A área destinada ao décimo terceiro esquadrão era uma das mais agradáveis de viver. Por estar ali há alguns anos, Kenshin conhecia o território como se fosse a palma de sua mão. Cada cômodo, cada árvore e até mesmo a área do lago próxima ao seu território. A sensação de possuir aquilo tudo era um tanto estranha, mas aos poucos iria se acostumar com a ideia de que tudo seria feito do seu jeito.

Andava vagarosamente por cada parte daquele território que era do tamanho de um bairro. Com um bloco de notas em mãos, anotava e desenhava projetos para o novo esquadrão que iria comandar. O general havia prometido todo suporte necessário nas mudanças a serem feitas. Passou o resto do dia e a noite inteira acordado elaborando e anotando os seus planos e ideias.

O relógio marcava cinco da manhã e seus olhos não aguentavam mais ficarem abertos. Adormeceu encostado em uma árvore em um sono tão profundo quanto de uma criança despreocupada. Não dormiu nem duas horas por causa do sol batendo em seu rosto e levantou-se lentamente, se espreguiçando com os braços pra cima.

— Waaaaaaaaaaaaaaaahhhh, aaahhh, ah, nhiac nhiac. – fazia sons estranhos ao acordar.

Pálido e com olheiras bem funda, o rapaz parecia um ‘zumbi’ andando até o dojo e organizando os papéis com os projetos no canto de uma estante. Deitado ali mesmo no tatami adormeceu novamente para repor as suas energias. Com os braços e pernas abertos, relaxava do melhor jeito que podia.

Algumas horas se passaram e estranhando a ausência do capitão da décima terceira divisão, Hanabira já estava impaciente. Aflita, levantou-se da cadeira em sua sala e saiu caminhando apressadamente com ‘cara de bolacha’ mostrando a sua leve irritação.

— Aquele idiota... Não é possível que não tenha nenhuma dúvida! Por que será que ainda não veio? Deixei todos os meus compromissos de lado por causa dele! – bufava e resmungava para si mesma.

— Maninha arrumou um namorado? – disse uma voz infantil.

— Ahn? – assustou-se ao ser pega de surpresa pelo comentário e ficou vermelha. — Mas é claro que NÃO! E não me assuste desse jeito, Aiko!

— Hi, hi, hi, hiiii...

Com um risinho infantil demonstrando não acreditar nas palavras da capitã, a garotinha com cerca de um metro e nove centímetros de altura, apenas 15 quilos, cabelo Chanel de coloração loira igual a da irmã mais velha e um sorriso contagiante no rosto constantemente alegre, se aproximou da capitã e pulou em suas costas, onde entrelaçou as pernas e a abraçou pelo pescoço.

— Pra onde vamos hoje, maninha? – questionou inocentemente.

— Aiko, eu tenho um compromisso onde preciso ir sozinha! – respondeu em tom irritadiço.

— Ahááá, vai ver o namorado secreto! Que kawai a minha maninha arrumou um namorado, mas eu quero conhecê-lo pra ver se aprovo, rum. – fez um sonzinho com a boca igual a irmã costumava fazer.

— A capitã tem namorado..? – cochichos dos shinigamis do esquadrão 7 eram ouvidos.

— CALEM A BOCA E VOLTEM AO TRABALHO! – ordenou em alto tom, andando para fora do local.

— Si.. Sim! – responderam trêmulos e correram com a papelada.

Andando apressadamente, a capitã passou por alguns corredores até chegar na área florestal do décimo terceiro esquadrão.

— Maninha? Por que estamos no décimo terceiro esquadrão? – questionou a menina sem entender.

— Eu não te disse ontem? Nós temos ordens para apoiar a reconstrução da divisão 13. – respondeu impacientemente, desejando encontrar logo o capitão.

— Legal, que legal! Vou poder ver o novo capitão! Ele deve ser incrível, poderoso e legal igual o Kyubei-chi! – disse empolgada.

— Na verdade, ele... – respondeu a capitã, abrindo a porta do dojo e dando de cara com a figura do rapaz adormecido no chão. — Então estava dormindo?

Hanabira cerrou os punhos e seus olhos estavam ardentes como se quisesse enchê-lo de porrada. A pequena Aiko pulou de suas costas e correu até o rapaz, onde olhou-o minuciosamente antes de pegar uma canetinha e fazer expressão de quem vai aprontar. Desenhou um bigode e uma barbicha no rosto de Kenshin, finalizando com três riscos em cada bochecha como os do Naruto. O estresse da capitã desapareceu ao ver aquela cena e ambas começaram a gargalhar alto.

Rapidamente ela pegou a canetinha da mão da irmã e olhou para o indefeso shinigami com um sorriso maquiavélico.

— Eu vou ensinar a ele não dormir em serviço, bwa há há há há! – falou sussurrando para a irmã, se abaixando de modo a se aproximar do rosto de Kenshin para rabiscá-lo melhor.

— Isso, vai maninha!

