Beyond the Vengeance
14 Uma partida não convencional
Notas iniciais
Os dias pareciam se arrastar.
Dez dias depois de nossa briga e Liza ainda não falava comigo. Na verdade ela parecia estar evitando que a minha presença e a dela coexistissem no mesmo lugar. Não que houvesse muito tempo para procurá-la. Gina cuidava para que não sobrasse tempo. De alguma forma ela era ainda mais rigorosa como treinadora do que como curandeira. Ela simplesmente falava o que eu tinha que fazer e eu era obrigado a fazer. Sem desculpas. Durante longos dez dias ela vinha me (torturando) treinando para que pudesse ter alguma chance quando saísse do acampamento. Agora que esse momento estava tão perto eu não conseguia parar de pensar em Liza.
Eu até mesmo considerei a ideia de levá-la comigo, mas no mesmo dia tive um pesadelo sobre isso e tudo foi por água abaixo. Seria bom pelo menos fazer as pazes com ela, mas não era tão simples. Primeiro porque nos primeiros dias eu não podia sair da enfermaria sem a autorização de Gina, segundo porque logo depois que a notícia de que tínhamos brigado se espalhou, as pessoas começaram a falar que Gina era o motivo da briga. Não sei como tudo isso começou, mas quando chegou aos meus ouvidos a história era a seguinte: Liza tinha saído da enfermaria e quando voltou flagrou eu e Gina na cama e, aparentemente, esse era o motivo da briga. Também ouvi uma história de que Liza estava querendo vingança e por isso ia frequentemente à floresta colher algumas ervas para fazer um veneno especialmente pra mim. Não sei se esse último boato era verdade, esperava que ela fosse à floresta apenas para me evitar.
Meu plano de fuga do acampamento não tinha progredido muito, mas Gina havia me falado de um lugar onde eu poderia ficar quando fugisse. Ficava quase saindo de Nova Iorque, mas com sorte eu conseguiria chegar inteiro. Chris ainda não tinha me falado o que tinha descoberto sobre o assassino. E era por isso que eu estava no meio da floresta com Adam voando acima da minha cabeça, já bem alimentado para não ficar de mau humor.
Chris tinha me mandado uma mensagem: “Me encontre na floresta a meia-noite”. Muito específico. Era por isso que eu havia chamado Adam. Ele me ajudaria a achar Chris no meio de tantas árvores. Ele já estava acostumado a caçar naquele lugar, por isso achei que encontrar Chris seria fácil.
Adam piou e voou mais para o centro da floresta. Comecei a segui-lo, correndo por entre as árvores até que emergimos em uma clareira. No centro dela estava Chris, parado como uma estátua. Nem mesmo parecia respirar. Assim que pisei na clareira algo mudou em mim, como se algum extinto estivesse me alertando sobre algo, mas eu não sabia o que...
Estremeci.
Aquela era a mesma clareira onde a filha de Afrodite tinha ficado presa à árvore. Eu tinha certeza. Eu havia contado a Chris, mas não havia como ele encontrar aquela clareira. Nem eu mesmo lembrava o caminho. Como ele poderia ter chegado aqui? Seria apenas coincidência? Não, claro que não.
— Chris? — chamei cerrando os punhos, tentando manter o controle sobre meu corpo.
— Eu já estava começando achar que você não vinha — ele disse.
— Se eu não tivesse que vasculhar a floresta inteira atrás de você, talvez tivesse chegado mais cedo. A propósito por que não me disse o local exato?
— Ah, eu sabia que você ia me encontrar — ele fez um gesto com a mão como se vasculhar a floresta inteira não fosse grande coisa — além disso, se eu dissesse o local exato e alguém ficasse sabendo da minha mensagem, poderia nos encontrar facilmente, assim é mais seguro.
— Você fala como se o FBI estivesse atrás de nós dois.
— Bom, não é o FBI, mas talvez alguém esteja atrás de nós se você continuar com esse plano de vingança.
— Do que você está falando?
Chris tirou da mochila uma pasta e me disse para ajudá-lo. A luz da lua era o suficiente para ver o conteúdo da pasta. Havia fotos de garotas que eu nunca tinha visto na vida, um mapa, notícias recortadas de jornais e algumas folhas com rabiscos quase ilegíveis. Tudo estava amontoado como se ele estivesse com pressa quando os pegou. Por último havia outra foto de uma garota. Senti um aperto no coração quando vi que se tratava da filha de Afrodite. Resolvi deixá-la por último na pilha de fotos. Quando terminamos de organizar tudo Chris sentou-se na grama com todas as coisas que tinha trazido a sua frente. Com um gesto ele indicou que também deveria me sentar. Pelo visto aquilo poderia demorar bastante.
