Bonfire Heart
22 Truth
Notas iniciais
Aquele era o pior cappuccino que Elena já havia experimentado. Não sabia se haviam acrescentado mais leite que o necessário ou se o café havia recebido água quente para suprir a falta do líquido. Na dúvida, apenas ficou jogando colheres de açúcar atrás de colheres de açúcar para ver se melhorava. Mas o resultado que conseguiu foi algo "inbebível" que nem parecia mais líquido depois de conter tanto açúcar a ponto de quase parecer uma pasta cremosa. Se a palavra inbebível existia? Não fazia ideia. Mas definia muito bem aquele café.
Combinava com seu humor. Não, não no sentido de que estava açucaradamente doce. O café era ruim, e suas emoções não estavam em melhor estado — embora ela mesma não soubesse exatamente como estava se sentindo. Confusão predominava sua mente enquanto seu dedo deslizava sobre a foto novamente. Já havia observado aquilo tantas vezes que decorara cada detalhe. Damon com o cabelo meio bagunçado e a jaqueta de couro preta. A loira de cachinhos curtos com vestido rosa. E o beijo que parecia amoroso e quebrava seu coração.
Por um lado, seu coração doía em resultado à traição. Por outro, perguntava-se se era verdade. Damon não era um homem de fazer essas coisas. Se ele estivesse descontente com alguma coisa teria pedido para conversarem.
E o jeito pelo qual ela soube da foto era estranho. Um número privado que, da noite para o dia, começa a mandar mensagens pedindo para olhar a caixa de cartas, sabendo que as fotos iam estar lá esta manhã. Essa pessoa era confiável? Elena nem sequer sabia quem era. Mas a maior pergunta era: quando foi tirada essa foto?
Estava apertando o botão de "chamar" antes mesmo de perceber que havia pego o celular. Ninguém atendeu. Tentou mais duas vezes até lembrar que ele podia estar trabalhando. Antes que cancelasse a chamada ouviu sua voz surgir do outro lado da linha.
– Elena? — sua voz era de surpresa. Elena podia ouvi-lo respirar, e ele parecia estar andando.
– Oi, Stefan. Está ocupado?
– Eu estava vendo um paciente. E agora vou visitar o quarto de uma moça que acabou de acordar da cirurgia.
Que outra resposta ela esperava para essa pergunta, destinada a um médico?
– Desculpe, eu posso te ligar mais tarde?
– Até chegar lá eu tenho alguns minutos. Do que precisa?
Ela pensou um pouco, tentando ser rápida — não queria atrapalhá-lo no trabalho.
– Dois dias atrás, você sabe se seu irmão trabalhou a tarde?
– Sim, ele teve que cobrir o Alaric de novo com horas extras. Porque a pergunta?
– Alaric? Ele já não tinha melhorado?
– Você realmente conhece Alaric? Desastrado é seu nome do meio. Não sei o que houve, mas eu o vi com o pé engessado e...
Elena parara de ouvir. Damon trabalhara o dia todo. E isso significava que no dia depois disso, ele deveria ter recebido um dia inteiro de folga. Mas Elena só o viu a noite, quando jantou lá.
– Ontem, ele estava com você?
– Uh-oh. Eu sei que tipo de interrogatório é esse...
– Stef, por favor. Precisa me dizer. Eu sei que ele é seu irmão, mas também sei que você é sincero e eu não poderia viver em mentiras. Preciso que me diga a verdade.
– Ele mentiu para você?
– Não sei. Na verdade ele não me disse nada... Foi mais o que ele fez. Ou o que ele não fez.
– Estou ficando confuso, Elena.
– Só responda. Damon estava com você?
– Não.
Elena uniu as sobrancelhas. A resposta era curta e em um tom estranho.
– Sabe onde ele foi? — Stefan suspirou, mas não respondeu. Elena sentiu uma onda de exasperação. Sua resposta estava a uma ligação telefônica de distância e ela não conseguia alcançá-la. — Por favor! Tem que me dizer!
Stefan fechou os olhos. Não podia deixar Elena agoniada do outro lado do telefone se sabia da verdade. Mas também não queria entregar o irmão. Se ele mentira sobre onde estava, era por uma boa razão.
– Por favor — Elena tentou mais uma vez.
A morena parecia sentir dor. Decidiu que o irmão podia lidar melhor com ela sabendo da verdade do que ele mesmo conviver com ter deixado a cunhada agoniada.
– Ele foi ao shopping...
