Beyond the Vengeance
24 Onde está Liza?
Notas iniciais
Dizem que ver a morte muda as pessoas. Olhando para o corpo inerte de Robert, sentindo o cheiro do sangue fresco, descobri que era verdade. Eu com certeza já tinha visto a morte algumas vezes, mas daquela vez foi diferente. Havia uma grande diferença entre enfrentar a morte e causá-la. Era como se todo aquele tempo eu visse o mundo através de um véu. No momento em que cravei a adaga no coração dele o véu se desfez. Tudo parecia diferente, como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Nem a morte de Robin tinha causado tal efeito. O mundo parecia um lugar bem mais perigoso. Mesmo assim não tive medo, tinha consciência que eu também podia ser perigoso.
Olhei mais uma vez para Robert. A imagem era terrível: sangue por toda parte, todos os ferimentos e os olhos… olhos abertos. De repente fiquei grato por todos os monstros se desfazerem em pó, a imagem devia ser tão perturbadora quanto aquela. Ajoelhei ao lado do corpo e fechei seus olhos. O corpo já estava incrivelmente frio para o tempo em que a vida o tinha abandonado. Pensei em retirar a adaga do peito dele, mas mudei de ideia.
— Dessa vez você vai ficar onde está — disse para adaga.
Estava prestes a ir embora quando ouvi algo, um piado baixo e curto. Automaticamente me lembrei de Adam e comecei a procurá-lo freneticamente entre o mato. Outro piado me avisou que ele estava bem perto. Fui em direção ao som e quase pisei nele. Adam estava caído no chão, sua asa estava dobrada em um ângulo estranho.
— Adam!
Eu o apanhei do chão e inspecionei a asa, provavelmente quebrada. Procurei por outros ferimentos, mas por sorte não havia mais nada. Retornei a clareira às presas e levantei voo. Precisei de um segundo para me localizar, mas logo achei a direção certa e voei até o acampamento.
Àquela hora todos deveriam estar no refeitório, mas eu sabia de alguém que não estaria lá. Quando cheguei à porta não tive a decência de bater.
— Mas o que… — Gina interrompeu a frase no meio quando percebeu que era eu que tinha entrado — O que está acontecendo?
— É o Adam — disse mostrando sua asa quebrada — ele quebrou a asa e…
— E nada! Você entra na minha enfermaria coberto de sangue e quer que eu cuide da asa do seu bichinho? — estava tão preocupado com Adam que nem tinha notado que minha roupa estava praticamente vermelha de sangue. Felizmente não todo meu.
— Bom, eu…
Gina bufou irritada e avançou, não pude evitar dar um passo para trás. Ela tirou Adam das minhas mãos com cuidado e o aconchegou em um travesseiro. Depois se voltou para mim e me puxou até uma maca, não tão delicadamente quanto tinha feito com Adam.
— Onde está ferido?
Tirar a camiseta para que ela visse o ferimento foi um tanto doloroso, o sangue havia secado e grudado a camiseta na ferida, infelizmente eu só percebi isso quando já a tinha tirado, junto com um pedaço de pele. Gina fez uma careta de reprovação e andou pra lá e pra cá, pegando coisas para me tratar. Reparei que havia um prato de comida ainda pela metade em sua mesa.
— Desculpe ter atrapalhado o seu jantar — disse.
— Não há nada que você não atrapalhe — ela disse sem olhar pra mim — sendo assim não precisa pedir desculpas, é a droga do meu trabalho.
Ela colocou tudo ao meu lado e começou a limpar a ferida no ombro. Depois que tudo estava limpo ela despejou um líquido verde que me fez gritar de dor.
— Fica quieto, preciso desinfetar.
Gina despejou água sobre a ferida e com calma começou a costurar a pele com uma agulha fina. Apenas quando tive certeza que terminou esta etapa é que tive coragem de voltar a respirar. Certo cansaço havia se instalado dentro de mim. Um pouco demais para a minha opinião. Imaginei se não seria consequência da benção de Atena.
— Como estão as coisas por aqui? — perguntei.
Ela me lançou um olhar indecifrável antes de responder.
— Como sempre eu acho. Nada muito sério.
Esperava que ela dissesse algo sobre Liza, mas não queria perguntar diretamente. Por algum motivo tinha medo da resposta. Ou até mesmo de um sermão de Gina. Eu não sabia dizer ao certo.
— E Liza? — disse engolindo em seco.
Gina fez uma pausa enquanto pegava unguento para a queimadura em minha mão.
