Bonfire Heart
28 Remember
Notas iniciais
De braços cruzados, encostada na parede de um corredor perto do saguão, Elena esperava. Stefan ainda não havia gritado com ela, mas a ignorava sempre que passava por ali. Nenhum dos médicos queria lhe dar atualizações dos exames neurológicos e Damon estava preso naquele quarto com um psicólogo.
Ele estava acordado, mas não lembrava de pedir para o induzirem ao coma, então agora o soro seria suspenso e aos poucos a comida voltaria para sua dieta diária. Teria alta em vinte e quatro horas, se não precisasse ficar sob observação. E o pior de tudo isso: ninguém deixava que ela chegasse perto. Por pedido de Stefan ou do próprio Damon, não importava. Mas se fosse de Stefan doeria menos.
A porta do elevador abriu e o psicólogo saiu caminhando pelo corredor, entregando papéis para um médico e provavelmente dando instruções. Depois ele andou até o elevador novamente; e Elena o seguiu. Quando as portas se fecharam e apenas os dois dividiram aquele espaço, ele se virou para ela.
– Posso ajudar ou devo chamar a polícia?
– Hm? — ela ergueu as sobrancelhas, de repente esquecendo da pergunta formulada que tinha em mente.
– Você está me seguindo…
– Ah, não… Não estou… Bem, estou, mas não precisa… — se interrompeu ao ver que ele sorria para ela, achando graça. — Na verdade, eu queria saber como vai Damon.
Ele encarou seu rosto e desceu o olhar para suas mãos, procurando algo em seus dedos.
– Damon não tem irmãs, e você não tem idade para qualquer outra relação de parentesco. Portanto tenho que manter sigilo da situação de meu cliente.
– Sou a noiva dele. — em teoria… mas não precisava comentar isso.
– Sem aliança, não pode ser considerada cônjuge.
– Nós não ligamos para alianças…- mentiu e sorriu, querendo o convencer.
– Está realmente preocupada… mas não posso…
– Por favor — o interrompeu, com a voz dominada por súplica e um pouco de desespero. — Eu preciso saber como ele está.
Ele a observou em silêncio e quando o elevador abriu as portas no térreo ele apertou o botão do último andar disponível. Então as portas se fecharam de novo e ele sorriu.
– Sem termos técnicos: Damon não lembra dos últimos anos. O que é raro, pois normalmente não passa de seis meses. Mas se lhe anima: eu acho que é temporário. Evento traumático e um quase-coma de meio ano… É muito para processar. Dê a ele mais alguns dias.
Elena sorriu, — Obrigada, doutor…
– Enzo. Só Enzo.
– Enzo. Muito obrigada.
Ele riu baixinho e voltou a apertar o botão para o térreo.
– Por quê? Eu não lhe disse nada. Essa conversa nunca existiu.
Ela assentiu e um sorriso cúmplice cruzou seus lábios.
*-*
Não demorou muito após a entrega da análise do psicólogo para que Stefan estivesse no quarto do irmão, sorrindo e conversando, embora ele não lembrasse de muita coisa.
– Isso estava com você na madrugada em que lhe trouxeram. Ninguém mexeu, mas eu aposto dez dólares que você vai ter que jogar quase tudo fora.
Lhe entregou uma sacola tamanho grande e Damon riu, abrindo-a e vendo o que tinha dentro.
– Não dá para salvar a jaqueta? — acariciou o couro manchado com falsa melancolia e Stefan estalou a língua nos dentes.
– Para sua informação: as lojas não fazem uma única jaqueta de couro no mundo. Há várias e você pode comprar outra.
– Para sua informação: você também pode. Aliás, devia comprar uma. Como Lexi deixa você sair com aqueles moletons estranhos?
– São confortáveis — se defendeu erguendo as mãos.
Damon negou com a cabeça e puxou mais um item da sacola, não reconhecendo a camiseta. E pensando no contexto do verbo reconhecer:
– Stef, quando acordei, havia uma mulher comigo. Sabe onde ela está?
– Ainda no hospital.
Ele franziu o cenho. — Quem é ela?
– Sua noiva. Foi ela quem lhe acordou…
– Você fala como se fosse ruim.
– Não sei como interpretar… Talvez eu esteja feliz por você estar acordado, talvez esteja com inveja dela porque eu mesmo queria ter tido a coragem de ter feito isso…
– Por que não fez?
– Porque você pediu, anos atrás, que… esquece. — Stefan agitou as mãos. — Ela está chateada, e seria bom se você lembrasse o que aconteceu. Até porque a polícia quer saber sua versão.
Damon o encarou por mais um tempo até desistir de conversar e vasculhou mais um pouco a sacola. Um jeans com sangue seco manchara alguns dos outros pertences e ele concordou que tudo fosse fora. Até ver outra sacola menor no fundo.-
Isso foi recolhido do seu carro antes dele ser descartado como prova. — O mais novo explicou antes de alguém bater na porta e o chamar. Sorriu para o irmão e saiu já examinando alguns papéis que lhe entregaram.
Sozinho pela primeira vez desde que acordara, abriu a segunda sacola. Não havia muita coisa, mas algo em particular chamou sua atenção. Ergueu a caixinha vermelha e tocou o veludo com cuidado. Quando a abriu, contemplou um anel de noivado feito em ouro.
