Bloodshot Eyes
2 Under pressure
Notas iniciais
I can't find no peace
(Eu não consigo encontrar paz)
And when I close my eyes,I feel it all again
(E quando eu fecho meus olhos, sinto tudo de novo)
I can't find no peace
(Eu não consigo encontrar paz)
Insomnia — ZAYN
Oliver Queen
— No que está pensando? — Diggle chamou a minha atenção.
Estávamos parados na avenida a caminho da empresa, minha mãe queria que eu a encontrasse lá, mas a forte chuva mudou os planos de todo mundo. Diggle e eu nunca chegaríamos lá a tempo, não com o trânsito completamente impedido por conta de um acidente que tinha acontecido há algumas quadras.
— Minha mãe — respondi simplesmente.
— Ela voltou a insistir na ideia de fazer você assumir o lugar do seu pai nos negócios? — Ele me olhou pelo retrovisor.
— Nos negócios e na máfia — contei completamente desgostoso.
— Nós dois sabíamos que isso iria acontecer — ele disse.
— Não esperava que fosse agora — admiti. — Não estou confortável com isso.
— Diga isso a ela.
— Não vai adiantar. É melhor me acostumar com essa ideia o quanto antes.
— Oliver, se você continuar vivendo a sua vida pelos olhos e anseios da sua mãe nunca vai ser completamente feliz.
— Sei disso. Mas o que eu posso fazer contra isso? Não quero decepcioná-la, nem fazê-la sofrer ainda mais por minha causa. Não depois de tudo o que ela passou nos últimos anos.
Eu tinha um passado complicado, para dizer no mínimo. Minha família era associada à máfia russa, precisamente à Solntsevskaya Bratva. Meu pai era um dos capos, ou como diziam na Rússia, um Capitão Bratva. Eu como seu primogênito e filho homem deveria assumir seu posto quando ele viesse a morrer ou fosse preso. Naquela época eu já sabia que não queria seguir os passos do meu pai, mas não tive muita escolha a respeito do meu destino.
Quando completei dezoito anos fui levado para a Rússia para ser ensinado sobre o funcionamento dos negócios. Lá eu aprendi a mentir, a lutar, a torturar e a matar. Fui treinado por Anatoly Knyazev que na época era o subchefe da irmandade. Eu era bom com armas, mas meu verdadeiro talento estava no arco e flecha. Eles me apelidaram Kapiushon, o capuz, na Bratva todos tinham um codinome.
Dez anos depois, Anatoly havia se tornado o Pakham, o líder da organização, e eu um Capitão Bratva. Eu havia subido rapidamente na escala de cargos dentro da Bratva o que não agradou nem um pouco alguns membros. Depois de muitas mortes, Anatoly e eu achamos que o melhor seria se eu voltasse à Star City.
Eu estava de volta a casa. Minha família havia ficado surpresa com o que eu havia conquistado na Rússia. Eu era o primeiro legado a ter me tornado Capitão com meu ancestral ainda vivo. Tudo parecia bem dentro do possível, eu não precisava me preocupar com a Bratva em Star City, pois mesmo sendo um Capitão esse era o território de meu pai enquanto ele vivesse.
Então, há cinco anos embarquei com meu pai em uma viagem a bordo do Queen’s Gambit o barco da nossa família, eu tinha certeza de que ele iria me contar que estava planejando se separar de minha mãe. Embora o divórcio não fosse algo bem visto dentro da máfia, os dois andavam em pé de guerra há anos e ele parecia não ser capaz de suportar aquilo por muito mais tempo.
No entanto, nunca tivemos a chance de conversar, fomos surpreendidos por uma tempestade no meio do oceano. Meu pai e eu conseguimos com sorte escapar antes do barco se chocar contra uma parede de pedras e explodir, mas ele sabia que não seria possível que nós dois sobrevivêssemos naquele pequeno bote salva vidas sem comida e com quase nenhuma água potável.
Fecho os olhos tentando esquecer a imagem de meu pai atirando contra a própria cabeça. Eu sabia que aquilo era só o começo. Ser torturado pelas pessoas que habitavam aquela ilha, ter que me defender e voltar a matar. Definitivamente eu não me orgulhava daquilo. Então, quando eu estava perto de enterrar de vez Oliver Queen o bilionário, eu fui resgatado.
