Beyond the Vengeance

22 De volta ao acampamento


Notas iniciais
E aí galera, tudo certo? Voltando ao ritmo normal (pelo menos por enquanto). Espero que gostem u.u Boa leitura.

O chalé estava silencioso. Todos pareciam ter sumido, mas ela tinha que estar ali. Não havia outro lugar. Continuei procurando. Olhando ao redor. Ela tinha que estar perto.

— Liza! — chamei.

Nada.

Nem o vento fazia barulho do lado de fora. Tudo estava muito estranho. Não havia ninguém, nada, dentro do chalé. Lá fora a noite estava igualmente vazia. Olhei para todos os lados e nada. Algo definitivamente estava errado. De repente vislumbrei um vulto com o canto do olho, correndo para a floresta. Corri atrás, desviando de arbustos espinhentos e ziguezagueando por entre as árvores. Não via mais o vulto, mas continuei correndo, guiado pelos seus passos apressados esmagando galhos e folhas secas. Cruzamos boa parte da floresta assim. Mas os passos ficavam cada vez mais distantes, cada vez mais difíceis de serem ouvidos. Não percebi que já não ouvia nada até chagar a praia, totalmente deserta. Ainda estava ofegante, mas de alguma forma eu sabia que ela não estava longe. Estava em algum lugar. Eu podia senti-la.

— Liza!

Acordei gritando o nome dela. A porta do meu mais novo quarto se abriu e Trish entrou por ela. Pude ver a pergunta se formando em seus lábios, mas perguntei antes:

— Como está a porta?

Ela relutou em responder de imediato, obviamente em dúvida se deveria ou não fazer a pergunta.

— Está bem — ela disse — Funciona como qualquer outra.

Tínhamos usado duas grandes tábuas de madeira para fazer uma porta improvisada. Nem de longe se parecia com uma porta, parecia mais que alguém as havia pregado para bloquear a passagem, mas se alguém prestasse atenção veria que elas poderiam ser movidas para o lado. Não era o ideal, mas servia por enquanto.

— Eu… — Trish começou — ouvi um grito e…

— Estou bem, não foi nada — a cortei.

Por fim ela fingiu que tinha acreditado e me deixou sozinho. Fui até o banheiro e joguei água no rosto para me despertar. O que tinha sido aquilo? Apenas um pesadelo? Não, nunca era apenas um pesadelo. Mas o que significava? Será que Liza estava em perigo? Eu a tinha deixado no acampamento justamente para que ela ficasse segura. Teria sido um erro?

— Terry! — escutei a voz de Trish me chamar.

— O que foi?

— Se não precisar de mais nada, eu já vou indo.

Saí do banheiro e me deparei com Trish, já pronta para a viagem. Usava uma blusa regata cinza, shorts e tênis all-star. Para uma menina do Texas ela parecia realmente pronta para entrar em uma selva em Nova Iorque.

— Não pensei que você fosse tão cedo. Não vai ter problemas em voar de dia?

— Vou andar um pouco pela cidade. Não é sempre que venho pra cá. Quando escurecer, voltarei para a ilha.

— O mínimo que eu posso fazer é te acompanhar até lá em baixo.

— Tem certeza de que não vai se perder aqui, né?

— Tenho. Posso ser do Texas, mas sei me virar na cidade — ela brincou.

— Bom… Obrigado por tudo então.

— De nada.

Houve um nítido momento de dúvida em que nós não fizemos nada além de olhar um para o outro, mas por fim nos abraçamos e nos despedimos.

— Nos vemos por aí — ela disse por fim.

Começou a andar, mas de repente parou e olhou para trás como se tivesse mais alguma coisa para falar, mas pareceu se arrepender e voltou a andar. Mais do que nunca eu desejei que as mechas de seu cabelo não cobrissem os olhos em horas assim.

De volta ao meu quarto corri até o travesseiro e apanhei o celular que Chris havia me dado. Rapidamente saí do prédio e caminhei por ruas aleatórias até que estivesse longe o bastante da minha nova casa. Finalmente pude ligar o celular e discar o único número gravado na agenda. Houve apenas um toque.

— Me encontre no Central Park. Agora.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa o telefone ficou mudo. Até onde eu pude perceber era Chris do outro lado da linha. Ou pelo menos eu esperava que fosse ele.

Apenas 341 hectares para procurar. No que aquele mentalista estava pensando? Tinha levado o celular no caso de precisar ligar de novo para ele, mas achei melhor mantê-lo desligado e sem bateria (nunca se sabe). Eu estava pensado em ligá-lo novamente quando tive uma ideia melhor. Se ele estivesse perto o suficiente talvez pudesse ouvir meus pensamentos. Não seria a primeira vez e não custava tentar.

