Bloodshot Eyes
3 I know, it's weird
Notas iniciais
But I don't think I ever planned
(Mas eu acho que nunca planejei)
For this helpless circumstance
(Esta circunstância perdida)
With you
(Com você)
On Purpose — Sabrina Carpenter
Felicity Smoak
Eu estava atrasada. Não precisava abrir os olhos para saber disso, o canto dos pássaros do lado de fora da minha janela servia de prova. Estava completamente encrencada. Isabel iria finalmente conseguir me demitir.
Abri os olhos e pulei na cama para me sentar, o que foi uma ideia muito ruim. Para começar meu pé direito parecia mais pesado que o normal e acabou enroscando no lençol fazendo com que eu caísse da cama. Depois, numa tentativa de me levantar acabei batendo a cabeça em algum ferro que eu nem sabia que minha cama possuía. Tudo estava embaçado e a minha cabeça doía devido a pancada.
Então me lembrei do dia anterior. A chuva, a ameaça de Isabel, meu tombo espetacular no meio da rua e Oliver, meu salvador cujo rosto eu provavelmente nunca iria ver.
— Será que todas as vezes em que nos encontrarmos eu terei que te tirar do chão?
Levantei a minha cabeça em direção a porta, de onde vinha a voz. Eu não precisava enxergar para saber que aquele era Oliver, mais uma vez, me vendo em uma situação constrangedora. Ele se aproximou de mim, passou um braço por baixo de minhas pernas enquanto apoiava minhas costas com o outro e me colocou sentada na cama.
— Obrigada — disse completamente envergonhada.
— Disponha — ele respondeu rindo.
— Eu disse que não precisava vir me buscar. — Eu tinha certeza de que um bico havia se formado em meus lábios, como sempre acontecia quando algo me incomodava. E naquele momento estar dando mais trabalho a Oliver me deixava muito incomodada.
— E eu disse que viria. — Oliver deu de ombros. — Você já recebeu alta. Tomei a liberdade de mandar a sua roupa para a lavanderia ontem, então você pode vesti-la para sair do hospital. — Ele me entregou uma sacola que só agora eu havia percebido estar em sua mão.
— Obrigada — respondi sorrindo involuntariamente.
Oliver e eu nos conhecíamos há menos de 24h e ele já havia feito mais por mim que a maioria das pessoas em minha vida.
— Bom, vou esperar lá fora enquanto você se veste. — Oliver anunciou se afastando.
— Você poderia me ajudar a descer daqui? — Perguntei, tendo certeza de que minhas bochechas ficaram vermelhas. — Não quero correr o risco de levar outro tombo.
Oliver soltou um pequeno riso e me ajudou a colocar os pés no chão.
— Estarei no corredor caso precise de alguma coisa. — Ele avisou e saiu fechando a porta do quarto.
Tentei me trocar o mais rápido possível, mas ainda não estava totalmente acostumada com aquela coisa no meu pé. Percebi que dentro da sacola havia uma rasteirinha e agradeci aos céus por não ser obrigada a usar salto naquele momento. Fiz uma nota mental para saber o preço e devolver o dinheiro a Oliver.
Então a realidade me atingiu.
Eu não tinha plano de saúde, então Oliver provavelmente tinha pago a minha conta do hospital. E conhecendo Star City como eu conhecia eu sabia que ela não havia sido barata. Eu precisava encontrar um jeito de pagar a minha dívida certamente nada pequena com Oliver.
Ouvi baterem na porta e logo em seguida a voz de Oliver entrou no quarto:
— Podemos ir?
Concordei em silêncio e sai andando em direção a sua voz. Outra péssima ideia. Sem óculos eu enxergava muito pouco e estar com o pé imobilizado tornava me mover uma tarefa extremamente difícil. Então, era óbvio que eu iria tropeçar. Felizmente, Oliver se apressou e amparou a minha queda.
— Está tudo bem? — ele perguntou parecendo preocupado.
— Sim — garanti. — Foi só a combinação da falta dos óculos com esse troço no meu pé.
Vi que ele assentiu em silêncio e passou a mão pela minha cintura me dando equilíbrio e me ajudando a andar porta a fora. Sua mão, firme e quente, contra a minha pele provocava uma sensação de segurança e familiaridade. Conseguimos sair do hospital sem maiores dificuldades, Oliver me ajudou a entrar no carro e a colocar o cinto de segurança e se sentou ao meu lado.
— Bom dia, Felicity. — Reconheci a voz de John, o motorista de Oliver. — Está melhor?
