Beyond the Vengeance

25 Do lado errado dos trilhos


Notas iniciais
E aí galera, tudo certo? Vocês devem ter percebido que fiz uma pequena alteração na capa. Estou (re)aprendendo a mexer no photoshop, espero que tenha ficado bom. Esse capítulo tem tanta referência que vou chamá-lo de GTA V XD Boa leitura.

— Jones Beach Island, rápido!

— O quê? — Chris respondeu do celular — Por que acha que eles estariam lá?

— É a praia mais próxima do acampamento — expliquei.

— Aquela praia deve ter uns 15 km, é bem provável que tenha mais. Como vamos encontrá-los lá?

— Você vai por um lado e eu por outro.

— Você só pode estar maluco!

— Se a gente não se encontrar eu ligo pra você às seis da manhã — disse desligando o celular.

Eram aproximadamente duas da manhã. Eu havia parado no meio do caminho para ligar para Chris. Felizmente havia trazido o celular. Tinha pensando que o barco que tinha saído do acampamento teria que parar em algum lugar. E se eles estavam querendo se afastar rápido do acampamento aquele seria o lugar. Tentei voar o mais rápido possível até a praia. Não sabia que tipo de barco eles tinham, mas imaginei que seria um barco pequeno, pouco chamativo. Com sorte chegaria a tempo.

Aproveitei a escuridão da madrugada para sobrevoar a praia. Estava quase totalmente deserta. Avistei apenas corredores ofegantes passando orla da praia. Também havia um casal profundamente adormecido em uma grande toalha estendida sobre a areia. Fora isso não havia ninguém. A apreensão começou a tomar conta de mim quando vi uma mancha escura solitária caminhando perto do mar. Imediatamente mergulhei até ela, mas quando me aproximei vi que era apenas Chris cambaleando, sonolento.

Quando pousei ao seu lado ele sacou uma faca e apontou pra mim, mas logo relaxou quando viu que era eu.

— Droga, Terry! O que você estava pesando vindo desse jeito para cima de mim?

Chris olhou pra mim esperando uma resposta. Pensei em algumas, mas nenhuma o deixaria menos estressado do que já estava.

— Olhe — ele começou — eu sei que você quer encontrá-la, eu também quero, mas você tem que admitir que não tem como encontrarmos ela. Não aqui. É como procurar agulha num palheiro. Seria melhor se nós…

— Seria melhor se nós procurássemos em vez de ficar aqui conversando — o cortei — Quanto mais tempo perdermos mais longe eles podem ir.

Chris bufou irritado, mas eu já andava à frente. Liza tinha que estar por perto. Não sabia o que faria se algo acontecesse com ela. Tudo de novo, pensei sombriamente. Primeiro Marie e depois Liza. Será que seria assim novamente? Mais uma morte em minhas mãos? Pensei nos momentos em que Liza e eu tivemos no acampamento, sobretudo as vezes em que sentamos sob a árvore para assistir o pôr-do-sol. Tinha sido um tempo curto. Muito curto. Grande parte do nosso namoro (se é que se pode chamar de namoro) foi enquanto eu estava encarcerado na enfermaria central e depois disso tudo deu errado. Brigas, a minha saída do acampamento, o bilhete…

— O barco!

— O que? — perguntei momentaneamente confuso.

Chris apontou e o segui com o olhar. Um barco estava na areia cerca 200 metros a frente, aparentemente vazio. Corri até ele, sem esperar por Chris.

Ele era pequeno. Não muito maior que um bote. Havia algumas caixas dentro dele. Redes cobriam as caixas, de um jeito meio bagunçado. Alguns remos estavam atulhados num canto, embora o barco tivesse uma vela. O barco estava bem perto do mar, mas não havia nenhuma marca na areia, nenhuma evidência de que ele tinha sido arrastado até a praia. Será que as ondas já haviam apagado as marcas? Pensei em entrar no barco e verificar as caixas, mas quando coloquei um pé para dentro quase pisei em alguém que estava dormindo entre as redes. Tentei recuar antes que ele acordasse, mas seus olhos abriram antes que eu pudesse por o pé para fora do barco.

— O que você pensa que está fazendo? — Um cara barbudo saiu incrivelmente rápido de debaixo das redes e em um piscar de olhos já estava de pé pronto para defender seu barco. Ou beber mais uma garrafa de uísque. Eu não tinha certeza se confiava em sua postura ou no seu hálito.

