Bloodshot Eyes

1 (Should be) Just one of those days


Notas iniciais
Olás, voltei e desta vez espero que seja para ficar. A primeira fic que postei aqui foi Love Story e sinceramente eu não esperava que ela tivesse a atenção que teve, me deixou muito feliz. Eu pretendo terminar "fallout" em algum momento, então se você a acompanha saiba que eu não a esqueci. Espero que gostem dessa nova aventura. Sejam bem-vindos!

Little things become everything

(Pequenas coisas tornam-se tudo)

When you wouldn't think that they would

(Quando você não achava que isso aconteceria)

In My Bed — Sabrina Carpenter

Felicity Smoak

Sabe quando você acorda com a sensação de que tudo, absolutamente tudo, no seu dia irá de mal a pior? Bem, eu sabia. Desde o momento em que o despertador simplesmente decidiu que não iria tocar pela manhã me avisando que era hora de levantar e ir trabalhar, passando pela terrível chuva que caiu do nada e terminando com um belo banho de lama na frente do prédio onde eu trabalhava. Nada naquele dia iria ser bom. Não era como seu eu não estivesse acostumada com esse tipo de coisa, como meus amigos costumam dizer: se você olhar no dicionário verá que o antônimo de sorte é Felicity Smoak.

Eu estava terrivelmente atrasada e coberta pela água lamacenta de Star City da cabeça aos pés, correndo um sério risco de acabar contraindo uma gripe ou até mesmo a peste bubônica. Como se não bastasse a humilhação de ter que caminhar pelo grande hall de entrada da Queen Consolidated naquele estado atraindo olhares de pessoas ricas e bem vestidas, que por ali circulavam quando finalmente cheguei ao andar do departamento de TI — onde eu trabalhava — torcendo para não ser avistada por mais ninguém, minha querida supervisora Isabel Rochev estava sentada na minha mesa. E quando eu digo querida, eu quero dizer odiosa.

Isabel era tudo o que eu não era naquele momento ou em nenhum outro: pontual e elegante. Seus longos cabelos castanho escuros caíam sobre seu ombro esquerdo indo de encontro com o vestido preto de gola redonda e sem mangas. Seus olhos castanhos me fitaram com um misto de desgosto e repulsa, e eu não podia julgá-la, sabia bem a aparência que tinha naquele momento. Quando finalmente entrei na pequena sala e fechei a porta, Isabel me olhou de cima a baixo com aquele olhar superior que ela só ela possuía.

— Está atrasada — ela pronunciou — de novo.

— Eu sei, Isabel, sinto muito. — Disse com o meu melhor olhar de sofrimento.

— Sabe que está sobre aviso, Smoak. Não sabe? — Ela ergueu a sobrancelha me encarando. Nada me tirava da cabeça que o sonho daquela mulher era me ver no olho da rua.

— Sim, senhora. — Confirmei baixando o olhar. — Mas eu juro que não faço de propósito.

— Para a sua sorte, nada está funcionando por aqui hoje. — Ela pontuou soltando o ar pesadamente e indo em direção a porta. — Vá se limpar, Smoak. Precisamos de todo o pessoal para tentar solucionar o problema e isso, ainda, inclui você.

— Sim, senhora.

Assim que ela sumiu pelo corredor rumei até onde ficavam os armários. Pessoas normais guardavam suas bolsas, seus documentos, seus capacetes, mas eu não era uma pessoa normal, eu era uma pessoa extremamente azarada. Então, era óbvio que além de um kit com curativos e todos os remédios que eu poderia precisar, eu guardava uma troca de roupas de emergência. Depois de finalmente me tornar apresentável, rumei para a sala em que ficavam os servidores da empresa, que era onde meus colegas de setor estavam tentando descobrir uma maneira de restaurar a energia e a rede do prédio.

— Finalmente você chegou. — Alena, a única ali dentro que eu poderia chamar de amiga, me puxou pelo braço. — Isto aqui está o inferno. Essa chuva não podia ter escolhido dia pior.

