Notas iniciais
Desculpem a demora. Acho que capítulos pontuais não é comigo mesmo... e.e Boa leitura!

Lutando para manter o guarda-chuva firme contra o vento, encarava impaciente o movimento dos carros. Já fazia alguns minutos que havia chegado à entrada do shopping center, mas o homem do misterioso telefonema não deu nem sinal.

Ah, sim. Alguns dias atrás havia recebido um telefonema durante mais uma daquelas noites chuvosas da capital paulista. No começo eu só ouvia a respiração cortante e a hesitação após o meu “alô”, mas depois de ameaçar desligar sua voz resolveu perturbar meu sono. Era rouca, mas não um rouco bonito. Era um rouco medonho, digno de filme de terror, do tipo que arrepia o osso, o corpo e a alma até o último teco de pele ou cabelo. E mesmo ficando tão chocada com seu telefonema, eu podia ter certeza de que já havia ouvido tal voz em algum lugar. Falava para eu estar na entrada do Shopping Frei Caneca no sábado entre meio dia e meio dia e meio. Poderia ser um trote, mas acatei mesmo assim, fazendo eu me revoltar comigo mesma momentos depois de tomar tal decisão por não ter jeito de me afastar de perigos. Ah, como se meus sermões contra mim mesma fossem adiantar!

Já era meio dia e quinze, mas ninguém apareceu. Bem, esperava que em quinze minutos alguém aparecesse, mesmo sem saber quem – e assim foi feito. Vinte minutos depois, quando eu já pretendia ir embora, fui parada por um homem alto, de cabelos negros como o breu e olhos castanho-escuros que poderiam ser encantadores se não fossem tão sérios e frios, o que me amedrontava. Se ele fosse um sequestrador eu estaria perdida! Era forte, com braços largos, e não parecia demonstrar qualquer tipo de doçura.

– Monique Rodrigues? – Confirmei – Sou Rickon de Thone. Confesso que é um prazer conhece-la... – Suas palavras saiam cautelosas, os olhos cerrando-se de leve enquanto avaliava em mim cada pedaço de pele e cor. Ainda que as palavras não demonstrassem perigo, sua voz era grossa e, removendo algo que me parecia ser curiosidade, não demonstrava quaisquer sentimentos. Sorri-lhe por educação.

– O prazer é meu. – Não exatamente – Mas quem é você, afinal? Não, não digo seu nome... Estou falando de como você me conhece. Como soube meu telefone? O que quer comigo?

– Pelo visto não é tanto prazer que sente em me ver – Finalmente houve reação emocional por sua parte: um sorriso mínimo de deboche, mas que já me dava muita certeza de que não se tratava de um robô – Soube que está procurando alguém... Talvez um certo Aldiceu?

– Aldiceu? – Ergui as sobrancelhas, confusa.

– Não, espere. – Grunhiu, buscando nos bolsos do terno risca de giz um papel, o qual observou bem antes de se dirigir novamente à mim – Alfred... Sim, Alfred. É ele quem procuras?

– Talvez. Por que? – Insisti.

– Não há ‘por quês’, meu bem. – Novamente o tom de deboche – Se você o quiser encontrar, sou sua única opção.

– Você e a polícia, que tal? Ah! E, se der, solta meu braço. – Pedi com divertimento – Cê tá é maluco, isso sim!

E um segundo depois me arrependi de ter dito. Seu olhar tingiu-se em desprezo, os lábios se contraíram com desgosto e o aperto em meu braço direito aumentou. Não me lembro bem quando ao certo ele o havia pego, mas ali estava.

– Não ouse me chamar de maluco novamente. A polícia não irá mover um dedo sequer. Sabe quantas pessoas somem por dia nas cidades? Alfred será apenas mais um em várias e várias. Mas com minha ajuda você poderá salva-lo! Basta acreditar em mim. – Suas palavras pareciam verdadeiras, confesso. Havia algo nele, algo como no homem dos meus sonhos, que me atraia mesmo demonstrando ser perigoso. Algo que ao mesmo tempo de ser natural, simplesmente não era. E havia tanta coisa sem explicação! Como poderia acreditar?

– Então me explique! Me explique o que está acontecendo, onde está meu noivo, quem você é! – Estremeci de nervoso, uma leve tontura me perturbando junto com a sensação de fraqueza.

Ah, o gosto da água... Como eu queria poder... Uma água gelada, não muito, mas na temperatura certa em minha boca.