— Desculpe, só estamos procurando uma pessoa… — só então ele notou Chris ao meu lado — pensamos que ela estivesse nesse barco.

O barbudo cuspiu na areia.

— Se está procurando a garota devia voltar pra casa, ela já está com outro.

— Você a viu? Pra onde ela foi? — perguntei um pouco mais desesperado do que pretendi.

— Vai se ferrar! Vocês me acordam, tentam invadir meu barco e ainda querem que eu responda suas perguntas? Vocês poder ir para…

A frase morreu no meio quando eu o agarrei pela gola, girando e fazendo-o tropeçar nas caixas. Quando o barbudo caiu, eu já estava em cima dele, com a adaga em seu pescoço.

— Terry! — Chris chamou. Ignorei-o.

— Eu fiz uma pergunta! — disse fuzilando o homem com o olhar — responda!

— Calma aí, eu não… eles perguntaram da estação de trem.

— Onde? — afastei um pouco a lâmina do pescoço dele enquanto tentava entender como chegar à estação de trem.

Quando o Homem terminou de explicar eu o deixei do jeito que estava e me dirigi a Chris:

— Onde está seu carro?

— Estacionamento. Não muito longe daqui.

Impeli Chris a ir correndo. Poderia voar e chegar mais rápido, mas a praia estava mais movimentada naquele momento e eu quase podia sentir os olhos do barbudo me seguindo enquanto corria. Chegamos ao estacionamento em exatos cinco minutos. Tempo demais em minha opinião.

Chris tinha um Honda Civic prata. Ele pegou as chaves para abrir a porta, mas as tomei das mãos dele. Ele olhou pra mim irritado. Já cansado demais para reclamar novamente.

— Você está cansado. Eu dirijo — disse sentando no banco do motorista.

— E você sabe dirigir? — Dei a partida.

— Eu já tenho dezesseis — Sai do estacionamento.

— E… — pisei fundo — E habilitação? — Chris perguntou, cada vez mais irritado.

— Eu não tenho nem casa, roubo água do prédio atrás do meu e sonego meus impostos. Você acha que eu me preocupo com habilitação? — fiz uma curva fechada num cruzamento. O sinal estava amarelo.

— Só não bata a droga do carro!

Chegamos à estação em dez minutos. Eu não havia batido. Chris teve dificuldade em largar o painel do carro. Começamos a vasculhar a estação por sorte havia pouco movimento. Falamos com passageiros, seguranças e uma senhorinha que não sabia a diferença de Long Island e Coney Island. Por fim fomos à bilheteria. Algumas pessoas lançaram olhares inamistosos quando cortamos fila para perguntar sobre Liza. Umas das moças achou minha descrição familiar.

— Sim, eu acho que a vi. Estava com outro garoto. Se não me engano queriam ir para Manhattan. O trem deve estar saindo agora.

— Onde? — perguntei com urgência.

A moça apontou em uma direção e comecei a correr. Avistei o trem de longe, já se preparando para sair. Saltei a roleta da estação. Um guarda gritou para que eu parasse, mas passei correndo por ele. Vi a portas se fechando. Forcei minhas pernas a correr mais rápido. Estava perto. Estiquei a mão para tentar impedir que as portas se fechassem, mas meu punho atingiu a porta já fechada. Tentei forçar as portas, mas era inútil. O trem começou a andar e olhei impotente ele se afastar.

O guarda de antes tentou me agarrar, mas escapei de suas mãos e me pus a correr de volta. Saltei a roleta novamente. Chris estava me esperando ofegante. Passei correndo por ele fazendo sinal para que viesse também. Voltamos ao estacionamento e eu dei partida no carro de Chris.

— O que você está fazendo?

— Não podemos perdem aquele trem de vista.

— E como vai segui-lo da estrada?

Não respondi. Tive uma ideia, mas não queria contar a Chris. Arranquei com o carro e Chris se prendeu de novo ao painel. Avancei dois sinais vermelhos, fiz algumas ultrapassagens ilegais, mas cheguei onde queria. Quando parei o carro a cancela baixou e o trem passou. Tive que esperar até a cancela subir novamente. Chris me xingou quando eu virei onde não havia estrada e segui o trem lado-a-lado com os trilhos, o cascalho sendo triturado pelas rodas em alta velocidade. O espaço entre os trilhos e a parede à direita que os separava de prédios e estradas era estreito, do tamanho exato de um carro. Havias dois trilhos à esquerda: O mais afastado era onde o trem estava, uns 100 metros a frente.

