Beyond the Vengeance
38 Resgate
Notas iniciais
A cada minuto eu odiava mais aquela situação.
Andando pelos corredores escuros comecei a me dar conta que não tinha um plano. Tinha que salvar Piper ou Jason me mataria. Poderia tentar alguma coisa e os esqueletos me matariam. Ou poderiam entregar o que eles queriam e perder… algo muito importante. Não fazia ideia do que era, mas já tinha recebido avisos mais que suficientes, tanto de Psique como de mim mesmo. Já tinha escolhido perder algo para salvar Chris naquele templo. Não voltaria a sacrificar algo importante dessa forma. Tudo ou nada.
Enquanto andava pelos corredores me perguntei como encontraria o caminho certo. Quando vi uma bifurcação a frente me senti melhor em ver que o ele havia mostrado o caminho deixando um corredor mais claro que o outro. Porém quando segui pelo corredor mais claro e dei de cara com um corredor sem saída percebi que era exatamente o contrário. Ele estava indicando o caminho para eu seguir, mas era o caminho escuro. Embora isso não me afetasse, aquele ato covarde conseguiu me deixar com mais raiva.
Fui andando pelos corredores escuros. Tive medo de que de repente aparecesse algum esqueleto para me atacar, tudo parecia ser uma armadilha. Reprimi a mim mesmo. Era exatamente aquele sentimento que o sequestrador queria causar e não lhe daria esse gostinho. Me perdi completamente nas infinitas curvas do labirinto. Só depois de ter certeza de que não conseguiria voltar de jeito nenhum dobrei em um corredor onde a escuridão terminava. Quase achei que estava indo para o lado errado, mas a frente o corredor se alargava, transformando-se em uma pequena sala vazia. Piper tinha as mãos amarradas atrás das costas. A mordaça também tinha sido firmemente amarrada com um nó na parte de trás da sua cabeça. Ainda assim ela estava sendo segurado pelo projeto de esqueleto.
— Estou aqui — anunciei — Vim fazer a troca.
— Quero ter certeza de que tem o que quero — ele disse.
Peguei o mapa do bolso e mostrei a ele.
— Está brincando comigo?
Não custava tentar, pensei. Suspirando internamente joguei o mapa no chão e apanhei a chave do bolso. Os olhos deles quase chegaram a brilhar (o que seria bem bizarro considerando sua aparência esquelética).
— A garota primeiro — arrisquei.
— Nem pensar!
— Tudo bem — disse de forma conciliadora — Ao mesmo tempo. Trocamos ao mesmo tempo.
— Vai tentar alguma coisa…
— Vou desarmado, você tem uma adaga e…
— Eu vi que você tira as armas dessa pulseira! — Pelo menos escute tudo antes, idiota.
— Tudo bem — levei a mão até a pulseira. Ele ameaçou usar a adaga contra Piper — Calma! — alertei.
Devagar tirei a pulseira do pulso. Deixei que ela caísse no chão. Fiz o mesmo com o anel.
— Satisfeito? — perguntei.
— Tudo bem, mas sem gracinhas. Ou sua amiga aqui vai lamentar muito.
Comecei a andar em sua direção. Chegamos perto o suficiente para fazer a troca. Estiquei meu braço até ele, entregando a chave, embora todo o meu cérebro gritasse que aquilo era um grande erro. Só depois de a chave estar em suas mãos Piper foi liberada. Ele olhava para a chave quase sem acreditar que estava em suas mãos. Seria uma pena decepcioná-lo.
— Posso saber o que um fã de Bullet For My Valentine quer com a chave? — perguntei.
Ele lançou um olhar de desagrado na minha direção.
— Não é da sua conta. E eu não sou fã de Bullet For My Valentine.
— Asking Alexandra então. Pra mim os dois são a mesma coisa.
— É Alexandria… — tive que fazer um esforço considerável para não rir de sua cara nesse momento — Mas eu não sou fã! — ele acrescentou aumentando o tom.
— Ah — fingi inocência — Achei que fosse por todo esse pó branco na cara.
— Eu não estou…
— Claro, é uma imitação bem genérica do visual do Kiss, mas pelo menos o Kiss só era meio ridículo assim nos shows e coisa do tipo. E é claro as músicas eram ótimas. Você podia apreciar uma música deles sem ter que ouvir um berro. E também…
— Cala a boca! — ele estava a ponto de explodir de raiva — Eu já disse que não sou fã dessas bandas! Pare de falar delas!
