Blondie and Cotton Candy
16 Capítulo 15 — Impotência e amargor
Notas iniciais

Capítulo 15 — Impotência e amargor
Anteriormente:
— Se você não vier por bem, vou te achar na casa do teu namoradinho. [...] Eu vou achar a casa dele, sabe disso, não é? Facilmente. Me empenharei de verdade nisso. E vou descobrir tudo sobre esse rapaz. Até mais, filhinha.
[...]
— Eu te amava! Eu te amava tanto... E você beijou outro ao invés de me ajudar. — cuspiu aquela sentença, fazendo o fluxo das lágrimas da garota aumentar.
— A gente não tinha nada, Natsu! Eu te amava muito, também. Eu tinha medo de me envolver, também. Você está sendo egoísta em não pensar no meu lado! Eu tinha uma vida de merda. Não sabia lidar com esse tipo de sentimento. Eu tinha medo de te machucar, porque você também não estava na melhor das situações. Por isso eu não me comprometi com você. Não te beijei, para nenhum de nós ter esperança. Eu. Não. Te. Traí. [...] É isso que eu sou? Um problema? Você não olha para essa casa e pensa em bons momentos comigo? Essa casa era a nossa alegria, não era?
— Não mais. Eu finalmente estava superando você, porra, por que você apareceu?
— Me superando? ‘Tá falando da Heartfilia? Você simplesmente vai me trocar assim?[...] Então o problema agora é ela, não é? Se ela se afastar, você vai me deixar entrar na sua vida de novo... Sim, você vai.
— Nem pense nisso, Strauss. — Natsu apertou o braço da garota. — Eu não quero você perto da Lucy.
— Eu posso dizer o mesmo. Eu te amo, Natsu. E não vou te deixar escapar de novo.
[...]
— Natsu? Chegamos, venha conhecer a Wendy!
O rapaz tratou de jogar as fotos no armário antes de se aproximar, um sorriso gentil no rosto. Acariciou os fios castanhos e azulados na garota baixa, antes de estender uma das mãos para ela.
— Oi. Wendy, né? É um prazer. Vai ser divertido tê-la aqui.
— É um prazer. — A garota respondeu, timidamente.
[...]
Ninguém percebeu a seriedade de Lucy. É bem verdade que se não fosse por isso, não teria notado. Natsu sabia disfarçar e muito bem. Mas conhecia olhos inchados de choro melhor do que ninguém.
Algo havia acontecido ali.
____x____
“A dor que não fala, geme no coração até que o parte.”
Sensível como era, Lucy demorou a pregar o olho, pensando em Natsu. Era bem verdade que passara um bom tempo conversando com Wendy, também, até tarde. As duas dormiram na cama de Natsu, que levou a rede do quarto para a sala. Enquanto ele dormiria lá, Sting ficou com a rede do escritório.
O relógio indicou que se passavam das 3h da madrugada. Lucy revirou-se na cama pela enésima vez, já sem saber quantas vezes já fizera isso na última hora. Sentou-se, bufando. Foi até a cozinha, silenciosamente, enquanto o estômago urrava com ela por passar tantas horas sem alimento.
Agarrou uma maçã e se dirigiu ao escritório, esperando encontrar seu laptop e talvez escrever ou entrar em bate-papos. Passou pela porta aberta. Apenas as pontas dos pés tocavam o chão e achou estar sendo bem sucedida, até que quando segurou o laptop e, com isso, fez um leve barulho, uma luz de celular foi apontada em sua direção, vinda do canto do quarto.
Sting estava fumando, sentado no chão, um olhar cansado e astuto em sua direção. Felino, pensou ela. Natsu havia chamado ele de tigre luz por telefone, não? O apelido pareceu fazer sentido.
— Ei. — Ele cumprimentou, sem, contudo, largar o cigarro, a fumaça ao seu lado parcamente iluminada.
— Ei... Não conseguiu dormir?
— Não é como se fosse algo que eu faça com frequência.
Sting sorriu, tragando novamente. Lucy particularmente não gostava muito de cigarros, embora devesse admitir que aquele fumo doce lhe atraíra. E, disse para si, apenas por isso resolveu sentar ao lado dele ao invés de usar o laptop. Depositou esse na escrivaninha novamente e mordeu sua maçã.
— E você, loirinha? Perdeu o sono?
— Pelo visto... — suspirou. — Talvez seja ansiedade. As aulas logo vão começar, afinal.
