Blondie and Cotton Candy

7 Capítulo 6 — Você não está sozinho


Notas iniciais
Boa leitura.

Capítulo 6 — Você não está sozinho

Anteriormente:

Lucy olhou para a mulher e então sentiu seu sangue gelar. Lógico que a reconhecera pelas fotos. Aquela que os encarava era a mãe de seu namorado.

[...]

— Foi um prazer lhe conhecer, Sr. Bell. — Aproximou-se mais do mesmo, chegando a sussurrar no ouvido do rosado. — Ou seria melhor chamá-lo de Dragneel? – insinuou, fazendo com que o mesmo gelasse.

Então ela sabia. Mas como? Havia algo de errado naquela mulher.

[...]

Porque era verdade. Loke a amava. Observou minuciosamente cada detalhe que compunha a beleza indescritível de Lucy, nem podia sequer colocar em palavras o como era sortudo de tê-las em seus braços. Seus olhos chocolate tão doces. Sua boca rosada e levemente carnuda. Seu pesco– Aquilo era um chupão?

— Ei, Lucy, o que é isso? [...] Eu não quero... explicações, Lucy. [...] Acho melhor darmos... Um tempo.

[...]

— Ótimo, vamos então. Logo deve escurecer e você não deve chegar tarde em casa.

E então sorriu. Não o sorriso sacana, ou fingido, ou charmoso. Um sorriso gentil, mais direcionado ao vento que a ela. Isso fez o a loira se surpreender. Ele tinha um sorriso tão bonito e acolhedor... Sentia vontade de abraçá-lo. Natsu começou a puxar com leves toques a mão dela, sendo impedido pela mesma que fungava novamente.

Lucy?

Sentiu-se aquecer mais. Lucy. Ele disse Lucy.

— Obrigada... Natsu. — agradeceu enquanto tentava ao máximo segurar seus prantos.

Não entendia. Ele deveria ser o cara mal da história. Por que estava ajudando-a? Por que parecia se preocupar verdadeiramente com ela? Por que não estava feliz com sua desgraça, com a vingança aparentemente concluída?

[…]

— Lucy... — retomava seu fôlego. — D-Desculpe-me por a-antes... Por favor... v-volte... comigo. — pediu, por fim.

[…]

Os óculos do ruivo voavam enquanto a mão de Natsu acertava em cheio o rosto de Loke.

____x____

O grito morreu na boca de Heartfilia, entretanto o ambiente continuava impregnado com aquela energia.

Umas poucas pessoas que passavam pelo local pouco movimentado os observavam com surpresa. Loke pôs uma das mãos na maçã esquerda de seu rosto, sentindo a dor dominar parte do seu rosto. Sua face estava extremamente vermelha na parte atingida e seus olhos demonstravam tamanho ódio que Lucy se sentiu acuada.

Como ousa, Dragneel? - sibilou, raivoso, deixando de fitar Lucy por completo.

Como eu ouso? — Natsu rosnou. — Sou eu quem deve perguntar isso. Como ousa voltar e pedir pelo perdão da Lucy depois de tudo que fez? Você é sujo.

A garota sentiu o coração acelerar e se aquecer. O sentimento de proteção retornou. Ele a chamara pelo nome mais uma vez. Realmente era sério. E o que será que ele quis dizer com “tudo que fez”? Achava que a rixa entre os dois envolvia unicamente algo pessoal de ambos, principalmente do rosado. Contudo, da maneira que Dragneel falava agora, parecia que esse tudo envolvia a loira. E o que poderia ter a ver com os três de tempos mais antigos que o esbarrão do sorvete? Esforçava-se para lembrar, enquanto Loke tentava se aproximar, sempre com a barreira feita por Natsu.

Lembrou-se de que em duas situações ele disse a ela frases que faziam com que se questionasse por muito tempo o seu significado. E envolviam Loke e ela. Ainda lembrava-se de algumas... não, de todas as palavras. “Aquele seu namorado, Loke, ele não é quem você pensa que ele é” e “nunca confie em ninguém, loira. Especialmente nas pessoas mais próximas”. O que Loke teria feito? Pior, o que Loke teria feito com ela?

