Beyond the Vengeance
23 Aniversário sangrento
Notas iniciais
Os olhos do assassino só revelavam a surpresa em me ver. Mesmo no escuro eu o estava enxergando perfeitamente, registrando cada detalhe em minha mente, como que preparando seu obituário. Ele tinha a pele morena, provavelmente de origem hispânica, com os olhos escuros, alguns centímetros mais alto do que eu e com os cabelos curtos, ao estilo militar. Vestia calças jeans e uma camiseta regata branca, o que era uma escolha bem idiota pra alguém que queria se esconder.
Percebi na mesma hora que ele não pretendia fugir. O olhar de surpresa não demorou mais do que um segundo para se desfazer e dar lugar a um olhar determinado. Vi quando cerrou o punho, pronto para lutar. Por mim estava ótimo.
— Então é você que tem causado tantos problemas por aqui — eu disse.
— E se for? — ele retrucou — O que você vai fazer?
Se houvesse alguma maneira de odiá-lo mais ainda, eu o teria feito. Não era preciso muito para ver que tipo de pessoa ele era. Do tipo arrogante, que acha poder fazer tudo, sem que ninguém se meta. Do tipo que eu adoraria matar.
Como resposta, saquei minha espada. Tive o prazer de ver uma sombra de surpresa passar por seus olhos.
— Não vim aqui para bater papo — rosnei.
— Pode vir — ele disse empunhando uma espada própria que apareceu do nada, mas não desperdicei meu tempo me perguntando como ele tinha feito aquilo.
Corremos um em direção ao outro, completamente tomados pela fúria. Quando nossas espadas se encontraram no ar senti a vibração do golpe se propagar por todo o meu braço. Nos estudamos por um momento antes de mais um ataque. Minha raiva queimava como nunca, mas eu tinha que controlá-la. Nada de bom viria daquilo.
O som de aço contra aço se espalhava pela floresta até a pouco silenciosa, assustando os pequenos animais para longe. Adam piava, voando alto sobre as árvores, aparentemente sem saber o que fazer. Imaginei que estivéssemos muito perto um do outro para ele tentar um ataque.
O assassino era habilidoso o bastante para evitar minhas investidas e forte o bastante para causar impacto nas minhas defesas. A cada golpe que defendia era como tentar parar uma bola de boliche em plena queda com a ponta de minha espada. Meu braço estava se cansando rapidamente e o mesmo não parecia ocorrer no assassino.
Ele ergueu a espada no alto e desceu ela. Calculei rapidamente que talvez não fosse capaz de deter aquele golpe com a espada, mas não tinha apenas a espada. A surpresa dele foi imediata quando me viu erguendo o braço esquerdo, aparentemente desprotegido. Tudo aconteceu rápido demais, porém podia jurar que ele tinha usado ainda mais força no golpe depois que viu o movimento. Com um grande baque, o som da espada dele batendo no meu escudo ecoou pela clareira, assustando até mesmo Adam, que se afastou um pouco mais do que devia.
Assustado, o assassino recuou e olhou confuso para meu escudo. Me perguntei por que não o havia usado desde começo. Como que em retruque, a palavra “orgulho” apareceu na minha mente. Tentei me convencer que fora uma estratégia bem utilizada.
Minha alegria por tê-lo deixado surpreso não durou muito. Ele estalou os dedos e um escudo surgiu em sua mão esquerda, um escudo definitivamente maior que o meu. O sorriso presunçoso em boca só me deixou com mais raiva.
Voltamos a nos atacar, ainda mais empenhados do que antes. Tentei atacá-lo com golpes rápidos e alternados, tentando usar a agilidade ao meu favor, porém com seu escudo maior ele não precisava movê-lo muito para bloquear o ataque. Usei o escudo contra ele, na tentativa de desequilibrá-lo, mas foi uma péssima ideia. Ele recebeu o golpe como se não fosse nada, manteve-se completamente equilibrado e ainda aproveitou o momento para atacar com a espada. Mal tive tempo para me defender e ele me empurrou com o escudo, me desequilibrando. Rolei para trás e me pus de pé rápido, mas ele já estava em cima de mim, me atacando. Tentei me esquivar para o lado, mas sua espada me acertou antes. Um corte se abriu em meu ombro. O sangue começou a sair e ensopar minha camiseta. O sorriso na boca do assassino pareceu dobrar de tamanho.
