Bonfire Heart
3 Gravity
Notas iniciais
A morena encostou a cabeça no ferro frio e sem vida que segurava, tentando manter equilíbrio enquanto o trem balançava ao procurar seu antigo ritmo voltando a se locomover. Há dois dias que saiu do hospital. Mas ainda não fora ver seu restaurante. Suspirou mantendo os lábios em uma linha fina.
Foi proposital. Criminoso. E ela não conseguia imaginar alguém que tivesse motivos suficientes que levassem a fazer tal coisa. Isso a frustrava. Observou a marca que o soro havia deixado em seu braço, fechando os olhos.
Talvez esperando que o som metálico e enferrujado do atrito entre o trem e seus trilhos pudesse ser alto o suficiente a ponto de lhe fazer esquecer.
Você terá que recomeçar do zero...
Não!! Segurou as lágrimas e agarrou com mais força o metal agora já quente, e seus dedos ficaram brancos. O cheiro do salgadinho adentrou suas narinas, grudando-se em seus pulmões. Olhou a mulher que o comia como se estivesse com muita fome.
Uma dor em seu lábio inferior fez notar que o mordia. Então o soltou juntamente com um suspiro. Com uma parada brusca, notou o trem chiar. Cambaleou um pouco com a mudança rápida de velocidade e observou as portas abertas. Poderia? Com certeza. Deveria? Talvez não. Quem sabe seu coração não estivesse pronto para ver o que sobrou de seu sonho realizado.
A mulher do salgadinho levantou, passando pelas portas com a bolsa na mão. Elena ficou a observando enquanto andava entre as pessoas e não desviou o olhar de onde ela desapareceu de sua vista nem quando as portas se fecharam.
Era isso. Não dava mais tempo de descer. Pela segunda vez, vinha com a intenção de avaliar o que restou e deixava passar. Esperava que as portas do trem se fechassem. Seu carro teria que aguentar mais um tempo na frente do... Bem, na frente do que restou daquele local. Sim, ela estava disposta a ficar sem carro por uns tempos só para não ver.
Tremeu de leve, recusando-se a imaginar o que encontraria. Ou o que não encontraria, seria mais adequado. O trem chacoalhava seu corpo enquanto tentava pegar o celular no bolso de trás da calça.
Olhou as horas e ainda estava cedo. Desceu na próxima estação com as mãos tremendo.
Recomeçar do zero... Zero.
Levantou da cadeira do balcão e pegou seu café. Andou até uma mesa afastada e sentou-se um pouco encolhida, segurando o isopor com as duas mãos como se o calor dali de dentro pudesse aquecer seu corpo inteiro.
Observou a imagem da Starbucks impressa e seu nome ao lado. Sem importar-se com a etiqueta e suas regras, e ignorando completamente a colher, mergulha a ponta do dedo no chantilly e o leva à boca.
Sente a textura gelada desmanchar e escorrer adocicada por sua língua, levando embora o amargo sabor que trazia desde o hospital. Por um momento, sorri. Esquece-se do fogo, do restaurante. Dos anos que lutou para o construir. Apenas por um momento.
Passa a língua nos dentes e lembra-se de Bonnie. Saiu antes que ela do hospital. Então ela estava bem. Era isso o que importava. Certo? Bem, sim. Mas também não podia ignorar todos os dias que levantou cedo e dormira tarde para que aquilo funcionasse e chegasse onde chegou.
A morena suspirou e afundou no assento acolchoado cor de creme. Sentia-se sufocada. Talvez mais do que se sentira no meio do incêndio. Era loucura, mas sentia a garganta fechada e quando respirava nunca parecia ser oxigênio suficiente. Como se todo o ar que pudesse respirar não preenchesse seus pulmões. Abriu a boca e puxou uma lufada de ar maior. Sentiu-se tonta.
Apoiou a cabeça na mesa e tentou respirar fundo algumas vezes. Os bancos e pessoas ao seu redor giravam. Do zero... As palavras ecoavam na mente de Elena como uma assombração, não deixando nunca sua mente. Sua memória sempre trazia imagens da fumaça densa e negra que pairava acima do fogo, engolindo tudo na cozinha só para si, como se não quisesse que ninguém mais visse tais objetos.
