Bonfire Heart
33 Long Day
Os cabelos loiros de Caroline pareciam prateados sob a luz do luar enquanto ela caminhava pelas ruas de Paris como se estivesse procurando algo, sem saber o quê. Solitária, observava que até os pássaros tinham companhia ao procurar migalhas de comida no chão da praça.
Abraçou o próprio corpo quando uma rajada de vento lhe acertou, mas não era por causa do frio que procurou conforto nos próprios braços. Faltava-lhe algo. Fechou os olhos e achou que quase podia ouvir a risada da mãe enquanto a abraçava. Há quanto tempo sentia falta do som verdadeiro? A memória humana nunca é perfeita, e ela sabia que com o passar dos anos sua própria mente distorcera aquela memória. A risada que ouvia quando se entregava às lembranças não era a mesma que ela ouvira há anos atrás. Por essa razão ela tentava não deixar Liz morrer dentro de si. Sorriu lembrando-se do natal em que comeram frango porque nenhuma sabia como se cozinhava o peru. "E ainda está meio cru aqui", comentou ela. A filha negou, dizendo que estava perfeito antes de mastigar a ave não cozida e forçá-la para seu estômago. Teve dores de barriga por duas horas naquela noite, mas ao menos Liz não se sentira culpado sobre a falta de cozimento da sua comida. Ela nunca cozinhara bem. Seu melhor prato era sanduíche — se ela não precisasse cortar fatias de queijo que sempre saiam irregulares. Liz preferia pedir pizza, mas parar de fazer isso quando ela precisou parar de trabalhar. O vento jogou mais uma vez seus cabelos para trás, expondo seu pescoço à baixa temperatura. O frio lhe fez abrir os olhos, e logo ela estava novamente sozinha, parada no meio da rua. Ergueu os olhos, invejando a lua que tinha a companhia das estrelas.
*-*
Elena não aguentava mais esperar! Oito meses. Se não fosse por Caroline teria ficado noiva há oito meses. Eventos recentes lhe fizeram pensar que tal atraso era por causa de Damon: talvez ele houvesse desistido do pedido. Mas nada no comportamento dele indicava que ele não lhe amasse mais. Muito pelo contrário: todos os dias ele demonstrava que amava-a imensuravelmente, em cada pequeno detalhe, toque, cada demonstração de carinho e afeto que ele destinava-lhe eram preenchidos com uma paixão que crescia a cada dia com a certeza de que jamais iria se esvair. Ele não precisava expressar em palavras o que sentia porque suas ações explicavam-se sozinhas. Então por que a demora? O atraso? A espera interminável que parecia tortura? Talvez a morena estivesse exagerando e pudesse notar tal reação ao analisar a situação por fora, de uma forma mais calma e racional. Porém já havia se passado tempo demais e a situação estava longe de ser calma há tempos. Toda vez que tentava soltar uma indireta relacionada ao assunto, Damon parecia não entender ou não se importar. Dali surgiu a ideia de que ele havia desistido. E em todas as vezes que ele fazia com que ela se sentisse a mulher mais feliz e sortuda do mundo era quando aquela teoria de dissipava. Ele não desistira. Apenas estava sendo cauteloso, esperando alguma coisa. Mas o quê? Que ela esquecesse para que o pedido se tornasse uma surpresa outra vez? Que suas indiretas acabassem para que ele pudesse parar de fingir que não entendia?Isso era muito complicado, percebeu. Mas não ia se preocupar com motivos e razões agora. No momento tinha a oportunidade de ouro: Damon estava no banho e a caixa de veludo estava em algum lugar da casa. Não podia mais esperar, e nem queria. Então começou a mexer nas gavetas do quarto em busca do objeto. Ela podia sentir na pele as vibrações da pequena caixa chamando seu nome. Só precisava saber onde procurar. Como eles costumavam cozinhar juntos no fim de semana ela sabia que ele nunca esconderia na cozinha. A sala era um ambiente comum e a não ser que ele tivesse um esconderijo realmente bem pensado a caixa não estaria lá. E ninguém esconde nada no banheiro, então... Elena olhou ao redor do quarto, pensando qual móvel ela desarrumaria primeiro.Gavetas, caixas, estantes, escrivaninhas e criados-mudos depois, Elena começou a achar aquilo difícil. O quão bem se pode esconder uma simples caixinha?Foi até o armário de novo e mexeu nos cabides, tocando os tecidos das roupas penduradas à procura de algum volume nos bolsos dos casacos. Dentro de uma jaqueta, seus dedos encontraram algo quadrado e suave ao toque. Ela sorriu em antecipação, sentindo-se outra vez uma criança que acorda no meio da noite para abrir um presente de natal sem que os pais soubessem. A ansiedade do momento lhe consumiu em pequenas sensações, como o tremor e frio nas mãos; ou o acelerar de seu coração e a respiração irregular.- Elena, o que está fazendo?Seu coração acelerou ainda mais por medo de ter sido descoberta e seu cérebro parcial ser um aparelho elétrico que havia sido desligado da tomada. Com as mãos trêmulas ela se afastou do casaco. Não podia dizer que estava apenas arrumando o armário, a não ser que isso implicasse em inspecionar os bolsos das roupas. Ela respirou fundo.- Nada. — virou-se para ele, ficando em frente da porta aberta para que ele não pudesse ver o armário atrás de si.- Perdeu algo? Quer que eu ajude a procurar?- Não! — mordeu os lábios para calar-se e repreendeu-se por falar tão rápido. Ele arqueou as sobrancelhas e se aproximou dois passos até Elena erguer a mão e o parar. — O que vai fazer? Ela morde o lábio inferior enquanto ele observa-a. Sua mão parecia fria perto da pele que recém havia saído de um banho quente, e Damon estreitou os olhos. Ela sabia que ele desconfiava de que algo estava errado, mas ainda assim um sorriso provocante se forma em seus lábios antes de sussurrar o óbvio.