— O que está acontecendo, afinal? — Perguntei me lembrando do movimento excessivo que vi pelos corredores da empresa.

— Você não sabe? — Ela me encarou surpresa, seus olhos arregalados por trás do óculos de grau. — A Bruxa Má do Oeste está deixando a presidência.

— Como é? — Perguntei um pouco alto demais, chamando a atenção de algumas pessoas.

— Mas não se anime, isso não vai acontecer hoje. — Respondeu me levando até a salinha onde alguns programadores e eletricistas tentavam sem sucesso restaurar fazer o gerador funcionar. — Só daqui há algumas semanas, aparentemente ela está disposta a forçar o filho a tomar o lugar do pai.

— Se ela não está saindo hoje, porque todos estão desesperados?

— Porque, Felicity, o garanhão vem hoje — ela sussurrou. — Ele vai conhecer a empresa, os funcionários e é óbvio que se alguma parte deste lugar não estiver funcionando perfeitamente cabeças vão rolar.

— As cabeças do nosso departamento no caso.

— É claro, afinal tudo o que acontece de ruim nesta empresa é nossa culpa. Se um desses engravatados abre um email e acaba com vírus em seu computador a culpa é do departamento de TI. — Ela disse indignada. — Se o elevador para de funcionar? Culpa do pessoal do TI. Se a porta giratória trava, culpa de quem? Do pessoal do TI. E se a culpa é do pessoal do TI, logo a culpa da Isabel Rochev.

— Que está louca para me botar no olho da rua. — Comentei com desgosto.

— Exatamente.

— Sendo assim, devíamos estar trabalhando e não conversando.

— Temos que ir até os servidores, a rede elétrica está quase de volta, mas eles precisarão ser reiniciados manualmente.

Segui Alena para dentro da sala e nos aventuramos no labirinto de peças e fios que eram os servidores da QC. Eu duvidava seriamente que alguém já tinha ido até lá depois que eles foram instalados e a poeira acumulada em certos locais só me trazia mais certeza disso. Assim que a luz voltou ouvimos alguns gritos de comemoração e nos apressamos para fazer a nossa parte.

Quando finalmente o caos foi controlado e a empresa voltou a funcionar normalmente, voltamos para o nosso departamento. Isabel se encontrava lá posando de chefe com um discurso motivacional que mais parecia um conjunto de frases retiradas de biscoitinhos da sorte. Eu não sabia exatamente de quem havia sido a ideia de colocar para chefe do departamento de TI uma pessoa que sequer fazia ideia do que se tratava o departamento. Isabel tinha formação acadêmica em gestão de empresas, não sabia o básico da área para comandar um setor, que na minha humilde opinião, era um dos mais importantes da empresa.

Aparentemente a grande chuva não atrapalhou apenas a empresa, mas também os donos dela. Nenhum Queen havia colocado os pés no prédio naquele dia e pelo que parecia nem iriam colocar.

Mal pude acreditar quando olhei para o relógio em minha parede que indicava que o expediente tinha acabado. Aquele dia tinha sido um verdadeiro pesadelo. Eu só queria ir para meu apartamento, tomar um banho e dormir.

Mas é claro que nada seria tão simples.

Para começar ainda chovia e o fato de eu ter que andar pelas calçadas escorregadias com um sapato de salto até o ponto de ônibus não parecia uma boa ideia. Eu tinha me dado ao luxo de vir de táxi na parte da manhã porque estava atrasada, o que obviamente não era o caso naquele momento. Infelizmente eu não tinha outra opção, teria que enfrentar a chuva de salto, saia e blusa branca sem um guarda-chuva.

Em um primeiro momento tudo correu bem, apesar da certeza de estar com a blusa transparente e as lentes do meu óculos cobertas pelas gotas de chuva, eu não havia caído. Isso quase me encheu de esperança, quase. Assim que virei a esquina vi meu ônibus parado no ponto do outro lado da rua, o que significava que eu teria que correr.