Ao shopping. Elena agradeceu que estava sentada porque, tinha certeza, se estivesse de pé iria cair.
– Obrigada, Stef.
– Elena, não fique com raiva. Ele não — mas estava falando sozinho. Ela havia desligado sem esperar por uma resposta. — Droga!
A morena sentia-se tonta, talvez por causa da quantidade de pensamentos que vinham em sua mente. No shopping. Na praça de alimentação, com uma loira. Era possível. E agora ela mal conseguia respirar.
Seu telefone vibrou, anunciando uma ligação. No visor estava escrito Damon.
*-*
Stefan tentava ligar para Elena, mas sua ligação ia direto para a caixa de mensagens. Então tentou ligar para o irmão, e deu ocupado.
Merda. Era só o que faltava. Damon ia odiá-lo para sempre
Virando o corredor, ele diminuiu o passo. Precisava conseguir falar com um dos dois. Ou explicar para Elena ou avisar para Damon o que ele iria enfrentar. Algo dera errado. E ele não conseguiu acobertar o irmão. Elena ia ficar muito zangada se Damon não conseguisse se explicar. Tentou ligar de novo. E de repente se viu de frente para o quarto que devia visitar. Olhou ao redor e tentou dar meia volta para ganhar mais tempo, mas deu de cara com uma enfermeira. Ótimo, o que precisava. Não podia simplesmente sair andando porque ela iria notar a súbita alteração de caminho, e ele trabalhava no hospital há tanto tempo que dizer que errara o número do quarto estava fora de questão.
– Algum problema, Doutor Salvatore?
A enfermeira lhe perguntou no exato momento em que ouviu Damon responder a chamada.
– Stefan?
Droga de novo. Agora, tinha que entrar no quarto. Justo no momento em que o moreno atendeu. A regra era clara: sem ligações pessoais durante o expediente.
Desligou o celular e o guardou no jaleco sem realmente querer fazer isso.
– Não, nenhum problema.
Desesperando-se por dentro, forçou um sorriso e abriu a porta.
– Bom dia. Como se sente depois da cirurgia de ontem?
*-*
Elena pediu um sonho, arrependendo-se por um momento em seguida. Doce de leite às nove da manhã. Quem come isso? Mas realmente queria um há dias, então apenas esperou na expectativa de que estaria melhor do que o café.
Pegou a foto que tinha em cima da mesa e a dobrou no meio, jogando dentro da bolsa. Damon havia ligado e pedido para que se encontrassem. Ela apenas lhe disse o endereço de onde estava, sem querer sair dali para se encontrar em outro café. Seria uma viagem perdida, considerando que já estava em um. Visualizou o relógio.
Ele devia estar perto agora.
Cruzou os braços sobre a mesa, deixando sua cabeça cair sobre eles. Não sabia o que pensar de toda essa situação. De Damon, da foto, se as mensagens de texto e o incêndio estavam relacionados ou não Decidiu que iria apenas esperar. Mas enquanto fazia isso, seus olhos começaram a parecer pesados demais para mantê-los abertos. Sua consciência foi ficando cada vez mais tranquila e Elena sentia como se seus problemas houvessem desaparecido do mundo. Ou tivessem se escondido e não pudessem ser achados na escuridão. Algo tocou seu ombro e ela ergueu a cabeça rapidamente. Os olhos azuis a fitavam intensamente.
– Demorei tanto assim que você dormiu?
– Eu não dormi — contestou, recebendo um selinho antes dele sentar na cadeira a sua frente.
– Certo — riu baixinho.
Elena percebeu seu sonho na mesa, mas não se recordava da garçonete o ter trazido. Talvez tivesse mesmo dormido. Damon deu uma rápida olhada no cardápio.
– Acho que vou lhe acompanhar com um cappuccino e--
– Tem certeza que não vai querer outra coisa? — a morena sugeriu, lembrando do seu próprio café que agora estava frio. — Confie em mim, você não quer um cappuccino.
– Eu gosto de cappuccino — argumentou, desviando os olhos do cardápio até a morena.
– Então, por favor, pegue o meu — empurrou a xícara até que ficasse em sua frente. Ele olhou o seu conteúdo e ergueu as sobrancelhas.
– Ok, sem cafés — concordou.
– Mhm.
Ela deslizou o indicador na lateral do sonho e, conseguindo uma boa quantidade do recheio na ponta do dedo, o levou até os lábios e lambeu o creme.
– Sabe o quanto isso foi sexy? — flertou, querendo acabar com o clima sem graça de antes. Sem sucesso.
