Bonfire Heart
32 I can't sleep
Elena ergueu o olhar e encarou o teto. A tinta que o cobria era branca, mas no escuro da noite ela parecia cinza. Completamente cinza. Tão, tão entediante. Cruzou os braços em cima da barriga e balançou as pernas de um lado a outro na cama, tentando se divertir, ou no mínimo ficar com sono. Mas por mais tédio que tivesse, não conseguia manter os olhos fechados.
Ergueu-se e sentou em uma poltrona perto da janela. Afastou a cortina e observou as estrelas. Mais que isso: tentou contá-las. Uma, duas, três… aquilo era uma estrela ou um prédio alto com a luz ligada no topo para avisar ao avião de sua altura? Talvez fosse o próprio avião. Não importava. Ainda não sentia sono. Decidiu pegar um livro aleatório para ler, mas estava em uma estante tão longe na sala que ela desistiu.
– Elena?
Sorriu, encarando um Damon sonolento na cama. — Sim?
– Que horas são? — olhou para fora da janela e recebeu sua resposta. Não teria como saber as horas, mas tinha ciência de que era tarde. — Tem algo errado? Está se sentindo bem?
– Estou… — de fato, sentia-se bem. Só não conseguia dormir.
Acreditando na namorada, Damon ergueu as sobrancelhas por um momento — indicando ter escutado a resposta — e virou-se para o outro lado da cama, tentando dormir de novo. A morena mordeu o interior dos lábios, observando que a respiração dele ia se estabilizando aos poucos. Arrepende-se: devia ter dito que não e ele com certeza lhe auxiliaria a adormecer.
– Damon? — chama baixinho, porém ele não responde. Aproxima-se da cama e sussurra — Damon?
– Hm?
Ela encolhe-se e abraça a si mesma. Fica em silêncio pois sabe que ele não acordara de fato.
– Damon? — tenta de novo, um pouco mais alto dessa vez.
– O que foi? — pergunta de forma arrastada e baixa, sem dúvida meio incomodado.
– Está acordado?
– Não…
Elena permanece de pé, ao lado da cama. Encara os seus cabelos negros espalhados no travesseiro, o pescoço que continha uma marca roxa na lateral — culpa sua — e um breve espaço de pele a mostra pouco acima da gola do pijama. Estende a mão e puxa o tecido de leve, mas não recebe nem uma resposta. Então enrola uma mecha de fios escuros no dedo e gentilmente puxa algumas vezes para baixo. Um som rouco sai da garganta de Damon antes que ele se vire.
– Algum problema, Elena?
Ela encara seus olhos sem distinguir os pigmentos azuis das sombras que a noite lançava sobre eles.
– Estou sem sono…
Ele ergue a mão e a esfrega no rosto. Em seguida aperta a ponte do nariz entre os dedos: — Por que não deita e espera, simplesmente?- Já tentei fazer isso — responde um pouco frustrada.
– Quer um chá? — ela negou com a cabeça. — Hã, remédio? — outra negação. Damon suspira. — Quer deitar comigo em uma última tentativa? Talvez se trocarmos de lugar na cama você se sinta mais confortável…
Elena duvidou, mas aceitou mesmo assim. Não custava nada tentar. Damon mudou de lado na cama, deitando no seu lugar já frio e ela se aconchegou no lado que era dele. O moreno deitou um pouco mais perto dela, acariciando-lhe o braço e parte das costas que ficaram em sua vista. Respirou fundo e começou a cantarolar uma canção, primeiro usando apenas as vibrações das cordas vocais, e depois adicionando sua voz em palavras sussurradas. Sua mãe costumava cantarolar o ritmo da música sempre que cozinhava.
Certa vez, Damon ficou com vontade de sentar-se em um banquinho no balcão para ouvi-la cantar. A música não era tão bonita, mas a voz de sua mãe com a entonação de alegria com a qual ela cantava fazia daquela canção a música mais bonita de todas. Era especial para ela, e ele sabia disso. Acabou sendo especial para ele também. Aprendeu a letra inteira pouco tempo depois, e gostava de cantá-la em sua mente; até hoje, quando pela primeira vez cantou para alguém que não fosse sua mãe.
Quando a canção acabou, observou Elena. Sua respiração era estável e ela parecia estar mais relaxada. Sorriu, fechando os olhos.
– Ainda estou acordada… — comentou.
Damon jogou as cobertas longe, assustando-a. Levantou-se e, descalço, andou em direção a porta.
– Aonde vai? — ela pergunta curiosa.
– Até a cozinha.
– Por quê?
– Vou faz café. Se você não consegue dormir, então eu vou ficar acordado também.A morena sorri de lado — sem estar alegre mas, sim, apreciando a tentativa dele. Embora não devessem pois ambos trabalhariam amanhã, e Damon sentia que iria ficar cansado à tarde. Vale a pena, já que essa situação não seria rotina.
Com o café feito, serve uma caneca. Bebe alguns goles, comprometendo o resto de sua noite a ficar acordado. Volta com o líquido para o quarto mas não consegue entrar, parando na soleira da porta como se houvesse uma barreira invisível o impedindo de avançar.
Elena estava no seu lado da cama, como antes — não que ele se importasse com isso -, e seus olhos estavam fechados. Ele chegou mais perto.
– Elena?
A morena não respondeu. Talvez estivesse brincando com ele. Deu leves tapinhas em seu ombro, em seguida a empurrando gentilmente para frente.
– Elena…
– Hmm — murmurou se virando para o lado.
Sim, estava de fato dormindo.Sem reação, fica parado ali por um momento. Depois tenta deitar na cama, deixando o café de lado. Mas tudo o que consegue fazer é encarar o teto; seus olhos não querem se fechar. Então ele passa o resto da noite esperando que o cinza fique alaranjado com os primeiros raios de sol. Isso demora. E é um tédio.
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