Beyond the Vengeance
15 A Ilha Particular de Atena
Notas iniciais
Acordei mais cansado do que quando dormi. O sol já estava alto e forte. Eu estava com dor de cabeça e com fome. Lembrei-me então que ainda havia um sanduíche dentro da mochila que eu havia preparado para viagem. Abri a mochila e apanhei o sanduíche, mas ouvi um ruído estranho, um guincho vindo de longe. Olhei na direção do som e vi uma nuvem de pássaros cinza vindo em minha direção. Aves de Estinfália. Olhei em volta e avistei uma ilha não muito longe que eu não havia notado antes. Sem perder tempo apanhei os remos e os puxei com toda força que eu tinha.
A nuvem se aproximava rápido eu não ia conseguir chegar até a ilha. Não a tempo. A nuvem começou a se dissipar, os mais rápidos vieram na frente para me atacar. Troquei os remos pela espada. Primeiro eu consegui acertar um ou dois pássaros, mas depois tudo que conseguia era mantê-los afastados. Eu batia com toda força neles usando espada, girando para todos os lados, mas o número de pássaros começou a crescer, mais deles chegaram e eu não consegui afastá-los. Um bicou meu ombro, mas consegui afastá-lo antes que arrancasse um pedaço. Outro arranhou minha bochecha e quase me fez cair no mar quando eu me afastei. Não dava mais para ficar ali ou eles iriam me comer vivo. Em vez de lutar peguei metade do meu sanduíche de antes e atirei para longe. Como o sanduíche tinha muita carne a maior parte dos pássaros carnívoros tentou apanhá-lo. Antes de o sanduíche cair na água eu mergulhei levando a mochila. Para garantir que eles ficassem ocupados deixei a outra metade no barco. Nadei feito um louco até chegar à praia da ilha, completamente exausto e encharcado.
Enquanto recuperava o fôlego observei a nuvem de pássaros mortíferos se afastar do barco. Ele estava se afastando cada vez mais. Pelo jeito eu não iria sair daquela ilha tão cedo.
A ilha não era muito grande. Praticamente só havia árvores nela, mas no topo de uma colina eu consegui ver algum tipo de construção, mas as árvores impediam minha visão. Como não havia mais nada na ilha eu comecei a caminhar até lá. Enquanto caminhava não pude ignorar a fome que sentia. Arrependi-me de ter jogado o sanduiche no mar. Mesmo que agora ele estivesse encharcado e com um terrível gosto de sal eu o comeria de bom grado. Tentei localizar algo comestível na ilha, mas não havia árvores frutíferas e eu não tinha visto nenhum animal. A ilha parecia estranhamente deserta. Quero dizer: se haviam árvores devia haver animais.
Quando já estava perto o suficiente consegui ver a construção: um incrível edifício de mármore, branco como se tivesse sido construído há poucos dias. Colunas gregas enfeitavam a entrada, além é claro de sustentar o teto. Vagamente ele me lembrava o Paternon, mas em menor escala. Aquele só podia ser um templo de Atena.
Engoli em seco. Eu nunca tinha visto minha mãe. Não sabia o que esperar. Talvez ela ficasse surpresa por me ver ali no seu templo. Talvez ela já estivesse me esperando. Mas se eu ficasse ali, parado de boca aberta, eu nunca descobriria. Resolvi entrar.
As portas eram grandes e pareciam também ser feitas de mármore. Por sorte estavam abertas, do contrário eu duvido que conseguisse empurrá-las. O interior era igualmente impressionante. Era espaçoso, com um teto alto. A luz do sol entrava por inteligentes fissuras no teto que eram preenchidas por blocos de vidro. O vidro em si forma padrões harmoniosos que enfeitavam o teto ao mesmo tempo em que forneciam luz natural. No centro havia uma estátua de Atena com cerca de 5 metros de altura, também feita de mármore. Parecia que eu já tinha visto aquela estátua antes, mas, se não me falhasse a memória, deveria haver uma coruja no ombro de Atena. Porém a estátua a minha frente não tinha nenhuma coruja.
Aproximei-me da estátua e, como um passe de mágica, uma coruja veio voando de trás dela e pousou no ombro da Atena de mármore. Exatamente como eu me lembrava dela. Antes que eu pudesse dar mais um passo a coruja piou alto. Outras corujas começaram a sair de trás da estátua, todas voando na minha direção, piando furiosas. Dezenas delas. Nunca imaginei que corujas me atacariam daquele jeito. Primeiro: porque eu era filho de Atena e a coruja era seu animal sagrado; Segundo: porque eu nada tinha feito para provocá-las.