– Mhm.
– O quê? — Procurou os olhos da namorada, mas ela não olhou para ele. — Tem algo errado? Está irritada comigo?
– Não sei, Damon. Você fez algo que pudesse me deixar irritada?
Confuso, ele uniu as sobrancelhas. Obviamente ela estava, então tentou achar algo que pudesse ter causado essa reação.
– Não que eu me recorde...
– Deixe que eu refresque sua memória — pegou a foto na bolsa e jogou em cima da mesa.
Damon a desdobrou e seus olhos não decidiam se olhavam para o papel ou a morena.
– Quem é essa loira, Dam?
– Eu não sei!
– Óbvio que não... — fez menção de se levantar, mas teve seus braços segurados e acabou sentando de novo para ouvir frases que pareciam uma única palavra de tão rápido que ele falava.
– Elena, eu nunca vi essa mulher na vida. Eu nunca trairia você. Não acha que eu teria terminado com você antes de ficar com outra?
– Sim, achava. Mas também achava isso de Matt há um tempo atrás E a prova da traição estava diante de seus olhos, então como não poderia ser verdade? Mas Damon era muito diferente do seu ex, e a fonte de onde veio a foto era suspeita também
– Então você não foi ao shopping ontem?
– Bem, fui — ela o encarou e ele se apressou em acrescentar: — Mas eu não beijei ninguém.
– Então... O que foi fazer lá? — perguntou, a curiosidade quase formigando sob sua pele agora.
Damon respirou fundo, decidindo se falava ou não.
– Não posso contar
– E por que não? — estreitou os olhos.
Ele não sabia quem havia feito a foto, mas quem quer que fosse já tinha seu total desgosto e raiva. Era uma boa foto falsa, tinha que admitir. Mas estava lhe causando sérios problemas, e não parecia ser por acidente. A dúvida na mente da morena fora bem colocada lá, e agora ele corria o sério risco de perdê-la por isso. Suspirou, derrotado pela desconfiança dela. Detestou essa situação e se viu sem saída.
– Tudo bem. Eu ia te convidar para um jantar e lhe dar hoje a noite. Mas acho que se eu não lhe mostrar agora mesmo é possível que nem haja um 'hoje a noite', então...
Deslizou a mão pelo bolso da jaqueta e retirou uma pequena embalagem dourada. Livrou-se do papel metalizado e segurou entre os dois, em cima da mesa, o que havia dentro. Elena aproximou-se mais do objeto e fitou a caixinha de veludo vermelho. O significado daquilo a atingiu com emoções, mas todas misturadas tiveram o mesmo efeito que um tapa e ela recuou, as mãos sobre o rosto sem decidir onde exatamente deviam parar.
– Damon, isso-isso é...?
– Sim. — guardou a caixa no bolso novamente. — Mas não vou lhe propor aqui. — então soltou uma risada sem graça — Agora você sabe. Vai ser o pior pedido da história.
– Não! Não. — segurou as mãos dele. — Só por ser você já vai ser especial.
Aquilo era melhor do que ela imaginava. Muito melhor. E ela achando que ele trocaria aquele romance por qualquer uma...
– Então isso já é um sim? — ele provocou com um meio sorriso.
– Depende. Qual o tamanho do diamante que tem ali? — brincou rindo, sentindo lágrimas quentes escorrerem de seus olhos.
– Depende. — ergueu a mão e limpou suas lágrimas com o polegar. Ou pelo menos tentou. — Quão longo vai ser o beijo que vou receber por isso?
Sorriram um para o outro. Embora Damon sentia-se meio chateado por ter que contar antes, também sentiu que era importante não deixar aquilo entre eles. Não podia deixar aquela foto idiota acabar com tudo o que tinham juntos. E então pensou em quem poderia ter feito isso. Começou, automaticamente, a pensar em nomes, quase nenhuma pessoa boa o suficiente para ser considerada suspeita. Mas forçou-se a parar em seguida para dar atenção ao mar de chocolate que eram os olhos em sua frente.
– Então eu não sou mais o alvo de sua raiva?
Ela fungou e olhou para baixo, encarando a mesa.
– Não. Sinto muito. A ideia de que você possa me trocar e eu ter que viver sem você me assusta.
– Ei — tocou seu queixo e ergueu seu olhar. — Não precisa pensar nessa ideia. Você nunca vai precisar viver sem mim. -ela sorriu e descansou a mão sobre a dele, que havia subido para sua face. — A não ser que queira.
