Blondie and Cotton Candy
6 Capítulo 5 — Inventando Desculpas
Notas iniciais

Capítulo 5 — Inventando Desculpas
Anteriormente:
– Os pais dele são muito influentes na França e surgiu a oportunidade de um negócio muito lucrativo com eles. Adoráveis pessoas. E estão pedindo para ir a um lanche da tarde com você hoje [...] às 16h.
– Não irei! [...] Eu tenho um compromisso!
– NÃO DIGA NÃO PARA MIM! VOCÊ VAI! Agora saia!
A loira engoliu em seco. Seus olhos estavam lacrimejando, mas não se importava, apenas não choraria na frente dele. Não daria a seu pai esse prazer. O odiava. Como o odiava!
[...]
– ...Não posso ficar com ela. Não tenho sentimentos por ela. Sabe por quê? – Gray meneou a cabeça. — Porque meu coração ainda pertence à Lisanna. — declarou, o susto estampado na face do jovem.
[...]
Lucy pôs-se a explicar seu mirabolante plano, então:
– Jellal irá aparecer enquanto eu estiver me arrumando para o encontro com os pais de Loke. Meu pai, por mais que não goste mais tanto dele, já foi muito encantado por Jellal e queria que noivássemos, como você sabe, Ley. [...] Ele puxará conversa e proporá que eu tente ver os pais de Loke outra hora porque eu, ele e você precisamos ir a uma palestra para escritores que irá com a presença da ilustre escritora Agnes Bell, que por sinal não existe. Ela estará mostrando à Columbia Britânica os possíveis mais talentosos escritores do futuro.
[…]
O rosado a puxou pela cintura e logo selou seus lábios em um beijo voluptuoso. Suas línguas se encontraram e se moveram em total sintonia, fazendo os corpos se unirem mais, chegando ao ponto de Lucy sentar no colo do garoto. A jovem arranhou o pescoço dele, enquanto o mesmo passava a mão por todo seu corpo com urgência, chupando sua língua com sensualidade. O ar perdido era recuperado em segundos antes que suas bocas voltassem a se encontrar com um profundo desejo.
– ... Como o Loke consegue fazer tanta merda com uma garota como você?!
O nome de Loke fez a loira despertar de seu estado inebriado e sair do colo do rapaz rapidamente. Ela arregalou os olhos, a respiração acelerada e entrecortada. Pôs as mãos onde recebera o chupão e sentiu os olhos lacrimejarem. Suas mãos tremiam.
– Merda, Dragneel! Isso é traição! Merda!
[…]
– Loke, por algum acaso você viu sua mãe? Eu gostaria de organizar as finanças com ela. — Um homem charmoso e de cabelos de um loiro pálido perguntou.
– Minha mãe resolveu dar uma volta pela cidade, pai.
[…]
– Mas, oh, não é a menina Heartfilia?
Lucy olhou para a mulher e então sentiu seu sangue gelar. Lógico que a reconhecera pelas fotos. Aquela que os encarava era a mãe de seu namorado.
____x____
As batidas de Lucy falharam por um instante. Com a proximidade que estavam, Natsu pôde muito bem sentir isso. Não podia negar ter ficado um pouco preocupado, a loirinha o entretia adoravelmente, afinal. Quem diabos era aquela mulher para fazer isso com a jovem, uma parente? Finalmente estava pegando essa garota de vez, finalmente iria fazer o ruivo que tanto odiava sofrer e agora mais um obstáculo surgia em seu caminho.
Depois que os batimentos cardíacos da loira tornaram-se mais constantes, apesar de há pouco estarem disparando em enorme velocidade – o que frequentemente acontecia quando estava na presença do rosado, e no momento graças a ruiva. Empurrou-o rapidamente e arrumou o seu vestido amarrotado pela “brincadeira” dos dois. Sorriu sem graça, enquanto em sua cabeça uma desculpa tentava ser formulado neste momento de pressão. Lucy não funcionava sobre pressão. Quantas fotos da infância de Loke já não achara em dormidas e espiadas pela casa dele? Poucas vezes ouvia ele falando da mãe – mas muito falava sobre o pai – e as fotografias serviam para que imaginasse como ela seria.
