Bloodshot Eyes
9 Losing focus
Notas iniciais
But I know, that somewhere out there
(Mas eu sei, que em algum lugar lá fora)
There's a path that we chose
(Há um caminho que nós escolhemos)
There's a life that we share
(Há uma vida que nós compartilhamos)
There's a love and it grows
(Há um amor e cresce)
Golden — ZAYN
Oliver Queen
— Trago péssimas notícias. — Anunciou Laurel, irrompendo pela porta de minha sala com uma expressão nada satisfeita no rosto. Atrás dela, Thea e Tommy se aproximavam com o mesmo semblante desgostoso.
— O que pode ser tão grave que vocês não poderiam esperar que eu estivesse em casa para contar? — Eu não estava em um bom dia, eles deveriam saber disso. A conversa com Felicity durante o almoço embora tenha servido para afastar um pouco a minha mente do que eu havia feito na noite anterior, também tinha colaborado para me fazer perceber que nossa aproximação era arriscada e perigosa.
Com a vida que eu levava era melhor não me envolver com alguém com quem poderia me importar. O melhor seria se nós conseguíssemos manter as coisas entre nós apenas em uma relação profissional. Meu inimigos certamente usariam Felicity como uma vantagem sobre mim e eu não poderia correr esse risco. O que eu podia e precisava fazer era descobrir um modo de obter o controle da situação o quanto antes ou acabaria prejudicando a única pessoa ao meu redor que não havia sido tocada pelo meu outro eu.
— Kovar tomou o controle da Baía de Star City. — Revelou Tommy, ganhando a minha atenção. Ele estava encostado na porta e tinha os braços cruzados sobre o peito. A insatisfação dele ao me dar a notícia era óbvia. Não era apenas porque o ocorrido representava uma grande perda para nós, mas também era porque a Baía até então estava sob o controle dos Bertinelli e era um dos motivos pelos quais estávamos nos aliando a eles através do casamento de Tommy e Helena.
— Merda — rosnei entre dentes. — Primeiro Ra’s, agora a Baía. O que mais vamos perder?
— Ra’s? — Thea, que estava sentada na cadeira diante de mim, perguntou surpresa, ignorando minha pergunta completamente.
— Ra’s estava aqui quando cheguei de manhã. — Contei sentindo o gosto amargo da derrota que vinha acompanhado da presença e das palavras de Ra’s Al Ghul. — Veio recusar minha proposta.
— Recusar? Como assim? Por quê? — Laurel despejou tentando de maneira falha não soar preocupada.
— O homem conhece as filhas que têm — respondi simplesmente. — Além disso, a Liga está passando por problemas internos.
— Problemas internos? — Repetiu Tommy.
— Aparentemente uma conspiração contra ele. — Não queria entrar no assunto de Ra’s e o fato de que ele suspeitava da própria filha, não eram informações que seriam úteis para a nossa causa.
— Se isso é verdade porque ele se deu ao trabalho de vir até Star City negar sua oferta? — Thea me encarou interessada.
— Ele veio me fazer uma contraproposta.
— Contraproposta?
— Ra’s queria me treinar para ser o seu sucessor no comando da Liga dos Assassinos — contei. — Mesmo já sabendo que era uma opção inviável.
— E quanto a Sara? — Laurel indagou. — O que houve com a minha irmã?
— Sara é convidada da Liga. Ra’s disse que ela vai ficar treinando em Nanda Parbat o tempo que quiser. — A expressão dela suavizou um pouco diante da revelação que eu havia feito.
— Precisamos de um plano — anunciou Tommy. — E rápido. Não podemos deixar que Kovar continue se apossando dos nossos territórios.
— Também precisamos pensar em uma nova forma de nos livrarmos dos Nevsky — lembrou minha irmã num tom irritadiço. — De forma alguma eu vou aceitar que Susan Williams faça parte da família. Principalmente com o histórico dela.
— O que isso quer dizer? — O olhar interrogador de Laurel viajou de Thea para Tommy e depois parou em mim. Eu encarava minha irmã tentando entender se ela tinha ou não conhecimento do passado da mulher com quem minha mãe queria me obrigar a casar.
— Eu fiz a minha pesquisa. — Thea deu de ombros enquanto nós três mantínhamos nossos olhares sobre ela. — Tudo bem, Roy fez. — Ela rolou os olhos. — Mas o ponto é: eu sei qual é o truque baixo dos Nevsky e nós não seremos os próximos a sucumbir a ele. Portanto, é melhor colocarmos nossas cabeças para funcionar e começarmos a procurar outra forma de mandá-los para o inferno o quanto antes.