O que ele quis dizer com isso, Loke?

Eu já te disse que ele só irá te usar, Lucy, ele vai te agredir como fez com a Lisanna. Não acredite nele!

Do que está falando? Eu não estou em um relacionamento com o Dragneel, Loke! — Lucy exclamou. — Mas preciso saber do que ele está falando!

Loke parecia desesperado. Como não conseguia formular uma boa explicação, resolveu agredir o rapaz e calá-lo.

Eu vou te falar, loirinha. — Natsu gritou.

Natsu levantou os dois braços, em uma diagonal, defendendo-se do soco de Loke. Mesmo assim, doeu. O ruivo tentou um chute, do qual o outro se defendeu desferindo uma forte cotovelada na coxa de Regulus. O mesmo gritou e se afastou, gesto repetido pelo adversário. Loke não era ruim de briga. A diferença era que Natsu, após o sumiço de Igneel, passou alguns anos considerando a rua a sua casa. A rotina se resumia em ir a escola, ficar na rua e voltar para casa tarde. Ele sabia de briga suja.

Aproveitando o intervalo para respirar, Natsu abriu a boca, chegando até mesmo a pronunciar um “ele”, quando Loke se aproximou rapidamente e desferiu um chute no estômago de Dragneel, que perdeu o fôlego e foi levemente arrastado para trás.

Você vai calar essa sua boca de merda, Dragneel!

E quem vai me impedir de falar? Você?! Faça me rir, seu pedaço de bosta! — Dragneel respondeu, dando uma rasteira no rapaz.

Quando o ruivo perdeu o equilíbrio, apesar de não verdadeiramente cair, seu oponente socou a face do rapaz repetidas vezes, finalizando a queda. Já descontrolado, Natsu começou a chutar o rapaz, a fúria contida de todos os dois últimos anos sendo finalmente liberada com extrema violência. O garoto caído só fazia gritar e tentar se defender, o sangue que começara a escorrer de seu rosto ferido manchando as mãos do outro.

— NATSU, PARE! POR FAVOR, PARE!

— POR QUE ESTÁ DEFENDENDO ELE?!

— Você vai matá-lo desse jeito! — Lucy estava o mais encolhida possível, os olhos arregalados somados a respiração entrecortada mostrando o quão aterrorizada se encontrava. — As costelas–

— VOCÊ NÃO SABE O QUÃO MAL ELE JÁ TE FEZ! NÃO VOU DEIXAR ELE CONTINUAR FAZENDO ISSO COM VOCÊ! NÃO COM AQUELA TRAIDORA! — gritou ensandecido e olhou para a loira, se distraindo.

Aproveitando sua distração, Loke se levantou rapidamente – ou o mais rapidamente possível considerando seus ferimentos – e puxou a cabeça de Natsu, acertando-a com seu joelho. Vendo que o rapaz ficara desnorteado com o golpe, empurrou o corpo do rapaz em direção ao chão, mantendo a cabeça deste pressionada contra a superfície plana.

— Vai se calar agora?

— LOKE! — Lucy tentou mais uma vez, as mãos tremendo sobre a boca.

— NÃO SE META, LUCY! ESSES SÃO NOSSOS ASSUNTOS!

– Vai se foder. — Dragneel ordenou, dando cotoveladas mais fracas do que gostaria nas costelas de Loke, que tentava resistir à dor.

Natsu chutou a canela do rapaz, que se desequilibrou novamente. Aproveitou para dar uma cotovelada mais forte e precisa, que derrubou o ruivo. Levantou-se.

— Lucy, você confia em mim?

— O quê...?! M-mas é lógico que não! Você está machucando ele, seu idiota! Pare com isso, não há como eu confiar em você! — A loira sentia o corpo todo entorpecido pelo pavor. — Você é louco! Olhe como ele está! Pare... Pare!

A esse ponto, a rua estava deserta.

— Me escuta, loira! Eu te ajudei com a velha, não? Eu vim te ajudar. Por favor, confie em mim e escute o que vou te contar.

