Bone Blades
5 Um intrometido interessante
Notas iniciais
Eri abriu os olhos devagar, ainda embaçados e a luz incomodava. Ficou alguns momentos se acostumando e se perguntou o que havia acontecido. Tocou o Coração-de-Dragão em cima de seu peito. Estava quente. Estranhou, porém ignorou. Ela tentou se sentar na cama e notou que estava sem seu sobretudo e sem suas armas e procurou com os olhos pela sala onde pudessem estar. Ela estava num quarto com um criado-mudo ao lado da cama com algumas gavetas, uma mesinha, uma vela em cima da mesma, duas cadeiras e um cabideiro, preso à parede, onde suas coisas estavam penduradas. Havia uma janela aberta, com a cortina esvoaçando, permitindo a passagem do luar. Eri se perguntou onde estava, mas sem conseguir uma resposta, levantou e foi até a janela, procurando reconhecer o lugar afora. Ainda estava em Hjör, ao menos.
Enquanto ainda observava através da janela, a porta atrás de Eri se abriu, fazendo-a virar rapidamente, em posição de defesa, esperando a tal pessoa se mostrar.
– Hum, já acordou? – Era o mesmo loiro que estava conversando com ela no beco. Ela relaxou novamente e suspirou
– Ah, é você... de novo... – Ela olhou bem para ele. Estava usando uma camisa bufante que estava com a gola entreaberta. Um tanto... provocante. Porém Eri evitou o contato visual. Eu estava conversando com você e...
– Você desmaiou. Eu trouxe você até meu quarto e tratei sua ferida.
Ela puxou sua blusa até o corte e viu que estava enfaixado. Ela suspirou e respondeu:
– ...Obrigada... – Mesmo apertando de leve, a ferida quase não doía, o que era estranho para o estado que estava anteriormente. Em tão pouco tempo, ter se recuperado tão bem... Aquela ferida não teve um efeito apenas físico, mas também energético. Eri se perguntou que tipo de tratamento ele usou naquela ferida.
Ele respondeu com apenas um sorriso:
– Ah, sim! Perdoe-me por não ter apresentado-me antes. Meu nome é Adell.
– ... Eri. – sentia como se ele estivesse sendo educado de mais, sorridente de mais, e ela não estava acostumada com isso.
– Eri... Bem você esteve dormindo aí por uns três dias. Acho que deve estar com fome, não é?
– Três dias!?
Ele riu e continuou:
– Venha, conheço um lugar por aqui com uma comida ótima.
– Espera. Eu... – Ele já tinha saído do quarto e Eri desistiu de protestar. Pegou suas coisas e o seguiu.
Eles chegaram à uma taberna um pouco mais elegante:
– Vou pedir algo para nós. – Disse Adell.
Eri se sentou à uma mesa esperando que Adell voltasse. Analisou o lugar onde estava até que o parou em Adell, que estava debruçado no balcão, falando com uma garçonete, que parecia encantada com ele. Afinal o que Eri ainda estava fazendo ali? Por que apenas não agradeceu à ele por ter cuidado de seu ferimento e foi embora? “Vou apenas comer e depois me despeço. Nada mais.” – pensou... Apesar de a vista não estar de mal grado... -. Ela desviou o olhar assim que ele se virou e veio em direção à mesa que ela estava, ficando um pouco vermelha.
– Bem, já fiz o pedido – Adell disse enquanto se sentava. -, o que acha de nos conhecermos um pouco enquanto isso? – Ela não respondeu. – Ok, eu começo. Você não é daqui, certo? De onde você veio?
– Prefiro não dizer...
– Então... o que veio fazer em Hjör?
– Nada. Eu apenas estou de passagem.
– Você faz parte dos Soldados Vermelhos?
Eri se surpreendeu um pouco com a pergunta:
– Conhece esses caras? – Ela perguntou.
– Na verdade, acho que todos da cidade conhecem, só que ninguém sai falando deles por aí.
– Você está falando agora, com uma completa estranha.
– É, acho que sim. – Ele riu. – Mas é que eu gostei de você.
– ... Não tenho nada com eles. Queriam me invitar mas eu recusei.
– Hum. Desculpe a intromissão. Eu tinha visto você sair da cidade com aquele cara, Labael, certo? E os outros dois. E fiquei curioso. Mas... então eles tinham um motivo para te convidar...