— Nós vamos fazer isso. — Garanti, mesmo sabendo que eu não tinha nenhum outro plano para romper com aquele acordo em mente. — Mas primeiro vamos recuperar a Baía de Star City. Os Nevsky não vão nos perturbar até que o casamento de Tommy e Helena tenha acontecido. Eles precisam ter certeza de que nossa aliança com os Bertinelli é permanente.
— Eu e Helena não temos pressa se você quer saber — Tommy comentou casualmente. — Podemos adiar o casamento pelo tempo que for necessário.
Laurel rolou os olhos.
— É claro que podem — resmungou ela.
— Algum problema? — Tommy questionou-a com uma sobrancelha erguida em uma expressão de sarcasmo.
— Quanto mais tempo esperarmos para oficializar esta aliança, mais tempo daremos a Konstantin Kovar para se preparar e tomar o que é nosso. — Manifestou-se Laurel. Sua voz era clara e firme, e indicava que ela não estava disposta a perder aquela discussão. Era o que nós chamávamos de seu “tom de promotora”, pois era o mesmo tom de voz que ela usava em todas as vezes que estava atuando em um julgamento. — Eu entendo que a situação de Oliver é delicada e nós não queremos estar sob as garras dos Nevsky. No entanto, adiar o seu casamento não pode e não vai ser uma opção, Tommy.
— Ela está certa. — Para o espanto de Laurel e dos outros, eu reconheci que ela tinha razão naquilo que dizia. Adiar o casamento de Tommy e Helena seria um movimento estúpido e dada nossa atual situação a última coisa que nós poderíamos fazer era nos arriscar em um movimento desse tipo. — Vamos manter o casamento no final do mês como planejado. Essa é a única coisa que ainda temos como certa em nossas mãos, vamos mantê-la.
— Isso significa que temos no máximo duas semanas para retomar o controle da Baía de Star City e pensar em uma nova jogada contra mamãe e os Nevsky — Thea constatou soltando o ar pesadamente. — Eu acredito que o mais inteligente a se fazer é nos dividirmos novamente.
— O que você sugere? — perguntei.
— Laurel e eu vamos tomar conta do seu não-casamento, enquanto isso cabe a você e Tommy descobrem uma forma de chutar Konstantin Kovar para fora do nosso território.
— Por que me parece que vocês ficaram com a tarefa mais fácil? — Tommy ponderou.
— Fala sério, tudo o que vocês precisam é de um bando de homens armados e uma boa estratégia. — Laurel respondeu de maneira penosa, enquanto Thea apenas rolou os olhos entediada. — Como isso pode ser mais difícil que descobrir uma forma segura de romper um acordo com uma das famílias mais traiçoeiras e perigosas da máfia?
— Vocês têm alguma informação a respeito de quem está no controle da Baía em nome do Kovar? — Questionei antes que Tommy começasse uma discussão desnecessária a respeito da dificuldade das missões.
— Nosso querido amigo Billy Malone foi o comandante da operação. — Revelou Thea. — Talvez você não tenha sido muito claro da última vez que o encontrou.
— Eu precisava que ele vivesse para que Konstantin Kovar soubesse que eu estava indo atrás dele — lembrei-a. — Acho que todos concordam que ele cumpriu com as minhas expectativas, agora que Kovar sabe que estamos nos reerguendo eu não preciso mais manter Billy Malone de pé.
— Você vai matá-lo? — Tommy me olhou curioso.
— A menos que você queira fazer isso no meu lugar — encarei-o seriamente.
— Você sabe que eu adoraria enfiar uma bala no meio dos olhos daquele desgraçado.
— Então eu espero que quando a hora chegar, você se divirta bastante.
— Vocês são mórbidos — declarou Laurel. — Não sei porque me surpreendo com isso.
— Vocês já disseram o que tinham para dizer? — Minha pergunta soou mais grosseira do que eu realmente gostaria que tivesse sido. — Não me levem a mal, mas cada segundo que passamos falando sobre essas coisas aqui o risco de sermos descobertos aumenta.
— Você tem toda razão — Tommy concordou. — Vamos meninas, tenho certeza de que Oliver tem muitas coisas para lidar aqui na empresa. — Encarei-o tentando decifrar se ele estava sendo sarcástico. — Eu falo sério, Raíssa me disse que você tem muitos compromissos e que nós não deveríamos tomar o seu tempo com “as sujeiras debaixo do tapete dos Queen”. — Contou ele, falhando de maneira vergonhosa na imitação da voz de Raíssa.
