Blinding lights

3 Blinded by the lights


Notas iniciais
Capítulo um pouquinho maior e bem especial (foi de longe o que eu mais gostei de escrever) para vcs ♥

Diferente do que muitos pensam, eu realmente só a levei para casa, mas a partir dali eu a levava e buscava quase todos os dias. Quase não trocávamos palavras, apenas as cordiais, aquelas que as mães brigariam se não falássemos. Porém eu tinha que admitir que a melhor parte daquilo tudo era sentir ela atrás de mim, o vento batendo no meu rosto e os braços dela ao meu redor. De certa forma eu me sentia poderoso, Karin fazia eu me sentir assim.

A primeira xícara de café já tinha acabado e eu levantei a mão, pedindo para a garçonete oferecida encher mais uma vez. Mais um botão tinha sido aberto e, dessa vez, ela parecia mais ousada ao se inclinar o bastante para que os seios dela quase encostassem na minha bochecha.

Estalei a língua impaciente, ela pareceu perceber e se retirou rápido mais uma vez dali. Eu realmente não estava com saco para flertes hoje, principalmente quando as memórias dos primeiros com uma pessoa bem irritada vieram à minha mente.

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Os ventos do começo da noite fria bateram suaves nos meus cabelos brancos e rebeldes. Estava realmente uma noite agradável para mim. Era meio do outono, o frio do inverno se aproximava e eu não poderia estar mais feliz. Inverno sempre foi a minha estação. As crianças sempre brincavam comigo que, por gostar tanto do frio, meu cabelo ficou branco como a primeira neve. Era bobo, mas algumas poucas lembranças felizes me aqueciam por dentro e me faziam, de vez em quando, soltar alguns sorrisos.

Já estava encostado na moto fazia alguns minutos. Vários alunos saiam pelas portas da academia e faziam seu caminho para casa, alguns de carro, outros de ônibus, mas nada de Karin. Raramente ela se atrasava, hoje seria uma exceção?

10 minutos mais tarde e o pátio estava bem mais vazio. Será que ela pegou carona com outra pessoa hoje? Antes que pudesse refletir a respeito, vi-a sair apressada pelas portas. Seu rosto estava baixo, andava em passos largos e segurava com a mão esquerda o cotovelo do braço direito, que parecia coberto por um curativo grande. Infelizmente estava muito escuro e ainda era distante para que eu pudesse ver o que estava acontecendo, apenas via o tradicional uniforme da instituição (blusa branca, calças camufladas e o coturno) e seu cabelo brilhoso, preso na trança. Desencostei da moto, contudo não caminhei até ela, só fiquei parado.

Ela se aproximava ainda de cabeça baixa e rápido de mim e, quando chegou mais perto, pude perceber que seu cotovelo estava enfaixado e ela fungava. Ao parar em minha frente, Karin apenas estendeu a mão do braço não machucado, em um pedido claro pelo capacete reserva que eu tinha em casa, mas que agora carregava para que a morena pudesse usar. Ainda estava muito escuro, porém pude ver quando levantou levemente seu rosto por não ter te entregado o que queria que seus olhos estavam inchados e vermelhos.

Não. Não poderia deixar quieto.

— Quer desabafar? Dizem que eu sou um bom ouvinte. – Ouvi-a suspirar de modo anasalado, provavelmente porque suas narinas estavam entupidas.

—Duvido que alguém tenha dito isso. – Mesmo nessa situação ela me olhou cínica. Soltei o ar quase em um riso.

— Realmente não disseram, mas posso me esforçar. — Encostei de novo na moto tentando demonstrar que estava aberto para conversar.

— Passo. – Ela se apressou e pegou o capacete que estava apoiado no banco, colocando-o. A morena me olhou questionadora após prender as fivelas quando suspirei.

— Amanhã de manhã você tem alguma coisa importante para fazer? – Olhei para o céu analisando se iria chover ou não. Pelo visto só estava apenas frio e não nublado.

— Tenho que treinar mais. – Karin olhou para baixo e por um segundo deixou transpassar novamente uma sombra de tristeza.

— Você vai treinar um pouco mais tarde. – Falei enquanto colocava o capacete e subia na moto. Senti quando ela sentou atrás de mim e imediatamente passou os braços ao meu redor. Parecia que estava se acostumando com aquilo tanto quanto eu.

— Não me lembro do momento em que você virou meu dono. – Mesmo com a barreira consegui ouvir o tom irônico.

— Treine cedo, então. Você quem decide. – Declarei antes de acelerar.

Enquanto acelerava na noite fria de Karakura, Karin parecia bem mais relaxada que mais cedo, como se estivesse aproveitando aquele breve momento do seu dia. Quando tomei um caminho diferente que o normal, senti seus dedos voltarem a ficar tensos e ela arrumou levemente a postura, pronta para enfrentar qualquer coisa.

As luzes do centro chegavam em meus olhos, deixando-me levemente cego, quando o adentramos. O barulho de buzinas e de vozes ficava cada vez maior, assim como o número de pessoas circulando na rua. Os prédios, que mal dava para ver seu topo, começaram a nos cercar e o calor que aquilo tudo causava começava a me influenciar. Para alguns poderia ser claustrofóbico, mas, tirando a sensação quente, eu amava todo aquele caos. Tudo parecia tão vivo.

Sentia a morena inquieta em minhas costas e o aperto de seus braços ficava cada vez mais forte. Estava começando a parecer um abraço. Sorri por debaixo do capacete, aliviado por eles estar ali tampando o meu rosto.

Em poucos minutos chegamos a um estabelecimento – que parecia um galpão de tão grande -bem iluminado por luzes neon. Parei a moto em uma vaga específica para ela e a desliguei, enquanto desabotoava a fivela abaixo de meu queixo. Sai de onde estava sentado antes de tirar completamente o capacete e encarei Karin ao mesmo tempo que fazia isso. Ela parecia petrificada e nervosa, não parecia querer se levantar dali.