Ao contrário da loira, Natsu estava mais perdido que um cego em tiroteio; para ele aquela senhora era apenas mais um fardo neste segundo, nada mais, nada menos. Ele aproximou-se novamente de Lucy ficando quase atrás dela, pretendendo sussurrar algumas palavras de dúvida em seu ouvido e enxotar a velhota. Antes, porém, que pudesse fazer isso, ela se pronunciou, tentando disfarçar ao máximo a péssima situação com um sorriso torto.
— Linda tarde, não, Senhora Regulus? — desconversou, suando nervosa.
Esse sobrenome... Ele era muito familiar para Natsu. De onde? Olhou novamente para aquela mulher e a raiva logo se instalou em sua mente. A mesma postura sacana e superior, traços muito bonitos, os fios ruivos e... óculos escuros muito parecidos com os do filho. A mãe de Loke. Era daí que reconhecia o sobrenome, de uma das vezes que buscou saber quem era o tal rapaz que causara tanto sofrimento a si após Lisanna vir se desculpar e deixar o ano em que o rapaz estudava escapar. Ele também era da Fairy Tail. Seus amigos chamavam-no de Regulus. Tempos depois descobriu que ele e Gray eram amigos de infância, por alto.
— Realmente, muito... linda. Por esse motivo mesmo que depois que alguém cancelou nosso encontro hoje à tarde, resolvi passear por essa pacata cidade. — falava se aproximando vagarosamente de Lucy, com um ar superior, querendo deixar bem claro que estava descontente com os acontecimentos anteriores. — Fiquei muito surpresa que uma pessoa de renome viesse a uma cidade tão no interior do Canadá, apesar de não tão pequena. — referia-se a tal Agnes.
Natsu ficou confuso. Como assim ela cancelou um encontro com os pais de seu namorado? Era para... ver ele? Quis sorrir por dentro. Então ela estava muito mais interessada por ele do que deixava transparecer ou era tudo desejo carnal? Se fosse o caso, ela não seria melhor que Loke e esse pensamento embrulhou seu estômago. De toda forma, aparentemente sua vingança avançou em muito e isso o deixava extremamente ansioso. Ignorou o morno aconchego que sentiu ao saber que ela talvez estivesse interessada nele e se focou na conversa.
— Sinto muito pelo imprevisto. — tentava pensar em algo olhando discretamente para tudo ao seu redor. Fitou Natsu totalmente perdido atrás de si. Bingo! Uma ideia surgiu como em um passe de mágica, e o melhor disto é que iria bater com a história que contou ao seu pai e à senhora Regulus. — É que eu e meus amigos fomos avisados de última hora sobre a palestra de Agnes Bell. — Ela puxou o rosado pelo braço para seu lado, apresentando-o como se fosse o tal palestrante. — O Sr. Bell é um escritor muito importante, que deu muitas dicas preciosas para os autores amadores como eu.
Agora sim Natsu estava perdido na conversa. Sentiu a loira beliscar suas costas o mais discretamente possível e observando a mesma, viu o sorriso forçado – que, se ele não estivesse acostumado a forçar muitos sorrisos, não teria percebido não ser verdadeiro – e o nervosismo explícito em suas palmas suadas, enquanto encarava a senhora Regulus. Ela estava desesperada, isso era um fato, um fato que fazia com que quisesse rir.
Até que essa desculpa inventada foi boa, mas com certeza o rosado inventaria uma melhor e deixaria Heartfilia de cara no chão. Na verdade, ele falaria tranquilamente na cara para Lucy e Loke terminarem logo, porém, este não era o caso no momento. A cada segundo que se passava, estes poucos passando lentamente, podia ver a loira ficando mais nervosa e novos beliscões eram aplicados em suas costas. Ele abriu o sorriso mais largo que pôde para a mulher na sua frente, a qual arqueou uma sobrancelha, pois finalmente fez sua decisão. Iria ajudar Lucy. Fez as devidas ligações. “Fiquei muito surpresa que uma pessoa de renome viesse a uma cidade tão no interior do Canadá”, “palestra de Agnes Bell” e “escritor muito importante”. Já era o bastante para sua mente acostumada a mentiras.