— É provável.
Um silêncio confortável se estabeleceu e a garota acabou por cantarolar, já perdida em pensamentos. O loiro fechou os olhos para ouvi-la e não pôde impedir que sua mão acariciasse a bochecha dela, levado pelo momento doce.
Doce? Heartfilia recuou, se sentindo levemente invadida, uma sensação desagradável se apossando de si. Eucliffe limpou a garganta.
— Foi mal, loirin–
— Por que você me chama assim? Você também é loiro, ora! — Ele riu um riso rouco.
E graças ao olhar sem foco, não percebeu a garota se arrepiar com a sonoridade.
— Porque é divertido.
— Hunf. Loirinho. — revidou.
— Não adianta. Tente outra coisa.
A loira buscou em sua mente algo para “atacá-lo”. Sorriu vitoriosa quando sua memória a presenteou com uma lembrança, ainda que não entendesse o significado por trás daquele apelido.
— Abelha.
Sting riu novamente, apagando seu cigarro assim que a menina tossiu baixo, sem querer incomodar o rapaz.
— Boa. Embora eu duvide que você tenha entendido, pela reação no outro dia.
— Hmm...
— Eu disse! — acusou, ainda sorrindo. — É bem óbvio, loirinha, você consegue.
— Vai a merda! Eu só sei que é o nome do vocalista do The Police.
— Eu sou um ferrão¹, certo? O primo costumava me chamar de Sting-bee. — Ele explicou, a garota esfregando a testa, como dizendo que aquilo era estúpido.
O loiro quase sorriu. Quase. Um suspiro escapou de seus lábios quando viu Happy passar em frente a porta, o que não passou despercebido para Lucy, que era inevitavelmente atenta ao bem estar – ou a falta deste – alheio.
— O que foi?
— Eu sinto falta do Lector. — Ainda que ela tivesse feito a conexão rapidamente, Sting fez questão de explicar. — Meu gato.
— Você deixou ele sozinho em casa ou mora com seus pais?
O homem fez uma careta rápida.
— Eu moro com meu melhor amigo. Ele está cuidando dos gatos.
— Ah, você tem mais de um?
— Não. O Frosh é dele. — esclareceu para a jovem.
— Gatos são legais.
O comentário foi sincero. Não eram nem de longe os animais favoritos de Heartfilia, contudo tinha um carinho grande pelos pequenos felinos. E então surgiu aquela surpreendente resposta:
— Estou passando a achar que gatas também.
A cantada era uma brincadeira, mas não impediu Lucy de quase engasgar com a maça. A garota arregalou os olhos e se levantou, emburrada.
— Deixa de ser babaca.
— Uuh, ela é difícil. — Sting ainda tirou com a cara dela, vendo a mesma sair do quarto batendo os pés. — Eu gosto disso. — E isso apenas ele pôde ouvir.
A escuridão tomou o quarto e, após um novo e longo suspiro, a boca masculina tomou um novo cigarro entre os lábios.
[x]
Eram 5h da manhã. Lisanna não conseguia tirar as mãos dos lábios, passando em seu laptop diversas fotos que tinha ao lado de Dragneel.
Resolveu tomar um banho, buscando se livrar da memória tanto agradável quanto dolorosa de seus lábios encontrando-se com a pele de Natsu. O sonho de uma infância cuja inocência rapidamente foi tomada chegou mais perto durante os ínfimos instantes em que aquele beijo durou. Um mísero roçar de lábios em uma bochecha, que nada deveria significar e que teria sido ainda mais doloroso se não houvesse um porém.
Natsu Dragneel quase virou o rosto em direção dela. As mãos se aproximaram de sua cintura apenas, e também longamente, por um milésimo de segundo. Os batimentos estavam tão acelerados e intensos que ela jurava ter sido capaz de ouvi-los. E naqueles olhos assustados, que não sustentavam o olhar firme e rígido ao qual ela havia se acostumado, ela pôde ver os sentimentos que ele guardava a sete chaves e que significavam que ele ainda sentia algo por ela.
Natsu ainda amava Strauss.
Talvez não incondicionalmente. Talvez não intensa e cegamente. Talvez não de forma ainda pura. Entretanto... amava; Amava e isso bastava para uma alma que sangrava há muito, sem descanso.