— Eu não tenho visto ela ultimamente. Ela está um pouco… distante — a resposta só serviu para me deixar mais apreensivo.
— Ela não disse nada? Sobre mim talvez?
— Eu não a vi falando desde que… — Gina fez uma pausa, claramente desconfortável com a pergunta.
— Desde que eu fui embora — completei.
Gina se concentrou na queimadura. Ela passou uma pomada que aliviou a dor e enrolou minha mão com bandagens. Mesmo ela parecia não querer dar más notícias pra mim. Quem sabe ainda houvesse um pouco de compaixão naquela dura curandeira.
— Pelo menos agora você está aqui. Pode resolver as coisas. Não que seja fácil, mas… — Gina prestava muita atenção na linguagem corporal. Eu realmente odiava isso nela, pois raramente eu conseguia disfarçá-la bem — Espera, você vai ficar aqui não vai? Ou pelo menos falar com ela? Terry!
Desviei o olhar. Ainda não tinha uma decisão, mas não gostava de como as coisas estavam indo.
— Eu não posso ficar aqui Gina, meu trabalho ainda não acabou. Quero muito falar com ela, quero mesmo, mas… não quero passar pela mesma coisa. Não quero que ela fique pior do que já está. Não quero dizer “oi” pra depois ter que ir embora. De novo.
Se eu tinha achado que Gina tinha compaixão eu estava muito enganado. Ela socou meu braço, próximo à ferida que tinha acabado de fechar e começou a gritar:
— Você acha que eu sou idiota? Você quer que eu tenha que olhar pra ela todo o dia e fingir que o namorado que ela tanto espera não chegou à minha enfermaria coberto de sangue? Quer que eu finja que não acabei de ouvir isso? Você acha que ela vai se sentir melhor assim, se não souber de nada? Há alguns meses ela estava aqui chorando enquanto via você quase morto nessa mesma maca e é assim que você agradece?
Abri a boca, mas não consegui produzir um som sequer. Não havia resposta para aquilo. De repente quis que ela tivesse me socado mais forte. Aquela tinha sido a coisa mais covarde que eu já havia dito. Não era tentar evitar o problema, era fugir dele. E eu não podia fazer aquilo. Não com Liza.
— Tem razão. Fui um idiota por pensar nisso — fiz uma pausa — Cuide de Adam, preciso resolver isso.
— Espera aí! Você não vai… — nesse instante fechei a porta da enfermaria e corri até o refeitório.
Parecia apenas mais uma noite normal no acampamento. Os campistas riam e conversavam enquanto seus pratos se esvaziavam aos poucos. A fogueira queimava silenciosa e sempre presente, lançando um tom alaranjado sobre o refeitório. Na mesa dos filhos de Hermes alguém discutia baixinho algo sobre roubar os escudos do chalé de Ares e substituir por outros falsos. Não pude deixar de sorrir ao imaginar.
No começo ninguém deu atenção a mim, mas alguns dos meus irmãos me notaram. Aos poucos todos no pavilhão do refeitório tinham me visto e as conversas se transformaram em cochichos curiosos. É claro que alguns nem mesmo haviam notado os dias em que estive fora, mas eu estava sem camisa, com bandagens e a tatuagem no meu braço não podia passar despercebida. Quíron foi o primeiro a se levantar. Ele veio trotando até mim. Não sabia dizer se sua cara era de surpresa ou de se estava imaginando como iria me castigar por fugir.
— Você…
— Sim, eu sei.
— O que veio fazer aqui?
Tentei dar uma versão resumida do que tinha acontecido pra ele. Não queria demorar, mas alguém tinha que saber onde o corpo de Robert estava. Eu não queria ter que enterrá-lo ou queimá-lo.
— Você o matou… — Quíron falou como se não pudesse acreditar.
— Fiz o que tinha que fazer. O que você nunca fez — simplesmente saiu. Eu não pretendia dizer aquilo, mas disse antes que pudesse me impedir — Onde está Liza? — perguntei para ninguém em especial.
Alguns filhos de Apolo trocaram olhares entre si. Liza não parecia estar na mesa deles.
Um calafrio percorreu a minha espinha e eu saí correndo de lá. Onde estava Liza? Eu tinha que vê-la. Corri até o chalé de Apolo e entrei. Estava vazio já que todos estavam jantando, mas Liza tinha que estar ali.
— Liza!