A partir daí as coisas simplesmente desandaram.

De alguma forma meu salto ficou preso em uma rachadura da calçada e acabou quebrando me fazendo torcer o pé e cair de maneira nada elegante. Tentei usar minhas mãos para apartar a queda, o que claramente foi em vão, já que tudo o que consegui com o impacto foi arrastá-las pelo chão fazendo com que alguns cortes surgissem em minhas palmas. Como se isso não bastasse, meus óculos simplesmente escaparam do meu rosto foram parar diretamente em um bueiro que por algum motivo estava com a tampa aberta.

Eu queria chorar. Meu pé doía, meus joelhos, minhas mãos e até a minha alma doía naquele momento e eu simplesmente não era capaz de enxergar um palmo diante do meu nariz. Tudo que eu queria era ser atingida por um raio para que a minha desgraça tivesse um fim. Se bem que com a minha sorte eu sobreviveria ao raio e passaria pela humilhação de ter que explicar como diabos tudo isso foi acontecer comigo.

— Você está bem? — Ouvi uma voz grave me perguntar e desejei profundamente estar morta.

— Ótima. — Respondi com sarcasmo, mesmo sabendo que não era uma escolha inteligente.

As gotas sobre a minha cabeça cessaram e eu podia ouvir elas batendo sobre o guarda-chuva do estranho cujo rosto eu não me atrevi a encarar. Vi o borrão que provavelmente seriam suas pernas se abaixarem e ele parar diante de mim. Criei coragem de encará-lo, mesmo não enxergando absolutamente nada, pude perceber que seu cabelo curto era de um loiro mais escuro que o meu e que sua barba era relativamente curta.

— Você faz muita questão deste sapato? — Ele perguntou de repente e eu o encarei sem entender.

— Ah… não… — Afirmei mesmo sem ter muita certeza do que aquilo significava.

— Ótimo. — Ele disse se levantando.

Não tinha nada de ótimo ali.

Senti alguém tocar meu tornozelo torcido e de alguma forma consegui me sentar e olhar para a pessoa. O homem misterioso e sem rosto tirou alguma coisa do bolso e levou até o meu pé, o que me assustou bastante. Porém, tudo o que ele fez foi cortar a fivela e soltar o meu pé machucado. Fiz uma careta ao sentir sua mão áspera sobre a minha pele e me lembrei que eu estava de saia com as pernas abertas para um completo estranho. Puxei meu pé tentando arrumar minha posição nada agradável o que foi um erro, pois senti uma dor que eu não estava preparada para sentir.

— Hey, não precisa ter medo. — O estranho falava como se isso simplesmente fosse me fazer ficar mais calma e sentir menos dor.

— É claro que eu tenho motivos para ter medo! Eu estou caída no chão, com meu pé provavelmente quebrado e você está vendo a minha calcinha! — Disparei um tanto quanto paranoica.

— Eu não estava vendo a sua calcinha. — Ele parecia estar se divertindo com o meu surto. — Eu só quero ajudar, juro.

— Tudo bem, não é como se uma desgraça maior que essa pudesse me acontecer mesmo. — Declarei contrariada.

O estranho apenas se deu ao trabalho de rir da minha cara antes de se aproximar e me pegar no colo como se eu fosse uma espécie de noiva cadáver.

A primeira coisa que eu notei era que ele era forte, me levantar do chão foi fácil para ele e andar comigo pela calçada também. A segunda coisa era que durante todo o tempo a chuva continuava batendo em um guarda-chuva que ele não segurava, o que significava que havia uma terceira pessoa ali que não fez questão nenhuma de se fazer notar. A terceira e menos importante era que ele cheirava muito bem. A maioria dos caras cheiram a três coisas basicamente: loção pós barba, cigarro e álcool. Mas ele cheirava a alguma coisa que eu não fazia ideia do que era, mas era suave e inebriante. A quarta e última coisa foi que ele me colocou em um carro e não se sentou no banco do motorista, muito contrário permaneceu comigo no que eu julguei ser a parte de trás.