Estava de volta a civilidade há quase seis meses, tentava agir da maneira mais normal possível, mas eu sabia que não conseguiria. Era tarde demais para mim, eu já não tinha alma. Mesmo assim eu me esforçava, criei um personagem e passei a viver nele. Não estava feliz, mas pelo menos podia dar algo que fizesse minha mãe e minha irmã sorrirem por algum tempo. Elas não precisavam saber do meu problema para dormir ou para controlar a raiva. Não tinha porque fazê-las sofrer ainda mais.
As olheiras eram disfarçadas pelas longas noites em boates e com mulheres diferentes. E a raiva John tentava me ajudar a canalizá-la em nossos treinos diários. Mas mesmo com todo apoio do mundo eu sempre olhava para as pessoas como se elas fossem inimigos ou alvos e isso poderia ser perigoso. Eu não estava pronto para viver em sociedade, não da maneira como minha mãe queria. E pensar nisso me fez lembrar da conversa que tivemos antes de eu sair pelas ruas de Star City com Diggle as minhas costas querendo ficar o mais longe possível de qualquer coisa que remetesse aos Queen.
“Eu encarava minha mãe em silêncio. O único barulho na sala era o de seus saltos de encontro com o piso de madeira. Estávamos no antigo escritório do meu pai, eu evitava ir até lá para não ser atacado pelas lembranças das várias noites que eu passava ao lado dele vendo-o trabalhar nas coisas da empresa.
— Não posso mais aceitar esta situação, Oliver — minha mãe disse finalmente me olhando nos olhos. — Você está de volta há seis meses e tudo o que fez até agora foi agir como um garoto mimado. Eu achei que você tinha crescido. Foram cinco anos. Não é possível que isso não tenha mudado nada em você.
— Muita coisa mudou mãe, mas acredite em mim, você não ficaria feliz em saber o quanto — respondi amargurado.
— Eu sei que você passou por coisas horríveis, eu posso ver nos seus olhos o quanto você está machucado. — Ela se aproximou de mim tocando meu rosto. — Mas você precisa deixar isso para trás. Você não é mais o Oliver que entrou naquele barco com o seu pai há cinco anos, não importa o quanto você se esforce. Você mudou, precisa abraçar isso.
— Eu não sei se quero abraçar a pessoa que eu me tornei nos últimos anos — disse friamente.
— Então talvez você deva descobrir quem você é agora. — Minha mãe me fitou com um olhar terno. — Recomece, Oliver. É tudo o que eu te peço.
— Como?
— Você pode tentar na empresa — ela disse simplesmente.
— Tudo bem — concordei. Não era uma ideia de todo ruim.
Pelo que eu me lembrava ser o CEO significava ficar isolado dos demais funcionários na maior parte do tempo, eu poderia lidar com isso.
— Sabe, seu pai iria querer que você assumisse o lugar dele. — Seu tom mudou e eu soube que não estávamos mais falando da empresa da família. — Eu sei que ele te treinou para isso.
— É claro que você ia dizer isso. — Afastei-me bruscamente. — Eu nunca quis quer um Capitão Bratva!
— Temos um nome, Oliver. Um nome poderoso. Goste você ou não somos parte da Bratva — ela disse de forma dura. — Ou você prefere que seu primo assuma o comando da família? Você sabe o que precisa ser feito. Faça.”
Voltei a mim após sentir meu corpo ser jogado para frente de forma brusca e o cinto de segurança me puxar contra o banco novamente. Diggle me olhava um pouco assustado, mas aparentemente estávamos bem.
— O que foi isso? — questionei tentando manter a calma.
— Um maluco furou o sinal. Com uma chuva dessas ele teve sorte de eu estar a uma velocidade baixa e consegui frear a tempo — ele explicou. — Você está bem?
— Ótimo, e você?
— Também.
— Acho melhor irmos para casa. — Sugeri vendo John concordar com um aceno, voltando a ligar o carro.
O carro deslizava pelas ruas sem pressa, em algum momento passamos em frente ao prédio da Queen Consolidated, a empresa da família, e pude observar como ele era imenso. Nunca tinha me dado conta disso, mas dali onde eu estava conseguia entender bem o porquê das pessoas estarem sempre dispostas a agradar os Queen.
Eu olhava pela janela tentando enxergar o que quer que fosse sob as grossas gotas de chuva. Foi então que eu a vi. Os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo que estava grudado em sua nuca, a saia vermelha colada ao corpo e a blusa branca transparente. Ela andava com pressa, até que de repente a vi indo de encontro ao chão de forma brusca.