É… Chris? Você está em algum dos 3 mil quilômetros quadrados do parque?

Vários minutos se passaram e nada aconteceu. Talvez ele estivesse longe demais. Seus poderes não deveriam ser tão fortes. Estava prestes a meter a mão no bolso à procura do celular quando senti uma mão no ombro.

O movimento me assustou. Antes que eu percebesse estava segurando a adaga contra o pescoço de Chris. Se servisse de consolo, ele parecia bem mais assustado que eu.

— Droga, Chris! O que deu em você? Eu quase te matei!

Chris soltou o ar dos pulmões antes de responder.

— É bom ver você também, Terry.

— Por que não avisou que estava vindo? — disse guardando a adaga — Quero dizer, eu não gosto de você invadindo a minha mente, mas é melhor do que te matar por acidente.

— Não consegui.

Por um momento pensei ter entendido errado.

— Como assim não conseguiu? — perguntei.

— Eu é que pergunto… por que sua mente está tão protegida?

Chris definitivamente não estava nos seus melhores dias. Depois da pergunta inusitada ao invés de uma explicação ele pediu para que eu contasse minha história. Quando terminei ele parecia mais abatido do que nunca. Seus olhos pareciam dois borrões negros. Não pude deixar de notar que se esforçava para manter a cabeça erguida e os olhos abertos. Quando nos sentamos na grama para conversar, reparei que a barra de sua calça estava completamente rasgada e os tênis imundos.

— Então deve ser isso — ele começou — Nêmesis deve ter dado uma proteção mental pra você. E levando em conta que você é filho de Atena, eu não ficaria surpreso se essa proteção tivesse ficado mais forte que o normal.

— Bom… — tentei assimilar tudo — isso explica um bocado.

Chris tirou a mochila surrada que carregava nas costas e a abriu. Tirou um pacote enorme de Cheetos e começou a comer. Parecia um tigre esfomeado com um pedaço de carne.

— Desculpe, eu não tenho tido muito tempo para comer — ele explicou.

—Por falar nisso, você está bem?

— Passei por alguns problemas para conseguir algumas informações, mas agora estou bem. Tenho um anjo caído pra me ajudar — ele brincou.

— É melhor tomar cuidado com o seu medo de altura — retruquei.

— Não tenho medo de altura.

— Se me chamar de anjo caído de novo, vai ter.

Chris abocanhou uma quantidade enorme Cheetos. Tive a impressão que ele estava mastigando mais devagar do que deveria.

— Então… você não me chamou aqui para eu ver você comendo, chamou?

— Não — Chris respondeu de boca cheia — Tenho boas e más notícias. Primeiro: temo ter calculado mal o tamanho do grupo do qual o assassino faz parte.

— O que quer dizer?

— Digamos que ele já é grande demais para ser apenas um grupo, está mais pra organização. Obviamente alguém está no comando, mas eu não faço ideia de quem seja.

Chris deixou o Cheetos de lado e tirou um mapa de dentro da mochila. Ele o estendeu. Os Estados Unidos se desenrolou a minha frente. Círculos azuis e vermelhos pontilhavam o mapa. Havia pelo menos o dobro de marcas vermelhas.

— As marcas azuis são as garotas que eu já havia te mostrado antes, as vermelhas são novos casos. Eles estão por toda parte. Quero dizer, numa cidade ninguém vai dar atenção a um caso isolado, mas se olharmos o país todo… — Chris fez uma pausa — é muita loucura. Todos são semideusas pelo que parece.

— Tantos casos… eles são desde…

— Desde que você foi embora. E não para por aí. Pode haver muito mais.

Ele só podia estar brincando.

— O quê?

— Aqui — ele apontou para o mapa — A garota de Chicago. Um sátiro estava indo buscar ela. Quando chegou ela o atacou. Pelo que ele me contou eu diria que ela estava como as outras, mas as coincidências acabam por aí. Ela não tentou matar ele de fato, só… — Chris buscou a palavra — tirá-lo do caminho. E até onde sabemos, ela só está desaparecida.

— E Quíron não fez nada a respeito?

— Aí fica mais estranho ainda. Quíron não enviou o sátiro para levá-la para o acampamento meio-sangue, ela era romana.

— Romana?

— Acho que o centauro não é exatamente um livro aberto. Infelizmente não descobri mais nada sobre isso. Considerando casos assim, pode haver muito mais casos que tenha passado batido por mim.

— E quando começam as boas notícias?

Chris olhou pra mim, aparentemente desconfortável. Parecia receoso em dizer algo.

— Talvez… eu tenha conseguido rastrear o assassino.

— Você o quê?! — antes que percebesse já tinha me levantado — Onde?