Ela suspirou e respondeu:
– Os Bone Blades exterminaram meu povoado e minha família. Só eu consegui sobreviver àquele dia. – O olhar de Eri mostrava seu ódio enquanto falava. – Eu jurei que caçaria um por um desses filhos da puta. Treinei todos os dias desde então e iniciei minha jornada à poucos meses. Labael, de alguma forma, ficou sabendo que eu matei alguns deles facilmente a uns dias atrás, numa cidade próxima daqui. Quando eu apareci na cidade ele veio falar comigo, querendo que eu ingressasse aos Soldados, e eu recusei. Prefiro trabalhar sozinha. Porém, antes de ir, ele me chamou para caçar mais alguns Bones que estavam por perto. Eu fui e nós os matamos facilmente, até que apareceu um cara montado num bicho gigante pra estragar nossa felicidade e usar uma adaga estranha contra mim, me causando esse ferimento bizarro.
Ela terminou e ele ficou em silêncio. A garçonete chegou colocando a comida na mesa, quebrando o clima tenso que fora criado:
– Mais alguma pergunta? – Completou Eri.
– Er... Não... quer dizer, desculpe. Talvez não devesse ter perguntado.
– Tudo bem. Não tem importância...
Eles começaram a comer e ficaram em silêncio por uns momentos:
– Sabe, — Adell começou a falar enquanto ainda engolia a comida – eu também não sou muito fã desses Bones. Na verdade, acho que não gosto muito deles. Se soubessem quem eu sou também iriam querer vir atrás de mim. Talvez eu prefira que eles desapareçam mesmo.
– Mesmo? – Eri disse bem desinteressada. Até podia perguntar o que ele era para que fosse caçado, entretanto ela mal parecia se interessar em nenhum tipo de assunto alheio.
– É... Talvez... – terminou de mastigar. – eu pudesse ir com você. Eu estou meio sem ter o que fazer nessa cidade então...
– Você não ouviu eu dizendo que prefiro ficar sozinha? – ela o interrompeu.
– Ah. Que pena. Eu estava mesmo querendo sair dessa vida chata que estou levando por aqui...
– É, que pena. – disse, sarcástica.
– Mais pena ainda seria se você recusasse meu pedido mesmo sabendo que sei de coisas sobre os Bone Blades que você provavelmente não sabe...
Ele conseguiu chamar a atenção dela:
– O que “eu não sei”?
Ele deu uma leve risada e respondeu:
– Vou dizer quando disser que posso ir com você.
– Então esquece.
– Mas...
– Não.
Eri encarou Adell, que começou a fazer cara de triste e decepcionado. Ela começou a ficar acanhada. Pôs a mão no rosto e suspirou:
– Tá, você pode vir...
– Yay! – Adell logo ficou feliz com a resposta, dando um grande sorriso, o que deixou Eri mais vermelha, escondendo o rosto com a mão. – Obrigado. Prometo que não vou atrapalhar.
Apesar de ele aparentar ter por volta de vinte anos, ainda parecia uma criança – pensava ela.
Terminada a refeição, ainda na porta do restaurante, Adell parou e perguntou:
– Pra onde pretende ir agora?
– Eu não sei. Gostaria de ir em busca de alguma coisa agora mas não sei por onde começar...
– Nesse caso, espere aqui um instante.
Adell entrou na taberna novamente e Eri observou. Ele foi falar com uma das garçonetes, que logo ficou toda admirada com o charme do rapaz. Parecia ter mudado completamente de postura, parecendo mais maduro. Terminou piscando para a garçonete, que quase derreteu depois disso, e voltou até Eri:
– O que foi isso? – Eri perguntou
– Isso o quê?
– Isso! Agora, lá dentro.
– Não sei do que está falando. – ele voltou a ser a “criança” e fez cara de inocente.
– Esquece...
– Então, parece que, à alguns dias, os elfos na Floresta de Ézer foram atacados, mas que conseguiram revidar ao ataque muito bem. Acho que podíamos passar por lá e perguntar o que eles sabem... É mesmo impressionante o que essa gente que trabalha nesses lugares sabe.
– Elfos?
– Hum? Algum problema?
– Não. Eu só não vou muito com a cara deles.
– Eri, ninguém vai com a cara dos elfos. Eles odeiam todo mundo. Mas, ainda assim, acho que seria legal tentarmos.
– ... Tudo bem, então... Só espero que não esteja com sono, pois eu gostaria de sair agora e não estou afim de esperar ninguém.
– Sem problemas. Estou bem enérgico. Podemos ir agora mesmo.
Adell mal quis voltar ao seu aposento antes de partir. Os dois saíram da cidade, à caminho da Floresta de Ézer.
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