– Eu não quero
Ele sorriu diante de seu sussurro.
– Ótimo. Porque eu também não.
Então ele juntou seus lábios, deleitando-se no momento de paz que podia sentir. Sorriu em meio ao ato, cutucando com a língua o local que continha uma alta quantidade de açúcar na boca da morena. Se era do café ou do sonho ele não sabia. Mas com certeza não ia reclamar.
Depois do café, Damon convenceu Elena a passar o dia com ele. Mesmo com a morena sabendo o que ele ia fazer depois do jantar, ele não mudou seus planos. A chamou para um passeio antes do almoço e disse que ela talvez precisasse de roupas de banho e paciência, porque era um local longe da cidade. Elena sorriu, concordando, e pediu para que ele a levasse em casa. Além de pegar o que lhe fora dito ser necessário — como o biquíni — também resolveu tomar um banho rápido e trocar de roupa. Disse para seu futuro-noivo — e como adorou a ideia de chamá-lo assim, principalmente depois da palavra seu — podia esperá-la em seu apartamento, mas ele insistiu em esperar no primeiro andar do prédio.
Elena subiu as escadas correndo, sem querer perder tempo com o elevador. Torceu para que Caroline estivesse em casa a essa hora para ajudá-la. E ela sabia: mesmo que a loira estivesse trabalhando em um novo desenho, jogaria tudo para cima e ajudaria a amiga a se arrumar enquanto escutava as "fofocas". Provavelmente soltaria um grito fino e teria milhares de dicas para dar. E desta vez, Elena iria prestar atenção sorrindo. Sentia falta da amiga e — não acreditava que diria isso — de ser sua Barbie.
De pressa ou nervosismo, não sabia, atrapalhou-se com as chaves para abrir a porta. Alguém a destrancou por dentro e ela esperava que não fosse Bonnie. Não estava com cabeça para conversas de negócios Não queria pensar no restaurante depois de ter visto o veludo vermelho da caixinha que Damon iria lhe dar hoje a noite. A foto e as mensagens foram esquecidas em algum lugar de sua mente e ela lidaria com isso depois.
E para seu alívio não era Bonnie. Um problema a menos no momento; precisava correr. Damon a esperava no térreo. A porta se abriu e Elena, ainda olhando para o chão, viu os sapatos masculinos.
– Oi, Jer.
Entrou no apartamento e vasculhou sua bolsa a procura de seu estojo de maquiagem — que havia sido forçada a ter, ou a loira teria um ataque.
– Você viu a Care? — perguntou achando a bolsa verde e abrindo-a, examinando um rímel. — Eu não lembro se ela
Algo a impediu de continuar falando, e Elena notou que caía na escuridão da sala de estar. As luzes não estavam acesas antes? Sentiu o carpete arranhar sua pele exposta e percebeu que fora empurrada. Tentou gritar, mas sua boca fora coberta com um pano, assim como seu nariz. Ao respirar, a morena sentiu a ardência em suas narinas, garganta e todo o caminho até seu pulmão é começou a sentir que não conseguia mais respirar. Debateu-se, chutando o que conseguia encontrar no caminho e tentando retirar aquilo de seu rosto, sem sucesso. Então prendeu a respiração, tentando desferir alguns socos e teve seus braços presos ao chão, sentindo sua cabeça bater em alguma coisa — ou alguma coisa bater em sua cabeça, não sabia dizer.
Um grito abafado de desespero saiu de sua garganta, mas foi filtrado pelo pano e tudo o que parecia ser no fim era um murmúrio de lamento. Acabou tendo que respirar de novo, mas o que entrava não era mais ar. Debateu-se mais uma vez, jogando um membro para cada lado e libertou uma das mãos da garra que a segurava. Tentou arranhar a mão que mantinha o pano contra seu rosto até que a dor fosse tanta que ele desistisse e lhe soltasse, mas sentiu-se sufocada e o oxigênio faltando em seu corpo fez com que a ação terminasse em pequenas carícias com as unhas.
Acabou, pensou. Quem quer que seja, essa pessoa venceu.
Em resposta ao pânico de seu cérebro em poupar oxigênio, seus olhos pesavam e sua consciência se esvaía. As mãos afrouxaram um pouco o aperto, mas ela já não tinha forçar para reagir. Tonta, fitou um rosto pairar acima do seu; sua visão desfocada registrou quatro rostos, e todos pareciam iguais. Os olhos eram frios. E o sorriso era cruel.
No instante seguinte, o rosto sumiu e só o que havia era o escuro.
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