Bite Me

1 Moral: -15 | Prólogo


Sabe quando o tempo está nublado, frio, esperando pela chuva, ventando muito – o termo usado é “tempo de dormir”— e você está dormindo tranquilamente, com um pijama fino, enrolada nas cobertas e sonhando com bolinhos flutuantes de chocolate e milk-shake de morango? É. Exatamente assim que esta manhã de segunda-feira estava. Eu estava de bem com o mundo – o que era surpreendentemente raro – e pronta para dormir por mais algumas horas.

Porém o universo me odeia – junto com todos os seus habitantes – e escolheu o único momento em que eu tenho paz para mandar alguma criatura maldosa entrar por minha janela semiaberta e se debater em alguma coisa barulhenta.

Depois de bater a cabeça em algo duro – que mais tarde descobri ser a mesinha de canto –, percebi que o ser maligno que – além de me acordar – me fizera cair da cama tinha sido um corvo.

Um corvo.

— Filho da mãe.

— Que ótimo, já está acordada — falando em filho da mãe — O que está esperando para se levantar desse chão e ir se aprontar?

Observei atentamente senhora Monique. A velha rabugenta que me mantinha viva. A mim e a outras dezenas de adolescentes e pirralhos. Ela estava a algumas semanas de completar quarenta e três anos. Tinha uma aparência saudável, apesar das olheiras e olhar cansado.

É o que acontece quando se quer dar uma de vovózona do universo e acolher trocentos pirralhos em uma casa.

— Hm... Vontade?

Ela revirou seus olhos.

“Se um maldito corvo não tivesse me acordado a essa hora”olhei para o relógio digital que ficava em cima da mesinha e descobri que eram sete horas “você não teria de lidar comigo agora”.

— Onde está sua versão boazinha?

— Não faço ideia e não faço questão de saber.

Monique se referia a minha irmã gêmea, Lithia. Ela era branquinha, cabelos castanhos acobreados, olhos castanhos claros, quase verdes. E tinha muitas, muitas,sardas.

— Allie, você viu meu caderno de biologia?

— Falando no diabo...

— Lithia, estava lhe procurando — minha irmã a olhou, arregalando os grandes olhos castanhos-esverdeados — Violet precisa de um vestido novo.

— E...? — Lily movimentou os ombros, insinuando um “e o que eu tenho a ver com essa piranha? ”.

— E depois do colégio, quero que a leve para comprar um. Estarei um tanto ocupada.

Eu não sei o que minha cópia-mal-feita estava pensando, mas eu não consegui evitar pensar no que falaria caso fosse eu no lugar da Lily.

Eu por acaso tenho cara de babá?

— Hm, depois da escola eu tenho uma coisa para fazer com a Allie — ela me olhou, suplicante — Certo, Allie?

— Allie está desmaiada.

Finalmente levantei do chão e caminhei em direção ao banheiro, onde empurrei a porta com os pés. Me despi e entrei no box, ligando o chuveiro logo em seguida. Tudo o que eu queria era um longo e relaxante banho morno.

Pronta para encontrar as gotículas quentes de água, levei um susto e dei um berro quando não foi o que encontrei. Na verdade, o que recebi foi água muito gelada. Precisei mexer no regulador de temperatura.

Todo o meu bom humor já tinha desaparecido.

Que saco.

Ao sair do banho, estava pronta para vestir uma camisola fina sem nada por baixo e me enrolar novamente nas cobertas – logo depois, óbvio, de pegar um bolinho lá na cozinha.

Mas Lily disse que se eu a deixasse sozinha na escola com Violet, ela me jogaria do segundo andar.

Resolvi ir apenas porque seria divertido ver Lily fugindo de Violet durantes os cinco períodos da manhã mais a educação física à tarde.

Vesti uma Skinny Jeanspreta rasgada, um moletom preto por cima de uma regata grafite do AC/DC. Coloquei uma touca preta para tampar o ninho que estava meu cabelo. Calcei os tênis All Stare peguei a mochila.