— Eu ainda tenho medo dela — disse Laurel com o pensamento longe. — E é por isso que estamos indo embora.
— Saudades do tempo em que nossa maior preocupação era esconder que você e Sara visitavam o quarto do meu irmão a noite. — Thea suspirou dramaticamente.
— Obrigada por lembrar que seu irmão saia com nós duas — Laurel resmungou contrariada.
— Disponha. — Minha irmã riu satisfeita por ter causado desconforto ao trazer de volta aquela velha história que não era nada importante.
Tinha acontecido pouco tempo antes de meu pai me mandar para a Rússia, eu ainda era um adolescente normal e como todo adolescente achava que nunca seria pego nas minhas mentiras. Eu e Sara sabíamos que aquilo era apenas diversão e nenhum de nós esperava mais do outro. Laurel, por outro lado, era diferente. Como eu havia dito a Helena eu achava que gostava dela, mas não queria um relacionamento coisa que ela parecia querer. Olhando para trás agora eu percebo que mesmo se eu quisesse ele não iria ser possível. No final meu pai havia me feito um enorme favor ao me mandar para a Rússia e impedir que o que eu tinha com Laurel fosse adiante e acabasse destruindo nossa amizade de anos.
— Eu acho melhor irmos, porque a conversa não está tomando um rumo agradável para a sua reputação, Queen — Tommy zombou. — Nos vemos mais tarde — declarou ele enquanto abria a porta e esperava Laurel e Thea saírem de minha sala, seguindo-as em silêncio logo depois.
Soltei o ar pesadamente, as coisas pareciam andar para trás a todo momento. Eu precisava resolver a situação da Baía e a do casamento, mas também precisava resolver os milhares de problemas que a Queen Consolidated tinha. O fato incontestável era que se eu não acabasse morto no meio dessa guerra da máfia o estresse e o excesso de trabalho dentro da empresa iriam me matar.
***
— Ah! Aí está você! — John exclamou atravessando a porta do meu escritório. — Sabe que horas são?
Neguei com a cabeça e olhei pelas janelas de vidro, me surpreendendo com o fato de que já era noite. Depois que Thea e os outros saíram, eu havia passado o resto dia dentro daquela sala lendo contratos e tentando me comunicar com Sara. Eu sabia que minha amiga estava provavelmente tendo o melhor tempo de sua vida treinando em Nanda Parbat, mas eu precisava dela e de suas habilidades em Star City o quanto antes. Principalmente agora que a guerra com Konstantin Kovar se tornava mais real e mais próxima a cada instante.
— Acho que acabei perdendo a noção do tempo, Dig. — Afirmei passando a mão pelo rosto. — Não seria de se admirar caso a minha mãe tivesse mandado a polícia atrás de mim ao invés de você, John.
Antes que ele pudesse responder, o barulho das portas do elevador se abrindo chamou a nossa atenção.
— Pelo visto você não foi o único que resolveu ficar até tarde no trabalho — apontou ele.
De dentro da caixa metálica saiu Felicity usando uma saia preta e uma blusa branca de bolinhas. Ela tinha uma pasta em mãos e ficou um pouco surpresa ao notar nossa presença no local.
— O que faz aqui? — Ela perguntou entrando bruscamente na minha sala. — Eu sei o que você faz aqui. — Respondeu em meu lugar. — Você trabalha aqui. E a empresa é sua. Você pode ficar aqui. Mesmo que isso não seja uma coisa comum de se ver. Não que eu tenha vigiado você. — Ao contrário de mim, John não conseguiu se segurar e soltou uma pequena risada do modo como ela falava, era rápido e na defensiva. Felicity pareceu notar seu pequeno devaneio, pois suas bochechas ficaram vermelhas. — Eu só quero saber o que faz aqui a essa hora. Mesmo que eu não tenha absolutamente nada a ver com isso.
Felicity fechou os olhos com força.
“Por que eu sempre tenho que passar vergonha na frente de Oliver Queen? A essa altura da minha vida eu deveria estar acostumada a lidar com empresários bonitos”, sua voz embora fosse um sussurro ainda era audível. John voltou a rir e Felicity abriu os olhos de repente percebendo que ela tinha falado mais alto do que gostaria e ficou ainda mais sem graça. Ela parecia que iria sair correndo a qualquer momento.