— Pare o carro! — Ordenei a Diggle que freou no mesmo instante.
— O que foi Oliver? — ele me olhou assustado.
— Tem um guarda-chuva aqui? — Questionei olhando-a pela janela.
Ela tentava se erguer, mas parecia que algo a estava impedindo de ter sucesso em sua missão.
— Sim, mas o que..
— Vamos. — Chamei-o já abrindo a porta do carro e saindo em seguida recebendo as grossas gotas de chuva em minha pele e minha roupa.
Aquilo não me incomodava, não mais. Mas ainda assim Diggle logo se aproximou de mim com o guarda-chuva imenso que ele carregava no carro. Seguimos até a calçada onde ela se encontrava ainda caída no chão, parecia procurar alguma coisa. Me aproximei dela devagar, mas ela não pareceu notar a minha presença, então perguntei:
— Você está bem?
— Ótima. — Ouvi-a responder num tom sarcástico e tive que conter a vontade de esboçar um sorriso.
Olhei para onde seu pé estava preso, não era uma simples rachadura, tinha alguns galhos também e eu tive a certeza de que não daria para tirá-la de lá sem deixar a sandália para trás.
— Você faz muita questão deste sapato? — Abaixei-me para encarar seu rosto.
Ela me olhou confusa e por um momento eu esqueci como se respirava. Seus olhos eram de um azul cristalino, quase verdes. Mesmo completamente encharcada e com alguns fios de cabelo grudados ao redor do seu rosto, ela era sem dúvidas uma mulher muito bonita.
— Ah… não… — ela respondeu incerta.
— Ótimo. — Levantei-me indo para trás dela que se virou em minha direção.
Tirei o canivete que sempre trazia no bolso e cortei a correia da sandália libertando seu pé que estava inchando. Ela puxou o pé da minha mão com certa agressividade e eu ergui uma sobrancelha tentando entender, foi então que me passou pela cabeça que ela poderia estar com medo.
— Hey, não precisa ter medo — disse tentando acalmá-la.
— É claro que eu tenho motivos para ter medo! Eu estou caída no chão, com meu pé provavelmente quebrado e você está vendo a minha calcinha! — Ela falava tudo muito rápido e eu quase não conseguia acompanhar
— Eu não estava vendo a sua calcinha. — Defendi-me achando graça da sua preocupação. — Eu só quero ajudar, juro.
— Tudo bem, não é como se uma desgraça maior que essa pudesse me acontecer mesmo. — Ela resmungou extremamente contrariada.
***
— Como está a garota? — John me perguntou assim que saí do quarto onde Felicity estava descansando.
— Bem — garanti. — O médico disse que ela vai ficar em observação até amanhã.
— E nós iremos vir buscá-la? — Ele me encarou com uma expressão estranha.
— É o que eu planejo. — Dei de ombros.
— Sua mãe vai adorar saber que você anda pagando a conta do hospital para desconhecidos. — John comentou soltando uma pequena risada.
— Com a minha mãe eu me entendo. — Afirmei caminhando em direção a saída. Felicity iria passar a noite ali e eu precisava ir para casa dar explicações sobre o meu sumiço. — Além do mais, ela estava machucada e sozinha no centro de Star City. Esta parte da cidade pode não ser tão perigosa como o Glades, mas nós sabemos muito bem que os engravatados podem ser até piores que os marginais. Se não fosse eu a encontrá-la, seria outro e sabe-se lá o que teria acontecido com ela.
— Você está se preocupando com esta garota. — John ponderou. — Isso é bom. Significa que você ainda é capaz de ver as pessoas como pessoas. — Vi sua face se contorcer no que parecia um pequeno sorriso.
— John… — alertei-o, entrando no carro.
— O que foi? — ele se fez de desentendido. — Só estou feliz por saber que ainda há alguma coisa aí dentro.
Não respondi. Não sabia exatamente como fazê-lo. A verdade era que depois de ter passado cinco anos no inferno eu mal me lembrava de como era ser um ser humano normal. E o fato de pertencer a família mais importante da cidade e ter me tornado herdeiro não só de uma das empresas mais famosas mundialmente, mas também de um dos cargos mais importantes da máfia russa, não ajudava em nada.
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