Havia um doce aroma de flores no ar — e Elena o inspirou como de há muito tempo não respirasse oxigênio. Arfou algumas vezes, confusa e com pensamentos perdidos que não tinham sentido uns com os outros. Ao longe, podia ouvir o som de bip's acelerando o ritmo; era irritante. Abriu os olhos para os fechar em seguida, achando que a luz cegava seus olhos. Talvez estivesse acostumada com o escuro. Aos poucos, olhou ao redor. Era um quarto branco com detalhes em verde e na mesa ao lado da cama encontrava-se um vaso com rosas perfumadas. Ao cheiro das flores, a morena também podia sentir o cheiro de produtos de limpeza como se o ambiente fosse esterilizado diariamente.

Elena olhou para si própria, observando os braços enfaixados até os pulsos, combinando com seu tornozelo. Também sentia uma leve pressão na altura de seu peito e ela moveu a mão devagar para afastar a gola da camiseta que vestia. Mais faixas brancas — e uma dor nas costas, uma que ela não se lembrava de ter conseguido. Até que tudo voltou à sua memória em um único instante.

– Damon!

Agarrou os fios que mediam seus batimentos cardíacos e os arrancou de sua pele. Consequentemente o monitor apitou uma última vez em contínuo som ao trocar as linhas que se moviam por uma linha reta. Também segurou aqueles fios que de alguma forma passaram por entre as faixas em seu braço e se conectaram à parte interna de seu cotovelo. Aquilo iria doer… E mesmo assim ela puxou a mão para trás.

Sentou-se antes de se levantar, para acostumar seu corpo inerte com movimentos que requerem mais atividade cardiorrespiratória, e ao ficar de pé quase caiu no chão. Suas pernas estavam sensíveis e seu tornozelo estava dolorido, embora conseguisse fazer movimentos flexíveis. Por quanto tempo ficou desacordada?

Quando se acostumou novamente, andou até a porta e, descalça, saiu pelo corredor abrindo porta atrás de porta e olhando dentro do quarto a procura de Damon. O desespero aumentava a cada quarto — ele tinha que Estr dentro de algum deles, não tinha? Ele tinha que estar. Não podia estar... estar…

Forçou-se a interromper o pensamento. Nada de tão grave havia acontecido. Ela o encontraria acordado em um dos quartos. Mas as portas não abertas estavam acabando e a morena sentia como se fosse cair.

Quase no fim do corredor esbarrou em alguém. Stefan a segurou pelos braços, a soltando em seguida por saber que estavam doloridos devido às queimaduras. Pensou em perguntar onde estava Damon, mas a expressão dele não parecia convidativa à perguntas; então ficou calada, esperando.

– O que faz fora do quarto? Três enfermeiros estão confusos e agitados porque há um monitor sem batimentos cardíacos.

– Olha que sorte: eu não estava no quarto.

– Esse é o problema.

– Por quê? Queria que ele estivesse monitorando os meus batimentos? Ou a falta deles, no caso. Que estivesse apenas mostrando que meu coração parou?

– Não foi o que eu quis dizer. E você sabe disso. Se estivesse no quarto nada teria parado.

Elena revirou os olhos e Stefan a segurou pelo ombro, guiando-a pelo corredor. Ela achava incrível que ele estivesse levando-a para ver Damon mesmo sem ela ter pedido. Era o melhor cunhado do mundo.

– Você foi muito esperta — elogiou. — Se não tivesse protegido seu rosto com os braços a queimadura podia ter sido muito pior.

– Por quanto tempo eu dormi?

– Uma semana, um pouco menos eu acho…

– Semana?

– Você poderia ter acordado antes, mas teria sentido dores. Então seu irmão assinou a permissão para lhe manter dormindo por mais um tempo.

– Jeremy veio me ver?

– Veio. Vem, pra ser mais correto. Todo dia por uma hora. Deve ser um ótimo irmão.

– Não! — parou de andar na frente da porta aberta do quarto onde acordou.

– Elena? Entre…

– Não. — virou de frente para ele. — Você vai me levar para ver Damon.

– Não posso. Agora entre no quarto.

– Eu tenho direitos.

– Que direitos? — perguntou exasperado.

– Sou familiar.

– Claro que é. Eu jamais esqueceria seu rosto. Você é familiar. Agora entre no quarto.

– Você entendeu, Stefan. Eu sou da família.