— Concordo com as senhoras, hoje é um belo dia. — manteve o sorriso charmoso e apertou a mão dela que o analisava. — Prazer, eu sou Agnes, e a bela madame se chama...? — inquiriu com um ar galanteador, deixando a frase no ar para que a ruiva completasse. Ainda segurando a mão dela, beijou-a sem deixar de fitar o rosto um pouco envelhecido da mulher, que pareceria inexpressiva se não fosse pela sobrancelha arqueada.
— É mesmo um prazer, Sr. Bell, me chamo Violette Regulus. — Violette soltou-se do rapaz e continuava o olhando com seu ar superior, um pequeno sorriso intimidante em lábios. — Que interessante, achei que Agnes fosse um nome feminino.
Dragneel engoliu em seco assim, percebendo, pelo canto do olho, que a loira fazia o mesmo. Estava salvando ela, não? Que fizesse um trabalho decente! Se recompôs e agora estava mais confiante do que nunca, tentava dar uma boa impressão e se agarrar na mentira que estava interpretando como se tivesse ensaiado toda a sua vida por isso.
— Na verdade–
— A senhora não sabe que Agnes é um nome unissex? — Lucy interviu. – É majoritariamente um nome feminino, mas pode ser usado para ambos. – E então percebeu o olhar de Regulus passando por ela, como se pudesse lê-la. Estremeceu. – Durante a palestra, um jovem fez o mesmo comentário, porém antes que o Sr. Bell pudesse responder, uma jovem que o admira muito respondeu o mesmo que lhe digo agora. — sorriu delicadamente.
— Ora, Srta. Heartfilia. Agradeço por ter sido tão atenta, todavia lembre-se de prestar atenção aos pormenores. Eu estou em meio a um diálogo com uma senhora que nem ao menos conheço e você me interrompe. Isso não é educado.
— Desculpe! — A loira sentiu as bochechas arderem, especialmente quando Violette sorriu divertida.
— Como eu dizia, na verdade é uma história até que bem interessante e engraçada o porquê eu ganhei esse nome.
“É que quando ele nasceu os pais dele sabiam que ele seria gay quando crescesse”, completou Lucy em pensamentos, ainda envergonhada pela “bronca”. Seu ódio pelo rapaz era algo incompreensível, já que, minutos atrás, ambos estavam brincando. Mais anteriormente ainda, se agarrando vorazmente nas cadeiras no cinema, aquele chupão era a prova disso. Argh. Aquela marca seria sua ruína se alguém a visse. Faria questão de usar um cachecol aonde quer que fosse, além de render o cabelo sobre a marca e passar maquiagem no local de agora em diante até que não houvesse mais nenhum resquício do que acontecera naquela sala de cinema. Só de lembrar, sentia seu corpo clamar por mais contato. Precisava urgentemente de Loke, precisava que ele a fizesse sua para tudo aquilo passar.
— E eu adoraria ouvi-la a qualquer hora. — A ruiva respondeu pretensiosa. Realmente. Era igual ao seu filho. Dragneel abriu um sorriso gentil, o tom levemente envenenado com a mesma presunção.
— Seria sempre um prazer contá-la para a senhora.
— Bem, sua ausência em nosso piquenique está mais do que justificada, senhorita Heartfilia. Espero que possamos nos encontrar outra vez, de preferência na presença de meu filho. — A Sra. Regulus falou fitando a loira.
Aquilo era uma ameaça?
Voltou sua atenção para Dragneel, agora, Agnes Bell.