— Dig, nos leve para o hospital, por favor. — O estranho ordenou.

Dig aparentemente era a terceira pessoa misteriosa e também o motorista do estranho que gostava de bancar o heroi das loiras desastradas e azaradas de Star City.

— Não! — Protestei imediatamente.

— Não? — O estranho questionou e eu pude perceber que ele estava me encarando.

— Não. Eu nem sei quem você é, eu nem deveria estar no seu carro! — Okay, eu surtei.

— Você não sabe quem eu sou? — Ele indagou aparentemente surpreso.

— Não. E estar sem meus óculos não ajuda em nada. — Resmunguei aborrecida.

— Não sabia que usava óculos, onde eles estão? — O estranho pareceu interessado.

— Provavelmente na baía de Star City ou seja lá para onde os bueiros desta cidade mandam as coisas. — Eu estava chateada, irritada e toda machucada, ele não podia me culpar por não estar no meu melhor humor.

— Oliver — o estranho anunciou.

— Como é? — Virei-me para ele mesmo sem enxergá-lo.

— Meu nome, é Oliver — ele respondeu.

— Felicity — informei simplesmente.

— Felicity — o tal Oliver repetiu. — Agora que não somos mais estranhos, John pode nos levar ao hospital? Você precisa mesmo dar uma olhada no seu tornozelo e em todo o resto.

Eu ia responder alguma coisa, mas senti uma fisgada tão forte no pé que tudo o que consegui fazer foi fechar os olhos com força e soltar um grunhido de dor. Acho que Oliver entendeu isso como um sim, pois logo senti o carro se movimentar pelas ruas. Ele colocou algo macio em minhas costas que não demorei a perceber se tratar de um cobertor. Sério, quem tem um cobertor dentro do carro? Aparentemente, Oliver tinha. Eu não iria reclamar, pois estava realmente tremendo de frio.

Depois do que pareceram horas chegamos ao hospital. Eu podia sentir todo o meu corpo dar solavancos e meus dedos estavam mais duros que pedra. O cobertor que Oliver havia me oferecido não tinha sido o suficiente para me aquecer eu sentia que estava prestes a congelar. Mal senti Oliver me tirar do carro e sequer ouvi o que ele disse para a mulher da recepção, meu cérebro estava muito ocupado tentando me manter acordada e evitando a minha morte por hipotermia.

Quando voltei a mim estava deitada em uma cama em um quarto de hospital com um soro ligado ao meu braço e minha perna imobilizada. Minha temperatura tinha voltado ao normal, mas meu corpo doía como se tivesse passado em um triturador.

— Você acordou. — Reconheci a voz de Oliver ao meu lado.

— O que você quer dizer com isso? Houve algum momento em que eu não estava acordada?

— Digamos que os médicos precisaram colocar seu tornozelo no lugar e você acabou desmaiando no processo.

— Oh céus e eu achando que não podia piorar.

— Agora você está bem, o médico só quer mantê-la em observação por essa noite. — Oliver contou. — Pensei que gostaria de avisar sua família, posso fazer isso por você.

— Oh, não se preocupe. Minha mãe mora em Las Vegas, e a última coisa que eu quero é contar a ela sobre isso.

— Sua escolha. Eu preciso ir.

— É claro! Você já fez muito por mim, Oliver. De verdade.

— Posso voltar amanhã quando for liberada e te dar uma carona para casa. — Oliver sugeriu.

— Não se incomode com isso. Sério. Amanhã eu me viro, juro.

— Não é incômodo, além do mais que tipo de pessoa eu seria se te deixasse por conta própria com o pé imobilizado e sem enxergar?

— O tipo normal?

— Até amanhã, Felicity.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Nos vemos no próximo capítulo!