Era o momento. Discretamente foi liberando a corrente em meu braço. Apenas o suficiente.
— Está tentando me fazer de idiota? Por que se quiser confusão é só…
Ele estava apontando a adaga em direção quando fiz a corrente se mover rapidamente e atingindo em cheio a chave em sua outra mão, fazendo sair voando pela sala.
O vi arregalando os olhos enquanto a chave escapa de sua mão. Por um momento tive esperança de que ele fosse atrás da chave, mas ele resolveu me atacar. Rapidamente empurrei Piper para trás. Pretendia soltar suas amarras, mas não tive tempo. A adaga veio rápida em direção ao meu rosto, mas consegui me esquivar para o lado, aproveitando a brecha para enrolar a corrente em seu braço. Resolvi o problema da adaga, mas em compensação recebi um inesperado soco de esquerda no rosto que me desequilibrou. Com a corrente enrolada no braço dele acabamos nos desequilibrando mais ainda. Fomos para o chão. Fiz a mão dele bater com força no chão, fazendo o largar a adaga. Porém, novamente recebi um soco, dessa vez na barriga. Rolamos no chão por alguns segundos trocando socos. Até que, por descuido, deixei-o agarrar a corrente com a mão livre. Por cima de mim ele forçou a corrente para baixo, contra o meu pescoço. Pensei em acionar as lâminas, mas suas mãos estavam muito próximas de mim, iria acabar na pior.
Meus pulmões já queimavam sentindo a falta de ar quando um pé o chutou para longe de mim. Piper ainda estava amarrada, mas seus pés estavam livres. Ela virou de costas pra mim. Em suas mãos, ainda atadas, ela segurava a minha pulseira e o anel. Apanhei ambos enquanto levantava.
Rapidamente puxei o pingente da faca e a coloquei na mão de Piper. Coloquei o anel a tempo de acionar o escudo e aparar um golpe do “não fã de BFMV” que tinha pegado novamente a adaga. Ainda não tinha colocado a pulseira no pulso e naquela situação seria impossível, mas estava claro que estava com a vantagem. Por um momento nossos olhares se cruzaram. Percebi que ele olhou de esguelha para o lado, em direção ao corredor. Antes que pudesse pensar em correr eu me interpus entre ele e o corredor. Você não vai fugir. Ele olhou novamente para o corredor atrás de mim, dando tempo o suficiente para eu fixar a pulseira no pulso. Estava pronto para rendê-lo quando ele gritou olhando para o corredor:
— Liza!
Fiquei atônito ao ouvir aquele nome. Não era algo que eu estivesse preparado para ouvir. Infelizmente ele aproveitou essa minha brecha para correr para o canto da sala onde a chave tinha caído. Ele a pegou, mas eu já tinha me recuperado e não deixaria passar de jeito nenhum com aquela chave. Ele juntou os dedos aos lábios e assobiou alto. Dessa vez olhei para o corredor, ainda escuro. Barulhos chegaram até mim. Algo se movendo. Então os esqueletos surgiram da escuridão, meia dúzia deles.
Piper tinha acabado de se livrar das amarras quando foi atacada, mas conseguiu se defender e recuar até mim. Começamos a lutar. O barulho dos golpes, metal contra metal, preencheu a sala formando um eco incômodo aos ouvidos. Com o canto do olho capitei o garoto contornando a batalha para fugir.
— Piper! — chamei enquanto me defendia de um golpe com o escudo — Faça com que ele pare! Use o charme!
— Parem! — ela gritou. Isso quase me custou a vida, pois por um momento pensei realmente em parar, mas os esqueletos não — Não funciona com mortos-vivos! — ela avisou.
— Nos esqueletos não, nele! — disse acenando para o garoto que a sequestrara, o que quase me fez perder a mão no processo. Pelo menos ele havia parado com o grito de Piper.
Ela o procurou com o olhar e quando o avistou, gritou:
— Faça com que eles parem!
— Parem — o garoto ordenou prontamente.
Os esqueletos pararam de nos atacar e formaram uma linha, ficando em posição de sentido ou o mais próximo disso que conseguiram com algumas partes faltando aqui ou ali.
