ordenado – jogado – e, caramba, nem esperava que me aplaudissem de pé. Modestia? Não. Só acho que Rose faria um discurso bem melhor, mas... não importava.
Alguns sorriam para mim e me davam tapas de consideração em meus ombros. Quando voltei a ficar em pé em meu lugar com a turma, Rose disse:
– Bem, sabia que ia me agradecer no final. Você estava lindo. – E depositou um beijo no meu rosto.
– Você estava meio gay – riu Albus. Eu não podia esperar outra coisa vinda dele.
– Vai se foder, Potter.
– Vai você.
– Shhhhhh!!!
E esperamos essa cerimônia acabar logo para podermos beber e dançar na festa.
Estávamos formados, agora. Oficialmente.
– Sua mãe ficou louca – contava meu pai, bebendo uma taça de vinho enquanto conversávamos. As mesas estavam afastadas da pista de dança. A festa havia começado e muitos estavam dançando ao som da banda ao vivo. – Quando viu você lá na frente, agarrou meu braço e falou “é o Scorpius” como se eu não soubesse disso.
– Estou tão orgulhosa – minha mãe me abraçou, sorrindo e chorando ao mesmo tempo. – Fez o discurso da sua formatura, foi incrível. Você fala de forma tão natural. Eu nunca ia pensar que faria o discurso.
– Foi uma surpresa para mim também – respondi, no momento que Rose se aproximou, entregando-me a bebida.
– Hey – ela sorriu e olhou para meus pais.
– Srta. Weasley – cumprimentou meu pai, apertando sua mão.
– É um prazer revê-los. Sra. Malfoy – ela fez uma mesura.
– Deixemos estes dois cavaleiros conversarem em paz – de repente minha mãe largou a taça na nossa mesa e segurou os ombros de Rose, afastando-a de nós dois. – Vamos conversar a sós?
Assustada com isso, Rose me lançou um olhar do tipo “o que... o que ela quer falar comigo?” e eu encolhi os ombros sem ter a mínima idéia. Quando minha mãe e Rose se afastaram e começaram a conversar – ou algo muito parecido com isso – virei para meu pai.
– O que acha que elas vão conversar?
– Sua mãe provavelmente vai falar o quanto você era fofo quando bebê e que quer mostrar algumas fotos – brincou. – Então... já conheceu a grande família ali?
Apontou com a taça para a família Weasley. Eles tinham três mesas só deles. Estavam fazendo piadas com Albus e o smoking dele.
– Bem, cumprimentei eles, mas... sabe como é.
– Realmente não sei. Nunca realmente conheci os pais de Astoria.
– Então nenhuma dica para conquistar eles?
– Não tem que conquistar eles, filho. Vê aquela moça conversando com a sua mãe? – indagou. – É com ela que tem que se preocupar.
Quando ele disse isso, os pais de Rose viram que estávamos olhando para eles. Em vez de nos ignorar, eles e o pai de Albus se aproximaram de nós dois.
– Malfoy – saudou Harry Potter.
– Potter.
Apertaram as mãos. E assim o fez com o sr. Weasley e com a sra. Weasley, que tinha a barriga quase pronta para explodir, de tão enorme que estava. Lembrei do que Rose contou, sobre eles estarem esperando mais um filho agora.
– Scorpius aqui tem jeito com as palavras – o sr. Potter comentou.
– Rose faria melhor – teimou o sr. Weasley.
– Pai – reclamou Rose, voltando da conversa com minha mãe.
– E cá estamos reunidos de novo – suspirou a sra. Weasley.
Esperando que alguma conversa ou discussão se estabelecesse ali? Bem, isso não rolou. Na verdade, eles ficaram se encarando um tempinho até o sr. Weasley dizer, por fim:
– Bem, tchau. Aproveitem a festa.
– Tchau.
E quando cada um foi para um canto, puxei Rose pela cintura e falei sorrindo:
– Não podíamos esperar mais que isso entre eles, certo?
– Tem razão. Dança? – sorriu, pegando minha mão.
– Com certeza.
Boa parte da festa foi apenas dança, risos e diversão. Natalie estava dançando abraçadinha com Albus; Andrew conversava com um garoto... e enquanto eu abraçava Rose porque não sabíamos dançar muita coisa, observei no outro lado do salão uma cena bem curiosa.
Gwen Kinney estava por lá, bonita e com os cabelos soltos e lisos, conversando com... é, ninguém menos que Dimitre, sentado em uma mesa distante. Ele sorria enquanto conversava com Gwen, e o sorriso dela, pelo visto, era uma resposta ao dele.