— Foi um prazer lhe conhecer, Sr. Bell. — Aproximou-se mais do mesmo, chegando a sussurrar no ouvido do rosado. — Ou seria melhor chamá-lo de Dragneel? — insinuou, fazendo com que o mesmo gelasse.
Então ela sabia. Mas como? Havia algo de errado naquela mulher. Ela afastou-se, acenou com a cabeça e seguiu seu caminho distanciando-se dos dois jovens.
O rosado ficou ali praticamente paralisado. Ele não era ninguém muito conhecido dentre os mais velhos e duvidava muito que o namorado de Lucy falasse dele para a mãe. Era perceptível um sotaque francês carregado em seu inglês que, com exceção ao sotaque, era impecável. Ela não morava aqui, então como sabia...? Como a mãe do ruivo sabia de sua verdadeira identidade era um mistério não muito agradável para Natsu, que nem sequer queria resolvê-lo. Seus olhos estavam fixados no ponto para onde a tal mulher tinha ido, embora já não houvesse mais sinal de sua presença que não suas memórias. Realmente, tinha pena de quem quer que fosse seu infortuno marido.
A tensão visual fora quebrada por longos cabelos loiros balançando ao vento, enquanto a menina andava apressadamente para deixar aquele local também. O rosado saiu de seu transe e segurou seu punho, fazendo com que seus olhares se encontrassem por breves segundos. Instantaneamente se arrependeu de ter visto aqueles olhos. Vermelhos e molhados, obviamente ela segurava o choro, com tanto vigor que seus lábios tremiam. Ao mesmo tempo, era possível perceber a raiva em todo seu ser.
— Ei! Aonde você pensa que está indo? — perguntou, ainda assim, impedindo-a de continuar seu caminho. Antes de falar, Lucy soltou-se com brutalidade.
— Este encontro acabou, não percebe? Adeus, Dragneel.
Natsu ficou ali parado, sem nada para alegar ou protestar. Por que insistia em ter a presença da loira ao seu lado? Ela era apenas um brinquedo, um meio de conseguir vingança, nada mais que isso. Seus interesses verdadeiros nela eram nulos. Mas algo o impedia de não se envolver com ela, algo que o prendia aos fios dourados e sedosos. E tinha certeza de que ela também sentia esse algo, pôde ver nos olhos marejados de Lucy antes de sair o mais rápido possível do parque. Não entendia. Não entendia o porquê do choro. Não entendia porque Loke significava tanto para aquela menina mimada. E o mais importante de tudo: não entendia porque se preocupava com aquela idiota, burra e chata Heartfilia.
Depois de inúmeros minutos, tomou sua decisão e passou a seguir os passos de salto alto da menina, o que não fora muito difícil já que era óbvio o caminho tomado pela mesma. O oposto ao de Violette, a casa de Loke. “Por que eu estou fazendo isso?, se questionou, Por que eu não a deixo ir? Ela não é nada para mim” , pensava enquanto tentava ser o mais discreto possível acompanhando ao longe a loira, que ainda seguia em linha reta. Podia perceber soluços, e algumas vezes suas mãos limpavam seu rosto em tentativas fracassadas. Ela estava mesmo chorando, e era pelo tal ruivo que nem sequer merecia os sorrisos de qualquer garota nessa face da Terra, imagine lágrimas. Por que era por ele que ela sentia? Por que se importava? Por que a queria tanto? A resposta mais fácil se apresentou, a qual ele prontamente aceitou, sem querer pensar mais que isso. Porque o proibido era mais gostoso.
Ela parou.
Da mesma maneira, Natsu ficou interrompeu seus passos e ficou atrás de uma parede, apenas ouvindo o que se passava com a menina, com a qual não se importava nem um pouco. Batia-se por estar ali, não tinha nada haver com que acontecia ou não com ela, não era de sua conta, e mesmo se fosse, não faria questão de saber.