— Ele está com a chave, diga para devolver.
— É… — Piper olhou pra mim por instante antes de falar — Devolva a chave pra ele.
Ele estendeu a chave pra mim. Eu a apanhei e a coloquei no bolso. Piper olhou pra mim novamente, mas resolvi ignorar.
— Quem é você? — perguntei.
Ele continuou quieto. Olhava para Piper com a boca semiaberta. Lancei um olhar para Piper, pedindo ajuda.
— Ah, ok. Quem é você?
— Sam Crandle, filho de Hades.
— Isso explica a escuridão e os esqueletos — comentei — Pergunte a ele o que queria com a chave.
— Tudo bem. O que… — outro barulho vindo do corredor, algo como uma batida de algo pesado caindo no chão — O que foi isso?
O corredor continuava escuro. A batida tinha sido relativamente próxima, mas mesmo assim eu não enxergava nada que…
— Droga!
— O que? — Piper perguntou confusa.
Um nítido rosnado veio do corredor e a coisa que eu não tinha enxergado porque era da mesma cor da escuridão, apareceu. Um imenso cão infernal saiu correndo do corredor em nossa direção. Piper e eu pulamos para trás para evitar a locomotiva negra infernal que era aquele cachorro. Ele estava tão rápido que não conseguiu parar. Tentou se virar antes de bater na parede, mas acabou derrapando e batendo seu traseiro peludo na parede. O lugar estremeceu um pouco. O cão latiu e rosnou para nós, mas em vez de nos atacar escolheu correr atrás de Sam. Este estava de costas para o cão, completamente indiferente, provavelmente ainda sobre efeito do charme. Pensei que seria despedaçado pelo cão, mas este apenas trombou com ele, usando o focinho para jogá-lo para cima. Sam caiu em cima do cão infernal, agora não tão drogado pelo charme, mas ainda confuso. Ainda mais confuso, eu vi o cão latir para nós antes de correr de volta de onde tinha vindo.
— Não! — gritei. Porém já era tarde demais. Eles haviam mergulhado na escuridão e sumido — Droga! DROGA! — soquei a parede, pouco me importando com a minha mão.
— Ei… — me virei. Piper estava a alguns passos de distância, com uma expressão de quem estava tentando acalmar um animal selvagem, com as mãos levantadas fazendo um pedido silencioso para que eu me acalmasse. Funcionou — É… tudo bem?
Suspirei.
— Tudo. Ao menos nos livramos dele.
— Hum… o que exatamente é essa chave? O que ela abre?
Não sei, quis responder.
— Para o bem de todos nós é melhor que você não saiba o que é isso — usei a frase da deusa — Na verdade é melhor que ninguém saiba dela — lancei um olhar significativo para Piper. Ela demorou um segundo pra entender.
— O quê? Você quer que eu minta pra Jason e Chris? Espera! Eles não sabem de nada disso?
— Eu respondo as perguntas se você prometer não dizer nada sobre a chave. Jure pelo rio Estige.
Piper cruzou os braços, não querendo cooperar, mas por fim ela cedeu.
— Tudo bem, juro pelo rio Estige.
— Bom — disse me abaixando para pegar o mapa, um pouco pisoteado e amassado, mas inteiro — Conto tudo no caminho. Ainda tenho que descobrir onde estamos.
…
— O quê?!
— Olha muito provavelmente vocês dois teriam morrido se eu não fizesse isso.
— Mas não precisava nocauteá-lo!
— Se não fizesse isso eu estaria morto — rebati.
Piper abriu a boca para falar, mas pareceu se arrepender e fechou-a novamente. Ela apertou o passo. A escuridão havia cessado pouco tempo depois de Sam desaparecer. Estávamos quase chegando. Esperava que Jason não ficasse ressentido por tê-lo nocauteado. Não queria ter que lutar novamente. Piper parou.
— O que foi? — perguntei.
— Você ainda não me falou sobre a chave — ela disse.
De repente me toquei que havia prometido contar tudo. Embora tivesse certeza que poderia me esquivar daquilo, resolvi contar.
— Eu não sei nada sobre a chave…
— Juramos pelo Estige! — ela me interrompeu — Não minta.
— Não estou mentindo. Recebi essa chave e sei que tem que ser devolvida para alguém… mas não sei quem.