– Namorada não é família e nem parente próximo.

– Ficaria ofendida com esse comentário se você estivesse falando sério. — então lembrou-se da conversa que eles tiveram da última vez: — eu sou parente: ele é meu noivo. — ou quase.

– Ah, noivo… — Stefan balançou a cabeça. — Então vocês se entenderam — lembrou de que ele próprio entregara o irmão. Era uma mentira leve dizer que estava trabalhando para escolher a aliança sozinho e fazer uma surpresa, não era? Damon devia estar totalmente perdoado agora.

– Então... Deixe-me vê-lo.

Ele olhou ao redor. Ninguém estava prestando atenção. Mas uma discussão certamente iria atrair os olhares daqueles entediados no trabalho.

– Não posso, Elena — suspirou.

– Por quê? Ele está aqui, não está? Ele tem que estar.

– Sim, está. Mas… — olhou ao redor novamente.

– Por favor, Stef.

Os olhos verdes a encararam por um tempo antes de ver o corredor mais uma vez. Sua mão se moveu antes que ele pudesse pensar e no momento seguinte estava arrastando Elena corredor abaixo pela mão — já que os braços estavam enfaixados. Ajudou a morena a subir um lance de escadas por achar que o elevador atrairia muita atenção e continuou andando até o fim do corredor no andar superior ao que estavam antes. Respirou fundo antes de girar a maçaneta e dar um empurrãozinho para dentro.

Elena hesitou antes de passar pela porta aberta e prendeu a respiração com o que viu. Aquilo quebrou seu coração. Era difícil achar uma parte do corpo de Damon que pudesse ser vista sem faixas ou tubos atrapalhando o caminho. Seu rosto continha alguns curativos e havia um conjunto de gazes enroladas na sua testa, abaixo da linha do cabelo negro.

Elena achou que ia desmaiar por sua visão estar embaçada, mas assim que piscou sentiu as lágrimas escorrendo por seu rosto. Seguiu o olhar para baixo e observou alguns pontos de sutura preta em sua perna. E pensar que era culpa dela…

Arrastou uma cadeira para perto da cama e sentou-se o mais perto possível, acariciando seus cabelos.

– Eu sinto muito… — que tenha ido atrás de mim, quis dizer. Mas não era só por isso. Ela sentia muito por ter se aproximando dele no Starbucks àquela manhã, começando tudo isso. Não devia ter se aproximando. Devia apenas ter agradecido que ele salvara sua vida uma vez e deixado assim.

– Os policiais tem apenas teorias sobre o que aconteceu lá, sabe? — Stefan encostou-se na parede, apoiando as mãos no bolso do casaco. — Acham que ele inspirou muita fumaça e acabou desmaiando por falta de oxigênio no cérebro. Faz sentido, o corpo se "desliga" para poupar um recurso que o cérebro precisa mais. Mas os testes que fizemos não indica que o problema foi respiratório. Então achamos que foi pela perda de sangue. Ele precisou de duas bolsas na cirurgia.

– Não foi um desmaio repentino.

– Por que acha isso?

– Ele me beijou antes de me empurrar para fora. Como um adeus. Ele sabia.

Ele ficou quieto por um momento.

– Também não entendem porque você estava lá fora enquanto ele estava dentro. Na verdade, a dúvida era porque você foi abrir a porta.

– Para tirá-lo de lá — seu tom explicitava o quanto a resposta era óbvia.

– Sim, supondo essa intenção…

– O que quer dizer? — inclinou a cabeça, observando Damon dormir.

– Eles acham que você incendiou o galpão e depois se arrependeu, mas já era tarde.

– Que absurdo. Você não acredita nisso, acredita? — sua resposta foi o silêncio e ela ergueu a cabeça para encarar seus olhos. Stefan finalmente esboçou reação, inclinando os ombros para cima. — Você acredita!

– Bem, sua colega de apartamento disse que vocês andavam brigando o tempo todo.

– Minha colega de… filha da mãe. — Sua respiração se alterou de novo e ela teve vontade de jogar algo longe. — Eu não brigava com ele. — Stefan ergueu a sobrancelha. — Só por coisas idiotas — admitiu baixinho.

– Foi bem convincente… A última vez que chequei, você brigou comigo para conseguir informações para brigar com ele.