— Vem! – Estendi minha mão, oferecendo ajuda para que ela se levantasse. A morena ignorou minha oferta e saiu dali sozinha, agora parecendo brava.

— O que estamos fazendo aqui? – Perguntou contida e, em seguida, tirou o capacete segurando-o forte. Acho que ela estava prestes a me acertar com ele.

— Você vai descobrir. – Suspirei, enquanto levava a mão aos meus cabelos. – Vamos combinar assim: entra junto comigo ali, analisa o lugar e caso você não goste te levo pra casa.

Decidi ser ousado e me aproximei para tirar o objeto – agora mortal — de suas mãos. Apesar da raiva iminente, ela não apresentou resistência quando o peguei. Guardei o que tinha que guardar no compartimento embaixo do banco e me virei de volta para ela. Além da irritação, sua expressão ainda demonstrava dúvida e hesitação.

— Vamos lá. -Saí andando na frente em direção a porta toda iluminada pela luz neon. Percebi que não me seguia, então apenas gritei. – Se eu fosse você não ficaria aí fora sozinha. Essa região é um pouco perigosa.

Ouvi quando Karin passou a andar rápido atrás de mim e em poucos segundos ela já estava ao meu lado. Sua mão — do braço que não estava machucado — apertava forte a alça da mochila sob seus ombros e tentava esconder a animação que surgiu quando percebeu o tipo de lugar que era, mas não estava tendo muito sucesso. Antes de entrarmos ela parou, segurando meu braço e falou com a voz baixa, um pouco receosa.

— Eu não deveria estar aqui sem avisar meu pai. – Estranhei um pouco aquilo.

— Você é maior de idade, né? – Ela assentiu rapidamente. – Então você não precisa dar satisfações para o seu pai.

— Não é bem assim que funciona lá em casa. – Ela falou, remexendo sua mochila em busca do seu celular.

— Então ligue para ele. – Falei quando vi o celular em sua mão.

— Espere um pouco aqui.

A morena se afastou com o celular próximo de sua orelha, indo para um canto mais quieto. Observei-a andar de um lado para o outro ansiosa e vi quando sua expressão mudou. Acho que ele atendeu. Pouco tempo depois ela se voltou para mim com uma expressão estranha e guardou seu celular de novo na mochila. ‘Ele não deixou’ foi a conclusão que cheguei.

— Sabe, eu fui meio impulsivo hoje, então posso te levar para casa antes de entrar se quiser. – Falei como forma de me desculpar pela minha atitude impensada e levei a mão ao cabelo demonstrando meu desconcerto.

— Eu quero ficar aqui. – Karin respondeu um pouco tímida. – É só que eu quase nunca saio de noite.

— E seu pai? – Perguntei curioso.

— Ele não pareceu se importar, só falou para voltar antes de amanhecer e me perguntou se eu tinha... é... camisinha. – Ela parecia incrédula e envergonhada com a resposta que recebeu.

Ótimo. Puxei-a para dentro do estabelecimento e lá dentro quase tudo brilhava com luzes neons – assim como no exterior – nas cores, principalmente, azuis e roxas. Um misto de sons chegava aos nossos ouvidos e ele se compunha das vozes das pessoas ao nosso redor, um synthpop bem retrô tocando ao fundo e o barulho dos jogos. Crianças ainda corriam pelo local excitadas pela quantidade de máquinas, mas nesse horário se via, sobretudo, adolescentes e adultos. Uma completa relíquia dos anos 80.

Levei-a um balcão, no qual um atendente de meia idade se encontrava de olhos fechados, parecendo curtir a música ao fundo. Tive que estender o braço e tocar seu ombro para que nos atendesse. Atrás do homem havia uma estante com os vários prêmios disponíveis e seu respectivo ‘preço’ em fichas que são ganhadas nos jogos, além de um letreiro escrito – cafona, diga-se de passagem- “Disponibilizando diversão e bons momentos desde 1981”.

— Boa noite. Já conhecem como funciona aqui? – O atendente respondeu simpático. Nós dois negamos com a cabeça. – Tem 2 opções de cartões: o vermelho e o preto. O vermelho vocês o recarregam com créditos, cada máquina tem um preço e à medida que vão brincando nelas, o crédito é gasto. O preto é por tempo. Vocês pagam por uma quantidade de horas e, durante esse período, podem usar quantos brinquedos quiserem.

Olhamos um para o outro considerando o que fazer e Karin tomou a atitude.

— E quanto seria esse de horas?

Ele nos deu uma tabela com o tempo e seus respectivos preços. A morena pareceu assustada com os valores e eu, pela segunda vez na noite, repensei as minhas ações. Porém, lembrando como seus olhos brilharam com todas aquelas luzes, decidi que valia a pena. E eu também aproveitaria.

— Vou querer o cartão de 3 horas. – Falei incisivo.

Karin arregalou os olhos e me puxou, afastando-me do balcão.

— Você tá louco? Viu o preço que vai ficar? – Perguntou agitada. — Não tenho dinheiro para isso tudo.

— Eu vou pagar. – Respondi tentando transparecer uma tranquilidade que, nesse momento, eu não tinha. Se objetos pudessem chorar, minha carteira estaria fazendo isso agora.

— Eu não vou deixar você pagar tudo sozinho. – Ela cruzou os braços me olhando e desafiando a contrariá-la. – Vamos pegar o de crédito. – Sugeriu.

— Vai dar o mesmo preço das 3 horas em muito menos tempo. – Argumentei. — Então você vai pagar o que vamos comer. – Disse dando um ultimato, mas ela ainda não se deu por vencida.