— Você não estava usando um vestido na hora do almoço? — Observei mudando completamente de assunto. Felicity pareceu agradecida por eu resolver ignorar completamente as palavras que saíram de sua boa, pois soltou um longo suspiro e relaxou os ombros.
— Eu tive um acidente — ela respondeu constrangida.
— Acidente? — John questionou em meu lugar.
Pude notar que assim como eu, ele estava curioso para saber em que tipo de acidente ela havia se metido. Mesmo a conhecendo a pouco tempo nós dois sabíamos que Felicity era um imã para ocorrências inusitadas, a forma como nos encontramos pela primeira vez havia provado isso. E mesmo que não tivesse, o fato de ela ter batido contra a parede de vidro da sala de reuniões pelo menos três vezes na semana passada já seria um sinal.
— Por favor não pergunte. — Ela pediu, praticamente suplicou.
— Parece que nós dois perdemos a hora. — Preferi mudar o rumo da conversa mais uma vez.
— Eu não perdi a hora, eu estou fazendo hora extra. — Felicity explicou voltando gradativamente a sua cor normal.
— Por quê?
— Porque eu tenho muito trabalho acumulado. — Ela deu de ombros.
— E porquê você tem muito trabalho acumulado? — Encarei-a pegando o objeto de suas mãos.
— Porque Isabel Rochev me odeia? — Declarou como se fosse óbvio. — Não sei quem teve a magnífica ideia de colocá-la como chefe do meu departamento. Na verdade eu sei, foi a Bru… — Ela se interrompeu arregalando os olhos. — Brilhante Dona Moira, sua mãe. — Continuou num sopro de voz envergonhado.
— Brilhante não é exatamente a expressão que usam pelos corredores para falar da minha mãe. — Comentei não contendo meu sorriso de divertimento com a situação. — Ou será que é Dig?
— Eu tenho certeza de que a chamam de outra coisa, Oliver. — John respondeu tentando soar sério.
— Eu realmente não vim aqui para falar da sua mãe. — Felicity voltou a enrubescer. — Ou falar — emendou ela. — Esse são os relatórios que foram pedidos ao meu departamento. — Ela se aproximou de minha mesa me estendendo a pasta.
— Obrigado. — Agradeci pegando o objeto de sua mão.
— Disponha. — Ela sorriu sem graça. — Agora, se não se importam. Eu preciso ir. — Anunciou se afastando rapidamente. — Até amanhã, Oliver. Bom ver você de novo, John.
— Dig. — John disse e Felicity o olhou sem entender. — Meu amigos me chamam de Dig.
— Bom ver você de novo, Dig — ela disse e saiu porta a fora.
John me olhou com uma sobrancelha erguida me desafiando.
Se eu mesmo já não tivesse plena consciência de que estava indo por um caminho do qual não teria como voltar com as minhas próprias pernas, poderia culpar John por sempre estar me influenciando a ir atrás de Felicity mesmo sabendo que aquilo era perigoso. Mas conhecendo-o como eu conhecia, eu sabia que ele fazia isso apenas para me provar que eu ainda tinha alguma pequena parcela de humanidade e que ela parecia maior sempre que Felicity estava por perto. Além disso, John confiava que eu seria capaz de manter a loira segura, do contrário jamais teria decidido bancar o cupido para cima de mim.
— Merda! — Grunhi consciente de que lá estava eu mandando para o espaço o meu plano de me afastar dela.
Levantei-me da cadeira e atravessei a sala depressa, deixando para trás Diggle e sua risada de satisfação. Felicity estava quase entrando no elevador quando eu a chamei, ou melhor, gritei. Andei a passos largos em sua direção e vi seu corpo se tornar tenso antes que ela se virasse para me encarar.
— O que aconteceu, Oliver? Tem algo errado com os documentos? — Felicity perguntou enquanto eu me aproximava dela.
— Quer sair para jantar comigo? — Soltei de uma só vez, antes que eu perdesse a coragem.
— Como é?! — Ela arregalou os olhos exasperada.
— Jantar, Felicity. Como amigos — arrisquei em um tom mais calmo.
Felicity tinha os olhos fixos nos meus, sua expressão era estranha e lembrava minha irmã sempre que queria arrancar de mim alguma coisa que eu não estava disposto a contar.
— Oliver, você sabe o que vão dizer se nos verem juntos em um restaurante. — Sua voz era suave e ela pronunciava as palavras devagar como se estivesse explicando algo muito difícil a uma criança.