— As notícias não são exatamente boas — ele começou. Fiz um gesto para que continuasse — Primeiro: a Marie não foi a primeira nem a última a ser atacada — Marie… Então era esse o nome dela. Nunca havia perguntado o nome da filha de Afrodite. Eu sempre me dizia que não havia necessidade de saber o nome dela, mas no fundo eu sabia que isso só tornaria o fato ainda mais doloroso. Por sorte Chris não disse o sobrenome, do contrário eu iria passar noites acordado, me culpando por não ter ido pessoalmente falar com sua família. Dar a notícia de sua morte, que eu a tinha matado, mesmo que por acidente. Só de pensar nisso eu sentia como se adaga que a tinha matado perfurasse o meu coração. Repetidas vezes.
— Terry? Você está me ouvindo?
— Ah, sim. Desculpe. Pode continuar — disse meio sem jeito.
— Até agora eu achei mais cinco casos parecidos: garotas que pareciam possuídas por alguma coisa e depois acabaram morrendo — Chris foi me mostrando as fotos — Kansas, Ohio, Geórgia, Montana e Arizona… Está acontecendo no país inteiro. Todas elas semideusas.
— Filhas de Afrodite?
— Não, a Marie foi a única. Pelo que eu consegui saber foram uma filha de Apolo, uma de Atena, duas de Hermes e uma filha de Zeus.
— O maldito não está pra brincadeira — disse observando as fotos.
— Não é só ele — lancei um olha na direção de Chris.
— Como assim?
— A hora das mortes — Chris explicou — Não tem como ele viajar de Ohio até o Arizona em duas horas. Então se as duas foram atacadas nesse período de tempo...
— Ele não está sozinho — completei.
Eu estava me esgueirando para dentro do chalé de Apolo quando uma Harpia passou. Por pouco não me viu. Já se passava da meia-noite. Eu tinha um bilhete no bolso e estava determinado a entregá-lo, mesmo que tivesse que fugir correndo do acampamento e não escondido como planejava. O problema é que nunca havia estado dentro daquele chalé e estava escuro. Se não fosse pela minha visão noturna eu já poderia ter esbarrado em uma dúzia de coisas que poderia acordar todo o acampamento.
Movi-me muito cuidadosamente para não acordar ninguém enquanto seguia o som dos roncos dos filhos de Apolo. Quando cheguei ao dormitório um deles começou a resmungar. Congelei no meio de um passo e quase tropecei tentando não fazer barulho. Quando ele parou de resmungar recomecei a andar. Um passo de cada vez provocando o mínimo de barulho possível. Eu gostaria que meu coração parasse de bater tão forte, mas estava difícil controlá-lo. Seria mais fácil se eu soubesse onde Liza dormia, mas eu nunca tinha me preocupado com esse detalhe. Tive que verificar cada cama na esperançar de ver ela uma última vez antes de partir.
Demorou uma eternidade, mas eu consegui localizar a cama de Liza. Ela estava deitada de lado, enrolada no cobertor, parecia estar abraçando ele. Uma pontada de tristeza me atingiu. Eu queria abraçá-la, queria poder me despedir, queria lhe dar um último beijo, mas sabia que ela não iria aceitar. Estava muito magoada comigo para aceitar qualquer coisa.
Cuidadosamente tirei o bilhete do bolso e o coloquei sob seu travesseiro. Deixei uma ponta dele pra fora para que ela o visse quando acordasse. Eu deveria ter ido embora naquele mesmo instante, mas fiquei ali, ao lado dela. Por que tudo tinha que ser tão complicado? Por que eu não poderia ter conhecido Liza antes da Marie? Seria tudo tão fácil. Eu nunca teria jurado vingança, não estaria brigado com Liza, não teria que fugir do acampamento…
Balancei levemente a cabeça. Não adiantava nada pensar naquilo agora. E eu já estava há muito tempo ali. Virei-me pra ir embora, mas algo me impediu. Eu queria acordar Liza e falar o que tinha escrito. Queria me despedir de um jeito menos evasivo, mas no fundo sabia que isso só tornaria as coisas mais difíceis. Por fim não consegui resistir e, com muito cuidado, prendendo a respiração, a beijei bem de leve nos lábios. Ela se moveu um pouco, mas não acordou. Afastei-me a observei por um tempo. Só então percebi que ainda não respirava. Dessa vez me virei e me forcei a andar, tentando não olhar para trás.
