Black Angel
3 Vida
Notas iniciais
Eu encarava aquela estranha silhueta. A escuridão me impedia de ver muita coisa, mas eu sabia que era um homem forte com olhos azuis escuros brilhantes como fogo.
Eu me sentia fraca, minhas pernas tremiam tornando ficar em pé um ato difícil. Ele deu um passo em minha direção, fazendo sem motivos meu coração disparar. A luz chegou ao seu rosto, revelando o mais belo rapaz que já cheguei a ver: os cabelos castanho-arruivados caiam brilhantes e rebeldes até a altura da orelha, o rosto era fino, os olhos do tom violeta que de tão diferentes mais pareciam lentes de contato.
–Monique... Te esperei por tanto tempo, minha doce pequena – Sua voz era suave e amável, mas notei certa arrogância. – Já havia perdido as esperanças de te encontrar. Já havia... Ah, céus! Eu nem acredito que esse momento finalmente chegou!
–Quem é você? – Minha voz saiu tremula. Encarar seus olhos brilhantes era para mim um desafio, o mais difícil e tentador que já enfrentei. Aquele homem parecia ter algo dentro de si que me fazia sentir vontade de me aproximar, me encantar e deixar cair em sua teia cruel.
–Seu amor, sua única e verdadeira paixão, meu doce anjo. – Outro passo, sua mão alcançou meu rosto e segurou firme e delicadamente meu queixo.
–Não. Minha única paixão, meu verdadeiro amor, esse é Alfred. – Balancei a cabeça sem me afastar. Seu rosto estava a centímetros do meu, as costas inclinadas levemente, seu perfume adocicado parecendo contribuir para minha insanidade. Céus, aquele homem era pura perdição! E tive certeza disso quando, como resposta, roçou seus lábios em meu rosto e sorriu.
–É o que você pensa. Mas você é minha segunda chance, pequena Monique, apenas minha.
–Enlouqueceu... – Murmurei baixinho, fechando os olhos com seu toque.
–Estamos os dois loucos, Monique. Sempre estivemos. – Sorriu colado ao meu pescoço, me arrepiando a alma. Abri os olhos, tateando o lugar onde antes estivera e encontrando o vazio, a escuridão. E, ao longe, ouvia um barulho baixo e irritante que se repetia toda vez. Algo como bip... Ou seria tic? Um relógio, talvez.
–Moça! Monique! Acalme-se! – A voz feminina era ainda mais baixa que o barulho, porém parecia mais real.
–Quem está ai? – Gritei para o nada. Minhas forças pareceram se esgotar, fazendo-me cair com tontura. Sentia-me zonza, fraca, observada.
–Psiu! – O ambiente clareou aos poucos, minha cabeça rodando – Não diga nada. Céus, seu pai ficará tão alegre ao ver que acordou!
–O que...? – Balbuciei, cerrando os olhos para o borrão na minha frente.
–Hospital Dr. Paulo. Sou Ravanny, a médica responsável por você.
–Por que eu...?
–Falei para não falar nada! Não deve forçar a barra para si mesma, menina. Mas, respondendo sua pergunta, você levou um tiro. Sinta-se sortuda, o tiro foi de raspão. Foi só um susto! – Vi seu sorriso conforme minha visão melhorava, sentindo sua mão acariciar meu rosto como a de uma mãe zelosa.
Com sua resposta, a lembrança amarga me retornou. Sim, um tiro. Lembrava-me como se estivesse ainda no meio do tiroteio, tendo os cabelos puxados com força, sendo arrastada e então sentindo a dor ardente. Qualquer coisa que eu diga não irá descrever com perfeição tal momento, será pouco. Talvez tenha sido assim que ela se sentiu, anos atrás.
–Onde está Alfred? – Ergui o rosto para encara-la.
–O rapaz de cabelos castanhos, alto...? Ele não aparece faz algum tempo, acho que três semanas.
–Três semanas? E há quanto tempo estou aqui? – Franzi o cenho. Não podia ter passado tanto tempo!
–Um mês e meio, mais ou menos. Foi até tempo demais para alguém que levou um tiro de raspão... – Comentou pensativa – Bem, eu preciso ir. Se precisar de algo basta tocar a campainha, e, se precisar, tem um telefone ali. Não faça muito barulho, por favor.
Não deixei de ficar nervosa. Ele não havia ido me ver? Isso contribuía para a esquisitice de Alfred. Nos últimos cinco meses – contando com o que passei desacordada, pelo que diz a enfermeira -, Alfred começara a agir de forma diferente: Se afastava cada vez mais, por vezes era pego falando sozinho ou distraído, outras estava cansado demais para qualquer coisa. Parecia ficar mais frio a cada dia que se passava e isso me atormentava, temia que fosse deixada para trás.
Com algum esforço consegui me por sentada, ainda me sentia sem força alguma. Me inclinei até alcançar o telefone, no qual velozmente disquei o número de Alfred.
–Alô?
–Dona Júlia? É a Monique.
–Monique? Querida, que bom que está bem! Ficamos preocupados.
–Imagino – Sorri – Onde está Alfred? Preciso falar com ele.
–Olha, desse aí eu já nem sei mais, viu! Se perdeu no mundo desde seu acidente, não vejo faz um bom tempo. – Grunhiu desgostosa – Da última vez que vi estava saindo com uma mala, nem disse para onde ia.
–Com uma mala? – Mordi o lábio inferior – Que estranho... Bem, se souber de algo sobre ele, tem como me procurar?