— Não precisamos ir a um restaurante, podemos ir a um lugar mais discreto. — Eu realmente não me importaria de encarar outra refeição pouco saudável no Big Belly Burger ao lado dela. — Além do mais, somos as únicas pessoas na empresa a essa hora, não há motivos para ficar preocupada.
— E quanto a Diggle? — ela indagou. — Você vai mesmo deixá-lo para trás? O trabalho dele não é estar na sua cola o tempo todo?
— Acredite em mim ele não se importaria em ficar para trás. — Muito pelo contrário, Diggle ficaria muito feliz em ser deixado para trás, principalmente se isso significasse que eu estaria a sós com Felicity em qualquer lugar. — Mas se você quiser posso dizer para ele nos acompanhar. — Sugeri mesmo sabendo qual seria a resposta de meu amigo. — Embora eu tenha certeza de que ele irá rejeitar o convite.
Eu quase podia ouvir as engrenagens do cérebro de Felicity trabalhando dentro da cabeça dela. Era incrível e um pouco assustador. Aquela certamente era a mesma expressão que ela deveria usar quando estava fazendo um dos muitos cálculos que eu não sabia para que servia, mas que sempre apareciam com os resultados esperados nos relatórios do Departamento de TI.
— Você está me preocupando — confessei chamando sua atenção.
— Hã?!
— Você parece pensativa.
— Estou analisando todas as possibilidades de isso acabar mal — confessou envergonhada. Apenas Felicity Smoak usaria matemática para ajudá-la a descobrir se é uma boa ideia aceitar sair para jantar com alguém.
— Isso... o jantar?
— Exatamente — confirmou ela. — Há uma grande probabilidade de acabarmos nas primeiras páginas das revistas de fofoca. — Infelizmente, ela tinha razão. — Seja porque fomos vistos por algum paparazzi ou por algum dos funcionários dessa empresa.
— Devo supor que você sabe qual a porcentagem exata de isso acontecer? — Brinquei para impedi-la de tornar o assunto mais pesado do que deveria.
— 89,32% de chance de sermos vistos. — Ela afirmou veementemente.
— O que nos dá exatamente…?
— 10,68% de chance de termos sucesso em manter um possível jantar em segredo.
— 10,68? — Ponderei por alguns instantes. — Eu acho que consigo me virar com isso.
— Você não vai desistir, não é? — Ela questionou finalmente se dando por vencida.
— Não.
— Tudo bem, mas não se acostume. — Declarou ela chamando o elevador novamente. — Eu realmente não pretendo fazer todas as minhas refeições do seu lado.
— Eu vou tentar não ficar ofendido. — Informei, enquanto a seguia e entrava na caixa metálica. Felicity me direcionou um olhar assustado. — Sim, você disse em voz alta. — Ela abriu a boca para se desculpar, mas eu pousei meu dedo indicador sobre seus lábios a calando imediatamente. — Não, eu não me importo.
Felicity sorriu timidamente e se virou para encarar as portas de metal. Uma sensação diferente me abateu. Era como se todo o meu corpo tivesse ganhado uma dose extra de energia apenas por tocá-la daquela forma inocente e superficial. Mais do que isso, era como se de uma hora para outra toda adrenalina que eu já tinha experimentado ao longo dos anos fosse apenas uma pequena onda em comparação com o tsunami de emoções que eu ansiava vivenciar ao lado daquela mulher.
Saímos da Queen Consolidated direto para uma pequena pizzaria que ficava no fim do quarteirão. Eu a havia descoberto quando era criança e vinha visitar o meu pai na empresa. Ele costumava levar a mim e Thea até lá quando estava de bom humor, mas na maioria das vezes quem nos acompanhava até o local era Walter, um dos melhores amigos do meu pai e antigo diretor geral da empresa.
— Nós definitivamente estamos saindo da dieta. — Felicity comentou enquanto analisava o cardápio da pizzaria. — Não que eu me importe com isso, mas vocÊ parece do tipo que se importa.
— Pareço?
— Bem, você tem todo esse corpo. — Ela gesticulou desenhando um círculo invisível ao meu redor. — Não que eu tenha reparado nisso especificamente. Mas é meio difícil não notar tudo isso. Principalmente quando você fica até tarde como hoje e sai com o paletó nas mãos e a camisa com os primeiros botões abertos e as mangas arregaçadas. — Felicity deve ter notado minha expressão curiosa diante da sua revelação, pois ficou envergonhada. — Não me leve a mal, eu não estava perseguindo você nem nada do tipo. Essa coisa de stalker é realmente assustadora. É só que nós trabalhamos no mesmo prédio e eu vivo fazendo hora extra. As vezes eu vejo você no estacionamento quando estou indo embora.
