Elena ficava cada vez mais preocupada conforme os meses passavam. Seis, para ser mais específica. Seis meses que passavam infinitamente devagar desde que prestara o depoimento para a polícia, mas parece que antes de Caroline sair do país ela havia feito uma lavagem cerebral nos investigadores e fez parecer para eles que o casal estava altamente instável diariamente e que ela já havia escutado ameaças serem feitas. Então a morena teve que se segurar para não xingar o próprio investigador quando ele perguntou ao médico se Elena havia sofrido traumas graves, e ao obter uma resposta negativa ele comentou com alguém que ela diria qualquer coisa que pudesse a inocentar. Sendo assim, eles esperariam a vítima acordar — e até isso acontecer a morena deveria "ficar à vista".

Também tinha Caroline, que estava em outro país, e sabia que ela estava viva. Embora não entendesse os motivos que existiam para explicar tais atos e comportamentos anteriores, ela sabia que em breve ela voltaria de novo. A diferença era de que agora elas não estariam no mesmo apartamento.

Por falar em apartamento, Jeremy havia ficado no de Caroline e não mais dormiria na sala, exceto quando teve que ceder a cama de casal para os pais preocupados que foram visitá-los.

E para completar o pacote: Elena continuava no hospital. Desta vez dormindo em uma poltrona no canto do quarto de Damon. Ela sabia que ele não acordaria em um momento qualquer e inesperado, mas sentia-se bem ali. Não parecia certo estar em qualquer outro lugar.Uma vez se questionou se não deveria se afastar… afinal, foi se aproximando dele que ela começou tudo aquilo. Ele merecia algo melhor, uma namorada menos problemática… Mas ela percebeu que não conseguia se afastar — e nem queria. E se Damon não o fez então ele não se importava também. Achava meio egoísta de sua parte, mas a culpa não foi dela. Então se Caroline parasse de se intrometer tudo ia ficar bem. No momento o seu único desejo era que Damon acordasse.

–Ei, Elena? Ainda está aqui?

– Hmm — esfregou os olhos e bocejou, olhando para Stefan.

– Achei que tivesse ido até a cafeteria no primeiro andar…

– Eu ia… mas não fiquei acordada tempo o suficiente para ir buscar café. O que faz aqui?

– Eu trabalho aqui — sorriu de canto. — Sou responsável pelos exames.

– Exames? Onde está a ficha médica dele? A sua prancheta? Você está de mãos vazias, mentiroso — riu fraquinho. — Admita que é sua hora de intervalo e que prefere ficar aqui do que ir à qualquer outro lugar.

– Tecnicamente, eu não menti. Sou o responsável. Mas tem razão, não estou fazendo exame algum agora. — sentou-se em uma cadeira no canto oposto da sala e sorriu. — Porque ainda está aqui se sabe que ele não pode acordar a qualquer momento?

– Pelo mesmo motivo que você fica aqui no seu intervalo.

Stefan riu — Antigamente eu iria com Alaric e meu irmão em algum lugar para comer no intervalo... Perto daqui, claro. Não dá pra se afastar muito. Mas agora parece que não há para onde ir.

– Entendo — concordou com a cabeça. — Ficar perto é bom. — ele concordou e ambos dividiram o silêncio por um tempo. — Já é possível calcular quando vão poder acordá-lo?

Stefan mordeu o lábio inferior por alguns segundos.- Ele está melhorando, mas ainda não poderia sair daqui. E ele não gosta de ficar aqui dentro sem fazer nada, por isso pediu que ficasse dormindo. Vou ter que respeitar, Elena.

A morena assentiu, mas ainda não fazia sentido. E depois entendeu porque: não era porque Damon simplesmente não gostava de ficar lá dentro. Se fosse por tal razão, então ele nunca teria ficado uma noite inteira em claro lá dentro com ela, esperando no quarto que ela melhorasse quando mais precisou. Era porque ele não gostava de se sentir forçado a ficar parado. E quando ele fez tal pedido, imaginava ela, talvez fosse muito novo e acreditasse que teria que ficar sozinho encarando o quarto branco. Agora, Damon tinha Elena. E ele nunca mais ficaria sozinho se dependesse dela.