Segui à mesma velocidade do trem, tomando cuidado para não bater nas laterais ou subir nos trilhos e acabar com a suspensão do carro. Estava indo tão bem que por um momento me pareceu que aquela ideia insana daria certo, mas então tudo começou a dar errado. A nossa frente outra estação se aproximava, bloqueando o espaço que havia para o carro passar. Estava rápido demais para frear sobre o cascalho. Pensei em subir nos trilhos para não bater, mas outro trem vinha vindo na direção oposta.

— Trem! — Chris alertou.

— Eu vi.

— TREM!

— Eu já vi!

Havia uma rampa de acesso para cadeirantes, embora houvesse uma grade ainda era melhor do que bater de frente com o trem. Meti a mão na buzina e acelerei. Os poucos passageiros que esperavam o trem viram o carro desgovernado que vinha na direção deles. O trem onde Liza estava não parou na estação. O outro também não ia parar. O carro atingiu a grade com um grande estrondo de metal sendo retorcido. As rodas atingiram a rampa. A suspensão dianteira se encolheu, fazendo o para-choque raspar no chão. O carro pairou no ar por dois desesperantes segundos. Então caiu na plataforma da estação e segui acelerando. Continuei buzinando para os passageiros menos avisados. Felizmente todos desviaram do carro.

Então veio o banco. Do outro lado da estação não havia rampa, apenas um banco de metal bloqueando a “saída”. O trem ainda estava passando à esquerda. Assim que o último vagão passou eu joguei o carro para esquerda, mas já era tarde demais. O farol direito bateu em cheio no banco de metal enquanto o resto do carro caía para fora da plataforma.

Tudo aconteceu rápido demais. De repente estávamos girando e virando de cabeça para baixo. A gravidade pareceu não funcionar por algum tempo e então senti o impacto no teto do carro. Fui golpeado pelo airbag. Continuamos capotando. Não sei quantas vezes. Perdi a noção do que era em cima ou em baixo. Apenas escutava os ruídos do metal se retorcendo, amassando. Quando finalmente paramos precisei de algum tempo para perceber que estávamos de cabeça para baixo.

Livrei-me do cinto de segurança e girei dento do carro (ou o que tinha sobrado dele) para sair pela janela. O vidro tinha sido completamente destruído, espalhado em milhares de cacos pelo chão. Fiz o possível para não me cortar quando saí. Chris, saindo do outro lado, não teve tanta sorte e ganhou um belo corte na mão. Notei gasolina se espalhando pelo chão. Antes que Chris pudesse dizer qualquer coisa eu o puxei enquanto corria, obrigando-o a correr junto. Quando já estávamos longe dos curiosos ele finalmente falou:

— Mas que droga você fez?!

— Posso arranjar outro carro pra você — foi a melhor resposta que encontrei.

— Você só tinha que seguir o maldito trem, Terry! De longe! Você quase nos matou.

— Não foi tão ruim assim — disse.

Como se estivesse esperando que eu dissesse aquilo, uma explosão estourou ao longe, de onde estávamos antes. Uma grande coluna de fumaça negra começou a subir pelo céu. Chris me fuzilou com o olhar. Abri a boca para falar, mas descobri que não havia nada a dizer.

— O que está esperando, idiota? — Chris perguntou com hostilidade — Você explodiu meu carro para pegar aquele trem, vá atrás dele!

— Ah… sim, claro — respondi.

Corri até uma área dos trilhos mais discreta e alcei voo. Não me importava se ia aparecer duas vezes no mesmo jornal (“carro explode nas linhas do trem” e “anjo avistado sobrevoando Jones Beach Island”) tinha que alcançar aquele trem rápido. Tinha que chegar até Liza. Não sabia o que exatamente eles queriam com ela, mas não poderia ser nada de bom. E tudo que acontecesse com ela seria minha culpa.

Notas finais
Digam aí o que acharam da capa, das referências e, é claro, do capítulo em si. Espero conseguir trazer mais novidades pra vocês em breve. Obrigado por lerem e até a próxima!