Blinding lights
5 I've been on my own for long enough
Notas iniciais
Eu lembrava da nossa primeira vez, mas ao invés de ficar excitado, dava-me tristeza e saudades. Fora especial e com qualquer outra mulher, muito menos com a garçonete, não seria daquele jeito.
O resto da viagem seguiu normal, porém adicionado a um pouco mais de intimidade. Karin parecia ter ganhado mais confiança comigo e ficado mais à vontade, assim como eu. Mesmo com pouco tempo de relacionamento – que nós nem havíamos definido o que era ainda – também poderia dizer que estava imerso naquilo e não tinha nem um pouco de vontade de sair.
Quando cansei daquela lanchonete, deixei dinheiro sobre a mesa equivalente a xícara de café e sai apressado pela porta. Não ligo se a moça que trabalhava ali achou suspeito, apenas precisava de ar fresco. Minha garganta tinha começado a apertar com a última memória – e talvez uma das mais preciosas – e eu sentia meu interior começar a desmoronar.
Eu sinto saudades dela, e muita.
Mas ainda não era motivo para a procurar. Ela está melhor sem mim, isso é um fato. Seria egoísmo ir atrás dela. Porém, ao mesmo tempo, lembrei do momento que eu percebi que aquilo não era uma paixão, era amor. Eu a amo e é provável que eu tenha sido o primeiro a perceber esse sentimento, o problema é fazer com que isso seja o suficiente em um relacionamento.
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Era dia 23 de dezembro e o shopping de Karakura estava um inferno de lotado. Pensei comigo mesmo “Por que diabos as pessoas sempre deixam para comprar os presentes em cima da hora?”, mas lembrei que estava ali pela mesma razão. Ainda estava aproveitando da semana que meu chefe me deu de folga por causa da viagem e do Natal.
E que viagem!
Cada vez que lembrava de cada momento um sorriso bobo surgia no meu rosto, mas eu tentava reprimir rapidamente. Nada que eu tivesse desejado de aniversário além daquilo teria sido tão perfeito quanto foi. Porém, depois que voltamos não nos vimos mais, apenas trocamos mensagens. Até pensei em chama-la para me ajudar, mas eu também pretendia comprar um presente para ela, então teria que lidar com aquilo tudo sozinho.
Puxei meu celular em meu bolso e coloquei na mensagem que recebi de uma loira — extremamente irritante – mais cedo. A cara de pau teve a pachorra de exigir um presente e ainda me mandou uma lista com coisas que queria. Uma veia saltou em minha testa quando percebi o quanto de coisa de marca que tinha ali. Quanto ela acha que ganho pra me pedir uma bolsa Louis Vuitton? Abusada e folgada. Não haviam outras duas palavras melhores para descrever aquele ser humano. Procurei pelo item mais barato da lista e seria apenas aquilo. Se reclamasse iria ganhar nada.
Logo estava sentado na praça de alimentação com algumas sacolas ao redor e com um pedido de sanduíche nas mãos, ansioso para voltar para casa. Sempre odiei lugares tumultuados e aquele shopping passava dessa definição, contudo, quando estava quase terminando, avistei de longe uma garota baixa de cabelos pretos. Eu sabia muito bem quem era. Tentei esconder rapidamente parte dos presentes antes que me notasse, mas então tomei um baque quando a vi de novo.
Karin esperava na fila do fast food e ao lado havia chegado um garoto alto de cabelos ruivos. Ela parecia distraída olhando para o celular e pareceu tomar um leve susto quando ele chegou e passou o braço ao redor de seus ombros, mas logo abriu em sorriso realmente feliz em realização de quem era. Kurosaki conhecia quem era e pela sua reação eles eram próximos, realmente próximos. Mesmo que aquele contato não tenha durado muito, eles ficaram lado a lado conversando e muitas vezes ela ria junto dele.
Eu odiava aquele sentimento de insegurança que me dominou, mas quando percebi já estava tomado pelos ciúmes. Minha vontade era de ir lá e afastar ele dela, porém eu sabia que não era correto. Então, mesmo com toda aquela raiva, decidi fazer nada. Não adiantava fazer algo de cabeça quente, apenas iria criar confusão desnecessária, e eu optei por confiar nela.