Arqueja e endireita a coluna. Observa o copo de café e afunda o que sobrou do chantilly, distraindo-se com a camada branca que derretia e formava desenhos abstratos no copo. Ouve o toque de seu celular e aceita a chamada sem ver quem é.
– Alô?
– Lena, está tudo bem? Eu vi a notícia no jornal. Se machucou? Já saiu do hospital? Como você está?
Sorri, achando um pouco de graça na euforia da mãe. Sem parar de mexer o café, responde as perguntas. Talvez ouvir alguém mais desesperada do que ela estava por dentro a acalmasse um pouco. Principalmente sendo sua mãe, alguém que sempre lhe daria carinho, conforto e apoio. Após quinze minutos de conversa, desliga o celular e fecha os olhos. Esfrega os olhos com as mãos e esconde o rosto nas palmas. Precisava de distração. Ergue o rosto e observa a fumacinha leve e branca que ainda saia do café, mesmo que de forma mais fraca. Talvez a única fumaça que suportasse na vida. Junta as sobrancelhas, confusa, e olha através do movimento de ar quente esbranquiçado. Os cabelos negros desgrenhados. Ele estava ali. Sentado em uma mesa não muito distante, sozinho. Não pensa muito. Mordendo os lábios se levanta com seu copo e anda as três mesas, parando ao lado da sua. Ele continua olhando para fora da janela, sem notar sua presença. Perdido em memórias que gostaria de esquecer.
– Hum... Oi. — A voz envergonhada de Elena o faz ter um sobressalto e olhar seu reflexo no vidro antes de se virar para ela de verdade. Sorri de leve.
– Vejo que saiu do hospital. Está melhor?
A morena fica incomodada por não receber um 'oi' de volta. Mas ele falou com ela...
– Sim, estou.
Fica parada, segurando seu copo por um momento. Ele a encara sem expressão, apenas encara. Não sabia o que ela queria. Já se conversaram no hospital. Ela morde os lábios achando que talvez devesse falar alguma coisa.
– Eu... Sei que já lhe agradeci por me salvar, mas... — travou, sem saber como prosseguir. Ele assentiu, um gesto mudo para que prosseguisse. — Eu não sei seu nome.
Riu de leve, de modo baixo, achando graça. Elena arrepiou-se, mas não saberia dizer o porquê.
– Damon.
Ela sorriu — Elena.
Ele fez um aceno ao banco da frente, para que ela sentasse. Por educação, ou porque achasse que devia. Talvez porque quisesse... Não sabia ao certo. Apenas a convidou, e ela aceitou de bom grado.
Uma garçonete com os cabelos tingidos de loiros e amarrados em um coque aproximou-se e largou um prato de torta na mesa, olhando com desgosto para a morena. Damon franziu o cenho, mas não disse nada desviando o olhar para a mulher em sua frente. Quis ser gentil com ela. Não como era com todos que o cercavam em companhia, mas sabia que algo que mudasse drasticamente sua vida fazia com que você quisesse carinho e atenção. Ao lembrar do olhar dela no hospital, como se estivesse quebrada e vazia por dentro, sabia que ela precisava.
– Quer alguma coisa, Elena? — Ela sorriu ao ouvir a pronuncia lenta e arrastada de seu nome. Quase como se ele saboreasse o dizer.
– Não, obrigada — sorriu para a loira, que devolveu um sorriso falso antes de se virar. — Então... Você tem um sobrenome, Damon?
Ele riu de novo, um pouco mais alto que antes.
– Não, só Damon — brincou.
– Tudo bem, Damon Não-só-damon. Eu sou Elena Gilbert. — estendeu a mão e ele riu mais uma vez. A risada leve ainda refletia em seus olhos mesmo quando ele apenas sorria.
– Damon Salvatore — segurou sua mão, e ao invés de a balançar a ergueu, levando-a aos seus lábios e beijando a mesma.
Nota-a corar quase que violentamente e sorri.
– Você parece quente... — comenta divertindo-se. Somente após dizer isso é que percebe a possibilidade de haver duplo sentido em suas palavras, mesmo que não fosse essa a intenção. Receia que ela possa ter se sentido ofendida.
Mas Elena apenas sorri, passando uma mão no rosto em uma tentativa de não deixar o rosto esquentar. Havia notado um outro sentido por trás de suas palavras, mas não achou que pudesse ser proposital. Principalmente pela expressão que ele fez após isso, contraindo o maxilar. Fingiu não notar.