Porque isso significava que Lisanna Strauss ainda tinha chances de ficar com a pessoa amada, a pessoa que acreditava estar destinada a ela por toda uma vida.
Abriu a porta e desejou não tê-lo feito. Uma Mirajane completamente despida era brutalmente prensada contra a parede, suspensa do chão por mãos rudes e pelo contato com algo – graças a tudo que era bom – que permanecia coberto com uma toalha, não que fizesse muita diferença. A pele branca estava marcada em um, dois, três... nove pontos! E ninguém menos que o neto de seu querido protetor – e de todos os estudantes do colégio Fairy Tail, principalmente de Natsu, que o amava tal qual a um avô – e diretor, Makarov Dreyar.
Laxus, o homem por qual Mirajane era apaixonada há muito. E que nunca parecera corresponder a seus sentimentos muito bem ocultos. Pelo visto até agora, pensou a albina três anos mais jovem.
Um gritinho envergonhado saiu da boca de Mira, que trocara a expressão de luxúria e satisfação, até então pouco vista pela irmã, por uma completamente envergonhada. Mais precisamente, a de uma criança que havia feito besteira.
— Lis...!
— Sai daqui, garota.
Apesar de um pensamento tomar sua mente de forma quase venenosa, a jovem Strauss ainda conseguiu dizer, com um sorriso malicioso:
— Eu não iria querer mesmo ver o Demônio Mirajane te dominando, queridinho.
E saiu, rindo da expressão da irmã, que se dividia em mais vergonha e em pura malícia.
O fato é que tinha uma ideia fixa, e ideias fixas sempre são perigosas. Iria para a casa do único ruivo que lhe importava, acordá-lo e reproduzir o que Mira acabara de fazer, porém de maneira ainda mais feroz e necessitada. Precisava de um banho, afinal. Só iria torná-lo mais divertido e mais eficaz contra aquele pensamento, que logo passaria a ser uma vitória comemorada pelo casal de amantes. Só esperava que ele também tivesse boas notícias do possível avanço dele.
[x]
Lucy abriu os olhos muito mais cedo do que gostaria.
Ao seu lado, estava uma Wendy profundamente adormecida. Sorriu, um pouco por inveja, um pouco pela tranquilidade apresentada pela garota que passaria a ser quase sua irmã. Acariciou suavemente o topo da cabeça da jovem e levantou.
Uma ideia surgiu e acalentou a loira, que delicadamente se aproximou da rede, esperando poder dormir na rede com o melhor amigo. Tinha certeza absoluta que deitada em seu peito conseguiria calma o bastante para se permitir dormir rapidamente. E exatamente por isso, a decepção era clara em seu rosto.
Natsu não estava ali. Sentiu-se sozinha e pensou em pegar o laptop. Sting trancara a porta. Maldito Eucliffe. Ela resolveu, por fim, deitar na rede. E talvez conseguisse dormir tranquila, se não tivesse sentido o pano molhado na parte que tocava sua bochecha. À certeza, não se sabe vinda de onde, de que as causadoras daquilo eram lágrimas, o coração apertou, intranquilo.
[x]
Natsu não removeu os dedos de cima do desenho da salamandra. Nem mesmo para virar a metade que sobrara da Smirnoff Red mini. Nem mesmo para jogá-la no chão. Nem mesmo para secar as lágrimas que ameaçavam tomar sua face.
— Eu estou tão perto... Mas agora, justo agora, eu não quero morrer. Se ele me pegar, tudo vai acabar. Mas eu preciso proteger a Lucy, pai. Eu preciso. Assim como preciso continuar a missão de vocês. Vocês me perdoam por ser fraco? Eu achei que depois dela eu iria conseguir seguir com meus objetivos da forma mais clara possível. E agora não cheguei a um resultado concreto. A doutora ajuda, sabe? O tio Atlas também. Mas eu preciso me esforçar mais. Essas férias enormes precisavam ter sido melhor aproveitadas... As aulas vão voltar amanhã.
O coveiro acenou para ele, ainda que de cara amarrada por ver a garrafa de vodka no chão. O rosado fez um sinal e voltou o olhar para o túmulo, novamente.
— Eu sou um idiota, não é? Devo estar levemente bêbado, não é possível. — riu um riso amargo e sem vontade. — Falar com túmulos, onde já se viu... Tinha parado de fazer isso quando garoto. Olha... Eu vou vingar vocês. Ou no mínimo cumprir a minha parte. Mas vou pedir paciência, falou? E se pudessem... se puderem... — sentia-se estúpido por pensar em falar o que falaria. — Me ajudem, por favor.