Foi o tempo de imaginar a garrafa do cristalino líquido quando minhas pernas ficaram bambas. Aquela fraqueza que de tão frequente chegava a irritar preencheu com escuridão minha visão, meus dedos pálidos e finos agarrando com a força que me restava o terno do... Como era seu nome? Talvez fosse algo com N. Talvez fosse Nemi, talvez simplesmente fosse Ninguém.

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E, novamente, nenhum milagre me ocorreu. Doces sonhos, como os queria de volta! Desta vez fiz de tudo que me foi possível. Eu corri, tentei evitar as chamas enchendo baldes com a água do rio, mas a cada balde que lançava elas pareciam tomar mais força. Avançavam ferozmente e logo desisti de apaga-las e tentei evacuar a pequena cidade, mas quando eu encontrava alguém...

Quando eu finalmente encontrava uma das pessoas de minhas visões anteriores... Aquelas que me observavam com medo, tristeza ou esperança... Quando eu as agarrava nos braços com lágrimas nos olhos, seu corpo simplesmente pendia e a ferida na garganta manchava-me com seu sangue. Eu tentava escapar, mas era agarrado com força por suas mãos até seu último suspiro de agonia, até seu último murmúrio de desilusão. Então eu corria... Corria até outra pessoa, na esperança de encontrar alguém vivo, alguém para acabar minha angustia e sofrimento, mas todos morriam em minhas mãos.

Isso até eu ir já sem qualquer esperança até a última casa que ainda não havia sido tocada pelas chamas. Normalmente eu encontraria ali em frente a jovem loira que colhia flores animadamente enquanto me contava que seu amor estava para voltar, mas dessa vez só a fui ver dentro de casa em frente a lareira.

Seus longos cabelos estavam trançados, a tiara de coloridas pedras preciosas presa ao cabelo. Estava agachada, os olhos fixos na pequena fumaça do fogo recém-apagado, mas então simplesmente se levantou, cobrindo o rosto com as mãos. “Por que não voltou, meu amor? Por que? A união é tão forte!”, sussurrava. Colocou por um momento a mão na altura do ventre, recuou novamente e, antes que eu pudesse alcança-la, simplesmente sumiu. Simples, do nada, sem sentido, sem deixar qualquer vestígio de sua existência.

Sua figura ainda me assombraria, eu podia ver isso nas entrelinhas de meu destino comprado.

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Eu sentia seus braços fortes me envolvendo, sua voz preocupada que me murmurava confortante. Fui posta sentada na mureta, apoiada em algo que julguei como as grades de proteção. Pouco a pouco minha visão clareava, o rosto sério me encarando.

– Beba. – Segurei o copo e o levei aos lábios. Agora a água já não me parecia tão boa e necessária quanto antes. Fechei os olhos, respirando profundamente. – Está melhor?

– Sim... – Murmurei.

– Você não tem muito tempo para decidir, Monique. A vida daquele garoto já tem prazo decidido e, se quiser salva-lo, vai precisar de mim.

– Por que está me ajudando? O que ganha com isso?

– É uma longa história que você não vai ter ânimo para ouvir.

– É uma longa história que eu quero e preciso ouvir.

– Então a deixe para outra hora, outro momento.

– Eu preciso saber, Nemi. Por favor! Céus, eu já não aguento mais ficar sem saber o que ocorre! Parece que fui excluída, aliás, não, eu fui excluída!– Ele contraiu os lábios como antes. Notei certa alteração em seus olhos, apesar de não entender tal coisa.

– Rickon. Meu nome é Rickon. – Grunhiu – E você não está excluída dessa história, Monique, nem um pouco. Será apenas questão de tempo até ser a próxima... – Pareceu cortar sua fala, respirando fundo e remendando em seguida – ...e quando isso acontecer, não sei se vou poder te ajudar.

– A próxima o quê? Me diga! – Silencio. Imaginei que estivesse em um conflito mental, torci para o lado que estava a meu favor.

– Vamos para outro lugar. – Respondeu após algum tempo, se erguendo e me ajudando a levantar. Mas sua força ao me levantar foi tanta que acabei sendo levada de encontro ao seu peito, tendo então o queixo puxado para cima. Ele se inclinou com olhos de gelo perigosos, sussurrando em meu ouvido – Mas, antes, diga-me: Você acredita em anjos e demônios?

