Bone Blades

6 Dois à estrada


Eri encarava o mapa enquanto caminhava ao lado de Adell. O sol começava a se mostrar por trás das montanhas no horizonte. Eles trilhavam por um caminho em meio a uma campina, de onde não era possível avistar nenhum ser vivo a não ser os dois caminhando vagarosamente:

– Sem uma montaria vamos levar semanas pra chegar lá. – resmungou Eri.

– E você por acaso está com pressa? – Eri encarou Adell com um olhar que quase dizia “Vá se foder” por ela. – Relaxe. Sinta a brisa fria da manhã e observe a bela paisagem ao seu redor. Se vamos demorar a chegar, que ao menos aproveitemos a viagem. – Adell sorria enquanto apreciava o vento batendo em seu rosto e esvoaçando seus cabelos. Ele estava numa calmaria impressionante.

Eri suspirou e abaixou o mapa:

– ...Talvez tenha razão... – Concordou ela, se acalmando e sentindo o frescor da campina em seu rosto. – Você ainda não me falou o que sabe sobre os Bones que eu não sei.

– É mesmo... Bem, tem muitas coisas. O importante é saber contra quem está lutando. Você sabe que os Bones não são apenas soldadinhos humanos e fracos como a maioria dos que você vê por aí.

– Isso é uma coisa de se imaginar, mas confesso que talvez eu não saiba pelo que esperar...

– Existe meio que uma “hierarquia” entre eles, e não são humanos que estão no topo. Eu não sei quem ou o que é o líder deles, mas provavelmente ninguém vê o rosto desse cara com frequência. Na verdade, muitos deles, mesmo os “de alto escalão”, mal devem saber quem ele é.

– Espere. – Eri o interrompeu. – Como sabe dessas coisas?- perguntou, curiosa.

– Er... – Ele pensou por uns instantes e respondeu – Digamos... que eu tenho meus métodos de espionagem. – completou com um sorriso um tanto forçado.

Eri o olhou estranhando a resposta por um momento e concluiu:

– Continue.

– Certo. Lembra quando me disse de um bicho gigante que apareceu quando você foi atrás de uns Bones? – Eri assentiu. – Me conte mais sobre o que aconteceu.

– Era um monstro grande e feio com espadas e um cara de moicano montado nele. Eram dois kivutares. Labael disse que um deles se chamava Maasiah.

– Sim... Maasiah faz parte dos Dez Asuras. Eles são os dez kivutares que você mais vai precisar se preocupar. Provavelmente o grandão, como mais vários dos outros, é apenas um kivutar comum.

– “Comum”... – Ela riu de leve – Apesar que ele não parecia ser um inimigo muito forte, realmente, mas...

– Também existem dois necromantes. Um deles é o senhor e invocador desses kivutares e o outro é o invocador dos dragões do submundo...

– Estou vendo que ir atrás de todos esses caras será uma dor de cabeça... – disse Eri, terminando com um suspiro.

– ... Sem contar as outras criaturas que eles escravizam ou que trabalham para eles com base em acordos...

Eri avistou ao longe, um grupo de moas que passava por ali. Moas eram aves gigantes e sem asas que tinham cerca de dois metros do comprimento do corpo mais um metro e meio do comprimento do pescoço. Ela parou e olhou para Adell:

– Acho que encontrei nossas montarias. – Ela disse com um sorriso suspeito.

– Você não está pensando...

– Estou.

Adell suspirou e respondeu:

– Ok... Vamos lá...

Eri, de repente, correu até o grupo de moas, fazendo Adell ir atrás. Enquanto se aproximava, ela analisou a melhor opção e quando encontrou, logo pulou para cima do animal, fazendo-o correr loucamente com ela em cima. Entretanto, Eri era habilidosa. Segurou firma o animal com os braços e as pernas e não demorou para que o dominasse. Adell, que estava observando o sucesso de Eri, em seguida, tentou um método diferente. Ele se aproximou calmamente do moa e o acariciou suavemente e, quando sentiu que podia, subiu em cima da ave e acariciou seu pescoço mais uma vez, em forma de agradecimento. Ele olhou para Eri, que parecia ligeiramente impressionada, e disse:

– Saiba que existem meios mais pacíficos para se resolver as coisas.

– Desculpe se não costumo me dar bem com animais. – respondeu, irônica. — E, de forma geral, esses “meios pacíficos” também não dão certo comigo.

– Talvez deva tentar mais.

– Estou bem com meu “meio agressivo”, obrigada.

Eri realmente tinha seu jeito agressivo, o que afastava os outros animais dela, mas não era só isso. Dramidians eram naturalmente mal aceitos, seja por animal, criatura ou humano. Devido a isso, a maioria deles, inclusive Eri, eram fechados, normalmente fazendo amizades apenas entre eles próprios:

– Com esses moas, devemos chegar à Floresta de Ézer em cerca de três ou quatro dias. – ela concluiu. – Vamos indo.