Voltei para o balcão, ignorando-a. Peguei minha carteira no bolso traseiro, retirei meu cartão de crédito, entreguei ao atendente e pedi que dividisse em 2 vezes os 2000 yens que iriam ser descontados ( N.A.: isso dá aproximadamente 103 reais. É caro, mas se vocês forem naquelas máquinas de shopping, 50 reais vai tranquilo em meia hora.). Vi de canto de olho quando Karin chegou do meu lado, de cara fechada por ter sido contrariada e passou a encarar os prêmios.

— A gente vai ganhar um prêmio bom essa noite. – A garota falou, ainda não me encarando, como se fosse um desafio para mim e para ela.

— Qual você quer? – Perguntei interessado.

— O cupom para o rodízio de pizza. – Seus olhos estavam cerrados mirando o alvo, como se estivesse se preparando para dar um tiro certeiro.

Não me aguentei dessa vez e ri. Ela olhou para mim sorrindo, divertida também e eu admirei aquele momento. Fomos interrompidos pelo balconista que entregava o cartão preto.

— Se vocês quiserem guardar suas coisas no armário, é só pedir uma chave. – Ele falou apontando para uma parede cheia dos armários medianos.

— Temos que pagar por eles também? – Karin perguntou desconfiada.

— Tá incluso no pacote do cartão preto.

— Então queremos uma chave. – Falou claramente pensando na mochila.

O homem entregou uma chave com o número 73 para ela e seguimos até o local. Karin abriu o armário e guardou tudo, menos algumas notas de dinheiro, que preferiu deixar no bolso. Perguntou se eu queria colocar lá alguma coisa e eu apenas guardei a carteira e as chaves da moto. Meu celular teria uma função muito específica hoje.

Parecia que algum espírito infantil baixou imediatamente após trancar a porta de metal, porque ela saiu correndo pelos corredores de máquina do local, deixando-me para trás e imediatamente a segui. Ela parou primeiro em jogo de basquete, no qual desciam várias bolas ao mesmo tempo e tínhamos que acertar o máximo de cestas possíveis dentro do tempo contado no painel. Karin passou o cartão e começamos a jogar.

Apenas com um jogo consegui perceber que, talvez até mais que eu, ela é extremamente competitiva. Cada vez que errava uma cesta, agarrava furiosamente outra bola e lançava na força do ódio. Fazia muito tempo desde que gargalhei como fiz vendo-a brincar e só se intensificava quando ela olhava indignada para mim.

Em seguida fomos para aquele que jogávamos um contra outro, rebatendo o disco na tentativa de fazer entrar no “gol” do adversário. Dei tudo de mim e, pelo visto, ela também já que acabou empatado.

Íamos passando de jogo em jogo, alguns eu jogava sozinho ou ela, já outros eram juntos. Cada vez que era apena Karin, eu tirava fotos suas discretamente e fazia filmagens. Fazia tudo escondido, pois sabia que se ela descobrisse certamente me pediria para apagar e possivelmente ‘confiscaria’ meu celular.

Depois de uma hora e meia estávamos levemente ofegantes pela correria. Meus bolsos estavam cheios daquelas fichas que saiam das máquinas, junto do meu celular, então combinamos que a partir de agora Kurosaki que as guardaria. Em algum momento daquela euforia a morena decidiu tirar os coturnos, guardou-os rapidamente junto da mochila no armário. Seus pés descalços já estavam ficando pretos, mas mesmo assim ela continuava no ritmo frenético.

Para quem estava receosa, ela está bem soltinha agora. Soltinha até demais.

— Vamos, cabeça de algodão, por favor. – Uma veia pulsou em minha testa por ela continuar com o apelido e o fato dela tentar me levar a uma plataforma de dança não ajudava. – Por favor, Toushirou.

Sua voz saiu manhosa e ficava claro o quanto estava apelando, mas eu não podia negar que meu nome saindo de sua boca soou muito bem, mais do que eu esperava. Não teve como; cedi. Um pouco tímido subi naquele troço estranho junto dela, enquanto ouvia a sua estratégia para burlar o brinquedo.

— Nós dois vamos usar a mesma plataforma e vamos jogar de um jogador. Eu cubro a seta de cima e da direita e você com a de baixo e a esquerda. – Ela se posicionou em minha frente já pronta e eu apoiei na barra traseira, obedecendo suas “ordens”.

Karin colocou em uma música aleatória, que — diga-se de passagem – era muito irritante, e as setas começaram a subir na tela. No começo era fácil e lento, mas foi ficando cada vez mais rápido e eu estava começando a me enrolar. Enquanto via Karin se esforçar com a parte dela e ter sucesso, percebi, sem a menor sombra de dúvidas, que eu era muito ruim naquilo. Mesmo apoiado na barra, minha coordenação não deixava assimilar todos os comandos e eu estava começando a suar.

— Mais rápido, Toushirou!

Ouvi-a dizer, enquanto ela nem se dignou a virar para ver meu estado. Eu estava dando a vida naquilo!

— Conseguimos, cabeça de algodão! Olhe! — Ela gritou quando a sessão de tortura acabou.

Apoiei minhas mãos no joelho, ao mesmo tempo que recuperava o fôlego. Não liguei para a volta do apelido quando levantei meu rosto e vi o sorriso que a morena sustentava devido à quantidade de fichas que conseguimos com a máquina. Definitivamente tudo aquilo dali valia a pena.

Paramos um pouco perto de um quiosque ainda dentro do galpão, aonde Karin comprou uma garrafa d’água e a dividimos. Bebemos em poucos segundos, travando uma leve disputa divertida quem ficava com mais água e, nessa pausa, juntamos todas as fichas coletadas e demos uma contada rápida, bem superficial.