Confuso, procurou algo na sacola maior, achando que sua própria aliança de noivado pudesse estar nas coisas que vieram com ele e o hospital tirou de seu dedo por algum motivo. Não achou, o que significava que não usava aliança naquela noite. Mas Stefan disse que ele tinha uma noiva…
Horrorizado consigo mesmo, deixou a caixa cair de seus dedos e não viu onde ela foi parar. Tinha uma noiva, mas ele próprio não usava aliança e levava um suposto anel de noivado consigo. Céus, ele ia pedir alguém em casamento mesmo já estando noivo? Noivo de uma mulher que parecia estar tão feliz quando ele acordou… Como ia conviver consigo mesmo agora?
*-*
Após muito tempo, finalmente deixaram que Elena entrasse no quarto. Cautelosa, ela não se jogou em cima dele com beijos e abraços, como queria fazer. Ao invés disso, perguntou se ele estava melhor; e Damon lhe abriu um sorriso triste.
– Acho que sim. Faz horas que não consigo ficar sozinho — brincou. Elena instantaneamente ficou desconfortável de estar ali dentro. Pensou que talvez devesse sair, mas vendo a expressão dela prontamente se corrigiu: — Não foi o que eu quis dizer! Você é... muito bem vinda.
Ela sorriu, mas nenhum deles podia negar que aquela era uma situação meio constrangedora. Sem saber se podia se aproximar, ela ficou de pé na frente da cama.
Damon sentiu-se como se tivesse quebrado por dentro. Mesmo que ela não dissesse, era possível notar em seus olhos o amor que sentia. Sua postura era incerta, mas somente por não querer assustar um homem que nem lembrava quem ela era. Isso devia ser horrível emocionalmente; e ele ainda a traía. Havia pensado em continuar com Elena e esquecer quem quer que fosse a outra mulher, mas ele próprio não poderia conviver com isso; além disso, Elena nunca o mereceria como marido nem como qualquer outra coisa. Ele nunca teria o direito de ficar com ela.
– Está mesmo tudo bem? Você parece triste — aproximou-se sem perceber, procurando alguma coisa que pudesse fazer para o ajudar.
Viu que suas mãos estavam estendidas na direção dele, como se fosse o abraçar e isso poderia o alegrar para sempre. Talvez um dia isso tivesse funcionado. Mas não agora. Então deixou os braços caírem ao lado de seu corpo, exceto por um deles que Damon segurou.
– Elena.
Um toque que ele iniciava… Em resposta, um choque parecia ter lhe atravessado. Seu corpo parecia ter desenvolvido uma dependência disso. Segurou a mão dele em retorno, ainda sentindo a voz dele derreter como mel em seus ouvidos, escorrendo para dentro de sua alma. Ela havia esquecido o quão prazeroso aquilo era. Há muito tempo que suas memórias já não eram tão vivas. Ela sentia falta daquele conforto que sentia só com a voz dele. Imaginava como reagiria se ele fosse lhe abraçar agora…
– Não podemos ficar juntos.
A beleza daquele momento se desfez em pedaços, como se um copo tivesse caído no chão. Ela o agarrou pelos braços porque precisava de algo sólido daquele momento em que pudesse se segurar.
– Do que você está falando? Que remédio eles lhe deram?
O coração dele pareceu se recusar a bater diante daquela cena, mas ao invés disso ele acelerou, parecendo querer sair de seu peito e correr daquele quarto sem olhar para trás. Ele mesmo gostaria de poder fazer isso, mas apenas encarou os olhos chocolates e forçou sua voz a sair firme.
– Eu não quero ficar com você.
Não parecia real e a voz dele não era mais como veludo; ao invés de acariciar sua alma, aquele som se acumulava em sua garganta e impedia o ar de passar.
– É porque você não se lembra de mim? Damon, espere mais alguns dias. Disseram que é temporário e você só… só tem que esperar…
– Mas, Elena… — engoliu em seco, lutando para não a puxar para perto e confortá-lá. Esperava parecer mais decidido do que realmente estava por dentro.
– Por favor… Mais alguns dias.
– Mas eu me lembro de você — mentiu.
As unhas pintadas de preto dela fizeram um contraste assustador contra sua pele pálida ao pôr as mãos sobre os lábios. Piscou os olhos, querendo acordar daquele pesadelo; mas toda vez que os abria via a mesma imagem de Damon a encarando decidido. Tudo o que queria era que ele lembrasse, mas nuca imaginou que a reação fosse essa.
– Se você se lembra, então sabe que íamos nos casar. Isso não parece real o bastante para você?
– Foi um erro. Eu nunca devia ter lhe pedido em casamento.
Elena balançou a cabeça, os dedos da mão se retorcendo ao querer reagir mas não sabendo como.
– Olhe nos meus olhos e diga que é isso mesmo que você quer.
Ele a encarou, e percebeu que era uma das coisas mais difíceis a se fazer. A dor estampada em seu rosto o fazia querer desviar os olhos e pular a janela.
– Eu não quero mais casar com você — tentou ser específico. Ao menos, essa parte era um pouco verdade. Ele não queria fazer aquilo com ela. Mas o motivo era outro. Porque mesmo sem se lembrar dela, ele sentia uma imensa afeição. E não podia imaginar outra pessoa que pudesse o fazer sentir mais que aquilo.
Elena assentiu, forçando-se a sorrir.- Nunca imaginei que você pudesse destruir minha vida após tanto tempo nela. Devia ter me deixado naquele restaurante.
A expressão de Damon sumiu, mas ela já não estava mais lá para notar. A porta do quarto bateu com força enquanto ele tentava lembrar qual restaurante.
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