— Primeiro vamos nos acalmar…

— Que se dane a calma, Chris! Onde?

Chris respirou fundo antes de continuar.

— Aqui — ele tirou uma caneta do bolso e fez um círculo no mapa — Eu fiquei sabendo de um cara que surtou de repente e matou a namorada e depois ele mesmo. Eu chequei, ambos semideuses. Depois… — ele fez outro círculo no mapa — uma filha de Afrodite acordou só com as roupas debaixo…

— Pervertido.

— Tem mais dois casos aqui e aqui — Chris fez mais duas marcações — se traçarmos uma linha entre eles… — Chris traçou a linha e deixou que eu ligasse os pontos. O nome do lugar se destacava como um letreiro neon no meio da noite.

— Long Island! Ele está indo para o acampamento! Eu tenho que ir.

— Você não acha que… — Nesse momento minhas asas apareceram e em poucos segundos eu já estava no ar. Chris gritou lá debaixo, completando a frase — devia se preocupar com o que os mortais veem?

O acampamento meio-sangue parecia ter sido retirado de um sonho ruim. Como um cenário amigável de um campo cheio de vida antes de uma bomba explodir tudo. A praia estava deserta, como de costume. A areia refletia a luz dourada do pôr-do-sol. Tudo parecia exatamente igual. Fazia apenas um mês que tinha saído dali, mas depois de tudo que tinha acontecido pareciam ser anos. Anos?

— Droga! Acho que não vou ter uma festa surpresa.

Lembrar do meu aniversário só me fez querer mais ainda ver Liza, mas sabia que não era uma opção. O assassino podia estar por perto e devia ter um bom motivo para voltar para o acampamento.

Quando pousei na praia tive uma ideia. Imediatamente fiquei feliz por ter pensado naquilo. Segurei o pingente entre os dedos e esperei. O bater de asas se aproximou rápido e logo eu pude vê-lo. Adam descreveu um pequeno arco no céu antes de mergulhar na minha direção e pousar no meu braço.

— É muito bom ver você, Adam — tentei acariciar suas penas, mas ele me bicou — Ai! Tudo bem! Está nervoso por que eu fui embora, não é? — ele piou alto abrindo as asas para enfatizar sua insatisfação — Ok! Me desculpe, mas agora eu estou de volta e preciso da sua ajuda.

Ele olhou para o lado como se a conversa não fosse com ele. De longe Adam era a coruja macho mais sentimental que eu já tinha conhecido.

— Tudo bem — suspirei — Eu acho que estou te devendo alguns ratos, mas isso é realmente importante. Preciso de você, Adam — ele voltou a olhar pra mim — Preciso que você fique de olho na floresta, veja se tem alguém perambulando por ela e me avise se algo acontecer.

Como resposta Adam me bicou de novo e saiu voando. Preferi considerar aquilo como um sim.

Atravessei a floresta com cuidado, sempre atento a qualquer movimento ou barulho estranho entre as árvores. Felizmente (ou não) não tive problemas. Antes que saísse buscando o assassino precisava conferir uma coisa.

Espiando detrás das árvores eu podia ver os chalés. Um em especial. O sol já tinha dado lugar à lua e nos chalés os campistas se preparavam para o jantar. Pouco a pouco eles foram ficando vazios. O chalé que eu estava observando parecia estar deserto. Depois de um tempo saí do meu esconderijo e vasculhei o chalé. Nada. Talvez ela estivesse misturada com seus irmãos e eu não a tivesse visto. Ou talvez ela apenas tenha ido para o refeitório mais cedo. Não devia me preocupar com aquilo. Ela estava bem. Estava na hora de cuidar de outros assuntos.

Quando voltei à floresta não precisei caminhar muito para ouvir Adam piando. Ele pousou no meu braço e piou. Logo depois estava voando comigo em seu encalço. Fomos bem para centro da floresta. De repente Adam subiu a cima das árvores e desapareceu. Abri a boca para chamá-lo de volta, mas logo me calei. Primeiro pensei que era minha imaginação, mas o barulho se repetiu.

Esgueirei-me por entre as árvores, tentando ao máximo não fazer barulho. A minha frente eu podia ouvir algo se movendo com pressa, mas não parecia estar saindo do lugar. Estava escuro, mas vi que tinha uma clareira a frente. Aproximei-me cautelosamente.

Como se fosse um Déjà vu, a clareira estava vazia, exceto por uma fogueira recém-apagada soltando um fino fio de fumaça, mas dessa vez o assassino estava do lado da fogueira, olhando assustado para recém-chegado que iria matá-lo.

Notas finais
As coisas estão começando a ficar interessantes XD Comentários são sagrados u.u não me desapontem. Obrigado por lerem e até a próxima!