— Acho que já temos o suficiente para o rodízio. – Declarei analisando o bolo de papel que formou.

— Já temos para mim, agora falta conseguir para você. – Kurosaki falou de maneira inocente, analisando também.

Agora foi minha vez de me sentir atônito. Aquilo parecia quase um convite para um jantar. Parecia tão tentador: eu e ela competindo quem comia mais pizzas. Não que eu estivesse me apaixonado, ou qualquer merda assim, apenas era bom passar o tempo com ela. Se estivéssemos em um anime meus olhos estariam pegando fogo pela determinação em conseguir aquelas fichas restantes para completar os dois cupons. Eu iria conseguir de qualquer forma! Mesmo que faltasse apenas uma hora para irmos embora.

— Olhe, cabeça de algodão!

A voz dela alta me tirou do meu torpor e vi para onde apontava. Um pouco afastado do resto do salão e em um canto mais iluminado, havia uma estrutura grande com vários pula pulas em forma retangular juntos com vários adultos e adolescentes pulando. A garota agarrou minha mão e me puxou em direção àquilo praticamente correndo. Mirei nossas mãos juntas e tudo ao redor pareceu ficar mais lento apenas para eu poder admirar o momento. É, elas ficam bem desse jeito.

Esse brinquedo estava com fila grande e mais barulhento que onde estávamos, então me aproximei de seu rosto para falar próximo ao seu ouvido.

— Vamos revezar na fila. – Ela olhou para mim assustada, não esperava a proximidade e me olhou confusa. – Se gastarmos nosso tempo aqui não vamos conseguir o resto das fichas.

Karin assentiu e me enxotou para fora dali, entregando-me o cartão. Olhei para trás para garantir que estava tudo bem deixa-la sozinha, mas ela apenas fazia um sinal com a mão como se indicasse para eu ir rápido.

Andei um pouco perdido, sabia que não seria a mesma coisa jogar sozinho. Vi uma máquina que me interessava, aproximei-me para ver como funcionava e, ao chegar perto, reparei na pessoa que estava o utilizando. O garoto em cima da moto, que mal parecia ter completado 18 anos, – era um jogo de corrida -, parecia eufórico e levemente alterado. Balançava-se mais que o normal e estava suando muito. Eu sabia muito bem o que aquilo significava.

Decidi me afastar e procurar outra coisa, porém, antes que eu completasse a ação, senti uma mão pousando em meu ombro esquerdo. Virei curioso e me deparei com uma pessoa mais alta que eu – o que não era algo muito difícil -, vestida toda de um conjunto de moletom preto e sua cabeça estava tampada pelo capuz. Quando o ser levantou o rosto, bateu-me a realização de quem era. Aquele sorriso medonho era inconfundível.

— E aí, cara? Como que cê tá? – Ele levantou a mão para me cumprimentar e eu fiz o mesmo no reflexo. Aproximou-se de mim e falou baixo. – Já tem um bom tempo que não aparece na boca. Achei que tivesse preso.

Merda. Merda. Merda!

— O que você tá fazendo aqui? – Respondi frio, ignorando tudo o que falou.

— Vim fazer meu dinheiro, vender umas balinhas para uns mauricinhos... – Deixou no ar e olhou para a garoto em cima da moto. – Quer algumas? Tenho umas paradas novas aqui que tão fazendo sucesso e tenho o que você pegava sempre. – Ele sussurrava agora.

Apenas neguei com a cabeça e procurei sair dali o mais rápido possível. Cheguei praticamente correndo ao lado oposto do salão na tentativa de fugir daquele homem, assim como do meu passado. Hoje não, cacete!

Meu coração estava acelerado, a adrenalina corria solta por causa daquele breve encontro e eu tinha que descontar em alguma coisa, não poderia voltar para Kurosaki assim. Vi um daqueles jogos que você tinha que acertar os bichos que apareciam com um martelo gigante. Parecia perfeito por hora.

Após alguns jogos, um momento de relaxamento e várias fichas na mão, voltei para o pula-pula aonde encontrei Karin, que parecia um pouco ansiosa. A fila já tinha andado consideravelmente e mais alguns minutos seria nossa vez. Assim que ela me viu, seu rosto se iluminou em alívio e acenou, chamando-me.

— Conseguiu muita coisa? – Perguntou assim que cheguei mais perto. Mostrei minha mão com as fichas e ela imediatamente pegou e as guardou em seu bolso. – Muito bom, cabeça de algodão.

A garota passou a mão em minha cabeça, acariciando e falando como se eu fosse uma criança e a irritação veio instantaneamente. Maldita.

— Pega isso daqui e vaza logo. – Estendi o cartão em sua direção.

Ela saiu dali rindo, já que era sua vez de se divertir enquanto eu ficava na fila. Assim que sumiu entre os corredores das máquinas, peguei meu celular mandando mensagem para um certo alguém.

“Eu esbarrei com o Gin hoje.”

Não precisava escrever mais que isso para que entendesse.

— Oe, Toushirou! – Ouvi alguém estalar os dedos em minha frente e levantei o rosto assustado, saindo do torpor que me encontrava. – Você está bem?

Vi que Karin estava preocupada. Provavelmente eu não estava com uma expressão muito boa, enquanto encarava a tela do celular. Nem reparei que tinham minutos que fazia isso, apenas andava com a fila distraído.

— Estou sim. -Voltei com a máscara de tranquilidade. – Conseguiu mais que eu? – Perguntei desafiador.

— Não sei, já misturei com as outras. – Apontou para o bolso frontal lotado de papel.

— Que desculpa esfarrapada. – Meu objetivo de irritá-la deu certo.