– CALE-SE! — O ruivo puxou Natsu e lhe deu uma cabeçada.

Duas pancadas na cabeça não eram lá a coisa mais saudável. Estava muito tonto. Sentiu um soco potente no estômago. Talvez estivesse ficando sem forças. Por que lutar?

— E-eu... conte-me! — Ouviu a voz de Heartfilia, aceitando sua ajuda.

Por que lutar? Para proteger alguém. Para dar essa chance que ele não recebeu.

Segurou o soco de Loke e apertou com força o punho masculino, iniciando uma torção. A face do rapaz denunciava sua dor.

— Há dois anos e meio atrás, Lisanna era minha melhor amiga, e isso vinha de longa data. — Natsu começou, segurando a outra mão de Loke e tentando resistir a força imposta. — Lembra dela?

— A irmã da Mirajane, certo?

— É. Ela trabalhava como prostituta. — soltou, com desgosto. — A família dela estava passando por uma situação ruim, sua mãe tinha morrido, o pai abusava dela e da Mira e, por isso, Mira não tinha amigos. Durante a noite ela saia para beber e esquecer a vida e o irmão delas morava com a tia, sem saber do que acontecia em casa. O pai era alcoólatra e não trabalhava. Então Lisanna mantinha a família com o dinheiro que ganhava vendendo o corpo. Eu–

Loke fez um movimento de torção para livrar seu braço, e logo em seguida usou a força que restava para tentar torcer o punho do rosado, que o chutou na barriga, fazendo o rapaz ir ao chão, muito dolorido para tentar resistir. O rosado mexeu-o para diminuir a dor, Loke usara força o bastante para machucá-lo.

— V-você está bem? — Não acreditava que tinha se preocupado com o homem que estava fazendo seu amado sofrer.

— Aham. Continuando... Eu conversei com minha tia e ela permitiu que Lisanna viesse morar conosco, mas ela se recusou a abandonar a família. Quando Mira parou de beber e começou a ajudar em casa, elas denunciaram o pai e começaram a ter uma vida que beirava ao normal. Lisanna me prometeu que pararia... mas parece que ela realmente gostava de ser usada. Gostava de ser uma prostituta e ter relações com vários homens. Eu sei que soa machista. Deve ser. Até porque hoje eu fico com qualquer garota. Eu não sei, eu só não esperava. Especialmente em uma situação como... Há dois anos, em um dia importante pra mim... um dia que sempre passávamos juntos... eu a encontrei com Loke. — Natsu olhou para baixo.

— O QUÊ? Mas nessa época nós já–

— Já namoravam? Imaginei. Eu parei de falar com a Lisanna, ela sabia que eu não aprovava isso, que eu a amava, que era um dia importante pra mim...! — Pôs uma mão na cabeça, exaltado.

— Natsu...

— Eu mudei. Eu deixei de ser como eu era por culpa deles. Quando fomos na boate eu tive que encontrá-los, infelizmente. E quando você saiu do banheiro eu ouvi gemidos.

— Você também? — perguntou, já percebendo o que ocorrera. — Não me diga que... Dragneel, eram eles dois lá?

— Sim. Eram eles. Eu cheguei a ouvir eles conversando.

— CALA A BOCA! — Loke gritou, sem forças. Passou o braço na boca, limpando o sangue que escorria. – ELE ESTÁ SE VITIMIZANDO! — E não estava? — É MENTIRA, LUCY! VAI ACREDITAR NO SEU NAMORADO OU NESSE INFELIZ?!

— Eu...

Lucy pôs as mãos na cabeça. No que deveria acreditar? Natsu não parecia estar mentindo, seu sofrimento parecia real, sua face atormentada. Sua estória coincidia com suas ações. Com alguns fatos. E Loke... quais argumentos tinha? Por que acreditar nele? Ah, porque o amava. Então, o que amava mesmo?