Eu realmente confio nela; se não fizesse isso, não estaria pulando de cabeça naquilo tudo que estava acontecendo entre nós. Também sabia que era mútuo. Eu sentia que a morena confiava em mim, tanto quanto confio nela. Porém todo nosso relacionamento era recente e eu não estava com estômago para assistir a tudo aquilo.
Peguei minhas coisas rapidamente, levei o lixo e a bandeja até as lixeiras e sai rápido do shopping antes que ela percebesse minha presença. Uma atitude certamente infantil, mas era melhor que confrontar Karin. Esperaria para quando tivesse de cabeça fria. Se fosse um amigo, seria até bom me aproximar dele para fortalecer nossa ligação. Certo? Mas não seria hoje.
...
Naquela mesma noite Karin me convidou para passar a véspera de Natal com sua família e, com isso, refleti. Eu ainda não havia dito sobre minha vida, sobre a minha própria família. A morena sabia nada sobre ela. Será que já era hora de contar algumas coisas? Como ela reagiria com aquilo tudo?
Kurosaki sempre pareceu para mim o modelo exemplar de filha, de amiga, de estudante e de todas as categorias. Como ela mesma me falara, eu era um dos poucos que já viu seu lado sensível e falho. Sua confiança em mim me assustava e, por mais que a adorasse, tinha medo de perder. Sempre ouvi que confiança é uma via de mão dupla e eu não estava estabelecendo o meu sentido da pista.
Eu neguei seu convite, mas rebati com outro: convidei-a para almoçar comigo dia 25 e ela aceitou. Não questionou mais que isso, o que eu achei ótimo. Deixaria para explicar melhor as coisas cara a cara.
...
Quando acordei no dia 25 já passava das 11 horas. Raramente dormia até tarde, mas a véspera de Natal, imagino que para quase todas as famílias que comemoram, sempre ia até de madrugada e o meu caso não foi diferente. Cheguei em casa já era mais de 3 horas da manhã e doido para dormir.
Assim que me levantei, mandei mensagem para Karin perguntando que horas eu a buscaria e ela me respondeu pedindo o endereço de onde almoçaríamos. Falou que precisava resolver algumas coisas e logo depois me encontraria. Não sei o que teria para fazer quando tudo estava fechado, mas também não questionei, apenas passei a localização.
Quando foi 12:30 já estava de volta ao local que também passei a véspera. O cheiro de comida invadiu minhas narinas e eu sabia que provavelmente eram as sobras de ontem. Além disso, já do portão dava para ouvir uma voz alta e irritante. Suspirei antes de entrar.
Certamente seria um almoço caótico.
Devido ao barulho alto, as duas mulheres que estavam na cozinha não me ouviram e, por isso, deixei minhas chaves caírem de uma altura maior que a normal na mesa para que percebessem minha presença. Logo que me viram, a mais velha andou o mais rápido que sua idade permitiu e veio me abraçar. Quando me soltou fui esmagado imediatamente em um par de seios salientes e que me asfixiaram por um curto momento. Empurrei-a, tentando respirar novamente.
— Matsumoto, quantas vezes já disse para não fazer isso? – Perguntei irritado e bem envergonhado, mesmo que já tivesse acontecido várias vezes.
— Mas não é minha culpa se você é baixinho e bate na altura dos meus peitos. – Ela falou manhosa, tentando parecer inocente.
— Baixinho!? – Meu tom de voz aumentou e uma veia pulsou em minha testa.
Fomos interrompidos pela outra presença no cômodo.
— Pare de provocá-lo, Rangiku-chan. – A senhora a repreendeu suavemente.
— Hai, hai. – A loira falou enquanto voltava para perto do fogão. – Haru baa-chan quer que terminemos rápido aqui já que a sua nova namorada vai chegar logo.
Pensei em discutir sobre o termo ‘namorada’, porém não havia muito que fazer. Éramos quase isso, né? Logo entendi o recado e fui fazer minha parte para que o almoço saísse logo. Coloquei tudo o que precisávamos na mesa e a arrumei, tomando um cuidado e atenção que normalmente não tinha. Haru havia notado e por consequência seu sorriso – que já era constante em seu rosto – se alargou, mas não comentou com a loira. Ignorei-a e continuei com as minhas tarefas.