Quando estava prestes a responder a moça que cuidava da entrada do brinquedo nos chamou, pedindo que lhe entregasse o cartão e que tirasse os sapatos e guardasse na prateleira ao lado. No caso só os meus, porque ela já estava sem tinha um bom tempo. Karin chegou perto de mim, entregou-me as fichas que estavam em seu bolso e eu a olhei confuso.

— Guarda dentro do seu tênis discretamente.

Entendi o que ela quis com aquilo. Peguei as que estavam na minha calça, juntei com as que me entregou, guardei no tênis e coloquei a meia por cima para disfarçar. Acho que ninguém viu. Kurosaki subiu a escada primeiro, animada, e eu fui logo atrás.

O pula-pula era extenso, com vários locais individuas para pular, com suas respectivas camas elásticas, divididos por uma lona grossa amarela. Seguimos por um corredor estreito no centro de tudo, feito para evitar acidentes, até dois espaços adjacentes vazios. Ela passou a pular excitada no mesmo momento que chegou e eu fui para o retângulo reservada ao lado do seu.

Pulamos muito. Muitas vezes invadíamos o espaço um do outro e brincávamos empurrando, correndo e nos desafiando. Acho que nunca ri ou sorri tanto em minha vida como estava fazendo agora. Definitivamente uma das melhores noites da minha vida!

Após ter dado o tempo do brinquedo, saímos ofegantes e nojentos pelo suor que empapava minha blusa preta e a branca dela, mas não ligamos nem um pouco.

Olhei no relógio do celular e faltava apenas cinco minutos para que nossas três horas acabassem – que não pareceu isso tudo de tanto que nos divertimos -, então decidimos fazer de uma vez a contagem das fichas no balcão. Tirei-as de meu tênis, entreguei-as para Karin e calcei meu sapato rapidamente. Fomos caminhando, cansados, contando superficialmente de novo a quantidade que tínhamos conseguido. Acho que deu!

Chegamos ao balcão e o atendente era outro, agora era um jovem que claramente não queria estar ali e nos olhou atravessado devido ao nosso estado. Tanto faz o que ele achava desde que conte tudo certinho. Entregamos o que conseguimos, além do cartão, e ele colocou todas as fichas na máquina de contagem. Deu o que esperávamos e um pouco mais.

— O que vocês querem? – Perguntou desanimado sem nos olhar.

— Dois cupons para o rodízio de pizza. -Kurosaki respondeu um pouco ríspida devido ao seu mau atendimento.

Ele se virou ainda sem nos olhar, pegou dois papéis da pilha que se encontrava os vales e os colocou no balcão de forma rude. Peguei-os e guardei em meu bolso.

— Ainda tem ficha sobrando. Querem mais alguma coisa? Dá pra pegar algumas balas de morango. – Falou mal humorado nos olhando pela segunda vez desde que chegamos ali.

— Fica com você.

Declarei, puxando Karin para longe dali antes que ela começasse a brigar com o garoto. Fomos aos armários, pegamos nossas coisas e fui eu quem entregou a chave, para que evitasse novamente intrigas. Voltei à saída para encontrar a morena, que calçava seus coturnos ao lado da porta. Saímos assim que ela acabou e o vento gelado em contraste com nossos copos quentes e suados fez com que nós dois arrepiássemos. Estava preparado para entregar a Kurosaki meu casaco, que estava no compartimento da moto, quando ela puxou o seu próprio da mochila.

É, acho que não dá para ser muito clichê com ela.

Encaminhamo-nos a uma barraca que vendia takoyaki quase ao lado do estabelecimento e pedimos uma porção com 10 para dividirmos. Dessa vez, como prometido, Karin pagou e nós sentamos no meio fio esperando o pedido, já que não tinha cadeiras. Ainda dava para ver resquícios do suor em nossas roupas e o fato de ainda estarmos ofegantes, denunciava que a noite foi intensa. E ainda dava para ser mais.

— A pizzaria fecha onze e meia. Já passou desse horário. – Constatou olhando seu celular. Nem vi quando o pegou. – Que dia seria bom para irmos? – Perguntou casualmente.

— Para mim tanto faz, pode ser até amanhã se quiser. E para você?

— Não sei. – Ela pareceu pensativa. – Posso te dar depois a resposta?

— Claro. – Respondi prontamente. – Me dá seu celular. – Estendi minha mão.

— Pra que? – Perguntou desconfiada.

— Como você quer falar comigo se até hoje não tem meu número?

O rosto dela pareceu se iluminar com a realização disso, olhou-me envergonhada, mas ainda sim me deu seu celular. Gravei rápido meu número e ela o pegou de volta para salvar sem que eu visse que nome colocou. Conhecendo-a, colocaria aquele apelido ridículo.

O senhor que preparava nossa comida gritou logo em seguida, anunciando que estava pronta. Comemos rápido e vorazes, afinal, última vez que comi foi no começo da tarde e acredito que ela também. Foi engraçado ver Karin comer desesperada e sem modos algum. Não estou criticando — antes que pensem isso -, na verdade é o contrário. Realmente gosto de sua naturalidade.

Comprou mais uma garrafa de água após comermos e fomos em direção a moto, bem mais calmos e relaxados. A euforia foi deixada de lado e eu pude momentaneamente esquecer aquele encontro indesejado e que me trouxe tantos sentimentos negativos.

Peguei nossos capacetes e ela colocou primeiro que eu. A morena já ia subir na moto, quando decidi propor algo mais ousado que o de mais cedo.

— Karin, e se não fôssemos para casa? – Perguntei incerto e nervoso.

— Como assim? Iriamos para onde? – Virou-se para mim para restar atenção.

— Seu pai falou que você poderia ficar até o sol amanhecer, né? – Segurei o capacete forte.

— Bom, ele falou antes do sol nascer, mas de certa forma, sim. – Ela se aproximou de mim.