Será que ele estaria dando em cima dela, mesmo tendo a responsabilidade de cuidar de uma criança? Pelo visto, as coisas eram impossíveis entre ele e Amber, já que Amber, bem, Amber ainda era lésbica. Enquanto eu olhava para os dois, vi Amber se aproximando de Dimitre e entregando Elizabeth a ele, para poder ir ao banheiro sossegada.
Ao contrário do que imaginei, Gwen não se afastou ou muito menos fugiu. Na verdade, parecia que Dimitre estava se gabando para Gwen, por causa da filha, que fazia todo mundo ficar “aawnn” para cima dela.
Gwen é uma boa garota, quis dizer a Dimitre, não faça merda com ela.
Uma música romântica começou a tocar e Rose e eu nos encaramos.
– Todo mundo vai pra Toca depois daqui – ela contou, enrolando os braços no meu pescoço. – Quer ir também?
– Tipo, dormir lá?
– Por um tempo. Até recebermos nossas notas dos N.I.E.M’s e você passar um tempo com a minha família.
– Só se você prometer que irá jantar com a minha algum dia.
– Combinado – ela disse, sem medo.
– O que minha mãe queria com você?
– Sua mãe é uma fofa.
– Ok. Mas o que vocês conversaram?
– Ela virou para mim e disse: “Escute, vamos fingir que estamos conversando agora, porque é esse meu trabalho de mãe e eu realmente nunca tive que fazer esse trabalho, então não sei mesmo o que conversar com você.” E de repente ela começou a me falar sobre suas antigas namoradas.
– Minha mãe está nervosa, não ligue.
– Na verdade, ela foi bem legal. Disse que você não teve muitas, sabe, nada que eu já não saiba.
– É... eu não levei muitas para a mansão.
– Oh, sério?
– Sério. E um dia quero que você conheça.
– Seria ótimo.
– Meu quarto, principalmente.
– O quê? Aposto que você quer mostrar suas fotos lindas e maravilhosas, né, convencido?
– Não exatamente. É porque vou empacotar minhas coisas.
– O quê? – ela franziu a testa.
– Eu andei pensando... meu pai viveu a vida dele inteira naquela Mansão, herdando-a de meu avô. Os dois ainda estão bem vivos e lá é muito solitário. Eu tenho essa vontade de não morar com eles o resto de minha vida.
– Está pensando em... comprar um apartamento, por exemplo?
– Se eu for aceito no Ministério, sim.
– Você conversou com seus pais sobre isso?
– Não, ainda não. Eles estão felizes que vou voltar para casa por enquanto.
– Você tem ambições – ela notou. – Para alguém que parecia não ter idéia do que queria fazer na vida.
– E você? O que vai fazer se for aceita?
– Eu e Natalie conversamos sobre isso desde o ano passado. Nós vamos morar juntas.
– E Albus? O que será que ele vai fazer?
Nós dois olhamos para ele, dançando animadamente com Natalie. Nenhuma preocupação o atacando naquele instante.
– Albus gosta de viver o momento, sabe? Ele nunca pensou no futuro. Ele quer ajudar meus tios na Gemialidade Weasley por enquanto. Ele acha que não foi bem nos N.I.E.M’s, mas ele não quer depender disso para ganhar a vida fora de Hogwarts. Ele vai estar sempre fazendo alguma coisa, para alguém ou por alguém. Albus ainda vai ser um grande bruxo.
Anos depois, Albus foi considerado o rapaz mais jovem a dar a volta pelo mundo inteiro, ajudando as pessoas. Algum dia conto essa história, quando chegarmos lá.
Por enquanto, ainda tínhamos muitas dúvidas e não fazíamos idéia do que iria acontecer.
Como por exemplo naquele instante. Rose não tinha a mínima idéia de que seu irmãozinho ia nascer naquela mesma noite.
– A BOLSA ESTOUROU! – gritou Ronald Weasley desesperado no meio da festa, em algum momento. – HERMIONE VAI TER O BEBÊ!
E a correria só parou na manhã seguinte, quando a família de Rose inteira estava na sala do hospital St. Mungus, tentando acalmar um Ronald muito emocionado, apesar de já ter tido dois filhos e uma delas já ser adulta. Rose, inclusive, ficou encarregada de acalmá-lo. E eu? Bem, eu só estava acompanhando meus amigos nos melhores e nos piores momentos da vida deles...
Esses iriam durar a vida toda.
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