— Como sabe que não era para ele que deveria devolver?
— Sei que não vai ser uma simples devolução. Vou receber algo em troca.
— O que é?
Eu não sabia ao certo. Paz? O que isso significava afinal? Tinha pensando em algumas possibilidades, mas nada parecia se encaixar nessa palavra. Havia uma coisa que se encaixava, mas esta já não era mais possível de se conseguir. Quando abri a boca pra falar pensei em dizer que não sabia, mas parecia uma mentira, embora eu não soubesse o porquê. Acabei decidindo dizer o que achava que seria mesmo parecendo uma loucura.
— Eu…
— Piper! — Jason apareceu correndo em nossa direção — Tudo bem?
Contornei os dois e caminhei pelo resto do corredor antes que pudessem me envolver na conversa. Além disso, o aparecimento de Jason significava que Chris não o havia impedido como eu dissera para fazer. Imaginei se ele e Jason haviam brigado.
Quando cheguei ao salão branco encontrei Chris. Ele não parecia ter lutado com Jason.
— Disse pra mantê-lo longe dos corredores — disse.
— Eu mesmo já estava indo atrás de você depois do tempo que você demorou — Chris respondeu — Quando ele acordou, eu não o impedi de ir atrás de vocês.
— Bom, tanto faz. Pelo menos ele ficou desacordado tempo o suficiente.
— Não comemore tão cedo, ainda temos que abrir essa porta.
— Você já a abriu, não abriu? — perguntei.
— Não, estava aberta quando passei daquela vez.
Olhei para trás. Jason e Piper estavam se aproximando. Olhei para o quadro onde estava escrito o nome da deusa. Parecia que não havia outro jeito. Saquei a faca. Piper já estava praticamente do meu lado.
— O que está fazendo?
— Tirando a gente daqui — respondi.
Cerrando os dentes, passei a faca pelo meu pulso abrindo um pequeno corte, mas suficiente para fazer o sangue escorrer.
— O que está fazendo?! — Piper repetiu, dessa vez com urgência na voz.
Estendi o braço com o corte virado para baixo. O sangue escorreu para fora do corte e caiu no chão do salão. Quase automaticamente a porta começou a se mover.
— É o único jeito de abrir a porta — expliquei.
— Ah.
— Melhor irmos logo. Já tive o bastante desse templo pelo resto da vida.
Era de tarde quando entramos. Lembro-me disso. Mas não espera que tivéssemos ficado tanto tempo lá para que a noite tivesse caído. Ainda assim era isso que tinha acontecido. Não fazia ideia de que horas eram, mas já não havia mais nenhum indício do fim da tarde. Só naquele momento percebi o quanto estava cansado. Tinha sido um longo dia dentro daquele templo.
— Quanto tempo ficamos lá dentro? — perguntei pra ninguém em especial.
Jason e Piper se aproximaram, provavelmente não para responder a minha pergunta.
— Ér… — Jason começou. Parecia um tanto em conflito consigo mesmo — Bom… obrigado por salvar Piper, mesmo que tenha…
— Tudo bem — resolvi interromper — Não foi nada, não precisa agradecer.
— Então eu agradeço — Piper disse — Você nos ajudou muito lá dentro. Se algum dia precisar de ajuda em algo pode contar com a gente.
— Por falar nisso — Jason falou — De que acampamento você é? Já fui aos dois acampamentos e nunca vi você.
— Eu ficava no acampamento meio-sangue, mas moro aqui em Nova Iorque agora.
— Sozinho? — Piper.
— Não — menti. Piper não pareceu acreditar.
— Chris — ela disse — ele mora sozinho?
— Sim.
— Golpe baixo — acusei Piper.
— Ele precisa de ajuda em algo?
— Não! — intervi.
— Sim — Chris desmentiu, completamente controlado pelo charme.
Dei as costas para os três e saí andando. Não queria ajuda deles. Afastei-me o quanto pude. Quando olhei para trás Jason estava vindo atrás de mim. Dei uma rápida olhada para os lados e, não vendo ninguém além de nós quatro, invoquei as asas e levantei voo rapidamente passando por cima de um prédio e caindo para um beco ali por perto. Rapidamente saí do beco e comecei a andar pela cidade, me misturando as pessoas que por ali passavam. Assim que pude tomei o caminho de volta para o apartamento.
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