Queria argumentar isso com Stefan, mas agora não parecia um bom momento. Ele parecia cansado física e mentalmente e ela seria capaz de apostar que ele não dormia há mais de dia para ficar em plantão perto do irmão. Então outro pensamento lhe ocorreu.

– Stefan, seis meses se passaram… E eu ainda não vi seu pai.

Ele enroscou os cabelos nos dedos de uma mão antes de os ajeitar de novo. — Ele prefere pagar o hospital. E seria perda de tempo vir até aqui se ele não pode nem falar com o filho. Mas não é descaso: ele me liga e pergunta todo dia se Damon melhorou.

Elena assentiu. Já estava com Damon há uns dois anos e nunca havia conhecido seu pai. E vice versa: Damon nunca conhecera os seus. E eles iam se casar. Alguma coisa devia estar errada em tudo isso. Bem, seus pais conheciam o seu namorado por fotos e ele estava livre para ver os porta retratos espalhados pela casa dela. Mas ela nem sequer sabia como os pais dele eram… Damon teria herdado os olhos do pai ou da mãe? E o cabelo?

Certa vez ele contara que teve que cuidar de Stefan por um tempo, logo após o acidente, porque seu pai olhava para eles e via a mãe em cada um. Mas eles eram diferentes, então ela ainda não tinha nenhum base para imaginar. Até porque a mãe não podia ter ambos os olhos azuis e verdes. Ou poderia?

– Às vezes acho que escolhi a profissão errada…

Piscou os olhos, voltando à realidade e reconhecendo a voz de Stefan.

– Por que diz isso? — encarou- o, mas ele não olhava para ela. Estava observando o irmão.

– As pessoas parecem colocar muita confiança em um médico. E às vezes parece que eu não atendo às suas expectativas.

– Algumas pessoas não sabem o que esperar. E às vezes há médicos que não dão esperanças e você faz um sorriso aparecer no rosto de quem você atende. Você faz acontecer, então não há como você nem sequer pensar nessa dúvida.

– Elena, agora mesmo, olhando para você, posso dizer que não está feliz com o que estou fazendo.

– Stefan, quantas vidas você salvou? — ele a encarou como se ela tivesse batido a cabeça. — Impossível contar, certo? Quase como se eu tivesse pedido para que me recitasse pi até a centésima casa — isso arrancou um sorriso dele e ela respondeu com outro. -Você é um ótimo médico; ninguém duvida disso e não admito que você pense o contrário. Não estou feliz, mas está apenas respeitando uma decisão do seu irmão. Não posso lhe culpar por isso. Fico insatisfeita é com ele.

– Ele teve as razões dele para fazer o pedido.-

E por isso você só vai deixá-lo acordar no dia em que puder receber alta? Ou vai esperar que aquele corte na cabeça dele cicatrize? Já não está bom agora? Ele melhorou muito, Stefan. Quantos curativos a mais vocês precisam tirar para ver isso? Quase não resta nenhum!

Ele não respondeu e nem olhou para ela. Estavam todos estressados e embora Elena achasse que havia demorado meses para falar tudo o que sentia não podia exigir nada no momento. Ao invés disso, disse com a voz calma:

– Não se preocupe com o assunto anterior. As pessoas ficam receosas sobre o médico que atende à elas e aos seus parentes. Não sabem se o médico é realmente bom. Eu tenho sorte: sei que posso confiar no meu.

Stefan assentiu, embora ainda carregasse um semblante triste, apenas para expressar que ouvira. Ele mesmo não gostava de ver o irmão assim, mas não sabia mais o que dizer. Então Elena saiu do quarto, avisando em poucas palavra que iria à cafeteria do hospital. O assunto não saía de sua cabeça e ela sentia-se frustrada. E se até o próprio Damon já havia mudado de ideia a respeito do coma induzido?

