Blinding lights
2 So I hit the road in overdrive
Notas iniciais
A lembrança dela surtando horas depois pelo motivo de eu ter esquecido minha carteira em casa invadiu minha mente e eu beberiquei um pouco mais do café, esperando que fosse ter, pelo menos, um pouco do gosto daquela noite.
Levei minhas mãos aos bolsos no impulso de pegar um maço de cigarro, mas a voz dela reclamando do cheiro veio a minha mente e eu recuei. Coisas simples e cotidianas que sempre fiz tomaram significados diferentes desde o último ano. Isso tudo graças a um furacão moreno e tempestuoso chamado Karin. Mudou tanto a ponto de eu precisar caçar uma lanchonete qualquer no meio da madrugada para não ter que olhar para os móveis do meu apartamento.
Olhei mais uma vez para a mensagem de Yuzu. Mesmo de forma implícita eu sabia que aquilo era um prazo; e ele se extinguiria em menos de 24 horas. Mas o que eu poderia fazer? Impedi-la de ir? Nunca faria isso. Tornar-se oficial do exército sempre foi o sonho dela e ela não precisa de mais bagunça em sua vida, além da que já causei.
No fundo eu sabia que se ela fosse sem que eu fizesse alguma coisa, talvez nunca mais tivesse outra chance. Já foi difícil ter a primeira. Apertei a caneca quente me lembrando disso e sorri bobo.
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Parei minha moto em frente à clínica veterinária. Pelo sol escaldante em minha cabeça já deveria passar do meio dia. Desliguei-a e peguei minha carteira em meu bolso. Eu realmente precisava pagar pelo que a loira fez e deveria ter feito isso antes, mas não tive tempo ontem. Não sei o que ela fez, mas Hinamori voltou para casa estável e passou o resto do dia bem. Devia muito a elas.
Aproximei-me do portão e estava prestes a tocar quando uma morena abriu a porta esbaforida, com algo na boca (acredito que era um pedaço de pão) e logo atrás dela veio a loira, quase da mesma forma. A mal humorada estava vestida com uma calça cargo, com estampa típica do exército, blusa branca lisa e botina com cadarços desamarrados. Fiquei um pouco decepcionado, queria ver seu cabelo solto, mas ele estava trançado firmemente.
— Karin-chan, tem certeza que está esquecendo nada, né? – Perguntou Yuzu ajudando sua irmã a carregar a mochila dela. Pelo menos agora descobri o nome da garota mal humorada. – Eu deixei um lanche para você comer durante as aulas e o cartão de ônibus no bolso de fora.
— Tá. Já entendi. – Falou de forma enrolada enquanto ainda mordia o pão e se inclinou para amarrar os cadarços.
— Vai logo, Karin, você se atrasou muito hoje. Vai perder o juramento à bandeira! — Vi a morena arregalar os olhos e apressou o que estava fazendo. Acho que aquela era a minha chance de falar alguma coisa.
— Humm, com licença! – As duas olharam para mim. Yuzu abriu um sorriso e Karin me olhou, mas logo voltou a ignorar minha existência e continuou o que estava fazendo. – Trouxe o dinheiro que estava devendo.
— Aaa! Certo! Tinha me esquecido! – Yuzu pareceu sincera com o que falou. Ela era ingênua a esse ponto? A garota veio em direção ao portão com a chave. – Entre.
— Não precisa. Estou apressado para voltar ao trabalho. – Falei quando abriu o portão e, enquanto isso, Karin se endireitou pronta para ir. Tirei o dinheiro da carteira e a entreguei.
— Aqui tem mais do que o cobrado! – Ela falou depois de checar e quase caiu quando a morena esbarrou nela, correndo para a entrada.
— Pode ficar com tudo! – Falei enquanto me afastava e ia atrás de Karin.
“Eu realmente não precisava estar fazendo isso, você já pagou tudo e mais!” Minha consciência dizia, mas quando já a ouvi?
Persegui amorena por uns 3 metros até que consegui segurar seu braço. Ela me olhou muito irritada, até mais que naquela madrugada, e parecia pronta para bater em quem a estivesse atrapalhando. Engoli em seco. Já tinha feito a merda, né.
— O que você quer, cabeça de algodão? – Ela perguntou já sem o pedaço de pão na boca e parecia estar se segurando para não surtar.
