Beyond the Vengeance
40 Menina de Ouro
Notas iniciais
Não sei com o que me surpreendia mais.
Não sabia dizer se eram as instruções que Chris deixou pra mim ou tudo que estava acontecendo, mas estava completamente perdido. Chris havia escrito que eu devia encontrar a mentalista que havia informado ele do roubo do amuleto, se ela não viesse com certeza haveria outro americano a minha espera. As coisas começaram a dar errado por aí.
Quando desembarquei do avião não demorei muito para ver um pequeno aglomerado de pessoas segurando placas com nomes. Não foi difícil achar o meu, mas notei que algo estava errado. Quem segurava a placa com meu nome só podia ser um autêntico japonês. Ele tinha olhos puxados, era baixinho e, além de um Inglês terrível, seu sotaque não podia ser ignorado. Ele vestia roupas sociais e parecia um guia turístico que tinha tomado café demais. Não parou de falar um minuto sequer sobre o Japão, o aeroporto e tudo que merecia mais cinco minutos de falação.
Saímos do aeroporto rapidamente. Ele sinalizou para um taxi parado que parecia estar ali à nossa espera. Além das inscrições em Japonês e um adesivo de “proibido fumar”, também havia um adesivo de “I Love Tokyo”. O carro arrancou e meu guia começou novamente a falar. Imensos e luminosos prédios nos cercavam. As ruas estavam movimentadas. Quase me senti em Nova Iorque.
— Estamos em Tóquio, certo? — consegui perguntar quando meu guia parou um segundo para respirar.
— Sim, estamos em Tóquio, a cidade muito bonita — me esforcei para não rir de seu Inglês.
O carro entrou em uma avenida. Começamos a nos afastar do centro.
— Onde estamos indo?
— O local em que fui mandado a te levar fica bem dentro do país.
Reprimi outra risada.
— Você quer dizer no interior, certo?
— Ah, sim — ele disse constrangido, logo depois olhando pela janela e avistando mais um ponto turístico para tagarelar. Resolvi deixá-lo falar pelo resto da viagem.
Não sei se foi pela longa viagem ou pela falação ininterrupta do meu guia, mas acabei adormecendo. Quando acordei estávamos andando por uma estrada sem movimento. Tudo que eu podia dizer dela é que era uma via de mão dupla. Fora isso não havia nada. Não havia acostamento, não havia postes de iluminação ou energia. Tudo que havia eram árvores que margeavam a estrada dos dois lados.
Após alguns minutos a paisagem tinha mudado suavemente. Em vez de árvores, havia campos praticamente limpos, havia apenas uma ou outra árvore aqui ou ali. A estrada prosseguiu serpenteando por entre pequenas colinas até que parou em frente a um pequeno portal japonês (obviamente).
— É aqui — o guia anunciou. Sai do carro.
— Aqui aonde? — perguntei.
— É só seguir o caminho que vai chegar lá — ele respondeu.
Não me dei conta do sentido da frase até ver o carro arrancar e seguir a estrada, indo embora.
— Ei! Você não vai… — o carro fez uma curva na estrada e eu o perdi de vista — ao menos me dizer onde estou? — completei para ninguém.
Olhei para o portal. Havia uma placa na parte de cima, mas eu não sabia quase nada de Japonês para entendê-la. Além do portal um caminho de pedra seguia em frente. Comecei a andar.
Ambos os lados do caminho eram cobertos por uma grama verde e bem aparada. Algumas árvores completavam o cenário. Pelo caminho ainda havia alguns bancos de pedra, mas não havia ninguém por perto. Segui em frente até avistar uma espécie de templo… bom, arrisquei que devia ser um templo. Parecia ser inteiramente construído de madeira, o telhado tinha a tradicional curva em suas pontas e parecia ser antigo, embora bem conservado. Uma pequena escadaria levava até a porta deslizante da frente, também de madeira. Ela estava aberta.
Quando cheguei à frente da porta fiquei sem saber o que fazer. Mesmo que a porta estivesse aberta não parecia certo entrar sem me anunciar. Achei melhor chamar por alguém.
— É… Tem alguém aí? — chamei. Imediatamente me achei bem estúpido por esperar que alguém me entendesse. Isso se houvesse alguém ali.
E havia.
Antes que eu me decidisse se entraria ou não, um homem apareceu. Vestia o que julguei ser algum tipo de uniforme ou coisa parecida, composto por uma camiseta e uma calça. Elas eram de um verde escuro. No lado esquerdo do peito, como uma insígnia, havia uma figura branca de duas espadas se cruzando, juntamente com a mesma inscrição que havia visto na placa do portal, porém em miniatura. Abri a boca para falar, mas o homem entrou de novo, me deixando com a boca aberta, pronta para falar. Novamente pensei em chamar, mas outro homem apareceu. Estava vestido de forma semelhante, todo de verde, porém usava um kimono. Olhos castanhos e puxados me fitaram.
— Você deve ser o americano que Michelle nos disse que viria pra investigar o roubo do amuleto de Tsukuyomi — Michelle… então era assim que a mentalista se chamava, eu realmente não havia entendido os rabiscos de Chris.
— Hum… sim — respondi sem entender direito — E você é…?