— Então aceita ir a mais um lugar comigo? – Adiantei-me. – Não é um lugar perigosos, ou algo assim. Talvez só seja bem frio.

— Vamos. – Respondeu certa.

Karin se voltou para a moto e subiu nela. Estava muito chocado para fazer alguma coisa, jurava que ela iria negar. Coloquei meu capacete rápido para disfarçar o sorriso que veio rápido ao meu rosto e segui seus passos, sentando em sua frente. Prontamente passou os braços ao redor e falei antes de partir.

— Antes a gente vai passar numa loja de conveniência.

Acelerei antes que ouvisse sua resposta. Tanto faz, também. Ela provavelmente concordou. Seguíamos para o leste do centro em uma estrada que beirava ao rio que passava por Karakura. As luzes da cidade foram se afastando conforme nos afastávamos e o vento frio batia forte em nossos corpos. Após 10 minutos parei em uma vizinhança um pouco deserta devido ao horário, mas confiável. Estacionei minha moto em uma vaga qualquer e fizemos todo aquele processo para descer.

Caminhamos para uma loja em frente ao local que estacionei e entramos. Havia apenas uma garota de cabelos rosa sentada atrás do caixa assistindo série pelo celular com fone de ouvido e mais ninguém ali. Peguei alguns chocolates e alguns sacos de salgadinho, além de duas latas de refrigerante. Karin apenas me observava e me ajudava a carregar. Fomos para o balcão e despejamos tudo ali, assustando a menina, que apenas percebeu nossa presença agora.

A rosada se recuperou do susto rápido e começou a passar o leitor de código de barras em todos os produtos. No final, a quantia não foi grande, mas ainda assim propus de dividirmos e, apesar de algumas reclamações por eu estar pagando algo de novo, ela aceitou.

Com todas as sacolas em mãos, saímos caminhando pela rua, quase na beira do rio, e logo chegamos a um local mais iluminado, mas ainda vazio, do bairro. Era um parque infantil, com área para brinquedos como escorrega e balanço, porém meu destino era um espaço, também iluminado, na lateral da praça. Uma quadra de futebol, com a grama um pouco gasta devido às partidas, aparecia diante de nós.

Karin pareceu ficar animada e correu na frente para o centro da quadra. Devido ao frio, fumaça saia de sua boca e, pela proximidade com o rio, essa área com certeza estava mais gelada que o centro. Talvez a gente ficasse gripado depois disso tudo, mas quem se importa?

— Toushirou, vem logo.

Ela me chamou, largando as sacolas no chão. Abriu a mochila, pegou a garrafa de água quase vazia de mais cedo, bebeu o resto e a colocou no solo. Chutou-a em direção a um dos gols, na intenção de fingir que era uma bola, e marcou um “ponto”.

— Assim fica fácil. – Falei irônico.

Deixei as minhas sacolas perto das dela e passei a jogar com ela. Brincar com a garrafa era engraçado. Por ser muito leve, por diversas vezes chutávamos forte demais ela ia pra longe, além de que quando íamos roubar a “bola” um do outro, sempre dava errado.

— Você está ouvindo a torcida, cabeça de algodão? – Apontou para as minis arquibancadas vazias. – Todos esses gritos são por causa do meu gol. – Provocou-me após ter passado pela minha defesa.

— Você chama isso de gol, Kurosaki? – Perguntei irônico e a morena me respondeu mostrando a língua.

Apesar da aparente energia, Karin estava cansada pelo dia de hoje e isso ficou bem claro devido ao fato de já estar ofegante novamente. Com 10 minutos de “jogo” ela voltou para onde deixamos as sacolas e sentou na grama mesmo, esticando as pernas. Pude ouvir seu suspiro enquanto me aproximava e reparei quando ela puxou a manga do casaco do braço direito. Um curativo branco e grande tampava seu cotovelo, contudo a cola dele parecia estar fraca.

O cotovelo machucado! Tinha me esquecido completamente e acho que ela também.

— Posso ver? – Questionei assim que me sentei ao seu lado.

Kurosaki se virou para mim e mostrou a área ralada, com o curativo pendurado apenas de um lado e parecia prestes a cair. A área estava vermelha e inchada, o centro estava bem machucado e em carne viva. Parecia limpo, pelo menos, e já não sangrava mais. Decidi não perguntar a causa daquilo, afinal, tinha feito isso mais cedo.

— Se você quiser, podemos voltar na loja e comprar mais curativos. – Ofereci.

— Não precisa, não tá ardendo mais. – Desviou do assunto.

Passamos a conversar sobre vários assuntos. Eles iam desde a última copa até as constelações que observávamos sentados ali. Era agradável falar com ela, apesar de sermos duas pessoas não muito sociáveis, o papo fluía fácil. Nós não concordávamos sobre muitas coisas, mas também não prolongávamos as discussões apenas algumas provocações.

Karin preferia o Liverpool, eu preferia o Manchester United quando se tratava do futebol inglês, já no espanhol ela ia de Real Madrid e eu de Barcelona. Ela gostava do verão – disse que era melhor para passear com a família -, eu gosto do inverno. Ela era unida com a família, já eu preferia nem tocar no assunto.

Éramos opostos em muitos assuntos e semelhantes em outros, e isso me parecia, de certa forma, adequado. Era divertido.

Após uma hora de conversa, que, como o resto da noite, passou muito rápido, ela se calou e um silêncio se instaurou entre nós, porém não era desconfortável. Longe disso. Até esses momentos sem palavras parecia certo.

— Eu falhei no teste físico de hoje. – Ela falou de repente, quase em um sussurro. Olhei-a de lado, mas a morena ainda encarava o céu. Seus braços se enrolaram ao redor de seu joelho e sua cabeça estava encostada nele.