Balançou a cabeça, confusa. O sentimento que começara a desenvolver para com Natsu era confuso, uma mistura de ódio com extrema atração e certa simpatia. Algo assim não podia interferir em seus sentimentos em relação a Loke. Sentimentos esses que teria que deixar de lado por um instante para pensar com clareza. E uma única resposta piscava em sua mente.

Loke era culpado.

— Eu acredito em você... — ambos os rapazes olharam-na esperançosos, o lábio trêmulo pronunciando o nome. — Dragneel.

E o mundo de Loke foi abaixo. O ar se foi. Ele tentou falar algumas vezes, sem som algum.

— Você perdeu, Loke. Sua máscara caiu. Sofra como eu sofri.

Certo. — O garoto falou, finalmente, quase em um sussurro. — Eu respeito sua decisão, Lucy. Mas saiba que eu te amo.

O coração da loira acelerou absurdamente, as pupilas dilatando e as bochechas avermelhando-se. Finas lágrimas escorreram por sua face e um sorriso bobo surgiu em seus lábios. Ignorou tudo, ele finalmente dissera que a amava. Ela era correspondida! Queria abraçá-lo. Queria beijá-lo. Abriu a boca para falar, alegre, mas o garoto foi mais rápido.

— Pode ficar com o Dragneel. Sabe onde me encontrar. Até mais.

E então ele virou as costas e se foi, em seu anda arrastado, lento e trôpego de quem fora espancado. Heartfilia se precipitou para correr até o ex-namorado, mas sentiu seu punho ser agarrado. Virou-se, surpresa, e mirou o rosado, que a encarava com seriedade. Ele limitou-se a fazer não com a cabeça.

Lucy olhou para baixo, entristecida. Não podia se deixar levar por um impulso tão bobo. Ele tinha traído ela por anos. Por mais que finalmente tivesse se dado conta de que a amava – ou talvez isso também fosse uma mentira –, isso não apagava nada. E não queria estar em um relacionamento assim. Não estaria. E então seguiu seu caminho, com o rapaz ao seu lado. Ele disse que cuidaria dela, não? Então confiaria. Daria a ele essa chance.

Logo chegaram a um prédio simples e com uma fachada delicada. Subiram até o apartamento, espaçoso, limpo, feminino e organizado. Lucy se dirigiu a cozinha, com o objetivo de pegar uma água.

— Sinta-se em casa. — murmurou, arrancando um pequeno sorriso dele. Estava moída pelo dia desgastante.

— Sim, madame.

Natsu pôs-se a explorar o apartamento da jovem, cômodo por cômodo. Abriu um sorriso ao ver que a cama era de casal. O seu plano inicial tornou a se instalar em sua mente. Aproveitaria bastante. Voltou à sala, fitando a loira com certa curiosidade.

— Loirinha, por que você mora sozinha?

— Quando eu terminei a escola há alguns meses, meu pai disse que poderia se livrar do fardo e me deu um apartamento. Quando eu começar minha faculdade aproveitarei mais, por enquanto ter esse apartamento é chato.

— Chato? Você é estranha. - pela expressão de Lucy, ela não tinha ouvido direito. E queria saber o que fora. — Entendo. Venha cá. — puxou-a até o quarto e sentou na cama dela, fazendo-a sentar-se ao seu lado.

— O que foi?

— Você quer me dizer como se sente com tudo isso? — Ela deu uma risada falsa.

— Como eu me sinto? Por favor, algodão doce, eu terminei com meu namorado e pela primeira vez em anos ele disse que me amava. Pior, eu acredito em você, então não posso ignorar tudo e apenas me jogar nele. Você fez tudo aquilo para se vingar do Loke e isso me irritou, mas abriu meus olhos. Ele continua me traindo com a Lisanna e eu apenas iria sofrer. Então... acho que lhe devo um obrigada.

— De nada, Heartfilia.

— Por que você está aqui mesmo?

— Que eu saiba eu vim te trazer em casa. — Mais um sorrisinho desanimado.

— Já trouxe. Por que você está aqui?

— Para lhe confortar. Eu fiquei preocupado. — admitiu, sem encará-la. — Vamos fazer aquela coisa gay de assistir filmes, comer chocolate e rir e desabafar? — brincou.