Pôde ver de relance que finalmente as lágrimas haviam parado de escorrer pelas bochechas rosadas de Lucy, porém, deixando algumas marcas ainda visíveis. Sabia que um só pensamento invadiu sua mente quando viu que com apenas um olhar da senhora Regulus, seu relacionamento inteiro com Loke poderia ir por água a baixo: tinha de ver seu real namorado. E, por fim, ali estavam os dois. A loira com um sorriso bobo na face, enquanto o ruivo tinha uma preocupação óbvia estampada. Que diabos de olhar era aquele olhar que o ruivo tinha? Parecia que ele realmente... amava Lucy...? Não era possível, Lisanna...! Parou de olhar, sentindo-se um idiota por se expor àquilo. Encostou-se a parede novamente, atento aos sons.
— Loke... — sussurrou para si mesma e logo abraçou o mesmo, contente pelo encontro repentino. — Loke! Eu senti a sua falta!
— Lucy... Mas... não faz nem um dia que nos encontramos pela última vez. — falou um pouco confuso, mas retribuiu o abraço, ainda que meio relutante e preocupado.
— E daí? Eu queria te ver.
O murmúrio da loira, que estava com os olhos castanhos fechados, fez com que ficasse ainda mais preocupado. Acariciou o topo de sua cabeça, sentindo o rosto delicado enterrado em seu peito.
— Se acalme. Agora eu estou aqui. — desfez o abraço e olhou diretamente para os orbes cor de chocolate pelos quais se apaixonara.
— Sim... Você está...
Novamente o sorriso sem motivos plausíveis estava visível nos lábios de Lucy. Aquilo fez com que sorrisse também.
— Estou porque também queria te ver. Eu ia para a sua casa agora mesmo.
— Loke! — sorriu mais abertamente.
O tom alegre fez Natsu mordiscar o próprio lábio com fúria.
Loke observou a loira. Seu bem mais precioso. Sim, com toda certeza essa era Lucy. Seu tesouro, o qual não poderia perder a qualquer custo. Seu velho estava certo. Subiu sua mão até a bochecha rosada, e acariciou-a levemente com seu polegar, tentando acalmar a garota. Um olhar singelo e doce a protegia, o olhar de seu namorado, aquele pelo qual faria tudo. Loke, mesmo tendo alguém tão preciosa como a loira, a traía, e ainda não conseguia dizer as tão simples três palavras mais importantes em um relacionamento: eu te amo. Talvez devesse, finalmente devesse. Porque era verdade. Loke a amava. Observou minuciosamente cada detalhe que compunha a beleza indescritível de Lucy, nem podia sequer colocar em palavras o como era sortudo de tê-las em seus braços. Seus olhos chocolate tão doces. Sua boca rosada e levemente carnuda. Seu pesco– Aquilo era um chupão?
— Ei, Lucy, o que é isso? — começou a levantar algumas mechas loiras, querendo olhar melhor para a marca roxa enquanto a loira, já notando, escondia-a com suas mãos.
— I-Isso?
— Tire as mãos... — pediu, baixo.
— Isso o que? — repetiu nervosa, sabendo muito bem do que se tratava. Iria matar Natsu depois. Ela planejava esconder e foi descoberta no mesmo dia. Maravilha.
— ISSO! — tirou bruscamente a mão da namorada da marca, confirmando suas suspeitas, logo, fazendo com que as lágrimas da loira voltassem à tona ao ver a expressão dele se contorcer. Começou a soluçar, as palavras entrecortadas mal saindo de sua boca.
— Loke... E-Eu... E-Eu...
— Eu não quero... explicações, Lucy. — falou relutante.
Como alguém pôde tocar em seu bem mais precioso? E mais, como ela pôde deixar isto ser feito? Pelo que o ruivo sabia, a loira não fora vítima de nenhum estupro ou abuso sexual, ela não estaria tão bem. Nem lembrava mais da preocupação que há pouco sentia, se aquela marca estava ali, seria por vontade própria, por não resistir às ações do culpado. Cerrou os punhos juntamente de seus olhos, fracassando em controlar sua raiva.