A noite estava fria. As nuvens cobriam a lua e deixavam a praia sombria. De vez em quando a lua aparecia e deixava a praia com um tom prateado. O som do mar me acalmava um pouco. Acho que era o único motivo para eu ter vindo para a praia antes. A ideia de me lançar sozinho num mundo em que eu poderia ser atacado a qualquer momento, em que eu não poderia confiar plenamente em ninguém, me deixava desanimado. Eu tinha vivido momentos felizes no acampamento, mas não me prenderia a isso. Foram poucos esses momentos.
— É hora de ir.
Dizer isso pra mim mesmo não parecia ajudar, mas já estava decidido. A verdade era que o acampamento já não servia o seu principal propósito: nos proteger. Mesmo aqui dentro podem ocorrer mortes. Eu presenciei isso. Quíron finge não ver ou simplesmente fala que está fazendo todo o possível. Ele é um bom professor pra tudo, menos para liderança.
— Meu lugar não é aqui.
Nunca me encaixei aqui. Aqui as coisas sempre deram errado. É claro que eu tinha gostado daqui, mas nunca me senti daqui. Antes não tinha nenhum objetivo. Agora eu tinha, mas nada podia fazer preso no acampamento.
— Vai ser uma longa viagem… — pensei alto. E eu ainda teria que voltar ao meu chalé para pegar minha mochila. Eu já devia estar com ela quando vim pra cá.
— Eu sou o cara certo para se falar de viagens.
Um cara tinha se materializado ao meu lado. Era alto, corpo atlético. Vestia uma regata, shorts e tênis de corrida. Curiosamente seus tênis tinham, ambos, pequenas asas que se moviam com se tivessem vida própria.
— Hermes! — me levantei subitamente. Era a primeira vez que via um Olimpiano pessoalmente — O que… o que está fazendo aqui?
— Vim apenas ter uma conversa com você.
— Você tem uma mensagem para mim? — imaginei que esse seria o único motivo pra ele falar comigo.
— Não, isso não é nada oficial. Está mais para uma conversa entre amigos.
Amigos? O deus dos viajantes simplesmente vem até mim e me chama de amigo? Hermes parecia se voltar simplesmente para uma conversa casual, mas eu duvidava muito disso.
— O que exatamente você quer dizer com “não oficial”?
— Bom, eu poderia tentar enrolar, mas acho que não funcionaria com você. É melhor ir direto ao assunto. Preciso de sua ajuda e você precisa da minha. É por isso que estou aqui.
— Pode explicar melhor?
— A verdade é que esse nosso encontro é meio-oficial. Preciso de ajuda para entregar uma mensagem e você precisa de ajuda na sua viagem.
Pensei em dizer que estava muito bem sozinho, mas decidi guardar esse comentário para mim mesmo. A verdade era que eu não fazia ideia de como chegaria do outro lado de Nova Iorque a pé.
— Bom, entregar mensagens é o que você faz. Eu só não entendo por que você precisa de minha ajuda. E por que eu?
— A mensagem é para sua mãe. É por isso que tem que ser você — fiquei surpreso por um momento, mas logo me recuperei.
— Existem outros filhos de Ate…
— Os outros não servem para essa missão. Talvez um ou outro até pudesse fazer isso, mas é você que está de partida. É você meu escolhido.
— Mas por que você mesmo não entrega a mensagem. É essa sua função, não?
— Atena se retirou para uma… meditação, contemplação, qualquer coisa assim — ele fez um gesto displicente — Ela protegeu o lugar para que nenhum deus possa incomodá-la.
— Mas como deus mensageiro você não tem certos privilégios? — Hermes não parecia nada feliz com as minhas perguntas.
— Para ser mais específico ela protegeu o lugar contra mim, então nem eu posso passar.
— Por que ela faria isso?
— Bom… — Hermes hesitou como se houvesse algo que o incomodava — digamos apenas que, em certa conversa, tentei… explorar territórios intocados.
Tive que me esforçar para não rir. “Territórios intocados” era uma maneira bem exótica de se referir àquilo.
— Você estava flertando com ela — afirmei.