— Você não vai durar muito tempo — ele disse.
E veio pra cima de mim. Rápido. Levantei o escudo a tempo de aparar o golpe, mas o choque provocou uma dor insuportável no meu ombro e fui obrigado a recuar. Ele podia ter acabado comigo, mas fez questão de continuar atacando com força, mas não tentando realmente me acertar. Ele apenas mirava no escudo. A cada golpe uma nova onda de dor me fazia gritar. Tentei defender com a espada, mas ele bateu seu escudo no meu, o que além de doer me desequilibrou. Não podia desistir, mas não conseguia me recuperar. O corte no ombro era muito profundo, meu braço mal aguentava manter o escudo levantado. Numa última centelha de esperança tive uma ideia, mas parecia tão improvável quanto me defender do próximo golpe.
O assassino se aproximou preparando mais um golpe. Tentei erguer o escudo, mas nem sentia mais meu braço. Fechei os olhos, no que seria a pior frustação da minha vida ou minha salvação, e pedi silenciosamente:
— Mãe, eu preciso de ajuda! Eu preciso…
Uma onda de dor explodiu em meu ombro e eu fui jogado no chão. O assassino riu como se aquela fosse uma piada que ele contaria no próximo almoço com seus colegas psicopatas. Estirado no chão, olhando para cima, além do rosto sorridente dele, vi uma sombra passando pelo luar e mergulhando. Antes que eu pudesse me dar conta Adam esticou as garras, passando como um míssil e arranhando o rosto do assassino. Ele praguejou alto e olhou em volta, procurando Adam que já tinha sumido entre as árvores. Bom garoto, pensei. Avistei Adam descrevendo um círculo no céu, pronto para outra investida e dei um chute na canela do assassino pouco antes de Adam provocar mais um arranhão nele.
Foi então que algo começou a mudar. Uma sensação estranha se alastrou pelo meu corpo. Como se tivesse tomado uma anestesia geral e meu corpo estivesse entorpecido. Depois veio o calor, ondas de calor pulsando pelo meu corpo como se meu coração estivesse bombeando algo além de sangue. Ouvi um baque seguido de um piado agudo e abafado.
— Coruja estupida! — o ouvi dizer.
Como se o calor tivesse renovado minha força eu me levantei, completamente sem dor e forte o bastante para lutar.
— Estupido é você, idiota! — gritei golpeando o assassino com o escudo tão forte que ele foi jogado para trás, tentando recuperar o equilíbrio.
Avancei desferindo mais golpes antes que ele pudesse se recuperar por completo. Ele tentou recuar mais para ter um tempo para se recuperar, mas não dei chance. Quando vi que ele estava sentindo a pressão do ataque, ergui a espada em um golpe alto, acima da cabeça. Ele bloqueou com a espada. Nossos escudos, a frente do corpo, se chocaram, nos deixando tão próximos um do outro que eu poderia ter dado uma cabeçada nele. Em vez disso, optei por um chute bem dado no tornozelo, fazendo-o desequilibrar. Livrei minha espada do contato com a dele e dei uma cotovelada em seu nariz. Pra finalizar girei rápido, fazendo o escudo acertar em cheio seu rosto.
Golpeado ele largou a espada e o escudo. Antes que pudesse recuperá-los, eu os chutei para longe. Ele recuou olhando para minha espada. Seu nariz sangrava, deixando seus lábios vermelhos. Havia um pequeno corte acima da sobrancelha onde já se podia ver o inchaço que a pancada com o escudo tinha causado. Mesmo naquele estado ele teve a audácia de rir.