— É até uma boa ideia, mas não estou muito a fim. Alguma outra sugestão?

— Tenho uma ótima. — sorriu malicioso.

Fez um carinho na bochecha da garota e beijou sua testa, se segurando ao máximo. Sussurrou em seu ouvido:

— Aquele cara não te merecia. Não fique triste.

Dragneel...

Como não se lembrar do cinema com esse sussurro? Merda, já estava ficando duro.

Natsu beijou o canto de sua boca e tocou de leve o seu pescoço, sobre a marca do chupão, arrepiando-a e fazendo com que sentisse a área sensível e um pouco dolorida. Empurrou-a sobre a cama e deitou sobre ela, beijando todo seu rosto. Lucy segurou o rosto do rapaz com ambas as mãos, acariciando-o, e quando ele avançou para beijá-la, ela encostou suas testas, mantendo suas bocas distantes.

— O que pensa que está fazendo?

— Eh? — O rapaz ficou confuso, achava surpreso com o fracasso.

— O conforto que pretendia me proporcionar era na cama? Faça-me o favor, acabei de terminar um relacionamento. Não quero nada com um pedobear estúpido. Você acha que eu sou idiota, Dragneel? No final, você realmente só pensa em sexo. Eis aqui um aviso: Você não vai conseguir nada comigo. É bem vindo em minha casa para ver filmes e fazer o programinha gay como havia proposto. Mas para isso, não.

— Certo. — bufou, antes de sorrir com escárnio. — E esqueça isso de não conseguir nada, pois se minha memória não falha, eu deixei um chupão no seu lindo pescocinho e arranquei vários gemidos de você, hoje. — O rosto dela ficou vermelho.

— O único que gemerá será você, seu algodão-doce estúpido, e será de dor!

— Certo... loirinha.

Aquelas provocações infantis faziam-na esquecer um pouco o sofrimento anterior. Talvez, apenas talvez, eles teriam algo próximo de uma amizade. Se isso acontecesse, eles seriam os amigos mais estranhos do mundo.


[x]

Loke retirou os sapatos ao entrar em casa, como de costume. A expressão abatida em sua face era de dar pena. Ele tomou um copo d’água e se dirigiu para a sala. Ao ouvir o som de dedos arrastados em páginas de jornal, lembrou-se de que, infelizmente, não estava sozinho. Era tão estranho ter os pais em sua casa depois de tanto tempo.

— Cheguei. — avisou.

E ao olhar para o sofá atentamente, pôde ver longos fios ruivos sobre o encosto.

— Olá, filho.

Aquela arrogância presente na voz feminina... Loke fechou sua expressão, se antes era melancólica, agora estava furiosa.

— Oi, mãe. — resmungou, com certa raiva.

Não estava com paciência para aquela mulher agora, justo agora. Não que a odiasse. Violette foi a pessoa mais importante da sua vida até seus quatorze anos. E então, o carinho em demasia que sentia por ela até a conclusão do Ensino Fundamental se transformou em receio, temor e raiva. Sua mãe tinha uma presença forte e agia estranhamente desde aquela época. Parecia que fazia de tudo para afastá-lo e isso doeu muito em uma fase de sua vida. Tinha superado, cresceu, então por que ela continuava tendo tanto efeito nele?

— Oh, por céus, você está ferido?! — A surpresa atingiu Violette e seu rosto abandonou a inexpressividade imediatamente.

Loke sentiu o peito se aquecer. Às vezes nem ao menos conseguia perceber o quanto sentia falta daquele tom gentil. E era tanto que não se podia mensurar.

— Não é nada.

Porém a feição se contorceu e ele se traiu, quando sentiu uma fisgada. Talvez precisasse ir ao hospital.

— Loke!

Ignorou o afeto e respondeu de forma rude e fria, despejando nela toda a dor, frustração e raiva:

— Não é nada! Me meti em uma briga que não pude ganhar. Nada que te interesse. — Um sorriso carregado de ironia e desgosto se delineou nos lábios finos da mulher.