— Esse não é o assunto em questão. Você vai precisar de calçados adequados — ele se abaixou e pegou meus tênis que eu havia tirado para poder sentir a areia sob meus pés — esses não servem pra nada — ele disse atirando-os no meio das ondas.
— Ei! — protestei. Um caixa surgiu nas mãos do deus. No lado dela havia um par de tênis alados desenhados tão bem que era difícil notar qualquer diferença entre elas e o par que Hermes usava. Do lado da miniatura dos tênis alados estava escrito “Hermes Ltda.”
— Tome. Calce-os e corra até aquela parte da praia até encontrar o barco. Reme um pouco para o mar e depois não se preocupe, eu vou guiá-lo. O tempo é curto, apresse-se.
Dizendo isso o deus correu por alguns metros e desapareceu em meio a uma forte luz que fiz questão de não olhar diretamente. Nem mesmo esperou eu dizer se aceitava ou não. Calcei os tênis que estavam dentro da caixa. Eles eram confortáveis, mas fora isso não havia nada de especial neles. Não pude evitar pensar que seria melhor ter os meus coturnos ao invés deles, muito mais protetores do que um tênis comum. Tentei avistar o tal barco, mas não havia nada à minha vista. Olhei de volta para os tênis, mas encontrei um par de coturnos pretos no lugar deles.
— Então é isso que eles fazem — disse para mim mesmo.
Comecei a correr e descobri que os calçados que Hermes me dera não eram mágicos somente em uma questão de aparência. Eles também ajudavam na corrida. Era incrível que eu que eu pudesse me mover daquela maneira. No começo quase caí já que não estava acostumado com a velocidade, mas não demorou muito e eu já estava correndo muito bem.
No fim da praia havia um pequeno barco a remo. Hermes havia dito que eu deveria remar um pouco e o resto ele iria me guiar. Particularmente eu podia até apreciar o mar, mas navegar nele era uma coisa completamente diferente. Eu não gostava nada da ideia de me aventurar no mar sozinho e com um barco daquele tamanho. Olhando dentro do barco havia uma mochila além dos remos. Era minha mochila! Ela estava ali, exatamente como eu a havia arrumado. Algumas mudas de roupa, alguns itens de higiene pessoal e todo o dinheiro que tinha: cerca 80 dólares e um montante de dracmas que eu tinha preguiça de contar.
Antes de entrar no barco ouvi uma coruja ao longe, provavelmente Adam. Por um momento fiquei pensativo. Eu nunca mais viria aquele lugar. Sem amigos — os poucos que eu havia feito ficariam para trás. Sem família — minha única família era um pai que eu odiava. Agora eu estaria sozinho, largado pelo mundo como um papel jogado na rua, levado pelo vento.
Subi no barco e comecei a remar. Já estava decidido. Ficar remoendo aquilo era inútil. Eu tinha algo a fazer e iria fazer. Eu não tinha escolhido aquela vida, mas a viveria do meu modo.
Meus braços já estavam cansados. Eu já tinha me afastado o bastante da costa, não ousaria ir além disso sem um direção certa. No barco ainda encontrei duas cartas, ambas escritas em grego antigo. Uma era para mim mesmo, basicamente dizia para não abrir a outra, a menos que eu gostasse de ter os olhos brutalmente arrancados. A outra… basta dizer que ainda tenho dois olhos.
Parei de remar e fiquei esperando a ajuda de Hermes. Eu ainda achava estranho o fato de ele não poder chegar a Atena mesmo por causa de uma mensagem oficial. Talvez não fosse oficial. Se fosse ele mesmo entregaria. Mas se não é oficial o que teria nessa mensagem? Se não é oficial a mensagem com certeza é dele. Mas qual é sua verdadeira intenção com isso tudo? Ele não poderia entregar essa mensagem ele mesmo? Por que me envolver nisso? Essas perguntas estavam me deixando cansado. Eu não havia tido uma boa noite de sono antes e já estava tarde, mas eu tinha que ficar acordado. Não poderia dormir no meio do mar.
As horas se passaram. Hermes não veio, nem mandou um sinal. Eu não estava mais aguentando. Por várias vezes joguei um pouco de água do mar na cara, tentando me manter acordado. Eu poderia ter voltado à praia, mas o barco se distanciou da costa o bastante para que eu não pudesse vê-la e depois de um momento de cochilo eu não fazia ideia de que lado ficava a costa. Não demorou muito mais para que caísse no sono.
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