— Bom dia — respondi timidamente. — Estou sim, obrigada por perguntar.
— Então, onde deixamos você? — Oliver questionou.
— Provavelmente no meu emprego, isso se eu ainda tiver um. — Meu rosto se moldou em uma careta, apenas por imaginar Isabel Rochev gritando comigo mais uma vez.
— O médico te deu um atestado — Oliver contou. — Então, eu acho que você está indo para sua casa.
Encarei-o um pouco surpresa. Ele era algum tipo de enviado dos céus para solucionar os meus problemas?
— Onde você mora, Felicity? — Oliver perguntou, ignorando minha reação.
— Lamb Valley. — Informei, dando-me por vencida. — Na entrada do bairro.
— Lamb Valley, então. — John assentiu, ligando o carro.
Era uma sensação estranha estar dentro de um carro com dois desconhecidos, mas eu sentia que podia confiar neles. Oliver e John pareciam boas pessoas, certamente umas das poucas nessa cidade.
— Onde deixamos você? — John chamou minha atenção e eu percebi que havíamos chegado ao meu bairro.
— Edifício Mendler — respondi. — É onde fica meu apartamento.
O carro virou a esquina e parou logo em seguida. Lamb Valley era um bairro pequeno, as coisas ficavam sempre perto. Era impossível se perder ali.
— Obrigada. — Agradeci, me libertando do cinto de segurança. — De verdade.
— Imagina. — Oliver respondeu-me com um aceno que indicava que ele dispensava agradecimentos. — Vou te acompanhar até a entrada do prédio, quero me certificar de que você não vai se acidentar novamente.
— Isso não é necessário. — Recusei completamente envergonhada.
— Eu insisto. — Ele assegurou e eu decidi concordar.
Despedi-me de John e o agradeci mais uma vez antes de Oliver me ajudar a sair do carro. Ele me levou até a portaria e pediu para Alain, o porteiro, me ajudar a chegar em meu apartamento. Não sabia ao certo se estava decepcionada por ele decidir que não queria me acompanhar até a minha porta ou surpresa por ele realmente não tentar se aproveitar da situação.
— Acho que agora você está segura. — Oliver disse em tom de despedida.
— Eu realmente não sei como agradecer — admiti. — E não se preocupe eu vou devolver o dinheiro que você gastou na conta do hospital.
— Não se preocupe com o dinheiro, Felicity. — Oliver advertiu-me. — Meu pai costumava dizer que não devemos colocar preço em nossas ações de gentileza.
— Mas não foi qualquer ação de gentileza, Oliver — retruquei. — É a conta do hospital. Essas coisas são caras.
— Não se preocupe — ele voltou a dizer. — Foi um dinheiro bem gasto. Aliás, acho até que foi o melhor destino que eu já dei ao meu dinheiro.
— Tem certeza? — perguntei ainda preocupada.
— Tenho — garantiu. — Você deveria subir, precisa descansar.
— Tudo bem. — Suspirei, dando-me por vencida. — Obrigada, mais uma vez.
— Disponha — ele respondeu.
De alguma forma eu consegui me apoiar em seus ombros e lhe dar um pequeno beijo na bochecha. Minha atitude pareceu surpreendê-lo, pois ele pareceu congelar no lugar. Pude sentir seus ombros se tornarem tensos sob minhas palmas. Quando voltou a si, Oliver afastou-se depressa e foi embora.
Subi para o meu apartamento com a ajuda de Alain que assim que me deixou na sala, voltou para a portaria. Por sorte meu apartamento estava arrumado e eu não tropecei no caminho até o meu quarto. Abrindo a gaveta do guarda-roupa eu encontrei a caixinha do meu par de óculos reserva. Finalmente eu havia voltado a enxergar. Uma pena ter sido relativamente tarde, pois tinha certeza de que não voltaria a ver Oliver tão cedo e eu gostaria muito de saber como ele era.
Soltei o ar pesadamente. Eu precisava voltar a minha realidade. E ela não envolvia homens fortes e cheirosos que ajudavam garotas desastradas no meio da rua em um dia chuvoso.
Peguei meu notebook, eu precisava enviar um email ao RH e avisá-los sobre o meu pequeno acidente antes que Isabel resolvesse me mandar embora. Escaneei o atestado que o médico havia me dado no hospital e anexei no corpo do email. Pouco tempo depois recebi a resposta Paul, o chefe do departamento, dizendo que estava ciente e que eu não precisava me preocupar com nada além da minha recuperação.
Suspirei aliviada. Eu ainda tinha um emprego.
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