— Ora, ora. Suponho que tenha sido com Natsu Dragneel. — fez uma feição pensativa e todo o traço de carinho desaparecera. — Ou seria Agnes Bell?

— O quê?! Aquele maldito... ela realmente se encontrou com ele?! Trocou sair conosco para ficar com aquele cara?! Por isso aquele chupão...!

— Um chupão? Quando os encontrei pareciam bem íntimos, como se fossem muito amigos ou muito apaixo–

— Você os viu? — O ruivo controlou seu tom, pois estava prestes a explodir com a mãe. Isso fez ela levantar a cabeça, maldosa:

— Você perdeu a garota, criança.

— Deveria ser você a perder. Queria que meu pai se separasse de você, Violette! Não sei como um homem como ele te aguentou por todos esses anos! ...Va te faire encule, bougre. – sussurrou e sua mãe arfou. “Vá se foder, miserável”, ele dissera.

— Como ousa?!

— Saia da minha casa. — seguiu para seu quarto. A mão já na maçaneta, quando viu, pelo canto do olho, o corpo da mulher tremendo.

— Loke! — gritou, duas lágrimas escorrendo. Ele bateu a porta com força, produzindo um estrondo.

Cloud se aproximou da mulher, após ter ouvido apenas a porta bater. Pôde perceber que a esposa passou o punho pela face, possivelmente secando lágrimas e um suspiro quase resignado escapou. Pôs um sorriso leve no rosto e se aproximou, a mão acariciando o ombro nu da esposa.

— Querida, o que houve?

— Rebeldia adolescente, imagino. — sorriu para ele, os olhos úmidos.

— Loke não é mais uma criança, meu amor. Ele já passou dessa fase, seus vinte anos deviam ter alguma utilidade para sua mente, não acha?

— Não é nada, querido. — sorriu docemente, graças ao bom humor do marido, e trocaram um beijo.

Violette sabia mais do que Loke... e precisava fazer algo quanto a isso. Mesmo que seu filho a odiasse.

— Ande, desanuvie essa cabeça. – Cloud disse, em meio a beijos molhados no pescoço da ruiva.

— Oh, por favor.

E gemeu sutilmente quando Regulus apertou sua nádega esquerda com amor e possessividade.


[x]

— Lu? Você pode, pelamor, me explicar de uma vez como você foi terminar sua noite dormindo nos braços do cara mais... — Levy se interrompeu, as bochechas ganhando cor — dele e ainda por cima cheia de chocolate?!

— Eu já disse que nada aconteceu, Ley. — Lucy respondeu em um muxoxo, o sangue concentrado nas maçãs quentes.

— Eu duvido!

A baixinha olhou para Natsu pelos cantos dos olhos e pôde perceber que ele segurava o riso pelo interrogatório, um ar de malícia em cada detalhe de sua expressão. Virou-se, então, inteiramente para ele.

— Dragneel, me diga a verdade, sim? O que aconteceu ontem à noite?

— Eu confortei a loirinha, ué. — respondeu com um dar de ombros e sorriu malicioso. — De um jeito bem divertido.

— A-HÁ!!!

Levy apontou para Lucy de maneira teatral, acusatória.

— Seu algodão doce estúpido! N-não houve NADA, na-da entre nós, pare de mentir para a minha melhor amiga. — Levy estreitou os olhos.

— Como não houve nada? E esse chupão gigante no seu pescoço, sua grande mentirosa? Não duvide de minhas habilidades, Lucy. Eu sei que vocês têm algo.

— Você sabe muito bem sobre o chupão, eu já te disse! E não é ter... é algo chamado atração física! Não posso negar que ele é um dos caras mais atraentes que já vi e que ele tem uma pegada divina, eu já disse isso tudo! Mas eu não sinto nada por ele, no sentido romântico, eu–

Caham.

A loira encarou o rapaz furiosa com a interrupção, até se dar conta do que falara.

Por um segundo esquecera que Natsu estava ali. Um breve segundo, onde revelara que, sim, gostara e muito de ficar com ele. McGarden deu uma risada escandalosa, quebrando o contato visual dos dois e fazendo a face de Heartfilia tingir-se se vermelho novamente.