Com sua resposta, desliguei. Creio que tenha se passado uma semana até que recebi alta e pude ir para casa – apenas troquei de roupa, tomei um banho e comi algo e logo voltei à rua. Precisava de notícias, saber o que ocorria. E, de tudo isso, não sei se o mais terrível foram os sonhos que continuei a ter com aquele estranho homem ou o sumiço do meu noivo.
Não consegui nada indo a sua casa. Estava apenas sua mãe, Dona Júlia, que disse não saber mais nada sobre ele. Então, como não poderia deixar de ser, recorri à polícia. Sim, claro, a polícia tinha coisas mais importantes a fazer, mas eu tinha que arriscar. Temia que apenas ela fosse capaz de encontra-lo, e após horas de espera consegui falar com o delegado.
Tinha o rosto fino e os cabelos castanhos perfeitamente alinhados, usava óculos e tinha a pele levemente bronzeada – não parecia passar dos vinte e sete anos. Seu nome era Serban Ederlyi Falcão e pareceu se interessar em minha busca, me pediu a placa do carro de Alfred e saiu da sala para ver se encontrava algum registro nas estradas.
Aguardei impaciente em sua sala, tamborilando os dedos na mesa de madeira clara. Observei então uma pintura na parede, num canto afastado, imperceptível para distraídos: era uma mulher talvez da minha idade ou ainda um pouco mais velha, abaixando com um sorriso o chapéu de sol azul rendado e com os cabelos loiros cacheados voando – no fundo se podia ver um navio, deduzi que estava em um porto. Mas havia ainda outra mulher, mais para o canto, que a observava com uma cara nada amistosa. Um arrepio percorreu meu corpo e não escapei do susto ao ouvir o rangido da porta ser aberta.
–Senhorita Monique? Aqui, veja. É este o carro? – Então me mostrou imagens imprimidas, nada fiz senão acenar que sim com a cabeça – Foi visto pelas câmeras na rodovia que vai para São Paulo. O carro foi apreendido pouco depois, tinha multas não pagas e não tinha passado pela vistoria obrigatória. Está no pátio, se interessar. – Encarou-me com olhos de réptil, cuidadosamente.
–E ele, onde está?
–Eu deveria saber? – Ergueu as sobrancelhas – Bem, provavelmente continuou o caminho.
São Paulo? Mas o que raios ele iria fazer lá? Sim, ele é paulista, mas... Ora, ele não tem qualquer relação com aquele lugar há anos! De qualquer forma, teria que ir atrás dele – não poderia ficar sem saber o que houve. E se estivesse em perigos? Havíamos prometido que não deixaríamos um ao outro para trás e seria isso que eu faria: iria encontrá-lo apesar de tudo.
–-----------------------------------
Não demorou muito para que chegasse ao meu apartamento. Dyfed, conforme se nomeava, fazia-me companhia como se fosse uma sombra terrível e fora da suspeita e importância de qualquer um. Era cruel, sim, mas no fundo me parecia merecido.
O que fiz não é algo que se precise refletir horas e horas para ter ideia, é simples. Eu simplesmente vendi minha alma e praticamente pedi pelas consequências, que não tardaram: ele revelou sua verdadeira face, mostrou de que lado estava – e não era o meu. Eu tinha que sobreviver... Tinha que seguir suas apostas, contar os tempos sem perder segundos e fazer de tudo para não cometer deslizes. Meu destino já não me pertencia, mas eu ainda podia ter de volta minha vida, bastava vence-lo em seu próprio jogo.
E apesar de ter me acostumado com as surpresas que Dyfed me aprontava, não contei com que Monique viesse a me encontrar. A vi de longe na grandiosa Avenida Paulista, em meio a uma multidão que atravessava na direção do MASP. Me encolhi no carro, vendo pelo espelho o sorriso de cicatriz do demônio. Ela não me viu.
Depois disso, se passaram várias semanas onde tentava sair daquele labirinto. Por vezes passava dias dormindo, preso no sonho desafiador que era posto – mais parecia filme do Freddy Krueger, um sonho onde eu poderia morrer se não fosse extremamente cuidadoso. Ali, em uma cidade escura repleta de traidores e armadilhas, tinha que conhecer bem quem estava do meu lado e quem não estava – quantas vezes não matei inocentes? E meu carrasco me lembrava de cada um deles, ah se lembrava! – e encontrar uma saída, uma chave imaterial que poderia ou não desvendar o segredo capaz de me dar a vida.
Não vou por falsos mistérios. Não, jogarei tudo de uma vez, na lata: Dyfed me deu duas escolhas, meses atrás. Uma era de continuar como estava e ter a alma levada semanas depois e a outra de lutar em um prazo máximo de três meses para ter de volta a vida. Escolhi a segunda, obviamente. Mas meu desafio principal não foi revelado, pelo contrário, eu mesmo preciso descobrir isso. E, sinceramente, não está sendo fácil. Tentei de tudo, mas ele diz que estou errado ou murmura pensativamente um longo 'talvez'. Meu tempo aos poucos está se esgotando, creio ter mais algumas semanas. Também não me restam esperanças. Estou acabado, condenado, e apenas um milagre vai me salvar. Não... Mas esse milagre não irá ocorrer. A partir do momento em que aceitei meu carrasco, meus laços com o celestial foram cortados, e agora apenas as sombras olhavam por mim.
Já ouço seus passos pelo corredor. Espero esta noite ter algum rumo...
Fale com o autor