– Foi um mal entendido! E nunca chegaria ao ponto de eu tentar… — não conseguiu terminar a frase e esfregou o rosto frustrada. Até a ideia da palavra fazia com que ela se sentisse doente.

– Sei disso.

Elena suspirou. Caroline estava saindo do controle há tempos.

– Você não devia ter saído do quarto.

– De novo isso, Stefan?

– A polícia proibiu que saísse. Você é suspeita, lembra? De tentativa de homicídio.

– Eu não…!

– Eu sei. Conte à polícia. Embora eles vão esperar Damon acordar para dizer o que houve, já que ele foi o mais prejudicado. Mas eu tenho que te levar de volta antes que alguém perceba. Já devem ter ligado para alguém vir falar com você.

– Certo… — ergueu-se e acariciou o rosto de Damon novamente. Teve vontade de pedir para que ele a fizesse dormir de novo, mas de que adiantaria? — Obrigado por me deixar vê-lo.

– Sem problemas — meneou a cabeça. — Desde que ninguém tenha dado falta de você.

Ela riu por um segundo, sem achar graça.

– Até, Dam… — Então virou-se para Stefan. — Quando ele acordar, pode pedir para que ele vá me ver? Já que eu não posso sair do quarto…

– A não ser que planeje esse encontro na cadeia, você vai ter alta antes dele acordar. — Ela o encarou. — Ele está em coma induzido. Bem mais além do seu estado clínico.

– O quê?

– Coma induzido. Sabe, não é um coma, mas nós podemos utilizar substâncias para que o paciente entre em uma espécie…

– Não, Stefan. Quero saber porquê.

– Por desejo dele. Ele sabia a profissão que escolheu e os riscos. E ele preferia dormir por meses à ficar inerte em uma cama, entediado e sentindo dores.

A morena o encarou novamente, parecendo tão sereno quanto todas as manhãs em que acordaram juntos. Mas desta vez não era por estar feliz. E era por desejo dele?

– Vamos, Lena…

Ela enxugou mais algumas lágrimas. Forçou um sorriso e encontrou sua mão, enlaçando seus dedos.

– Eu volto logo — prometeu.

Beijou-o sentindo-se arrasada por dentro e seguiu Stefan para as escadas.

– Eu sou egoísta.

Ele uniu as sobrancelhas. — O que disse?

– Eu não podia ficar contente. Eu tinha que fazer Damon correr atrás de mim e me salvar várias e várias vezes. O restaurante era para ser a primeira e última situação. Mas eu fui egoísta e me aproximei mais do que devia.

O irmão mais novo a encarou, parando na porta que ficava entre as escadas e o corredor, não saindo do espaço pequeno de.degraus.

– Sabe o que eu acho que ele ia dizer se estivesse aqui? — ela negou com a cabeça. — Que valeu a pena por uma mulher como você.

– E o que ele vê em uma mulher como eu? Porque eu só trouxe problemas… Não sei porque ele ainda está comigo.

– Elena… — ele afastou seus cabelos do rosto. — não foi culpa sua. E você faz dele o homem mais feliz do mundo só por existir. Ele não se importa com os momentos ruins. São os bons que conta.

– Mas ele está no hospital por minha causa.

– Foi você que incendiou o galpão? Não, você até tentou abrir a porta. Tentou o salvar também. Isso vale muito.

Elena assentiu, assimilando as palavras.

– Mas eu devia ter deixado ele falar isso nos votos do casamento.

Um meio sorriso se desenhou nos lábios dela.

– Pronta para voltar?

Ela assentiu. Então ele abriu a porta e os guiou pelo corredor.

– Obrigada por não pressionar e perguntar o que realmente houve.

– Você não estava pronta… muita coisa para processar e uma entrevista pela frente para falar disso. Eu posso esperar.

– Obrigada de novo. Ei. Se você não fosse meu cunhado eu te declarava meu irmão protetor.

– Jeremy vai ficar com ciúmes…

– Achei que ia dizer que Damon ia ficar com ciúmes.

– Não preciso mencionar o óbvio.

Eles entraram no quarto de Elena e ela se deitou na cama, deixando que ele arrumasse os tubos e os cabos do monitor em seu corpo.

Mesmo após conversar com Stefan não se sentia convencida. Agora sabia como terminar a frase anterior: Ela sentia muito por tudo.

Notas finais
Agradecemos a todos os comentários escritos, de coração. Espero que tenham gostado do capítulo.