— E-eu quis dizer que... Err... eu não... ARGH! Dragneel, saia da minha casa!

— 'Tá legal aqui. — O rosado riu.

Como aquela situação constrangera havia começado mesmo? Ah, sim, Levy entrara usando a cópia que possuía da chave do apartamento de Lucy e os pegara na cama, dormindo abraçados. Realmente, não devia ter dado aquela chave para a amiga, Levy podia ser um pé no saco às vezes.

— Estou me arrependo amargamente. — choramingou. A mais baixa arqueou uma das sobrancelhas, a sombra de um riso cobrindo os lábios.

— De quê?

— De tudo! Ter te dado a chave, ter saído com Dragneel, tê-lo deixado vir para cá! Foi estupidez! — A jovem de cabelos azuis olhou-a irritada, sem perceber as lágrimas se formando.

— Não fale essas coisas idiotas.

— M-mas eu não teria terminado com o Loke!

Silêncio.

Dessa vez foi Dragneel quem encarou-a furiosamente. Aproximou-se a passos largos e acelerados, ficando face-a-face com a loira, que estremeceu com o contato e olhou para o alto por um instante para não deixar as lágrimas caírem.

— Olhe para mim. – Natsu ordenou, ao que ela obedeceu prontamente, a expressão marcada pela mágoa. — Você se arrepende, Heartfilia? De verdade, se arrepende de ter terminado com o cara que estava te traindo?!

Levy arregalou os olhos, buscando as orbes castanhas da amiga com toda a verdade contida nelas. E encontrou-as desesperadas, aterrorizadas, magoadas, traídas. E ela falhara em perceber isso antes. Como?

— Lu... isso é verdade? Você terminou com o Loke? Ele estava... te traindo?

Lucy engoliu em seco algumas vezes, tentando impedir-se de chorar. Natsu suspirou, fechando os olhos, e bagunçou os fios loiros da garota, que deixou uma gota escorrer, surpresa com o súbito carinho.

— S-sim. Há anos...

— Foi você quem contou isso a ela, Dragneel?

— Sim. — O rapaz disse firme, encarando a pequena.

A expressão de Levy era indescritível, até que um sorriso miúdo escapou de seus lábios, junto com um suspiro exaurido. Todos os seus músculos relaxaram e ela pareceu sentir um profundo alívio.

— Obrigada. — agradeceu, sincera. — Você salvou a Lucy de sofrer mais. Sou muito grata por isso. Ela merece todo o carinho e proteção.

— Concordo com você... Ley?

— Levy. — corrigiu, ainda com a face leve. — Lu, não se esqueça de que eu sempre estarei aqui por você, certo? Sempre. — A jovem segurou as mãos de Lucy, com um sorriso. Lucy deixou mais algumas lágrimas escorrerem.

— Sim, obrigada, Levy. Digo o mesmo.

— Você nunca tem que me agradecer por isso, Lucy, eu faço isso porque te amo. – Abraçaram-se, carinhosa e longamente, um abraço morno e confortável.

— Eu te amo muito.

Natsu apenas desviou o olhar. Aquela amizade delas era tão doce... Fazia com que pensasse no passado, quando suas amizades eram firmes dessa maneira, quando podiam contar uns com os outros para tudo. Lembrava de sua amizade com Lisanna, a melhor que tivera, a mais querida, a mais amada, a ainda mais íntima que a das duas a sua frente. Antes dela acabar. Eram lembranças estúpidas, não as queria. Eram infantis como já fora, como não podia se dar o luxo de ser. Amor... não era algo que deveria acontecer agora.

— Que melosidade insuportável. – disse, aparentemente enojado. A loira lançou um olhar de indignação.

— Ora, seu–

— Não tenho mais o que fazer aqui, acho que vou embora antes que eu vomite. — Natsu abaixou a cabeça ao dar as costas para as meninas.