— Você acha que me derrotou? Eu só estou brincando com você. Eu te derroto quando e como eu quiser!
Dizendo isso ele começou a sussurrar algo incompreensível. Quando percebi tentei atacar, mas era tarde demais. Minha cabeça começou a doer como se fosse explodir. Caí de joelhos, desativando o escudo e levando as mãos a cabeça. Era como se ele tivesse invadindo minha mente e atacado de lá. Eu o sentia. A dor era insuportável. Tentei expulsá-lo e senti a dor diminuir. Me concentrei totalmente naquilo. Ele era forte, mas eu era mais. Não podia deixá-lo ganhar. Estava conseguindo, pouco a pouco o tirando de minha mente, até que ele se deu por vencido e parou, olhando incrédulo para mim.
— Isso é impossível!
Como resposta eu firmei a espada na mão e comecei a caminhar em sua direção. Ele estendeu a mão em minha direção e começou novamente a murmurar. Já estava preparado para outro ataque mental, mas não foi isso que aconteceu.
De repente minha espada vibrou como se estivesse viva. Ela esquentou tão rápido que tive que largá-la. Quando olhei para minha mão havia uma nítida marca de queimadura. Tentei usar o escudo novamente, mas o mesmo aconteceu e eu fui obrigado a largá-lo.
O assassino se aproximou com seu sorriso sujo de sangue.
— Nenhuma arma sua pode me deter.
Como se atiçada pela provocação, senti minha tatuagem esquentar. Não pude evitar o sorriso.
— Eu… — Joguei o braço para trás, deslizando a corrente para fora da tatuagem e segurando-a pela ponta. Usei toda minha força para lançar a outra ponta em direção ao assassino, acionando as lâminas no momento certo, provocando um corte em seu peito — Sou um vingador de Nêmesis! — usei as palavras que Ryan havia me dito depois do ocorrido com Robin — Somos os inimigos naturais da magia! Os que mantêm a balança de poder equilibrada! Qualquer abuso de poder vai ser sanado por nós! É você que não pode me derrotar, nunca seria um verdadeiro vingador se perdesse para você!
Fiz questão de provocar mais alguns cortes nele. Não tive pena, ele merecia aquilo e muito mais. Girei a corrente acima da cabeça e enlacei seu pescoço, fazendo com que apenas a lâmina do último elo da corrente se acionasse, funcionando como um gancho, impedindo que o laço se desfizesse facilmente. Corri para o outro lado, puxando a corrente e o assassino junto. Passei por uma árvore e dei um puxão firme na corrente fazendo ele se desequilibrar e bater a cara no tronco da árvore. Aproveitei que ele estava atordoado e passei a corrente por sobre um galho mais baixo. Quando ele tentou se levantar foi puxado pelo pescoço e obrigado a ficar de pé para não ser enforcado.
— Agora, meu amigo… — disse segurando firmemente a corrente — temos assuntos pendentes.
Ele provocou um som engasgado.
— Qual seu nome?
Ele demorou um pouco para responder. Puxei a corrente para incentivá-lo.
— Robert.
— Me fale sobre a garota que você atacou meses atrás?
— O quê?
Puxei a corrente com força, deixando-o sem ar por um momento. Quando o soltei ele buscou ar como se estivesse há muito tempo em baixo d’água.
— Não tenho tempo pra enrolação. Diga algo útil!
— Ah, agora me lembrei. Ela estava andando perto da floresta quando eu ataquei.
— O que você fez com ela?
— É um feitiço, é praticamente como ter um fantoche que pode fazer tudo o que você quiser desde que você puxe os cordões certos.
— Me fale mais sobre o feitiço.
— Na verdade só é preciso enfeitiçar um objeto. A pessoa que estiver com esse objeto vira seu escravo pessoal.
Tive que me controlar para não matá-lo de uma vez. Eu precisava de mais informações.