Uma ventania seca passou, trazendo consigo uma folha já amarelada. O outono chegava. Ah, outono...
“Eu amo vocês”.
E após proferir essas palavras, a mão se separou da pedra, o coração apertou e as lágrimas não foram mais impedidas, enquanto o homem saia a passos lentos do cemitério, sem nem ao menos imaginar o que acontecia no mundo a suas costas.
E caso o que acontecia seja de interesse, e verdadeiramente o é, havia lá uma criatura estranha e sombria, a uma distância considerável de Natsu. Essa criatura... esse homem, porque o era, observava o herdeiro Dragneel, um sorriso asqueroso e indicador de mau presságio tomando parte da expressão.
O homem se chamava Jose Porla. Jose, então, se pôs a andar, seguindo o mesmo caminho que o alvo de seu interesse, este distraído e mexido demais para se dar conta de que era seguido a uma boa distância.
Naquele instante, mais folhas amareladas caíram. Algumas delas sobre a lápide de Rose e, definitivamente, o momento foi poético. E triste. Muito triste.
O pedido de Natsu Dragneel não renderia frutos e nenhuma ajuda chegaria.
[x]
Gotas geladas pingaram em sua face, fazendo Lucy acordar.
— O que...? — Ela abriu os olhos lentamente, incomodada com os arrepios que percorreram sua coluna após o breve choque de temperaturas entre seu corpo e a água.
Sting sorria de forma quase irônica, divertindo-se com o que fazia. Isso fez com que a loira bufasse, a expressão fechada.
— Qual é, eu finalmente tinha conseguido dormir de novo...
— Ô perdida, já tem umas duas horas que eu levantei e te vi completamente apagada, não vem com essa. — Eucliffe resmungou.
Lucy arregalou os olhos. Eu dormir tanto assim?, se questionava. O loiro a afastou um pouco para o lado e sentou ao lado da garota na rede.
— Me pergunto o porquê de você estar deitada na “cama” do Natsu... Queria sentir o cheiro dele, é?
— Cala a boca, Sting. — A jovem corou.
— Você ficou vermelha... Sabe que ele vai sentir o seu quando deitar, né? Ele vai desconfiar de que você está caidinha por ele. — As palavras foram pronunciada lentamente.
Ele deleitava-se com as reações e expressões dela. Lucy suspirou, tentando controlar o timbre.
— Eu não estou caidinha pelo Natsu, Sting. Por favor, é o Natsu.
O loiro gostou de ouvir isso. Muito. O sorriso não escondeu a satisfação, de forma que o coração de Lucy bateu mais acelerado. Ela se levantou, buscando fugir um pouco da situação, e foi para a cozinha. Fez uma vitamina de banana e voltou a se sentar na rede, onde o loiro descansava, pensativo.
— Tudo bem aí?
— Sim. — Ele se limitou a responder.
— Você não acha estranho o Natsu ter saído tão cedo? — Ela não conseguiu se impedir de perguntar.
A expressão do homem não se alterou, de forma que Lucy sentiu a intranquilidade diminuir. Ele sorriu, sabendo que aquilo deixaria a garota ainda mais calma, por mais que ele mesmo não soubesse onde o primo estava. Esperava que fosse resolvendo coisas importantes.
— Não acho, não. Ele tem impulsos estranhos e não se controla, às vezes. Você já deve ter percebido. Se ele tem vontade de fazer alguma coisa, vai lá e faz.
— É verdade. Não tinha pensado nisso.
— Falando no diabo...
A porta de entrada se fechou e por ela apareceu um Natsu levemente abatido. Ao ver que haviam pessoas na sala, porém, sua postura mudou e nada parecia ter acontecido. Vendo o amigo bem, Lucy finalmente relaxou, sem perceber as olheiras que ainda – ou seria “agora”? – marcavam seus olhos.
— E aí?
— Onde você estava, seu chato? Eu tive insônia e você não estava aqui. — Ela reclamou.
— Oh, que meiga, ela queria dormir com o amiguinho. — Dragneel zombou, logo em seguida sorrindo para a amiga, que deu a língua para ele, arrancando um riso baixo do rapaz.
— Não se preocupe, eu estava aqui para cuidar dela.