Quando foi mais ou menos 13 horas, ouvi meu celular tocando e o nome da que estávamos esperando apareceu na tela. Pedi um minuto para atender e antes que sumisse dali, vi em seus rostos sorrisos amplos para mim.
— Você já tá chegando? – Perguntei logo que atendi.
— Acho que já estou na rua, mas não tenho muita certeza. – Seu tom de voz parecia incerto e eu ouvi uma voz masculina ao seu lado, mas não identifiquei o que falava.
— Se você quiser, eu posso ir para a frente te esperar. – Falei já me dirigindo para a entrada.
— Isso! – Ela exclamou antes de desligar na minha cara.
Já estava no portão quando um carro preto apontou no final da rua e eu tinha quase certeza que era ela. Confirmou-se quando ele parou em minha frente e do lado do carona saiu uma garota morena e agitada. Pelo vidro da frente pude perceber quem estava dirigindo: era o mesmo cara do shopping. Pensei que ele iria apenas deixa-la ali e em seguida sair, então me assustei quando desligou o motor e desceu.
Ele era grande, pelo menos 20 centímetros de diferença e, quando chegou ao lado de Karin, fez a morena parecer minúscula. Se eu era quase do mesmo tamanho que ela, então também ficaria bem baixo perto dele. Seu cabelo ruivo era rebelde e os fios iam em todas as direções. Seus olhos eram ferozes e ele parecia bravo, porém analíticos quando se virou para mim.
— Então é esse cara aí que você está saindo? – Ele perguntou sério e cruzou os braços ainda olhando para mim.
— Deixa de ser ridículo, Ichi-nii. – A morena o empurrou, fazendo com que saísse de sua pose.
‘nii’?
Então ele é seu irmão? Ele até parece com Yuzu, mas com Karin havia quase nada de semelhança.
— Poxa, karin, deixa eu bancar o irmão durão. – Ele reclamou, agora com um tom levemente humorado, com a morena e massageava a área que fora empurrado.
— Reclama do velho, mas tá fazendo igualzinho a ele. – Ela parecia impaciente. – Vai logo embora daqui. Yuzu tá te esperando.
Com a mão que estava livre – a outra segurava algumas sacolas – ela o empurrou em direção a porta do carro para que entrasse e ele foi pra lá sem muita resistência, apenas o suficiente para irritar Karin.
— Tá bom, tá bom. Já estou indo. – Falou quando chegou à porta, mas antes que entrasse, virou-se para mim de novo. – Traga-a de volta até no máximo 7 horas.
Após o momento estranho – que eu mal consegui reagir – ele foi embora e nos deixou ali sozinhos. Olhei para trás, esperando encontrar dois pares de olhos curiosos, mas aparentemente as duas decidiram nos deixar em paz por enquanto. Senti um toque em meus ombros e me virei para Karin, mirando seus olhos interrogativos.
— É aqui que você mora? – Ela analisava tudo ao seu redor.
— Não, a minha vó que mora aqui. – Segurei suas mãos geladas na minha e a puxei para que entrássemos. – Vamos, o almoço já está pronto.
Abri a porta de correr da entrada e, com isso, eu senti o aperto de sua mão aumentar quando caiu a ficha que não seria apenas nós dois. Ela puxou minha mão, impedindo-me de seguir até onde estavam as duas mulheres e sussurrou em meu ouvido.
— Você não me avisou que comeríamos junto da sua família.
— Esqueci. – Menti de forma descarada.
Olhou-me brava, mas antes que completasse a reclamação, fomos interrompidos.
— Olha que fofos, Haru baa-chan, eles são do mesmo tamanho.
Karin olhou assustada em direção à voz e sua boca abriu em surpresa quando seus olhos recaíram sobre a loira. Matsumoto realmente era impactante a primeira vez, mas já na segunda faz você querer fugir. A idosa, verdadeira dona da casa, surgiu ao seu lado e logo deu um sorriso gentil a garota.
— O..o...olá. – Aquela tinha sido a primeira vez que a vi gaguejar, porém logo se recompôs. – Eu sou Kurosaki Karin, prazer em conhece-las. – Curvou-se em respeito.