Esse gesto fez Lucy olhá-lo, preocupada. Diferentes das reações que o rosado geralmente esboçava, essa era totalmente legível. Ele estava se isolando por tristeza. Pôs a mão em seu ombro, surpreendendo o rapaz. Ele permaneceu de costas, ainda assim.

— Dragneel, você está bem? Os... os seus amigos, onde eles estão? Onde eles estão para você?

— Cala a boca. Que pergunta estúpida é essa? — perguntou, estremecendo.

— Você me disse ontem que mudou por culpa daqueles dois. Deixou de ser quem era. Isso inclui se afastar de seus amigos?

— Isso não é lógico? Quanto menor a ligação emocional com as pessoas, melhor. Não posso sair abraçando meus amiguinhos e falando “eu te amo” como vocês. — A expressão de desprezo quase atingiu Heartfilia com a mesma intensidade que o olhar enegrecido e melancólico. Uma explosão ocorreu dentro dela:

— Natsu!

E seu súbito ato de carinho assustou o rapaz: ela o abraçou bem forte. Suas mãos estavam sobre o peito do rapaz, de forma que ela sentia os batimentos acelerados dele. Natsu também sentia o movimento descoordenado do coração da jovem, pois o contato de suas costas e do peito dela era grande.

Coração sobre coração – apenas próximos, pela diferença de altura, mas importava? Com um simples gesto, mãos sobre mãos. Levy encarava a cena abobalhada, há tempos não via a amiga assim, motivada por bons sentimentos. Sorriu levemente, talvez fosse um novo começo para a garota. Retirou-se da sala e ficou na varanda, deixando que ambos tivessem um momento de paz. Podia ouvi-los, e ao mesmo tempo ficar refletindo.

Lucy sentia um forte desejo de mostrar a ele que as coisas não precisavam ser dessa maneira. E que ele não precisava ficar solitário. O porquê não saberia dizer, talvez nem quisesse saber, mas sentia essa necessidade. E a única coisa que Natsu queria... era o reconforto de alguém que pudesse mostrar isso a ele. Um gesto singelo; um abraço. Não que ele soubesse, mas percebera isso quando todos os seus problemas pareceram se esvaecer com aquele contato, com o acalento. Lucy passava uma única mensagem com aquilo.

Você não está sozinho, Natsu.

E permaneceram assim.

[x]

Lisanna estava sentada no sofá velho, um livro grosso em mãos. Percebeu que estava lendo o mesmo parágrafo pela terceira vez e um longo suspiro se fez ouvido. Estava aérea desde o último encontro com Natsu. Ah, Natsu... Leu, por fim, e seguiu para o parágrafo seguinte. Estava compenetrada na leitura, até que se sobressaltou com uma mão em seu ombro. Soltou uma exclamação.

— Justo quando eu lia um mistério. — sussurrou, assustada.

— Lisanna? Te assustei?

— Não. Um pouco. — confessou, envergonhada, mas logo abriu um sorriso doce. — Diga, Mira.

— Loke está no telefone. — Mirajane sorriu de volta.

— Loke? O que será que ele quer?

A Strauss mais jovem se levantou e caminhou até a mesa de telefone, logo pegando o aparelho e pondo-o na orelha. Foi com ele até o quarto e sua irmã saiu de perto, para que se sentisse à vontade. Logo, a albina falou:

— Loke? Oi.

— Lisanna, eu perdi a Lucy. — A voz era magoada e carregada de dor, o que surpreendeu a jovem.

Gostava muito do ruivo, e gostaria de ajudar. Por mais que só tivesse visto Lucy por duas vezes, parecia uma boa garota.

— Como assim, você perdeu sua namorada?

— Eu a perdi... para o Dragneel.

E aquilo sim foi um baque para Lisanna. Seu Natsu estava se apaixonando novamente? Ou talvez só estivesse brincando com a loira? Mas por quê? Ele era assim agora? Ele tirou uma garota de seu namorado? Por quê?! Ela precisava descobrir o que estava acontecendo entre os dois o quanto antes e como isso afetava a todos que conhecia. E Loke iria ajudá-la.

Notas finais
Reviews?