A provocação foi recebida e Natsu engoliu em seco. Sting era perigoso para mulheres. Ao mesmo tempo, sabia que ele e a amiga fariam um bom casal, confiava o bastante no rapaz para não ferir a garota. Só não na profissão deste. Revirou os olhos, mantendo a aparência juvenil.
— ‘Tá certo, contanto que isso não signifique que você estava cuidando da intimidade da minha melhor amiga.
— Natsu!
— Eu sei bem o interesse desse loiro aguado, que foi? — Sting deu o dedo do meio para ele, que riu, ácido. — Viu?! E da próxima vez, eu só quero que não seja no lugar onde eu estiver dormindo e que vocês usem camisinha.
Uma almofada acertou o rosto do rapaz, a gargalhada surpresa de Eucliffe ecoando, enquanto Lucy trazia a cara amarrada.
— Babaca.
— Sou, obrigado. Ah, é mesmo, a Juvia chamou a gente p’ra ver um filme lá p’ras 14h.
O trio estava conversando, quando um grito se fez ouvido. A origem era clara: O quarto de Natsu. E Lucy reconheceria aquele grito ainda que estivesse a distância. Era de Wendy. O coração acelerou, e a jovem torceu para que fosse apenas um bicho. Quando um segundo grito foi emitido, a paralisação que tomava seu corpo se desfez e ela viu Natsu e Sting abrindo a porta. Correu atrás deles.
Havia um homem de cabelos escuros com reflexos avermelhados, o antebraço dele apertando o pescoço da adolescente. Lágrimas podiam ser vistas no rosto agora extremamente pálido de Wendy e ela tremia, apavorada.
— Quem é você?!
— Meu nome é Jose Porla. — Ele se apresentou, sorrindo.
— Como você entrou aqui?!
E a loira entendeu o que o amigo estava fazendo, quando viu Sting se aproximar furtivamente. Distrair. Mas não foi a única. Porla sacou uma faca do bolso da blusa, posicionando-a rente a garganta de Marvell.
— Nem tentem, ou a azulzinha morre.
— Merda! — Natsu exclamou, alarmado. — O que você quer?!
— Sou contratado de Jude Heartfilia. Sou o homem que faz os trabalhos sujos dele. E ele quer a filhinha de volta. — riu. — “Achou que conseguiria fugir de mim por muito tempo, seu merdinha?”. — Ele claramente reproduzia a fala do contratador.
— Vai se foder!
A mente de Natsu trabalhava, acelerada. A de Sting também. No entanto, Lucy só sentia a adrenalina, o coração batendo nos ouvidos, o desespero, as lágrimas se formando.
— Ah, pode deixar que eu vou... Eu estou na mira de um Dragneel, afinal.
— Cala a boca!
— “Você achou mesmo que eu não iria descobrir toda a sua farsa, Dragneel? Natsu é um nome realmente interessante, por que será que você o escolheu? Não mudou muita coisa, não é?”. — Porla continuava testando os limites psicológicos do rapaz. — Pelo visto, eu devo chamá-lo só pelo sobrenome. É a única coisa verdadeira do seu nome, afinal. Talvez a única coisa verdadeira sobre você. Sabia disso, querida Lucy?
Não, ela não sabia. Aquilo assustou. E doeu. Entretanto, não era hora de se importar com aquilo. Wendy era o que realmente importava. Essa hiperventilava, ainda que tentasse manter a calma. Nunca estiveram em uma situação daquelas antes.
— Cala a merda dessa boca!
Sting apertou o punho do primo, tentando chamá-lo de volta a razão. Natsu entendeu o recado e respirou fundo. Porla, no entanto, continuava a testá-lo.
— Você quer que eu cale do mesmo jeito que a sua mamãe calou?
E com o braço que segurava a menina, ele fez movimentos de vai e vem com o punho fechado, a língua se movendo na bochecha. Os olhos de Natsu se arregalaram e o corpo esquentou. Ele se aproximou de forma perigosa, a expressão assustadora.
— A-ãh. — O homem balançou a cabeça negativamente, prensando mais a faca. — O que foi? Dói lembrar que ela virou uma puta no final? Que o corpo serviu muitos antes de... — E simulou com os dedos uma pistola na cabeça de Wendy. — Pow.
Natsu tremia. O loiro percebeu que precisava tomar uma atitude.
Mas a atitude foi tomada antes que ele o fizesse.