— Por favor, Loke... Por favor... — clamava meio às lágrimas sem limitações.
Não podia perdê-lo.
Ele suspirou.
— Acho melhor darmos... Um tempo. — disse calmamente enquanto mais protestos da loira eram ouvidos. — Adeus. — E saiu andando, sem aguentar olhar para ela. Saiu, deixando com que sua ex-namorada ficasse aos prantos na rua.
Quando se esperava ver um sorriso vitorioso nos lábios de Natsu, nada além de uma expressão de surpresa apareceu. Ele havia se vingado. Havia finalmente cumprido seu propósito em atormentar Lucy. Havia feito o ruivo sentir-se assim como ele havia se sentido antes. Aquele hipócrita machista de merda. Então por que não comemorava? Por que não saía dali, por fim esquecendo-se de tudo que aconteceu neste verão, inclusive conhecer aquela insuportável? Por quê? Sim, ele bradava feliz pelo possível término do relacionamento do casal, mas não era como imaginava. Ao invés de querer ir para sua casa o mais rápido, e festejar sua vitória com algumas garotas quaisquer da cidade, queria abraçar Lucy, queria confortá-la e tê-la para si novamente, desta vez para sempre. Era estranho, porém, a mais pura verdade. Que porra estava acontecendo consigo?
Ouviu mais passos de salto alto ecoarem pela rua anunciando a aproximação da Heartfilia. Passos pesados e deprimidos, seguidos por soluços e fungos referentes aos rios de lágrimas sem controle. Ficou parado. Não se mexeu. Não respirou. Não queria ser visto. Não queria...
— O que você está fazendo aqui, Natsu?
Idiota. Achava que não seria visto? Ela soara confusa, no entanto quando olhou para ela, não havia expressão em sua face. As lágrimas e as fungadas a denunciavam e apenas isso. O que diria? A verdade? Não. Nem mesmo ele tinha total veracidade dos fatos apontados antes.
Não respondeu. O que fez com que a loira apenas debochasse do mesmo com um sorriso e uma leve risada.
— Parabéns. Você conseguiu. Vingou-se de Loke. — acelerou o passo. Ele não merecia ver suas lágrimas. Não merecia ver o prêmio conquistado por seus esforços durante a revanche com o ruivo. Parou. — Espero que esteja satisfeito. — disse suas últimas palavras seguidas por mais uma tentativa de cessar seus prantos, logo, voltando a seguir apressadamente para qualquer lugar que não fosse este.
Seu peito ficou subitamente apertado. Vê-la desta maneira parecia ser uma tortura digna da idade medieval, pelo menos para o rosado. Fitou o chão, apenas literal e nada simbólico, pois agora o rapaz estava sem aonde se segurar, estava sem chão por assim dizer. Seus olhos arregalados pelo recente acontecimento, e, também, pelos sentimentos ainda desorientados recém descobertos. Os tênis de marca agora pareciam ser a coisa mais interessante do mundo, para Natsu tanto encará-los. Se nem mesmo ficou assim por Lisanna, por que raios ficaria por Lucy? Nem sequer havia a perdido, apenas havia terminado o relacionamento anterior dela, resultando em suas lágrimas. Por acaso pensava nela como uma pessoa querida? Lucy era importante para si a tal ponto?
Voltou sua atenção para onde a loira havia tomado seu rumo. Fitou o local por breves segundos até que negou com sua cabeça, tentando afastar tais pensamentos de mente. Não havia motivos plausíveis para esta tristeza repentina. Sua missão estava cumprida. Não tinha mais nada a ser feito, apenas aproveitar o doce prato que era a vingança. Seguiu também seu caminho, direto para sua casa, mesmo que relutante.
A consciência de seus atos lhe matavam de poucos em poucos. Saber que ele fora parte dos motivos pelos quais lágrimas de Lucy foram derramadas, já fora o suficiente para supor que naquela noite não conseguiria fechar seus olhos para descansar. Mas e os sorrisos de hoje à tarde? Foram todos falsos? Não. Sabia que também os risos, e gemidos, foram proporcionados pelo mesmo rapaz, Natsu, ele mesmo. E isto bastava para balancear os pecados cometidos, como o de fazer uma garota chorar.