— Por isso que você se machucou? – Prolonguei o assunto, já que ela parecia estar pronta para desabafar.

— Aham. – Suspirou. – Caí durante o pentatlo militar (N.A: realmente recomendo vocês procurarem alguns vídeos sobre isso no youtube, é até divertido assistir), fui desclassificada na mesma hora. – Eu continuava a encarar sua figura e vi quando abaixou seu rosto, olhando para a grama e seus olhos pareciam levemente marejados, mas ela claramente estava segurando as lágrimas.

— Você não pode fazer outra vez? – Perguntei para tentar aliviar.

— Só daqui a um ano. – Ela fungou um pouco, porém ainda não havia lágrimas. – Eu não sei como vou contar isso para o meu pai e Yuzu, ela já estava até preparando um bolo em comemoração. Por isso que não resisti tanto nessa sua pequena aventura. Pelo visto vou ter que ficar mais um tempo na academia. – Karin soltou um riso falso, satirizando a sua própria “desgraça”.

— Espera! Você se formaria se passasse nesse teste? – Perguntei confuso.

—Sim, eu viraria soldado oficial do exército. Já tinha passado nos testes teóricos, só faltava o físico. – Respondeu cabisbaixa.

— Entendi. Olha, não conheço seu pai, mas pelo que vi de Yuzu, não tem porquê dessa vergonha. Ela parece ser uma ótima irmã. – Tentei animá-la.

— Ela realmente é. Provavelmente vai tentar me incentivar a fazer outra vez, oyaji também, mas “EU” não consigo encará-los. – Apontou para si mesma e finalmente olhou para mim.

— Você não acha que tá se cobrando demais? Foi a primeira vez que fez esse exame. – Olhei-a sério para seus olhos brilhantes. – É normal falhar, todo ser humano falha e não se esqueça que você é um.

Ela arregalou os olhos pela minha seriedade e me olhou por alguns segundos antes que uma lágrima solitária escorregasse pela sua bochecha. Seu nariz começou a inchar e ficou vermelho. O que a garota tentava segurar mais cedo se rompeu e outras lágrimas passaram a seguir a primeira.

— Depois que minha mãe morreu, prometi para mim mesma que não choraria na frente da minha família, que nunca daria preocupações para ela. – Contava-me entre soluços e fungadas, enquanto limpava grosseiramente seu rosto molhado. – Eu sempre batalhei para ser independente e apenas levar orgulho ao meu pai e meus irmãos...

O fluxo de choro aumentou, fazendo com que cortasse o que estava dizendo. Não aguentei mais. Aproximei-me dela, ajoelhado, e a puxei fazendo com que seu rosto se encaixasse na curva entre meu pescoço e os ombros. Abracei-a de modo que pude passar os braços ao seu redor e uma das minhas mãos ficou em seu cabelo fazendo um carinho. Pensei que ela iria se afastar, mas me surpreendeu mais uma vez naquela noite ao agarrar minha blusa e continuar naquela posição, chorando.

Perguntei-me quanto tempo fazia desde que chorou daquela forma. Pela forma sentida que fazia isso, provavelmente anos. Senti-me honrado por ela confiar em mim, a ponto de se desmontar desse jeito e no fundo eu sabia que o mesmo sentimento crescia em mim. Karin, aparentemente, era uma garota da lei, visto a sua aptidão, então como ela reagiria ao meu passado – que justo naquele dia decidiu voltar para me atormentar-.

Ela ficou assim alguns minutos, abraçando-me, chorando e recebendo o afago no cabelo. Não vou mentir, parte do meu corpo começou a doer, sobretudo meus joelhos, mas eu acho que os dela também, já que logo ela se soltou de mim. Olhava-me envergonhada e vermelha, só não sabia se era pelo choro, ou pelo o que aconteceu. Talvez pelos dois. Ignorei o embaraço que crescia e voltei à minha posição sentada, assim como a Kurosaki.

— Se contar o que aconteceu aqui para alguém, te dou uma surra, cabeça de algodão.

Tentei segurar a risada, mas não consegui. Karin me ameaçava com uma cara irritadiça, porém fazia isso enquanto limpava seu nariz, que estava escorrendo, em um lenço de papel que tirou da mochila, além de seu rosto ainda estar bem inchado e sua voz anasalada. A carranca piorou quando me ouviu gargalhando e, como vingança, tentou jogar o pedaço de papel sujo em mim, porém errou, o que só aumentou minha crise de riso.

— Pare de rir, seu maldito. – Ela chegou perto de mim e empurrou meu ombro, fazendo-me cair deitado na grama, mas de nada adiantou para cessar minha gargalhada.

Apenas um tempo depois, ainda deitado, foi que consegui me controlar. Minha garganta estava seca e meus pulmões pareciam arder com a sessão de risadas, na verdade não só pela de agora, como pelas de mais cedo, quando estávamos no galpão. Acho que nunca ri tanto em um único dia.

— Idiota, para quem você acha que eu poderia contar? – Perguntei, encarando-a ainda deitado. – Só conheço sua irmã. – O rubor pareceu aumentar, assim como seu bico emburrado.

— Principalmente para ela que você não pode. – Levantei meu corpo e voltei a ficar sentado.

— Vai ser nosso segredo. – Sorri irônico para ela, mas em seguida voltei para a seriedade. – Mas você não acha que deveria contar pelo menos um pouco do que está sentindo? Eles são sua família, provavelmente querem cuidar de você, assim como quer cuidar deles.

— Acho que no fundo eu sei disso, mas é tão difícil. – Agora ela que me olhou com seriedade. – Não é fácil mudar os hábitos, Toushirou.

— Realmente não são. – Desviei os olhos dela e olhei para a grama, lembrando-me dos meus antigos vícios. – Mas com o tempo você consegue fazer isso, se realmente quiser.