— Ela é muito bonita, Toushirou-chan. – Haru se apressou em falar e se aproximou de nós. – Também é prazer conhecer você. – Curvou-se, também, o máximo que deu.
— Vem, Karin-chan.
Um furacão loiro passou por nós e a arrastou para a área aonde comeríamos. A mesa redonda, completamente pronta, contava com sobras da ceia de ontem e mais algumas sobremesa novas. Como era um feriado bem ocidental, boa arte da comida era composta por elementos exteriores e não tão comum no dia-a-dia japonês.
Quando cheguei no local, Matsumoto já havia empurrado Karin para sentar ao seu lado e falava incessantemente com ela, mesmo que muitas vezes a morena não tivesse tempo de responder tudo. Seus olhos me caçaram e por eles pude perceber quase um pedido de socorro, mas poderia fazer nada por ela. Nem eu e nem ninguém conseguia aquietar a loira.
— Sente ao lado dela, também. – Haru falou ao meu lado e me deu um sorriso gentil.
Rapidamente fiz o que falou e puxei a cadeira ao lado da morena, que não estava ocupado. Sua mão caçou a minha por debaixo da mesa de forma imediata e eu a segurei, porém ela continuava virada para Rangiku. Quando a ‘anciã’ dali sentou, a loira finalmente se calou e abaixou a cabeça já sabendo o que viria e eu também.
Haru, que era cristã, rapidamente agradeceu pela comida e orou um pouco. Eu não sou cristão, assim como Matsumoto, mas respeitávamos aquele momento, pois sabíamos que era importante para a idosa. Olhei, ainda de cabeça abaixada, para Karin, percebi que ela nos copiava e prestava atenção na mais velha.
— Amém.
Assim que ouvimos a palavra mais esperada, a movimentação dos pratos começou. Matsumoto foi a primeira a colocar comida e em seguida fomos nós. Sem cerimônias ou vergonha, agora, Karin colocou tudo e a quantidade que queria e isso fez Haru sorrir satisfeita.
Durante o almoço, a três mulheres conversavam alto e riam bastante. Mesmo com a personalidade bem fechada, eu também interagia, porém de forma mais contida. Várias perguntas foram direcionadas, principalmente por parte da loira, para Karin e ela as respondeu da melhor forma que pôde.
Olhando toda aquela interação, um sentimento que eu poderia descrever como paz me dominou. As três pessoas mais importantes de minha vida – mesmo que eu não gostasse de admitir — estavam ali, reunidas, conversando e rindo juntas. Eu estava genuinamente feliz e torcia para que muitos momentos como aquele ocorressem mais vezes.
Após o almoço, Karin me ajudou a arrumar a cozinha por mais que eu insistisse que não precisava e sentamos no jardim do fundo com as sobremesas. A morena devorava a torta de chocolate junto de Matsumoto, já eu focava nos amanattos, assim como vovó.
Quase ao final da tarde, chamei Karin para dar uma volta pela vizinhança e cá estávamos andando pelas ruas próximas à casa. Sua mão estava junto da minha e juntos esquentavam. Estava nervoso, muito nervoso, mas precisava lhe falar tudo.
— Sua família é fantástica. Toush. – Ela falou quebrando o silêncio primeiro.
— Sim, é. – Suspirei, tomando coragem. – Tenho uma coisa para te contar.
Seus olhos foram em minha direção e por eles li tudo o que precisava. Eles me transmitiam confiança e atenção.
— Haru baa-chan não é minha vó de verdade e nem Matsumoto é minha irmã, ou qualquer tipo de relação que a nossa se assemelha. Não tenho pais, nem família de sangue, mas considero as duas como uma.
Chegamos em um parquinho vazio, soltei sua mão, segui em direção aos balanços e sentei em um deles. Logo em seguida Karin sentou no balanço ao meu lado. Não balancei, apenas movimentava levemente meus pés. A morena ficou quieta, esperando o que eu tinha para dizer.
— Não sei que idade ao certo eu fui para lá, mas em todas as minhas memórias de criança eu já estava morando em um orfanato. Não era um lugar ruim, era cheio de crianças, mas também não era bom. Era muito solitário e no final do dia, por mais que brincasse bastante, eu ia dormir sem um abraço ou um beijo de boa noite.