– É só que ninguém nunca fez... Bem... Beijar a mão de uma mulher é algo de outra época e ninguém nunca mais fez — exceto Matt... Balança a cabeça, como se isso ajudasse a afastar o pensamento. Matt nunca fez isso com paixão, como se fazer isso fosse apenas um jeito de ganhar seu coração. E era só isso que ele precisava.
Olhou para seu café e notou que nem havia tocado naquela mistura cor de chocolate. Mas ele também nem havia tocado na torta; seu garfo estava ainda embalado em plástico.
– Acho que sou de outra época — Damon sorriu, tentando amenizar o clima. Ela parecia transtornada.
Funcionou. Elena retribui seu sorriso e o analisa. A blusa preta em gola V ficava um pouco justa e esticada em seu corpo. Talvez estivesse em dia de folga. Mordeu os lábios e forçou os olhos a voltarem para cima, notando que ele observava algo em seu pescoço.
Aperta os lábios, tentando lembrar do que fez no dia para ver o que tem ali. Mexe no cabelo e olha discretamente para a janela, fingindo olhar para fora mas tentando ver seu reflexo. Não havia nada ali. O observa e ele agora olhava para a torta.
– Olha, desculpe. Acho que deveria lhe deixar comer em paz... — disse um pouco arrependida por estar ocupando seu tempo justamente em um dia de folga. Achava que parecia uma louca aos seus olhos. Talvez ele pense que não devia ter me salvo. Assim eu não poderia ficar o "perseguindo". Pegou o café na mesa e se levantou.
– Não... Tudo bem — Segura seu pulso antes que ela vá. — Você é uma boa companhia — admite e ambos sorriem.
Damon faz careta ao sentir algo lhe escorrer pelo braço.
– Ah, Damon. Perdão!! Mil desculpas... — Elena ignora o seu copo no chão e as gotas que respingaram em seus pés expostos pela rasteirinha e pega um guardanapo, tentando limpar a mancha marrom no braço do moreno.
– Tudo bem, não estava quente — pega o resto dos guardanapos e levanta, tentando limpar o ombro. Um pedaço da camiseta ficara suja e ele suspira.
– Sinto tanto... Mesmo. — Elena ainda tenta. Talvez devesse se afastar dele. Já perdera a conta de quantas vezes pedira desculpas.
– Tudo bem... — Repete segurando seus pulsos, impedindo que ela lhe toque. Não por não querer, mas ela tentava limpar um lugar já seco. — Não se preocupe.
Ela se afasta, cruzando as mãos nas costas. — Eu... Lhe compro uma camiseta nova... — aponta para a mancha.
– Nem dá para ver, Elena. É marrom no preto, e vai sair quando lavar.
– Eu insisto — disse esquecendo-se de que deveria ficar longe dele. Ela o queria perto. Como se ele fosse o chão, e a puxasse inconscientemente com a gravidade.
– Tudo bem... — desiste. Ele segura a porta para que ela passe e juntos vão andando pela rua. Ela não perguntou se ele tinha um carro. E ele também não comentou que havia estacionado ali na frente. Queria passar mais tempo com ela e andando ao seu lado seria o melhor jeito.
– O que tinha no meu pescoço? — pergunta de repente, o fazendo a olhar confuso. — Você encarou meu pescoço. Porquê? Está sujo? — Ergue a mão e o esfrega, tentando limpar algo que nem sabe se está ali.
– Não está sujo — segura seu pulso e puxa sua mão para a dele, brincando com o anel que usava.
– Então...?
– Esqueça — pede dando de ombros. Ele já havia esquecido, mas por trazer esse assunto ela também trouxe sua imaginação de volta. Somente por beijar sua mão já havia se inebriado com seu cheiro. O pescoço de Elena parecia uma tentação, chamando-me para descansar o rosto ali e respirar fundo.
Acariciou a mão dela antes de a soltar. Sentindo que sua mão já não estava mais ali, inclinou-se um pouco mais para seu lado, os ombros se roçando enquanto caminhavam. Suspirou com um sorriso bobo ao lembrar do beijo que ele havia dado na sua mão. Então ela teve a certeza. Havia a gravidade a puxando, e a gravidade é algo da qual não se pode fugir.
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