– Preciso vestir alguma coisa — aponta para o armário atrás dela. Elena praticamente desliza seu olhar sobre ele. Algumas gotas de água caem de seus cabelos e se acumulam onde podem, até a gravidade vencer seu esforço de se unir e as forçar a escorrer para baixo. Cada caminho de água em seu torso era demarcado por uma fina linha que decorava seu corpo em seus mínimos e perfeitos detalhes até chegar na toalha cinza ao redor de sua cintura.Elena volta a olhar para cima quando ele estala os dedos. Suas sobrancelhas ainda estavam arqueadas, mas sua expressão era de divertimento. Observando-o, ela quase esquecera que havia sido pega mexendo nos bolsos dos casacos do namorado há poucos minutos. Talvez ele nem fosse usar aquela jaqueta, mas não custava nada se precaver de que ele não soubesse. Tinha certeza de que isso não significaria nada quando fossem lembrar disso em dez anos e rir, porém naquele momento parecia importante que ele não soubesse de seu desespero.
– Você não precisa. Você quer. É diferente — argumenta em um tom forçado de quem está sendo razoável.
– Está insinuando algo? — sorri malicioso. Elena inclina a cabeça para o lado, percebendo o que exatamente acabara de falar. Estava insinuando? Ela só queria que ele se afastasse do armário!
– Não, eu só… — Só estava procurando isso? — ele se próxima do armário e coloca a mão no bolso da jaqueta, puxando a caixinha vermelha e erguendo-a até o nível de seus olhos.Ela permanece parada no lugar, sendo alvo de seu sorriso irônico. Damon envolve sua cintura em um abraço e distribui pequenos beijos por sua face.
– Não desisti da ideia, se é com isso que esta preocupada… — assegura. — Só estou ansiosa para ver o anel que vou usar para o resto da minha vida — admite. Ele ri.
– Você vai ter tempo para vê-lo todo dia a partir do pedido. Não se preocupe com isso. A mão dela desliza por seu braço até chegar nas mãos e tocar o veludo.- Não posso dar só uma olhadinha?- Ah, Elena — balança a cabeça exasperado antes de soltá-la e procurar suas roupas no armário.- Isso é um não?- Você não consegue esperar?
– Já esperei oito meses!
– E o que são mais dois ou três pra quem já esperou oito?- Elena cruza os braços e observa-o por um momento. Ele estava brincando, provocando-a — mas ela não sabia disso. Ele jamais iria deixar que ela sofresse por antecipação se não planejava satisfazer suas vontades ainda naquele dia. Ela só precisaria esperar mais algumas horas, na verdade; só não sabia, e agora estava frustrada. Ponderou o que devia fazer e chegou à conclusão após alguns minutos.- Damon? — chama-o.
–Hmm? — termina de vestir a camiseta e se vira para ela, jogando a toalha em cima da cama.
Elena bufa frustrada e balança a cabeça, retirando-se rapidamente do recinto, deixando um Damon sorrindo para trás...
Imbecil, chato, irritante! Pensou, pisando duro no piso de madeira. Era verdade que ela já havia conseguido esperar por oito meses, mas a cada dia que passava seu desejo de casar com ele aumentava exponencialmente, e não via a hora de aquilo tornar-se realidade. Apenas queria ficar com ele o resto da vida, era pedir demais? Suspirou e jogou-se no sofá, aquele seria um longo dia.
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