“Por causa do meu temperamento, da minha inteligência – eu sei que não parece, mas eu sou bem inteligente – e do meu cabelo branco, nenhum casal quis me adotar. A ideia de uma criança crítica e mais esperta que um adulto, assustava quase todo mundo, até mesmo as pessoas que cuidavam do orfanato. Além disso, eles achavam que o branco do meu cabelo era uma doença. Pode ser, não sei muito bem o porquê de ele ser assim, mas como nunca pareceu afetar minha saúde, não procurei saber.
Eu sabia que quanto mais velho ficasse, menor a chance de ser adotado e quando fiz 13 anos, a esperança realmente acabou de vez. As crianças do orfanato iam todas para escolas públicas próximas dali e a partir dessa idade eu parei de ligar para tudo que envolvesse meu futuro. Antes eu era considerado um prodígio, um gênio. Só tirava nota máxima e era aluno destaque, mas eu desisti de tudo aquilo. Passei a faltar aula e as minhas notas começaram a cair. Isso quando ia fazer prova, a maioria eu não fazia. Quase repeti de ano diversas vezes, mas sempre conseguia me livrar disso na última hora.
Com 15 anos comecei a sair com a galera do “fundão” e foi aí que tudo desmoronou de vez. Foi com eles que bebi pela primeira vez, mão não foi só isso. Quem me dera fosse só o álcool.”
Minha boca estava começando a ficar seca. Não era por estar falando bastante e sim pelo medo. Eu estava aterrorizado. Não conseguia encarar Karin enquanto falava, mas eu sabia que ela estava prestando atenção. Engoli em seco, tomei coragem e continuei.
— Lembro da primeira vez que usei algo mais pesado. A euforia, o sentimento de prazer e tudo de ruim que estava ao redor ia para o fundo da minha mente. Por breves momentos – questão de minutos – eu não era mais o garoto órfão, que nunca conseguiu ser adotado, na verdade eu virava nada e esse nada era a melhor coisa para quem tinha dúvidas de sua própria identidade.
“Nesse meio que conheci Matsumoto. Ela era como eu, uma presa fácil e indefesa naquele meio descontrolado, no qual levava o melhor aquele que não tivesse vícios. Ela nunca me falou quem eram seus pais, se os tinha, apenas soube que a única pessoa em sua vida era seu namorado, que era um viciado e devedor até seu último fio de cabelo. Ele a envolveu naquele mundo e Matsumoto chegou a se afundar até mais que ele.
Foi assim até meus 18 anos, quando fui chutado do orfanato. Apesar de passar vários dias sem ir lá, legalmente ainda morava naquele lugar, mas ao virar maior de idade eles já não tinham nenhuma obrigação comigo. Acho que eles nem queriam ter, afinal, fui um adolescente muito problemático. Morei na rua por mais de um ano, muitas vezes dormia na casa de alguns dos viciados, mas a maioria deles também não tinha moradia fixa. Estava lotado de dívidas e eu fazia qualquer bico que fosse desde que tudo começou para pagar pelo meu consumo.
Dormi muitas vezes na casa de Matsumoto e de seu namorado – se é que aquilo dava para chamar de casa –. Já naquela época, ela implicava comigo como se fosse minha irmã – claro que só acontecia nos momentos que estávamos sóbrios – e muitas vezes nos apoiávamos, mesmo inconscientemente.
Conheci vovó Haru em um dia que havia acabado de apanhar do traficante local mais uma vez por não ter conseguido pagar tudo no prazo. Ela me encontrou desmaiado na rua e de imediato chamou uma ambulância. Fiquei internado por duas semanas e, durante esse tempo, ficou comigo todos os dias. No começo eu não quis interagir com ela, mas pouco a pouco fui me adaptando à sua presença e até gostando.
Assim como eu, ela não tinha família. Quase todos haviam morrido e, os poucos que restaram, abandonaram-na, então vivia sozinha. Após ter recebido alta, insistiu que eu ficasse alguns dias em sua casa para me recuperar melhor e eu acabei aceitando, por mais que sentisse que a estava explorando. Os dias com Haru foram agradáveis, mas difíceis. Eu sentia os efeitos da abstinência e o quanto isso me deixava nervoso. Vovó também percebeu meu estado, mesmo que tivesse contado nada, e fazia de tudo para me distrair.