Tentou ao máximo reprimir estas palavras fortes e pesadas em seu coração, tentou mesmo, mas não conseguiu. Ele sentia algo, e isto era um fato até que bem concreto. Parou seus passos largos. Não conseguiria ficar se atormentando em casa de qualquer forma, e muito menos conseguiria passar a noite com alguma garota qualquer conhecida em poucas palavras. Cerrou os punhos. Por quê? Um sorriso de canto formou-se nos lábios do rosado. Ela ainda era sua. Mesmo que discordasse, Lucy era sua desde o momento em que conseguiu fazê-la gemer daquele jeito no cinema. Queria ouvir a loira clamando seu nome mais vezes, e queria nesta noite. Era o momento perfeito, ela e Loke terminaram não fazia sequer uma hora, ela estava frágil e precisava de alguém para confortá-la. Seu plano era ser este alguém.
Trocou de direção, correndo até onde Lucy deveria ter seguido. Passos rápidos e largos eram dados pelo rosado, apressado para chegar até a loira. Mesmo que com os sentimentos confusos e embaralhados, queria descobri-los, já que ignorá-los não parecia ser algo sensato de se fazer. Uma parte de si queria parar imediatamente e voltar a seguir sua vida normal sem aqueles cabelos loiros, outra, queria tê-la nos braços ouvindo seus clamores entre gemidos, tendo-a por completo. Confuso, porém, verdade mais uma vez. Ele seguiria a segunda opção, a que não faria com que se torturasse. E afinal, ele a desejava. E tê-la acalmaria todas essas dúvidas e torturas que rondavam sua mente. Era a única maneira que Natsu sabia resolver seus problemas hoje em dia.
Parou em um cruzamento aleatório por duvidar do caminho tomado pela loira. Olhou para os lados tentando adivinhar para onde poderia ter ido. Esquerda? Direita? Não sabia. Tomou fôlego e foi por qualquer direção, seguindo apenas sua sorte. Diminuiu sua velocidade, voltando apenas a andar. Respirava ofegante pela corrida antecedente. Respirou profundamente tentando se lembrar dos motivos que o estavam levando a fazer isso, os quais nem mesmo eram certos e nem verídicos o bastante para o rapaz. “Mas o que eu estou fazendo? Deveria estar em casa. Idiota.”, cogitou seriamente em voltar para seu lar.
Novamente, se encontrou fitando seus próprios sapatos, em um impasse um tanto que incômodo. Todo segundo parecia ser uma disputa interna. Graças à Heartfilia, aquela era mais uma confusão mental. Seria bom se decidisse logo, assim poderia finalmente fazer algo produtivo. Apenas não sabia ao certo o que escolher, só queria não sentir remorso mais. Dilemas e mais dilemas. Qual seria o certo a se fazer? Continuar amando Lisanna ou se aderir a uma nova paixão? Espere... E quem disse que Lucy seria seu mais novo interesse amoroso de verdade? Ele? Loke? Tantas perguntas para nenhuma resposta concreta ou plausível. Ajeitou o cachecol preso no pescoço, cortesia de seu falecido pai, Igneel. O dia de visitar seu túmulo estava chegando, e, novamente, iria sozinho, apenas com a companhia de Happy. Desde aquele incidente com Lisanna, não chamou mais ninguém para ir ver o local de descanso de seu tão amado pai. Ela ia porque era sua amiga. Sua melhor amiga. E Lucy, o que era?
A mente de jovens nunca foi uma coisa fácil.
Ouviu mais uma vez aqueles saltos altos já familiares, bem ao longe.