— Para onde você tem que ir? – Soltei o braço dela antes que levasse um soco, porque era isso ela parecia pestes a fazer.
— Não é da sua conta! – Virou-se voltando a andar rápido.
— Espera! – Andei de novo atrás dela, mas sem segurar seu braço. – Eu te levo para onde você tem que ir.
— Você não tinha que ir trabalhar? – Ela continuava andando rápido em direção ao que parecia ser o ponto de ônibus.
— Não preciso estar lá exatamente agora, mas você parece que sim. – Ela parou, virando-se para mim ainda irritada. Não havia outro humor para ela?
— Academia de cadetes no décimo distrito. – Cruzou os braços esperando uma reação da minha parte. Beleza, era perto de onde eu trabalhava. – Consegue chegar lá em 20 minutos?
— Consigo em 10 se você quiser. – Olhei-a de maneira sarcástica.
—Ótimo! – Respondeu seca.
Ela veio caminhando em minha direção e passou direto seguindo até o lugar da moto. Olhou para trás me apressando pelo olhar e andou mais rápido. Meus pés a seguiram quase de forma automática. Chegando na moto Karin me esperou ao lado dela, enquanto ajeitava a mochila, pronta para subir. Entreguei-a o capacete que estava comigo mais cedo e ela o colocou imediatamente. Sentei primeiro e ela veio atrás.
— Você não vai pegar um capacete para você? – Ouvi a pergunta abafada por causa da barreira. Não a respondi de imediato, apenas liguei a moto.
— Esse é o único que tenho. – Senti-a ficando tensa, mas antes que desistisse de ir, arranquei com a moto. – Acho melhor você se segurar bem!
(Nota MUITO importante: usem SEMPRE capacete. SEMPRE MESMO! Faça o que eu falo e não o que o Toushirou faz.)
Quase que de forma automática pela aceleração a senti passando os braços ao redor do meu tronco. Ela agarrava a minha blusa na parte da frente bem forte e parecia tremer um pouco. Pelo visto a pose de durona tinha ido embora e isso ficou mais nítido quando senti o capacete dela encostar na minha nuca. Karin parecia encolhida e com medo da alta velocidade. Não era ela que queria chegar lá rápido?
Em certo momento enquanto atravessava as largas avenidas de Karakura em direção ao décimo distrito, senti quando ela tomou coragem e levantou a cabeça para olhar ao redor. Seus braços ainda estavam rígidos ao meu redor, mas parecia que o aperto tinha diminuído. Finalmente ela estava começando a apreciar aquele sentimento de liberdade!
Porém, infelizmente tudo que é bom dura pouco e em poucos minutos estávamos em frente a academia de cadetes. Chegamos realmente 10 minutos adiantados, então ainda tinham algumas pessoas circulando na entrada, mas pouco a pouco elas iam entrando. Karin soltou minha blusa e se apoiou na moto para descer. Ao tirar o capacete pude ver suas bochechas levemente vermelhas, deixando-me em dúvida se era por causa do calor no interior dele ou outro motivo. Ela disse nada, apenas me entregou o protetor de volta e saiu andando em direção à academia, porém com menos de 3 passos ela se virou para mim.
— Muito obrigada. – A irritação em seu rosto parecia mais branda, quase não existia mais e suas bochechas pareciam ainda mais vermelhas. – E vê se usa esse capacete agora, cabeça de algodão.
Apenas assenti sentado na moto, com o capacete que ela me entregou em mãos. Antes que voltasse a caminhar em direção à instituição, fiz o que pediu e ela pareceu sorrir minimamente. Enquanto girava a chave na ignição e a ligava, deixei mais uma vez o impulso me tomar. Virei para a garota que agora já deveria estar uns 6 metros de mim e gritei.
— Karin! – A morena se virou com a expressão confusa. – Que horas você sai daqui hoje?
— 7 horas. – Ela pareceu um pouco hesitante em responder. – Por que?
— Vou te buscar. – Antes que arrancasse, completei o que queria falar desde o começo. – E meu nome é Toushirou.
Observei pelo espelho sua reação atônita quanto ao que falei, enquanto acelerava novamente com a moto. Ela parecia perdida e isso me fez querer rir. Em um único dia consegui tirar 2 vezes sua postura de durona.
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