Olhei em volta. Não havia sinal de ninguém. Verifiquei a cama em que Liza dormia. Ela estava arrumada como se ninguém dormisse lá há semanas, mas tentei tirar o pensamento da cabeça. Muitas camas estavam arrumadas. Olhei debaixo do seu travesseiro. Tive medo de que o bilhete ainda estivesse lá, que ela nunca o tivesse lido, mas não estava. Aquilo não me fez sentir melhor. Voltei a procurar Liza. Tive a impressão de ouvir um barulho atrás de uma porta.
— Liza? — disse abrindo a porta.
Vi por um segundo uma menina enrolada em uma toalha de banho antes de ser atingido por uma escova de cabelo e ouvir um grito. Fechei a porta rápido tentando dizer algo que se assemelhasse com uma desculpa, mas a escova tinha acertado minha boca, então acho que não saiu como eu queria. Vasculhei o resto do chalé, mas nada de Liza. Saí do chalé e fui até a quadra de vôlei, olhando em volta, desesperado. Não havia ninguém, exatamente como no meu sonho. Devia ser 10h da noite, era meu aniversário, eu tinha dado um fim ao assassino de Marie e Liza tinha sumido.
— LIZA!
Quíron veio trotando em minha direção. Ele abriu a boca para falar, mas fui mais rápido.
— Onde está Liza?
Quíron pareceu incomodado de ter sido cortado, mas respondeu mesmo assim.
— Eu não sei. Terry, nós precisamos…
— Nós precisamos procurá-la. Algo pode ter acontecido com ela!
— Terry me escute! — Quíron me agarrou pelos ombros — Você se meteu em algo maior do que pode dar conta. Eu não fui tão negligente quanto você acha, mas estava de mãos atadas. A organização por trás disso tudo é muito poderosa e eles se escondem bem. Precisamos tomar cuidado com o que fazemos ou vamos acabar caindo em alguma armadilha. Isso seria fatal. Para todos nós!
— Você sabia… sabia todo esse tempo e não fez nada?
— Faço o que posso por contra própria. Nós mal saímos de uma guerra e já estamos em outra. Porém, dessa vez o inimigo é invisível, pode estar em qualquer lugar, ser qualquer pessoa. Eu não poderia pedir ajuda de ninguém. Seria imprudente. Além de ser bem possível colocar o acampamento inteiro em risco. Acredite, eu fiz de tudo para que o mínimo de pessoas se envolvesse. De tudo para que você ficasse fora disso.
As palavras de Quíron tinham conseguido me calar. Todo aquele tempo o culpando fora apenas falta de informação. Não que eu gostasse do método dele, mas via a lógica da situação. Avisar o acampamento do perigo incerto causaria confusão. Os campistas ficariam apreensivos, nervosos e isso seria percebido facilmente pelos inimigos. Eles poderiam até mesmo usar isso contra nós.
— Deixe-me ajudar dessa vez — Quíron voltou a falar — Você não precisa fugir daqui. Estará mais seguro conosco. Deixe que eu cuide dos assuntos mais graves. Deixe-me ajudar com Liza.
Quíron olhou pra mim, seus olhos cheios de expectativas. Ao contrário do que enxergava antes, naquele momento Quíron parecia algo além do centauro que treinava os semideuses. Ele era como um pai para muitos, e como pai se preocupava demais. Podia parecer um completo idiota, mas no fundo suas intenções eram boas.
— Não. Você não entende Quíron. Eu já estou envolvido demais para sair dessa e sei me cuidar sozinho. Aqui eu só atrairia mais atenção para o acampamento. E se você acha que vou ficar parado enquanto Liza está sumida é melhor tentar de novo.
O centauro suspirou, dando-se por derrotado.
— Não custava tentar. Pelo que vejo você não se saiu tão mal enquanto esteve fora — ele disse me olhando de cima a baixo — Tenho certeza de que vai ficar bem, mas dessa vez vá sabendo que tem ajuda aqui dentro sempre que precisar.
Concordei com um aceno de cabeça e me despedi. Após procurar por uma camisa na gaveta de minha antiga cama, decidi o que tinha que fazer. Corri pela quadra de vôlei e alcei voo voltando para meu “apartamento”. Precisava perguntar a Chris sobre um barco que tinha saído a pouco tempo do acampamento. Ele tinha que ter parado em algum lugar.
Enquanto voava não parava de pensar em Liza. Durante todo aquele tempo sozinha, para a própria segurança. E no fim nada daquilo havia adiantado. Tentei manter os pensamentos livres de culpa, mas conforme o vento passava por minhas asas mais a culpa pesava no peito. Quando percebi a culpa já tinha se instalado completamente em meu coração. Fria e cortante.
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