Seu cachecol passara a ser algo banal, concentrou-se apenas em detectar os sons quase inaudíveis dos sapatos. Estes eram lentos e pesados, ainda demonstrando perfeitamente o clima depressivo implantado pelo término do recente namoro da loira. Cada vez mais o barulho aumentava indicando a proximidade diminuindo entre os dois. Logo, estavam frente a frente novamente, mesmo que os olhos castanhos estivessem mirando o chão de pedra, podia-se ver claramente as bochechas rosadas e os olhos ainda levemente marejados. Ao deparar-se com sapatos à sua frente, a garota levantou seu olhar para o rapaz, sem emoção alguma como se estivesse falando novamente com um desconhecido.
— Com licença, por favor. — falou educadamente sem quaisquer entonações.
— Ei, loira, não fique assim. — tentou animá-la, mas, pelo contrário acabou se entristecendo ao vê-la assim. Ela soltou, em um tom mais determinado:
— Desculpe-me, mas pode me dar licença?
— Não. Pare de fingir. — cerrou os olhos percebendo que se Lucy continuasse a guardar-se deste jeito, algum dia iria acabar tomando a decisão do possível suicídio. Não era correto reprimir seus sentimentos, mesmo que o garoto estivesse fazendo isto neste exato momento. Mesmo que sempre fizesse isso.
Ela não entendeu.
— Vamos. Eu te levo para casa. — chegou mais próximo da garota e pegou em sua mão, talvez por algum reflexo não compreendido pelo mesmo. — Onde ela é?
— Por ali... — disse apontando sem animação para a direita sem entender muito da situação.
— Ótimo, vamos então. Logo deve escurecer e você não deve chegar tarde em casa.
E então sorriu. Não o sorriso sacana, ou fingido, ou charmoso. Um sorriso gentil, mais direcionado ao vento que a ela. Isso fez o a loira se surpreender. Ele tinha um sorriso tão bonito e acolhedor... Sentia vontade de abraçá-lo. Natsu começou a puxar com leves toques a mão dela, sendo impedido pela mesma que fungava novamente.
— Lucy?
Sentiu-se aquecer mais. Lucy. Ele disse Lucy.
— Obrigada... Natsu. — agradeceu enquanto tentava ao máximo segurar seus prantos.
Não entendia. Ele deveria ser o cara mal da história. Por que estava ajudando-a? Por que parecia se preocupar verdadeiramente com ela? Por que não estava feliz com sua desgraça, com a vingança aparentemente concluída?
— De nada. Vamos, está tarde. — beijou a testa da garota, que se sentia cada vem mais acolhida e menos pesada, e se pôs a andar. Continuaria, se outro imprevisto não tivesse chegado.
Loke respirava ofegante na frente de ambos, com um olhar de fúria direcionado ao rosado – um claro sinal de que entendia que ele era o causador dos problemas –, ao mesmo tempo tentando recuperar suas palavras para uma Lucy surpresa e com novas lágrimas escorrendo.
— Lucy... — retomava seu fôlego. — D-Desculpe-me por a-antes... Por favor... v-volte... comigo. — pediu, por fim.
O sangue de Dragneel ferveu, chegando a aumentar drasticamente a temperatura de seu corpo, não passando despercebido pela loira. Ela apertou sua mão. Contou 1. Contou 2. Contou 3. Nada de se acalmar. Apenas via o sorriso sacana estampado nos lábios do ruivo. Aquele sorriso não se adequava a alguém tão culpado quanto ele, não tinha o mínimo direito do perdão de sua ex–namorada. Ele estava mesmo sorrindo? Ou era produto de sua imaginação? Não sabia dizer. Independente disso, ele não tinha o direito de estar ali. Não tinha o direito daquilo depois de tocar em todo o corpo de Lisanna, daquela albina sem coração, da mulher que mais amou no mundo depois de sua mãe. Depois de fazer isso há poucos dias e julgá-la por ter sido alvo do desejo dele próprio. Contou 4. Contou 5. Contou 6.
Tarde demais.
Um grito agudo e assustado.
Os óculos do ruivo voavam enquanto a mão de Natsu acertava em cheio o rosto de Loke.
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