Esse tempo que passei em sua casa foi um divisor de águas em minha vida. Ela me tratava como seu próprio neto e eu, inconscientemente também, passei a considerar como avó. Haru me fez ver muito além daquele poço no qual me afundei e pela primeira vez me importei com alguém além de mim, se é que eu fazia isso comigo.
Ela me incentivou a ir e me acompanhou à clínica de reabilitação. Não foi algo fácil, mas com ela ao meu lado, consegui me recuperar. Arranjei meu primeiro emprego de carteira assinada como caixa de supermercado e pouco a pouco fui pagando a dívida que tinha com os traficantes e com vovó, por mais que insistisse que não havia o que pagar.
Com 20 para 21 anos eu já era uma pessoa completamente diferente. Consegui pagar toda a minha dívida e morava de aluguel em um apartamento, o mesmo que moro até hoje. Tinha planos de faculdade, que infelizmente ainda não consegui cumprir, e sonhos de novo. Claro que tive minhas recaídas, mas sempre que isso acontecia Haru estava ao meu lado, deixando claro que nunca estaria sozinho de novo. Em um dia, próximo de onde eu morava, encontrei aquela que também se tornou minha companhia nos dias solitários e graças a Hinamori que pude te conhecer.
Foi nessa época que me encontrei de novo com Matsumoto, não a via desde que vovó havia me socorrido. Nos esbarramos quando estava voltando do trabalho e foi da pior maneira possível. Ela parecia drogada, fora de si e talvez por isso não estivesse se defendendo do homem que estava a assediando. Não sabia quem era, mas ele tentava forçar... você sabe o que ele estava tentando.
Naquele dia a salvei e fiz como Haru havia feito comigo. Levei Matsumoto para minha casa e a esperei ficar sóbria para que me contasse o que aconteceu. De acordo com ela, seu namorado a deixou, perdeu a casa que vivia e naquele momento estava nas ruas também. Ouvindo-a me fez recordar de tudo o que aconteceu e como consegui mudar. Decidi que a ajudaria também.
Vovó a adotou de imediato como neta e, além do meu apoio, Matsumoto teve todo o suporte que eu tive. Claro que sua recuperação também foi difícil, mas, como deu pra ver hoje, estamos todos bem e viramos uma verdadeira família. Passamos os feriados como o Natal e ano novo juntos, mesmo que cada um more em uma casa diferente agora.”
Quando percebi que havia falado tudo que precisava, um nó cresceu em minha garganta e eu tinha certeza que conseguiria dizer mais nada. Um silêncio se instalou entre nós. Tinha curiosidade de saber como Karin estava reagindo a tudo que contei – afinal, não é todo mundo que reage bem ao um passado como esse -, mas eu continuava sem coragem para olhá-la.
O silêncio durou um minuto mais ou menos, contudo para mim pareceu uma eternidade. Minha mão suava, ainda que estivesse frio, meu coração batia aceleração e eu sentia uma angustia muito grande. O medo de que ela virasse as costas para mim era grande e preferia que não a visse fazer isso, mas se ela quisesse, não insistiria.
Mal ouvi quando a morena se levantou do balanço e apenas percebi quando parou em minha frente. Desse modo eu ficava da altura de sua barriga. Assustei-me quando ela afundou os dedos em meu cabelo e puxou minha cabeça para que recostasse sobre sua blusa, enquanto acariciava meus fios.
Dessa vez era eu que estava frágil, mas, assim como ela fez comigo, deixei que extravasasse por todo o meu corpo e logo estava chorando igual a um bebê. Chorando pela frustração de não saber quem eram os meus pais, chorando por nunca ter sido escolhido por um casal, chorando por ter sido largado por quase todos como um adolescente sem salvação e chorando de agradecimento por ter conhecido pessoas incríveis, como as três com quem almocei hoje.
Karin ficou quieta por todo esse tempo, apenas acariciando meu cabelo, e as minhas mãos, quando me acalmei, acariciaram a parte de trás das coxas dela, de modo inocente. Sexo era a última coisa que passava pela minha cabeça naquele momento.
Ali, com ela me abraçando no meu momento de maior fragilidade, percebi que adiantava fazer mais nada contra. Eu já a amava.
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