A voz de Aiko era tão aguda que acabou acordando Kenshin, que se levantou tão bruscamente a ponto de colocar o seu rosto – sem querer – entre os peitões da capitã. Extremamente corada, ela ficou imóvel durante alguns segundos.

— Aré? – murmurou o rapaz entre os peitos da capitã. Como se não bastasse, colocou uma das mãos e o apalpou.

— SEU ABUSADO! – gritou Hana, enfurecida, quando o pegou pela gola do kimono e o arremessou contra a parede.

— Ooooooohhhhh. – não entendia o por que sua irmã havia ficado tão brava, era inocente de mais.

Caído no chão com os olhos de “Pokémon derrotado”, Kenshin ficou alguns segundos com a mão na cabeça. Preocupada com o rapaz, Aiko correu até lá e o abanou com as folhas de papel que havia encontrado no meio do caminho.

— Aii, ai... O que tá acontecendo aqui? – indagou com dores de cabeça.

— A maninha ficou brava por que você fez boing boing nos peitos dela e te jogou igual uma lança na parede, há, há, há, há! – a menina achava engraçado e gargalhava.

— AIKO! – gritou Hana, envergonhada e irritada.

— Ahn? Eu não fiz nada! Quando levantei, dei de cara com uma maciez indescritível e...

POW. Hanabira jogou uma espada de bambu na cabeça do rapaz, que novamente caiu pra trás com os olhos girando e um galo na testa.

— CALADO! – ordenou a capitã, com o rosto completamente vermelho.

— Maninha, posso riscar ele de novo? Há, há, há, há, há!

Depois que as coisas se acalmaram, Kenshin, Hanabira e Aiko estavam sentado sobre seus joelhos como de costume no Japão. O jovem explicava suas ideias, planos e o que fez na noite passada com muita calma, enquanto as duas tentavam não rir das pinturas no rosto dele.

— Hum, muito bom. Irei levar o seu projeto comigo e irei comentar cada tópico para ajudá-lo a aperfeiçoar esta ideia. – decidiu a capitã, enrolando os papéis e o colocando entre os braços.

— Obrigado, Hana-san. – agradeceu o rapaz, curvando-se lentamente.

— Ken-chan! Posso vim brincar com você de vez em quando? – questionou a criança com os olhos brilhando.

— Claro! No meu tempo livre, posso brincar com você, Aiko-chan. – sorriu em resposta e colocou a mão na cabeça dela.

— Cara de bobo com bigode! Há, há, há, há, há, há! – apontou o dedo para o rosto do rapaz e riu.

— Hum? Bigode? – sem entender, colocou a mão no rosto.

— Desculpe-me por isso, capitão Ryota, a minha irmã é um pouco travessa... – pegou um lenço e esfregou no rosto do rapaz para tirar a canetinha. Ao olhar e ver a cara de pentelha da garota, ela jogou o pano no rosto de Kenshin. — Termine isso! Tenho trabalho a fazer, estou saindo! Rum!

Inquieta, ela se levantou e caminhou alguns passos, enquanto o jovem capitão observava-a sem entender tais reações contraditórias. Antes de sair do cômodo, ela olhou para trás de maneira desafiadora e lançou um desafio que refletia toda sua curiosidade acerca da força de Kenshin.

— Que tal duelarmos após o pôr do sol? Também estou curiosa a respeito das suas habilidades, capitão Ryota! – sorriu como uma “Femme Fatale”.

— Ah... Não estou com vontade. – respondeu sem ânimo, com olhar de peixe morto.

— Por que? – questionou, não gostando do tom dele.

— Preguiça. Isso também não valeria nada, então não há motivos para duelar. – refutou bocejando.

— E se fizermos uma aposta? – encarou o capitão de modo desafiador.

— Se o Ken-chan vencer, ele poderá fazer boing boing nos peitos da maninha! – intrometeu-se Aiko. — E se a maninha vencer, Ken-chan vai ter que brincar comigo e responder as perguntas da maninha! Eeeeeeeeeeeeeeee!

— Aiko! Não inter...

— Fechado! – colocou o lenço na frente do sangramento nasal e fez sinal de positivo.

— Não! Fechado é o caralho! – retrucou Hanabira.

— Maninha está com medo? – indagou Aiko inocentemente.

— Rrrrrrr. Tá. TÁ! FECHADO! RUMMM! Eu não vou perder mesmo. – bateu a porta antes de sair emburrada e gritou lá fora. — E não precisa me devolver esse lenço, SEU ABUSADO PERVERTIDO!

— Érm... – gaguejou sozinho.

O capitão se levantou e andou vagarosamente até a outra porta. Saindo do seu esquadrão, ele se dirigiu até a academia de shinigamis novatos saltando de telhado em telhado com o shumpo. Teria que selecionar alguns shinigamis para dar início a nova geração do décimo terceiro esquadrão em sua reformulação. Já tinha em mente quais tipos de alunos iria retrucar para a sua área.