O choque me custou caro. Não queria ter que machucá-las, mas quando me atacaram percebi que não tinha escolha. Porém antes que eu pudesse sacar qualquer arma uma coruja mergulhou e arrancou minha pulseira com suas garras, deixando um belo arranhão no meu pulso. Desarmado eu agitei os braços desesperadamente tentando afastar as corujas que me bicavam e arranhavam, mas não obtive grandes resultados. Tentei correr, mas também não foi uma boa ideia. Uma coruja projetou suas garras contra meu rosto, causando um arranhão do alto da bochecha até a sobrancelha. Gritei de dor e acabei tropeçando. Por sorte caí de frente, pois as corujas se ocuparam em tentar destruir minha mochila antes de mim mesmo. Vou morrer, pensei.
— Basta! — uma voz soou em algum lugar acima da confusão causada pelas corujas.
Imediatamente as corujas saíram de cima de mim. Precisei de um minuto pra poder me levantar, meu corpo inteiro parecia estar queimando com dezenas de arranhões. O arranhão no meu olho estava particularmente me preocupando, eu não sabia se meu olho tinha sido atingido ou se apenas a pálpebra. Eu não havia percebido, mas eu tinha corrido para a parte de trás da estátua, de onde as corujas tinham vindo. A minha frente, sentada em alguma espécie de trono, estava uma mulher alta e imponente. Usava vestes brancas e uma tiara de bronze lhe prendia os cabelos castanhos. Seu olhar era sério, mas ao mesmo tempo preocupado e acolhedor.
— Venha aqui — a voz dela era ao mesmo tempo autoritária e tranquilizadora.
Aproximei-me meio hesitante. Aquela era Atena? Sim, só podia ser ela. Aquela era minha mãe!
— Não tenha medo — ela disse quando se levantou e se aproximou de mim.
Cuidadosamente ela retirou minha mão que cobria meu olho, eu nem mesmo tinha notado o que estava fazendo. Atena colocou suas mãos em meu rosto, uma delas sobre meu olho machucado. Quase que imediatamente senti um alívio tomar conta do meu corpo. Todos os arranhões pararam de doer. Quando ela se afastou pude apenas ver as marcas onde as corujas tinham me arranhado. Elas desapareceriam dentro de alguns dias. Levei a mão até me olho e tracei a cicatriz com a ponta do dedo. Ela começava logo abaixo do olho e terminava um pouco acima da sobrancelha. Fiquei feliz por constatar que o olho em si não tinha sofrido nada. Porém aquela cicatriz permaneceria por mais tempo que as outras.
Atena estava me observando. Seu olhar era caloroso, embora ainda parecesse que podia ler meus pensamentos só de me olhar. Quando falou sua voz era mais suave.
— O que o trás aqui, meu filho?
Estava tão nervoso por estar diante dela que tinha esquecido completamente da mensagem de Hermes. Rapidamente procurei na mochila que já não estava nas suas melhores condições, estava molhada e rasgada em algumas partes. Imaginei que a carta estaria praticamente destruída depois de tudo que eu tinha passado, mas, para minha surpresa, ela estava intacta.
— Tenho uma carta para você… quero dizer… de Hermes. Ele me mandou aqui pra te entregar isso — disse entregando a carta para ela.
Atena franziu profundamente o cenho ao olhar para a carta. Em seguida olhou pra mim com um olhar mais suave.
— Tenho que ter uma conversa séria com Hermes — ela falou mais para si mesma do que para mim — Dessa vez ele passou dos limites! Usando meu próprio filho para trazer essas mensagens ridículas!
Eu já tinha uma ideia do que poderia haver naquela carta, por isso achei melhor permanecer calado.
— Por que aceitou trazer esta carta? — ela perguntou.
— Bom… — tecnicamente eu não aceitei, mas eu podia muito bem nunca ter entrado naquele barco. Mas o que eu poderia falar: que estava tão desesperado que acabei aceitando a ajuda que Hermes me prometeu; ou que na verdade não pude negar a oportunidade de conhecê-la; ou que ainda esperava conseguir alguma ajuda dela…
— Você precisava de ajuda, certo? — aquilo era mais uma afirmação do que uma pergunta, então apenas balancei a cabeça — Talvez eu possa fazer algo por você — dizendo isso ela estendeu a mão pra mim com a palma para cima. Havia um anel em sua mão. E eu tinha quase certeza de que ele não estava lá antes — Pegue-o.
Obedeci e peguei o anel. Ele era de prata, porém tinha uma aparência simples. Havia uma minúscula corujinha entalhada nele. Se eu não estivesse olhando de perto provavelmente acharia que sua superfície era lisa.
— Ponha em algum dedo da mão esquerda.