Lá embaixo, arremessei a mochila no sofá e fui atrás de algo para comer.

Violet se aproximava, pronta para pegar a última maçã da fruteira. Fui mais rápida e entrei em sua frente, pegando a maçã.

— Oh, você ia pegar isso? — perguntei, sorrindo falsamente — Que pena.

Saí andando e peguei a mochila de volta, já saindo porta a fora.
Não estava muito afim de esperar minha cópia-mal-feita, então fui caminhando até a escola, com meus fones de ouvido.

“Back in Black” estava no volume máximo, então não conseguia ouvir nada além de “pan nana nana”.

Ao chegar a escola, percebi que todo mundo se amontoava em cima da diretoria. O que era extremamente estranho.Normalmente, qualquer ser humano racional se mantém longe daquele inferno.

Como o ser curioso que sou, resolvi ir até lá também.

Esperava ver algo espetacular, como a senhora Adams – nossa diretora velha – deitada no chão, esquartejada, decapitada e jorrando muito sangue – isso renderia uma ótima decoração, visto que aquele tom de bege nas paredes era deprimente; um vermelho iria fazer bem.

Tentei chegar perto da sala, mas tinham trocentos adolescentes na minha frente. Uma menina loira vestindo cor-de-rosa estava saltitando a minha frente para enxergar alguma coisa.

— Dá licença? — sendo a menina educada que sou, empurrei ela para o lado, onde ela caiu por cima de uma outra garota loira. Sorri para elas — Obrigada.

Ver a cara dela se fechar de raiva por ter sido empurrada foi ótimo. Melhor ainda foi quando sua careta se transformou em medo. Moral: +5%

Ao me aproximar, vi que a sala da Senhora Adams estava completamente diferente. O tom estou-da-cor-do-universo havia sido substituído por um azul claro muito bonito.

A velha andou lendo umas revistas de decoração?

Os móveis agora eram mais modernos e todas aquelas pinturas e fotos nas paredes tinham sumido. Ué.

Empurrei uma ou duas pessoas até conseguir chegar na porta da diretoria. Ao invés de “Diretora Adams”, estava escrito “Diretora Monroe” na plaquinha prata pregada na porta.

Então a Senhora Adams não comandava mais esse colégio com sua vassoura, varinha e caldeirão de bruxa?

Vou fazer a dancinha da chuva.

Moral: +10%

— Dá licença, por favor — ouvi uma voz meiga atrás de mim.

— Por que não passa por cima? — respondi seca, ainda olhando para a antiga sala de rituais da Senhora A.

— Por que você não me acompanha? — a voz era um pouco mais rígida dessa vez.

— Porque uma das poucas coisas que aprendi com minha mãe foi que seguir estranhos é errado — me virei e vi uma mulher mais ou menos da minha altura, vestindo rosa — E porque minhas pernas estão doendo, não estou afim de seguir o “caminho de tijolinhos amarelos”com a senhorita pônei-cor-de-rosa.

Ouvi murmúrios e olhares espantados. Pouco ao longe, vi minha cópia-mal-feita me olhando e mexendo a cabeça em negação.

Em que tipo de confusão me meti, dessa vez?

Olhei novamente a mulher à minha frente e vi que em sua blusa extremamente rosa tinha uma coisinha prata que dizia “Melanie Monroe”.

Monroe. Monroe. Monroe.

Monroe, merda.

Olhei para trás, aonde a plaquinha “Diretora Monroe” estava.

Droga.

Moral: -15%

Notas finais
Só passando para explicar o termo "estou-da-cor-do-universo". Vai parecer loucura? VAI. Eu também achei que fosse loucura, quando estava lendo as mensagens em um certo grupo de onigiris e li uma louca ~oi, mozaum~ dizendo que o universo era bege. POIS É. Tem um post sobre isso no "Você Sabia". Pode pesquisar ;D