Notas iniciais
Pretendia postar o capítulo ontem, mas acho que tinha tomado café demais porque cometi muitos erros e tirei mais um dia para corrigir. Mas, como prometido, ainda estamos no prazo de duas semanas, então não vou considerar isso um atraso. Espero que gostem. Boa leitura.

Os dias passaram tranquilos depois daquilo. Chris não apareceu mais, tão pouco Jason ou Piper. Não poderia saber o quanto tinham feito Chris contar sobre mim, mas depois de uma semana consegui esquecer o assunto. Nada havia acontecido.

Estava voltando para o apartamento quando notei que a porta estava aberta. Sempre a deixava fechada (mais por costume do que por segurança, a porta não trancava). Silenciosamente saquei a faca e entrei no quarto. Porém guardei a faca quando vi que era apenas Chris. Estava sentado no sofá, com a cabeça inclinada para trás. Por um momento achei que estava dormindo, mas logo ele se levantou e veio na minha direção.

— O que foi? — perguntei. Imaginei que se estava ali tinha alguma coisa pra me contar.

— Aqui — ele estendeu um pequeno pacote pra mim — Seu passaporte, a passagem e um pouco de dinheiro. O voo é daqui a uma semana. Também deixei algumas instruções pra você aí dentro e…

— Não, pode ficar com eles — disse devolvendo o pacote.

— Como assim pode ficar com eles? São pra você.

— Eu não quero — as palavras saíram antes que eu pudesse impedir.

Pensei em tentar explicar, arrumar alguma justificativa, mas não o fiz. Não estava com ânimo para arrumar justificativas, nem sabia se existia uma. Simplesmente dei as costas para Chris e fui até minha cama. O diário de Liza estava lá, em cima do travesseiro. Estava cansado. Tinha passado quase 24 horas acordado. Queria dormir, mas Chris ainda estava lá. Ele largou o envelope no sofá, mas não saiu. Tentei ignorá-lo, não queria mais discussão. Pensei em verificar o armário e ver o que ainda tinha de comida, porém Chris me interrompeu.

— Terry — ele chamou. A voz estava calma, mas sabia que isso só seria o começo de uma nova discussão.

Suspirei, me virando pra ele.

— O que fo…

Tudo foi rápido demais. Um punho me acertou em cheio no rosto antes que eu pudesse perceber o que estava acontecendo. O soco foi tão forte que acabei me desequilibrando e caindo. Levei a mão até a parte do rosto que tinha recebido o soco, logo abaixo do olho esquerdo. Com certeza iria ficar dolorido mais tarde.

Chris me encarava de um jeito que nunca o tinha visto antes. Punhos e dentes cerrados, o olhar fixo em mim, estava com raiva, muita raiva. O punho que tinha me acertado ainda estava erguido. Ele parecia a ponto de explodir. E eu era o alvo.

— Mas o que você…

— Cale a boca! O que você pensa que está fazendo?! “Eu não quero”? Desde quando isso se trata só de você? — ele disparou — Seu egoísta, idiota! Você não tem direito de recusar depois de tudo que aconteceu. E os planos da Ordem? E todas as pessoas que eles enfeitiçaram ou mataram? E todas aquelas garotas nas fotos? E Marie? E Liza?

Nesse momento eu já estava fervendo de raiva também. Quando me levantei tive que fazer um esforço considerável para não pular em cima de Chris.

— E o que você tem a ver com isso? Não quero ir, é a minha decisão. Vou achar quem matou Liza por mim mesmo. Não preciso da droga da sua ajuda!

— Você tem a coragem de recusar depois de tudo que eu fiz?! — Chris gritou agarrando-me pela gola de minha camiseta — Foi você que pediu a minha ajuda pra começar!

— Eu pedi ajuda apenas para encontrar o assassino de Marie! — devolvi. Quase cuspindo as palavras nele — Eu o encontrei, ele já está morto. Acabou! Saia da minha vida! Se soubesse que ficaria me incomodando com essas coisas nunca teria pedido ajuda!

Chris me empurrou parra trás com força. Fui obrigado a dar vários passos para trás, esbarrando na cama e arrastando ela para trás, quase me fazendo cair novamente.

— Se é assim que você quer tudo bem! Se vire sozinho de agora em diante!

Chris saiu como se estivesse martelando o chão com os pés, o que no caso daquele prédio sempre era preocupante. Ele bateu a porta ao sair. Tive vontade de ir atrás dele. Não para reconciliar ou pedir desculpas, me arrependi de não ter lhe devolvido o soco.

Voltei minha atenção para a cama e coloquei-a no lugar novamente. Ainda estava com raiva. Raiva de Chris por ter agido sem me consultar e ter aceitado uma ajuda que eu não queria e com raiva de mim mesmo por saber que eu nada podia fazer sem aquela ajuda.