*-*

Parada no meio do saguão do hospital, Elena travou uma guerra emocional consigo mesma. Sabia que era arriscado e Stefan iria brigar com ela, mas por outro lado não podia ficar parada sem fazer nada. Já esperara demais. Seis meses era muito tempo.

Sentou-se com um copo de café nas cadeiras de espera e observou as pessoas indo e vindo. Era entediante, na verdade. Mas ela esperou com paciência até que Stefan apareceu de um corredor, conversou algo com a mulher no balcão de atendimento e saiu pelas portas da frente do prédio. Esperou mais um pouco para ter certeza de que ele não voltaria e somente então desfez-se do copo vazio e levantou. Sem falar com ninguém, nem pedir o adesivo de visitante para pôr na blusa, Elena caminhou pelos corredores do hospital tentando não chamar atenção. De vez em quando mudava seu caminho ao ver alguém que poderia lhe reconhecer sem identificação — depois de seis meses, era praticamente todo mundo — e entrara em banheiros três vezes. Por fim, utilizando as escadas, subiu correndo os degraus até o andar de Damon. Com sorte não havia ninguém no quarto e a única coisa que possa ter visto ela entrar — e se importar com isso — era a câmera.

A morena aproximou-se de Damon e hesitou mais uma vez. Mas não chegara até ali por nada. Então criou coragem e estendeu as mãos, retirando devagar a agulha do braço de Damon. O condutor do soro caiu ao chão e Elena suspirou. Não tinha mais volta. Não havia nada que o impedisse de acordar agora.

Então sentou-se na poltrona e esperou.

*-*

Horas se passaram e Elena ficou preocupada. Seu plano parecia tão perfeito: Stefan iria repor a dose de sabe-se lá que substância para Damon dormir em seu soro antes de ir embora, e como há tempos ninguém mais esperava que ele fosse acordar há qualquer minuto: não havia visita frequente de enfermeiros. Eles sabiam que seu estado clínico não iria mudar com frequência: estava melhorando, mas era só isso. Só precisavam verificar se estava tudo certo. E Elena estava com medo de que essa visita pudesse vir logo.

Os ponteiros do relógio se arrastavam e Elena começou a ficar nervosa. Se descobrissem, poderiam entender como se fosse "outra" tentativa sua de homicídio: privar a vítima de nutrientes necessários. Mas não podia simplesmente "devolver" a agulha.Chegou a pensar que deveria chamar um enfermeiro e dizer que a agulha estava assim quando ela entrou, mas ela não tinha identificação de visitante e, portanto, não deveria ter passado do saguão.Também tinha as filmagens que alguém poderia usar para ver há quanto tempo ela estava lá dentro, e isso não seria bom.

O ar pareceu faltar dentro daquele quarto e Elena reconheceu as reações de quando parecia não haver saída da situação. Na verdade ela só estava com a respiração descompassada, mas era o suficiente para que não pensasse com tanta clareza. Até que ela realmente parara de respirar por um momento, trancando as passagens de ar em seu corpo e observando os dedos da mão de Damon se moverem, ainda que minimamente. Respirou fundo e levantou, aproximando-se da cama.

– Damon?

Agarrou sua mão e a apertou, querendo sentir qualquer manifestação de consciência que pudesse. Ele segurou seus dedos em retorno e ela sorriu, arfando enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Há quanto tempo ela o via inerte em uma cama? Cronologicamente, todos sabiam que era metade de um ano. Mas psicologicamente lhe parecia uma eternidade.

– Damon… — chamou de novo e os olhos dele abriram lentamente, piscando diversas vezes ao olhar em volta. Elena deleitou-se naquele momento que reservou para contemplar seus olhos azuis abertos, que agora a encaravam de verdade mais uma vez — não eram memórias nem sonhos, como costumava ser nas últimas semanas. Então ela lembrou da sensação de estar confusa ao acordar e tentou confortá-lo. — Está tudo bem, eu estou aqui…

Riu e acariciou seu rosto, sorrindo contente. Mas ele apenas a encarava, confuso.

– Eu conheço você?