Lucy deu um passo a frente, lágrimas escorrendo por sua face. Deu mais um, ao perceber que a menina não foi ainda mais acuada graças a sua aproximação. A atenção de Jose se focou nela, unicamente nela, e o aperto em Wendy foi diminuindo a medida que a loira se aproximava.
Sting se afastou, silenciosamente, indo para o escritório na maior velocidade que conseguiu.
Wendy sussurrou um “obrigada” quando foi solta, e correu em direção a Natsu, enquanto Lucy teve os cabelos brutalmente puxados e foi posta de joelhos. A pequena abraçou o rapaz, que ofegava, assustado.
— Natsu... — Ela o apertou, sendo parcamente correspondida, as lágrimas molhando a camisa dele.
Natsu acariciou a cabeça dela, protetoramente, ainda que focasse apenas na cena a sua frente.
— Eu deveria retirar a honra dela aqui, para fazê-lo lembrar o seu lugar?
— Não ouse... — sussurrou.
— O senhor Jude quer ter umas conversinhas com você, rapaz. Esteja preparado para isso. Agora, sabendo que não existem objeções, eu irei lev–
Sting entrou no quarto com a destreza e velocidade de um leopardo, apontando uma arma para a testa de Jose.
E então o outro tirou uma Taurus pt 838 da cintura, que foi colocada na têmpora esquerda de Lucy. A garota sentiu dificuldade em controlar a bexiga.
— Se você atirar... Não posso matá-la, ela vale muito para o papai rico, ou seja, para o meu bolso. Mas machucar eu posso, ah, se posso. Vocês, então...
Um corte não muito sutil foi feito no ombro direito de Heartfilia e o sangue logo se fez visível. Ela gemeu de dor, mordendo os lábios para não se sentir mais humilhada. Natsu perdeu a voz.
— Solta ela, seu grande filho da puta. — Sting disse, a raiva crescendo ao ver a garota ferida.
— Pessoal... Me deixem ir. Eu preciso conversar com o meu... — Ela engoliu em seco. — Com Jude. I-isso já ‘tá fora dos limites. Ele... nos ferindo assim... envolvendo vocês nisso. — Mais lágrimas tomaram sua face. — Eu vou.
— Não, Lucy, você não vai.
Wendy se escondia atrás de Natsu, este ainda incapacitado de falar. Seu primo é quem tomava conta da situação.
— Eu preciso.
— Mas Lucy... — suplicou. — E se você não voltar? — Era finalmente Natsu quem falava.
— Eu vou voltar, Natsu. Preciso. Não quero... e nem posso perder isso.
“Isso” era o que eles tinham. E ele compreendeu.
— Eu preciso resolver tudo isso. Não posso fugir dessa situação. Muito menos sozinha. De jeito nenhum. É sempre mais divertido quando estamos todos juntos, não é?
Lágrimas escorreram dos olhos ônix, que estavam muito mais verdes que o normal naquele instante. Graças ao choro.
— Seus olhos estão bonitos, Nats. — Ela sorriu, sendo levantada por um puxão de cabelo doloroso. — Eu amo você. – E esse sussurro matou lentamente o interior do rapaz.
Jose Porla sorriu sinistramente mais uma vez e saiu pela janela, por onde entrara, levando sua refém.
E então Natsu caiu sobre seus joelhos e chorou como uma criança, alto e desesperadoramente. Wendy também se pôs a chorar, enquanto Eucliffe encarava a janela com fúria, se sentindo impotente.
As horas passaram. Sting foi levar Wendy para casa. E Natsu foi deitar em sua rede, a face inchada pelo choro. O cheiro que Heartfilia emanava e ele amava estava impregnado na rede.
— Eu vou pedir de novo... Por favor. Por favor. Que tudo dê certo. Que a Lucy fique bem.
[x]
Segurando o ombro, este já desinfetado por Virgo e com um esparadrapo sobre a carne ferida, Lucy encarava o homem a sua frente com um desprezo incalculável. A dor e a humilhação que sentira, o sofrimento dos amigos, as informações que foram jogadas em cima de si, tudo isso em um rebuliço em sua mente. Era perceptível o quanto odiava aquele homem e o culpava por isso. O homem que ela agora se recusava a chamar de pai. O homem cuja expressão não dizia nada nesse momento. O homem que perguntou:
— Você queria conversar, não é, querida?
Lucy assentiu. E abriu a boca para falar.
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