— Não sabia que tinha um carro. — Dentre todas as coisas que poderiam sair da minha boca, essa foi a frase estúpida que eu consegui dizer.
— Eu não tenho — ela afirmou veemente. — Alena se ofereceu para ir me buscar quando eu fico para fazer hora extra. Eu consegui um apartamento para ela no mesmo quarteirão onde eu moro e como agradecimento ela se tornou minha motorista particular. Somos quase como você e Dig, tirando a parte que você é podre de rico e tem uma família minimamente estabilizada. Embora deva ser um porre ter uma mãe como a sua. Espero que ela seja uma mãe melhor, pois como chefe ela é...
Os olhos dela refletiam constrangimento quando encararam os meus. Se ela soubesse que não havia uma versão sequer de Dona Moira Queen que fosse minimamente boa ficaria agradecida por ter conhecido apenas a versão empresária dela.
— Você realmente deveria me parar. — Felicity pediu num sussurro envergonhado.
— Eu realmente acho que não. — Neguei dirigindo a ela o meu melhor sorriso.
Nossa conversa foi interrompida momentaneamente pela chegada do nosso pedido. Meu celular tocou no bolso do paletó e eu aproveitei que o garçom nos servia para ler a mensagem de Tommy:
“Onde você está? Achei que iríamos tratar do assunto Kovar e a Baía de Star City.”
Soltei o ar pesadamente. Eu havia esquecido completamente que deveria encontrá-lo para buscar uma solução para o nosso problema. Levantei meus olhos para Felicity que agradecia o garçom com um sorriso no rosto e percebi que eu não estava nem um pouco a fim de ir embora e falar sobre os problemas da bratva. Eu preferia ficar ali e ser uma estranha e desconhecida versão de mim mesmo.
Tornei o celular silencioso e o coloquei sobre a mesa. Falaria com Tommy depois.
Felicity falava sobre coisas aleatórias, ela listava todas as vezes que sua incapacidade de manter seus pensamentos sigilosos a tinha colocado em situações absurdamente complicadas. Ela dizia que todas as pessoas que conviviam com ela achavam que ela era irritante quando começava a falar sem parar. Os únicos que pareciam lidar bem com esse seu lado peculiar eram sua mãe e sua melhor amiga Caitlin.
— Eu acho adorável. — As palavras simplesmente escaparam da minha boca, talvez Felicity não fosse a única com problemas para manter seus pensamentos guardados.
— Obrigada?
Antes que um de nós pudesse dizer mais alguma coisa, o celular dela tocou. Ela murmurou o nome Alena e sinalizou para a porta dos fundos da pizzaria indicando que iria sair para atendê-la. A tela do meu celular acendeu e indicou que eu tinha recebido seis mensagens, sendo a mais recente de Helena. Parte de mim queria descobrir do que se tratava, mas a outra apenas queria ter um momento de paz para aproveitar a companhia de uma pessoa minimamente normal. Eu estava prestes a desligar o celular de uma vez por todas quando a última mensagem chegou. Era Quentin quem a mandava. Aquilo me preocupou, se Quentin e Helena estavam me mandando mensagens, alguma coisa realmente ruim deveria ter acontecido. Dei-me por vencido e suspirei derrotado ao começar a ler as mensagens que haviam me enviado.
Quentin:
“Achei que já tínhamos passado dessa fase.”
Helena:
“Quando você disse que não podia sequer respirar fora dessa casa não estava mentindo. As pessoas da mansão estão loucas atrás de você. Ligue para alguém.”
Dig:
“Sua mãe pode até não ter chamado a polícia, mas contratou um guarda-costa para o guarda-costa. Não se preocupe ele não viu vocês saírem, eu garanti isso.”
Laurel:
“Você de fato decidiu que hoje, dentre todos os dias, poderia sumir sem dar notícias e que isso era uma boa ideia?”
Thea:
“Onde você está? Dona Moira está começando a me irritar.”
Moira:
“Eu sei que você deixou John na empresa e sumiu. Espero sinceramente que você esteja cuidando dos nossos interesses e não esteja se enfiando no meio das pernas de uma qualquer. Se os Nevsky sequer pensarem que você anda se divertindo com uma civil estaremos acabados.”
Tommy:
“Tenho um plano, me ligue o quanto antes.”
Fale com o autor