Agora minhas lembranças que me deixaram depressivo e, pelo visto, a morena percebeu, assim como percebeu que eu não queria dar abertura agora. Ela pareceu entender e, o fato de ter respeitado meu espaço, fez-me admirá-la ainda mais.

— Chega dessa conversa triste. – Ouvi Karin exclamar ao jogar seu corpo para trás e deitar na grama, com a cabeça apoiada em sua mochila. Repeti sua ação, deitando-me novamente e apoiei minha nuca em meu braço. – Agora vamos falar sobre algo realmente importante: o prêmio para quem comer mais pizza no rodízio.

Passamos por mais uma rodada de conversa leve, ignorando o momento anterior. Dessa vez investimos também na comida e, cerca de uma hora e meia depois, apenas restavam as embalagens do que um dia foram salgadinhos e doces. Inclusive, descobri que Karin era voraz quando se tratava de chocolate ao comer quase uma barra inteira.

Após terminarmos tudo, ficamos apenas alguns minutos ali ainda e em seguida decidimos ir para casa. Passei a noite e a madrugada inteira ignorando o fato de que teria que trabalhar amanhã – no caso, hoje – ainda. Porém, pela enésima vez, pensei que tudo aquilo valia a pena. Além disso, Kurosaki parecia prestes a dormir ali.

Juntamos tudo rápido, jogamos as embalagens no lixo e nos encaminhamos em direção à moto. Olhei meu celular rápido e vi que já passavam das 4 horas da manhã, também tinha a resposta da pessoa para quem mandei mensagem mais cedo, mas ignorei por enquanto. Queria terminar aquela pequena aventura bem.

Não sei se é porque Karin estava com sono, ou por outro motivo, mas no caminho para sua casa ela estava quieta, realmente muito quieta. Mal se mexia atrás de mim e quando chegamos parei em frente à sua residência, seus movimentos pareciam devagar e nervosos.

Sai da moto para guardar o seu capacete e aproveitei para tirar o meu para poder despedir adequadamente dela. Quando a olhei, a morena desviou o olhar e apertou a mochila em seus ombros com força. O que será que aconteceu? Será que ela estava hesitante ainda para entrar?

Contudo tudo foi respondido quando ela se aproximou felina, agarrou minha nuca e me puxou para baixo, encaixando seus lábios nos meus. Eu encarava, sem reação, com os olhos arregalados os seus fechados, além de suas bochechas muito vermelhas.

Minha falta de reação pareceu minar sua confiança e eu percebi quando suas mãos em minha nuca começaram a tremer. Isso me fez despertar de meu torpor. Agarrei sua cintura fina por cima do casaco e tomei controle do beijo, dessa vez colocando a língua junto. Pelo jeito que nossas línguas dançavam, ficou claro que Karin não era “virgem” no assunto e eu não reclamei, afinal, pelo que experimentava, ela beijava bem.

Sentia-me no paraíso.

Paramos quando ouvimos uns barulhos vindos de sua casa e uma luz no segundo andar foi acesa. Separei-me dela com pesar, já sentindo falta de seu corpo próximo ao meu, e ela pareceu se sentir assim também, pois me olhou frustrada, não comigo dessa vez. Olhamos para o local iluminado e pude ver uma figura grande, que tentava inutilmente se esconder atrás da cortina para nos olhar, mas a luz que vinha detrás revelava toda a sua silhueta.

— Velho idiota. – Karin falou entre os dentes, brava.

Eu esperava que ela fosse dizer alguma coisa para mim, mas a morena apenas virou as costas, ignorando que eu ainda estava ali, frustrado por ser interrompido e chocado pela forma como a noite acabou. Passou pelo portão rapidamente, mas antes que entrasse pela porta, voltou-se para mim e ergueu seu próprio celular. Entendi seu recado e no mesmo instante acenei. Karin sorriu para mim tímida uma última vez antes de entrar.

Ainda fiquei alguns segundos encarando com um sorriso bobo por onde ela entrou. Juro que poderia dançar e dar pulinhos nesse momento de tamanha foi a euforia que me tomou. Dei uma última olhada na janela aonde – eu supunha – seu pai estava, ele ainda me vigiava por trás das cortinas e continuou assim até que vi a sombra de uma perna chutando as suas costas, fazendo-o cair. Eu sabia muito bem de quem era aquela perna.

Notas finais
Boa noite. Tudo bem? Como vcs estão? Esse capítulo não poderia ter caído em final de semana melhor ou pior (depende da perspectiva). Meu pais viajaram para minha cidade natal para resolver umas coisas, mas eu decidi não ir junto por causa do corona. Essa semana eu virei alguém de risco, pq eu tirei meu siso na quinta (minha cara tá toda inchada e doendo) e por isso meu sistema imunológico fica bem frágil e extremamente suscetível ao vírus, caso eu seja contaminada. Como to aqui sozinha e sem poder fazer muito esforço, tive bastante tempo e sossego para revisar. Como eu escrevi lá em cima, esse foi o que eu mais gostei de escrever (tanto é que o título levou o nome da música). A inspiração pra ele foi um pouco pessoal. Eu sou muito infantil para algumas coisas (na vdd pra várias) e uma dessas é em relação a brinquedos. Eu amo parque de diversão, brinquedo de shopping, pula pula e tudo que (infelizmente T.T) eu sou proibida de entrar kkkkkkk. Então quando penso em um primeiro encontro perfeito, teria que ser em um lugar que tivesse muita diversão e eu quis passar esse meu sentimento para esse capítulo. Vocês também são crianções assim? E aí? Gostaram? Dando um spoiler: o capítulo da próxima semana também vai ser grande e vai deixar bem quentinho o coração de vcs (talvez não só o coração). Mas é isso aí. Bjos e até logo.