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Acordei com o sol ardendo em meu rosto. Esperava não ter me bronzeado muito enquanto dormia, isso seria incomodo. Me sentei na cama, esfregando os olhos. Dyfed entrou no quarto pouco depois, se esticando em minha poltrona enquanto eu penteava com as mãos meus cabelos negros.

– Já acordado? – Ergueu uma das sobrancelhas, balançando o vinho tinto de sua taça.

– O sol me acordou.

– Oh, sim... Creio que você deva se certificar de ter fechado as cortinas na próxima vez. Ter bom sono faz bem para raciocinar. – Sorriu. Seu sorriso era perigoso, cheio de segundas, terceiras e quartas intenções. Eu nunca entendia de fato o que se passava em sua cabeça.

Ele se ergueu, puxando da cabeceira da cama o CD dos Monkees. Não tardou para Sunny Girlfriend começar a tocar – mas nesse momento eu já deixava o quarto para tomar um banho, de preferencia longo e frio, muito frio.

Quando voltei já era outro disco que tocava, mas não me importei em prestar atenção. Ele avaliava a lista de reprodução do CD, os olhos escuros seguindo a ponta do dedo que acompanhava cada título.

– The Monkees é bom, mas são não são todas as músicas que prestam... Estou admirado por ter gostado da maioria daquele disco.

– Eu que gravei, escolhi as que mais gosto.

– Devia ter imaginado, mas faltaram algumas outras boas. Mas enfim, diga-me, Alfred: já descobriu como ser dono de si mesmo?

– Não. Você deveria colocar coisas mais fáceis, Charada! Estou quase para chamar o Batman para me ajudar – Grunhi.

– Estamos falando de almas. Alma não é dinheiro, não é diamante, não é qualquer pedra preciosa. Alma é além! Seu preço não tem fim e já estou sendo suficientemente bom contigo dando-lhe uma chance. Não me culpe se vendeu a sua por tão pouco... Ah, o que queria mesmo? Ir às alturas do poder? – Riu, debochando – O começo sempre é fácil, meu caro. Mas poucos conseguem ir até o fim.

– Mas você não me deu meu pagamento!

– Não? E como foi que se tornou o primeiro no ranking de aprendizagem na sua faculdade de biologia? Nada vem tão rápido, meu bem – O veneno de suas palavras praticamente escorria por entre seus lábios.

– Você é um demônio. Deveria fazer tudo que peço surgir num piscar de olhos.

– Está vendo muito filme. – se afundou na cadeira, colocando os pés apoiados em minha cama – Pedidos simples são rápidos, sim, mas outros levam mais tempo. E é aí que entram as chances. Por que, se você recupera sua alma, você pode aproveitar totalmente seu desejo realizado. Sou tão bonzinho! – Sorriu.

– Não sabe quanto!

Não se importou com meu sarcasmo. Aquilo estava errado, eu dei minha alma por isso, tinha que ter recebido o que quis em pouco tempo! Apesar disso, não me arrependia de ter feito o que fiz. Lembro de quando meu demônio apareceu para mim. Estávamos eu e Monique na praia, o sol parecia nos torrar – ela foi buscar duas águas de côco enquanto eu esperava na areia. Durou algum tempo até eu receber a nova companhia, que simplesmente se deitou na areia ao meu lado. Ele olhou-me de canto, começamos a conversar... E então fez a proposta. Mas naquele momento Monique já estava voltando, e quando fui responder ele simplesmente sumiu. Em seu lugar estava um pequeno papel com um endereço.

Não preciso dizer o que pedi, mas em minha defesa digo que não pensei apenas em mim. Pensei em Monique e pensei em mamãe, claro. Tudo que queria era lhes dar uma boa vida. E pensar nelas apenas aumenta meu desejo de sobreviver... Sim, eu vou sobreviver, mesmo que restem apenas mais alguns dias, mesmo que minhas chances sejam poucas.

Eu devo isso a elas.

Notas finais
E ai, o que acharam da aparição do Rickon? De qual lado da moeda será que ele está? Será que ele realmente é confiável, ou vai apenas jogar a Monique na lama? Veja isso e muito mais sexta feira, no Globo Reporter! -n Até o próximo capítulo (ou até os reviews) o/ Aliás, falando em próximo capítulo, acho que vou mudar um pouco os pontos de vista. Sim, já está na hora de vocês terem um pouco mais do Dyfed, antes que comecem a pegar ódio de vez, hahah
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.