— Como desfaço o feitiço? — Não sabia se me depararia com aquele feitiço novamente, mas a informação era útil de qualquer forma.
— Você precisa destruir o objeto de alguma forma — assenti brevemente, mudando de assunto.
— Por que a atacou? O que você queria com ela?
— Eu estava querendo uma massagem… — ele engasgou quando puxei a corrente novamente — tudo bem, tudo bem! Eu fiz com que ela pegasse um amuleto no chalé de Hécate. Mas eu só queria aumentar meu poder, eu juro.
— E depois?
— Depois eu a mandei de volta ao chalé. Eu não queria ninguém atrás de mim enquanto estivesse ocupado com o amuleto.
Me aproximei e soquei sua barriga com força e antes de ele reclamar puxei a corrente, sufocando-o.
— Agora me fala pra quem você trabalha? E o que veio fazer aqui desta vez?
Robert produziu um som engasgado antes de responder.
— Vá se ferrar!
Estapeei seu rosto tão forte que os nós dos meus dedos doeram. O sangue escorreu de sua boca o que o deixou com ainda mais dificuldade de falar.
— Eu não vou dizer mais nada!
Puxei um pouco a corrente e ele sufocou. Ergueu a cabeça para se livrar do aperto no pescoço, mas fiz questão de deixar o mínimo de brecha para ela respirar. Segurei a corrente com a mão esquerda e saquei a adaga com a direita. Robert arregalou os olhos, mas não teve tempo de pedir clemência. Com um movimento rápido, enfiei a adaga em seu braço, fazendo o gritar e se debater de dor. Em algumas vezes sua voz sufocou quando ele se esqueceu que não podia abaixar a cabeça. Depois de um tempo eu retirei a adaga de seu braço, sem nenhum cuidado.
— Me diga pra quem você trabalha!
Ele apenas continuou a gemer de dor.
— Vamos tentar o outro braço.
— NÃO! Não, eu digo, eu digo — ele disse desesperado — O nome dele é Richard. Ele é o líder.
— Líder do quê?
— Da Ordem. Ele a chama assim.
— E o que ele quer?
— Ele diz que vai criar uma nova ordem, um novo lugar para vivermos. Longe dos deuses mesquinhos e orgulhosos. Longe de tudo que envolve ser um semideus. Ele também fala em se vingar de todos que nos deixaram para trás — ele respondeu — isso inclui o acampamento. Ambos. E também os deuses.
— Por que está aqui? O que quer dessa vez?
— Ele me mandou aqui para deixar um barco na praia, pra alguém, mas eu não sei quem é. Eu juro.
— Eu estive na praia, não tem nenhum barco lá!
— Provavelmente ele já se foi. Estou aqui algum tempo, só fiquei para pegar um pouco de comida no acampamento, se quiser pode dar uma olhada na minha mochila.
Olhei desconfiado para a mochila, mas o olhar de Robert parecia indicar que ele estava dizendo a verdade, mas aquilo pouco importava.
— Mais alguma coisa?
— Eu já disse tudo que eu sei. Por favor, me deixar ir — ele pediu ofegante.
— Não.
Guardei a adaga e saquei a lança. Ele começou a se debater, tentando se livrar da corrente. Tentou gritar, mas o aperto em volta de sua garganta o impedia até mesmo de respirar. Com um grito eu puxei a corrente com toda minha força, deixando suspenso por apenas um segundo. Tempo o bastante para atravessar seu peito com a ponta da lança. Soltei a corrente. Seu corpo caiu como um saco de batatas, mas de alguma forma ele não estava morto. Arfava dolorosamente a procura de ar. Foi com uma ponta de pena que percebi não ter perfurado o coração dele com a lança. Tinha sido mais do que vingança, tinha sido ódio. A raiva que me fizera errar. Respirei fundo, decidido a fazer as coisas dali em diante com calma. E num ato de misericórdia, saquei a adaga e apunhalei seu coração dando fim a sua vida e ao sofrimento.
— Isso é pelo que você fez com a Marie.
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