Por mais que aquilo tivesse me estressado, eu ainda estava cansado e precisava dormir. Pensei em me deitar, mas lá estava o diário de Liza para me impedir. Não me lembrava por que o tinha deixado em cima do travesseiro, mas não havia sido uma boa ideia. Depois de lê-lo do começo ao fim, eu tinha me distanciado ao máximo dele, embora ao mesmo tempo não pudesse simplesmente jogá-lo fora. Não conseguia vê-lo sem me lembrar de tudo que havia nele e isso desencadeava uma torrente de emoções ao mesmo tempo: culpa, raiva, tristeza, saudade… Eu o apanhei de cima do travesseiro pretendendo guardá-lo no criado mudo, porém fiquei com ele durante um tempo, apenas olhando-o enquanto todas aqueles pensamentos e lembranças corriam pela minha mente num caos completo. Então, sem nenhum motivo lógico aparente, eu o joguei com força a direção da porta, como se o estivesse o expulsando dali. Ele bateu na parede ao lado da porta, girou e caiu aberto no chão, amassando as páginas. Automaticamente me senti mal por aquilo, mas não o busquei. Despenquei na cama e fique ali imóvel até pegar no sono.

Já estava de noite.

Isso quase passou despercebido por mim. Estava sentado no chão do apartamento. De alguma maneira ali parecia mais confortável que o sofá ou a cama. Do meu lado estava o papel rasgado do envelope que Chris havia deixado jogado no sofá. Todo seu conteúdo espalhado sobre ele. Lá estava a passagem aérea, o passaporte falso, um maço de notas e uma folha de caderno dobrada com as anotações de Chris. Metade delas dizia o que eu deveria fazer sobre o passaporte falso que ainda não estava completo a outra falava sobre o que eu deveria fazer quando chegasse lá. Ele tinha arrumado tudo para mim.

O diário de Liza já estava guardado no criado-mudo, longe de mim e dos meus pensamentos, mas de alguma maneira, após abrir o envelope, me sentia quase tão mal quanto antes. Já tinha lido tudo, embora não tivesse realmente compreendido o que tinha lido, estava difícil me concentrar.

A área abaixo do meu olho esquerdo estava dolorida e, percebi logo de manhã quando acordei, levemente roxa. Tinha dormido mal, acordado muito antes do que pretendia e estava com dor de cabeça. Mas de alguma maneira me sentia mais confortável ali no chão, sentado com as costas apoiadas na parede. O vão de uma janela deixava uma suave brisa entrar. Eu observei meu quarto por um instante, era raro ficar um dia todo lá… e depressivo também.

Era inevitável não pensar sobre minha briga com Chris. Não parava de me perguntar o que tinha acontecido, por que eu havia feito tudo aquilo? Não, ainda não queria ajuda. Tinha motivos para querer agir sozinho. Mas tinha exagerado com Chris, dito coisas que eu não pretendia. Sentia-me como um papel jogado ao vento, sendo levado, incapaz de traçar seu próprio caminho. Distraidamente comecei a mexer em minha pulseira. Lembrei-me do primeiro dia que havia feito isso. Parecia ter sido há séculos atrás. Passei o dedo por cada pingente até parar no pingente de coruja. Eu sabia que Adam estava na floresta do acampamento, mas queria que ele estivesse ali. Imaginei como ele reagiria após tanto tempo sem nos vermos. Provavelmente me bicaria como punição por não ter lhe trazido um rato ou algo para comer.

Esse pequeno pensamento me fez dar um sorriso fraco. Um pouco mais animado, me levantei e recolhi as coisas de volta para dentro do envelope, jogando-o na cama. Fui até o armário pegar as coisas para o “jantar”. Apanhei uma faca, um prato, um novo pacote de pão de forma velho e um pote de pasta de amendoim que não tinha gosto de amendoim. Voltei para o canto que estava antes e me sentei, começando a preparar um sanduíche.

Neste momento algo entrou rápido pelo vão da janela, voando até quase bater na parede oposta. A princípio pensei que algo havia sido atirado por alguém da rua, mas era um pensamento ridículo, estava no último andar, alto demais para alguém jogar qualquer coisa. Estava escuro em meu quarto (fazia o máximo para economizar velas) e mesmo com a minha visão não percebi o que era aquilo a princípio. Ele fez a volta antes de bater na parede, desapareceu atrás do sofá e quando reapareceu do outro lado estava vindo em minha direção. Instintivamente ergui as mãos para me proteger, porém não fui acertado, exceto talvez por uma pequena lufada de ar. Quando abaixei os braços vi Adam parado a minha frente, olhando para mim.

— Adam! — exclamei surpreso. Ele piou e levantou as asas como que para exaltar que tinha chegado — O que está fazendo aqui?