Novamente eu obedeci e coloquei-o no dedo médio. O anel pareceu se ajustar perfeitamente. Quando fechei o punho para vê-lo melhor alguma coisa aconteceu. O anel começou a brilhar. Uma alça cresceu em volta de minha mão. Um pequeno disco se projetou para frente do anel e começou a se expandir e tomar uma forma côncava. Antes que eu me desse conta um escudo estava em minhas mãos. Ele era redondo, suas extremidades eram de bronze e o centro parecia ser de aço polido. Sua superfície era lisa e refletora. A corujinha que tinha visto no anel também estava no centro do escudo, mas um pouco maior. Notei que as extremidades do escudo também eram afiadas, se fosse manejado da maneira correta poderia cortar tão bem quanto uma espada.
— Espero que ele o ajude — relaxei o aperto em volta da alça do escudo. Rapidamente ele começou a se transformar de novo até voltar a ser um anel.
— Sim, ele vai ajudar. Muito obrigado, mãe.
Não sei se poderia me dirigir a Atena como “mãe”, mas ela sorriu pra mim ao ouvir a palavra. Imaginei que aquilo era um sinal positivo.
— Há um pequeno barco do outro lado da ilha — ela começou — Você pode usá-lo. Existem muitos caminhos, mas acredito que o mais seguro seja para o norte. Assim você deverá evitar as sereias.
— Sereias? Achei que só houvesse sereias no Mar de… — parei subitamente quando percebi — Você não está querendo dizer que estou no Mar de Monstros, certo?
— Sim — ela disse depois de um instante — Está ilha fica no meio do Mar de Monstros.
Aquilo me atingiu como um soco. Como Hermes podia ter me mandado para o meio do Mar de Monstros daquele jeito? E pra quê? Para entregar uma carta que Atena nem ao menos leria? Toda minha felicidade por ter ganhado o escudo sumiu no mesmo instante. Se Hermes estivesse na minha frente eu poderia…
— Filho! — Atena interrompeu meus pensamentos — Sei que está com raiva de Hermes, mas no momento o mais importante é que você ache um meio de sair daqui. A rota pela qual estou te mandando é a mais segura, mas a ilha que essa rota leva não é segura. Ao contrário, ela pode ser muito perigosa, mas talvez seja sua melhor chance — e acrescentou — Se você partir agora poderá chegar lá antes do anoitecer.
— Tudo bem. É melhor eu ir então. Obrigado por tudo.
Virei-me para sair, mas antes que eu pudesse dar dois passos Atena me chamou novamente.
— Terry, há mais uma coisa: o caminho pelo qual você segue pode ser muito mais perigoso do que você imagina, mas uma vez nele eu não serei mais capaz de te ajudar. Talvez nenhum deus possa. Compreende isso?
Assenti lentamente.
— Então faça bem suas escolhas, filho. Sua vida e a de outros dependem disso. Agora vá, é perigoso navegar a noite por aqui.
Enquanto corria para o barco não pude deixar de pensar no que Atena havia dito. Sua vida e a de outros depende disso. Quem eram esses outros? Não consegui pensar em ninguém que pudesse se arriscar com a minha vingança. Era por esse motivo que eu havia deixado Liza no acampamento. Ela estava segura lá. Ninguém poderia querer algo com ela.
A primeira coisa que eu notei quando cheguei ao barco foi a comida. Havia alguns sanduíches cuidadosamente embrulhados em um pano. Pela minha fome eu poderia devorar todos ali mesmo, mas o bom senso me fez deixar dois para quando eu ficasse com fome novamente.
Depois de comer e jogar minha mochila para dentro do barco eu estava pronto para remar. Comecei devagar e conforme ia me distanciando da ilha de Atena aumentei a velocidade. Tive que fazer uma pequena curva para o norte, mas depois disso o vento parecia estar ao meu favor. Diferente do barco de Hermes, aquele também tinha uma vela triangular. Não era grande coisa, mas me ajudaria um bocado e, enquanto o vento estivesse ao meu favor, me proporcionaria um descanso do trabalho de remar.
Meia hora depois eu ainda estava usando o vento para navegar. Naquele momento eu estava pensando em Liza. Eu gostaria de saber sobre ela. Se havia lido meu bilhete ou se tinha jogado fora sem nem mesmo ler. Não que houvesse muito para ler. Eu poderia ter escrito mais. Deveria ter escrito mais. Deveria ter tentado explicar que eu não queria vê-la em perigo, mas duvido que conseguisse alguma coisa com isso. Na verdade eu não consegui escrever mais que aquilo e, mesmo assim, tive uma dificuldade enorme para escrever aquele bilhete, por mais curto que fosse. Foram as três palavras mais difíceis que eu já escrevi: "Eu te amo".
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