Os moas eram bem velozes, e também bem resistentes. Podiam ficar um tempo relativamente grande sem precisar comer ou beber. Eram muito comuns e excelentes como montarias. Com isso, Eri e Adell só pararam quando os estômagos começaram a roncar e a água que Eri carregava, e dividia com Adell, estava acabando. Já era noite quando eles chegaram à um pequeno bosque, onde decidiram fazer uma pausa. Amarraram os moas com algumas cordas que ela tinha, juntaram um pouco de lenha para uma fogueira e Eri disse:

– Deve ter um rio ou algo do tipo por perto. Encha isso – ela entregou o cantil. -, eu vou acender a fogueira e depois caçar algo para comermos.

Adell assentiu e saiu à procura de água. Ele não era bom com esse tipo de tarefa, como acender a fogueira e caçar animais para comer, e Eri sabia disso só de olhar para aquela cara com pele lisinha e macia como bunda de bebê que ele tinha.

Quando viu que Adell estava longe o suficiente, ela se aproximou da lenha empilhada e expeliu um pouco do fogo pela boca, que de tão fraco, mais parecia apenas um suspiro, mas o suficiente para iniciar as labaredas da fogueira, e em seguida, foi à caça de algum animal.

Na volta, Adell já estava à espera de Eri. Ela voltou arrastando um cervo pelas patas traseiras:

– Espero que não se importe, mas prefiro comer isso aqui cru. — disse ela.

– Não me importo, não. – Ele respondeu. Eri arrancou uma das pernas, tirou um pedaço da pele e abocanhou a carne vermelha furiosamente, ensanguentando toda a parte em volta de sua boca. – Eu acho...

Embora a maneira que devorava, ela ainda conseguia se segurar para que seus dentes não ficassem pontiagudos o suficiente para que Adell os notasse.

Ao terminar, apagaram a fogueira e se deitaram. Eri retirou e embolou seu sobretudo para formar um travesseiro:

– Você podia compartilhar o seu sobretudo comigo, ele é bem grande. – suplicou Adell.

– Quem mandou não vir preparado para a viagem?

– Ah, eu não tinha nada para pegar antes de sair. Aquele quarto estava praticamente vazio. E também não tenho tanto dinheiro pra ficar gastando.

– Então sofra calado. – Eri respondeu, fria.

– Sim, senhora. – Ele respondeu choramingando forçadamente.

Eri tentou aproveitar um pouco da paz e do silêncio fechando os olhos por alguns segundos. Abriu-os e observou as constelações no céu.

“- Aquela é a constelação de Virda. Ela forma o desenho da deusa Virda apontando para onde o sol nasce. – ela apontava para o céu enquanto falava.

– Como você sabe dessas coisas? – Eri perguntou

– Meu pai me ensinou. Ele lê bastante então sabe de muitas coisas. Ele também me disse que Virda aponta para o sol porque a muito tempo, Usla, que era o deus da caça, um dia fora muito glutão e comeu toda a comida de uma das ceias, não deixando nada para os outros deuses e, ainda faminto, devorou seus próprios filhos, que também eram os de Virda. Furiosa, ela tirou todas as armas de caça dele e o trancou nas florestas. Ele ficou tanto tempo lá que se perdeu e ninguém mais poderia achá-lo. Mas ele consegue nos achar. Ele passou a encontrar os viajantes que se perdiam e começou a devorá-los, e era bem comum eles se perderem à noite. Até que Virda percebeu e ajudou os viajantes mostrando o seu caminho, apontando para onde o sol nasce.

– Espero nunca me perder numa floresta. – Eri disse temerosa.

– Boba! Agora que você sabe disso tudo você não vai se perde nunca mais. – terminou com um grande sorriso.”

Uma lembrança...

Eri se lembrou de quando ela e sua amiga de seu povoado eram pequenas e observavam as estrelas. Por que essa lembrança veio de repente? Por acaso fazia tanto tempo assim que Eri não relaxava e mirava o céu noturno?

Sinto sua falta...

Perdendo-se em seus pensamentos, mal notara que caíra no sono.

Notas finais
O que acharam da lenda? hehe Obs.1: Talvez, pouco provavelmente, mas já aviso, que pode ser que eu mude esse número dos 10 asuras, ainda não tenho certeza, mas tentarei mantê-lo Obs.2: Eu não sabia como representar uma lembrança, então acabei inventando isso ae. aspas e itálico é a lembrança e só itálico é pensamento. Se tiverem alguma sugestão de alguma forma de representação de lembrança melhor, eu aceito, ok?