Adam piou baixo inclinando a cabeça. Ele geralmente era bem expressivo (ao nível de ser até bizarro), mas naquele momento eu não soube exatamente o que ele queria dizer. Precisei de um minuto para pensar.

— Foi por que eu te chamei? — realmente queria que ele estivesse ali, mas não pretendia tê-lo chamado. Adam se limitou a piscar — Mas você não estava no acampamento?

Adam pareceu preferir olhar para o meu lado, onde estava o pacote de pão. Quando me dei conta disso apanhei um deles e esfarelei no prato. A coruja atacou imediatamente. Depois voltei a apanhar mais um prato no armário e enchi com um pouco d’água. Enquanto Adam comia, fiz meu próprio sanduíche e comi também. Acabamos mais ou menos no mesmo tempo.

— Como chegou aqui? — perguntei. Ele novamente não deu atenção à pergunta e foi bebericar a água que havia trazido para ele — Bom, de qualquer forma foi bom você ter vindo. É bom ter um ami… — me interrompi ao me lembrar — um amigo ao meu lado.

Adam aparentemente havia percebido como eu estava através do tom da minha voz, pois ele se virou e saltitou até mim. Acariciei suas penas por um instante.

— Eu também não tenho sido um bom amigo pra você, não é mesmo? — disse pensativo — Sempre indo embora sem dar explicações, tentando fazer as coisas sozinho… Acho que eu não tenho sido um bom amigo com ninguém — levei a mão até a parte dolorida em meu rosto — Acabei falando e fazendo muita coisa que não devia. Eu sou mesmo um idiota. Tento deixar as pessoas de fora para que não se machuquem, mas no final sou eu mesmo quem mais faz mal a elas.

Adam deu bicadinhas na minha mão, como se estivesse tentando me encorajar. Levantei-me do chão e voltei até o pacote, apanhando-o da cama.

— Acho que eu devo ir de qualquer forma. Não é exatamente um pedido de desculpas, mas… — suspirei exaustivamente, cansado de lidar com meus próprios sentimentos — Tenho medo de acabar deixando as coisas piores. Pelo menos no Japão não irei me preocupar tanto com isso…

Geralmente começava com raiva, mas naquele momento estava diferente. Costumava dizer a mim mesmo que controlava minhas emoções, mas após a morte de Liza eu tinha desistido de tentar. Desde a morte dela não havia hora certa para sentir raiva, ou se sentir culpado, ou triste. Na maioria das vezes eu conseguia parar na raiva, o que não chegava exatamente a ser uma vitória, mas ainda assim era algo. Porém naquele momento tudo estava bagunçado na minha cabeça e eu mesmo não saberia dizer o que eu estava sentindo

Sem aviso nenhum, lágrimas começaram a inundar meus olhos. Nem eu mesmo saberia explicar o porquê. Simplesmente vieram, trazendo consigo um turbilhão de emoções.

— Eu definitivamente preciso me livrar disso. Cada vez que eu baixo a guarda isso vem… é como se eu estivesse sempre a ponto de explodir. Primeiro eu pensei que isso me ajudaria a acabar com a Ordem de alguma forma. Sempre que estou assim sinto como se pudesse matar cada um deles, lutar com todos ao mesmo tempo se fosse necessário, mas só acabo descontando essa raiva em quem não devo.

Desabei na cama novamente, com dor de cabeça. Coloquei a mão no bolso e apanhei a chave dourada de lá. Fiquei observando-a por alguns minutos.

— Paz… Talvez seja mesmo o que eu mais precise buscar.



Dias depois eu estava no aeroporto, apenas com uma mochila, passaporte e passagem. Não tive problemas durante o embarque, mas assim que embarquei no avião, percebi o quanto estava desorientado. Não sobre a viagem, mas sobre a minha vida. Não estava indo para o Japão simplesmente para investigar as ações da Ordem. Estava indo porque não tinha mais para onde ir. Embora parecesse uma decisão equivocada, ir para o outro lado do mundo por um motivo como esse, mesmo assim me parecia razoável me manter longe de Chris e dos outros. Eles não mereciam ter que passar por tudo aquilo, Chris principalmente. Odiaria repetir a dose.

Dentro do meu bolso estava a chave dourada que Psique havia confiado a mim para devolver a alguém que eu ainda não fazia ideia de quem era. Duvidava que esse alguém estivesse no Japão, mas ainda assim queria com todas as minhas forças me livrar daquela chave. Conseguir a paz ou fosse o que fosse. Precisava fazer algo, me sentir útil. Quem sabe o que poderia me esperar lá afinal?

Notas finais
Antes que eu esqueça, um feliz dia do escritor para todos os escritores que me acompanham, e também para todos os outros que, por acompanhar a fic, me incentivam a escrever. Aproveitem que é dia do escritor e escrevam um comentário =P Obrigado por lerem e até a próxima!