— Meu nome é Katsuo. Sou eu que cuido daqui.
— Terry — o cumprimentei — Então é você que cuida desse templo?
Ele deu uma risada.
— Não, você entendeu errado. O amuleto realmente estava no templo, mas o templo não é aqui. Ele fica alguns quilômetros de distância. Nós só somos responsáveis por cuidar dele já que o único caminho para lá passa por aqui.
— Então… quem são vocês?
— Somos a Hyoho Niten Ichi Ryu.
— Desculpe, eu não falo japonês.
— Quer dizer: Dois céus como uma escola.
— Então aqui é uma escola? — perguntei.
— Um doujou, se você preferir — Katsuo disse — Lamento dar más notícias, mas acho que você não veio em uma boa hora. Já vai anoitecer e levaríamos algumas horas para chagar ao templo. Não posso me ausentar á noite.
Pensei em pedir para que ele me indicasse o caminho, mas achei melhor não. Eles tinham acabado de serem roubados. Mesmo que tivesse vindo apenas para investigar, Katsuo não desgrudaria o olho de mim até que eu ganhasse sua confiança.
— Bom, podemos ir amanhã então?
— Claro. Vejo você amanhã.
Katsuo começou a voltar para dentro do doujou.
— Espere.
Ele se virou.
— Eu acabei de chegar dos Estados Unidos. Eu não conheço nada por aqui, não tenho nenhum lugar pra ficar… então…
— Desculpe, mas o doujou é apenas para os alunos. Não posso me desfazer de um quarto no momento… Se bem que… — Katsuo colocou a mão sobre o queixo, como se estivesse pensando em algo. Lançou um olhar estranho para mim, como se estivesse me avaliando — Talvez haja um lugar para você… desde que você também seja um aluno.
Não entendi direito o que ele queria comigo, mas precisava de um lugar para passar a noite. Katsuo me convidou para entrar. Antes tive que tirar os sapatos. Havia um local específico para isso na entrada. O piso era de madeira e, embora ainda não entendesse muito sobre as tradições do Japão, não reclamei daquela. Sentir a madeira sob a sola dos pés era agradável.
Seguimos por um pequeno corredor. Ouvi sons de algo se batendo ficando cada vez mais próximos até chegarmos a uma espécie de sala. Não era tão grande, mas espaçosa. No chão havia um tatame que cobria boa parte do lugar. Em cima dele dois garotos lutavam com uma espécie de espada de madeira.
— Uma escola de esgrima? — perguntei a Katsuo.
— Nós ensinamos o Kenjutsu de Miyamoto Musashi.
Katsuo não precisou explicar dessa vez. Não tinha ideia do que significava Kenjutsu, mas sabia que Miyamoto Musashi era o maior espadachim da história. Não precisava ser um gênio para descobrir o resto. Katsuo disse algumas palavras em japonês e os dois garotos pararam. Ambos deixaram a espadas em um barril cheio delas e foram se sentar às margens do tatame, junto com outros alunos do doujou.
— Vamos fazer o seguinte: — Katsuo disse — se você passar no teste para ser um aluno você pode ficar com o quarto.
— Desculpe, mas não posso ficar aqui por muito tempo. E minha esgrima está ótima, obrigado.
— Oh, então já tem treinamento em esgrima?
— De certa forma — quase não notei que estava falando demais. Seria problemático responder como tinha aprendido a lutar.
— Então que tal uma aposta? Se você vencer um dos meus alunos te deixo ficar com o quarto pelo tempo que quiser. Do contrário terá que arranjar outro lugar.
Ponderei sobre o que tinha visto da pequena luta entre os dois garotos. Não eram maus, mas também não chegavam a me impressionar. Achei que poderia ganhar deles, provavelmente tinha mais experiência.
— Tudo bem. Eu aceito a aposta.
— Muito bem. Então… Kin!
Vi alguns dos alunos trocarem olhares. Alguns cochicharam entre si. Uma porta deslizante se abriu do lado oposto ao que estávamos. Uma menina surgiu através dela. Tinha cabelos castanhos e lisos que terminavam um pouco abaixo da altura dos ombros. Vestia o mesmo uniforme que todos e trazia uma espada como as do barril na mão.
— Hai, Katsuo-sensei — ela disse.
Katsuo e ela começaram a conversar. Não entendi nenhuma palavra, mas imaginei que ele estava explicando a situação. Vi que a menina lançou um olhar não muito amistoso para mim. Por fim a menina foi para o centro do tatame.
— Está pronto? — Katsuo perguntou.
— Eu vou lutar com ela?
A menina lançou mais um olhar hostil para mim. Imaginei se ela falava Inglês ou se simplesmente tinha deduzido o que eu quis dizer pelas minhas expressões.
— Sim — Katsuo respondeu — Algum problema?
— Não, mas…
— Está com medo? — a menina me interrompeu com um olhar hostil. Ela realmente falava Inglês.
— É claro que não — disse devolvendo o olhar.
— Então vamos acabar logo com isso — ela disse apontando para o barril cheio de espadas.
— Ótimo! Só não reclame depois.
Fui até o barril e apanhei uma das espadas. Tinha pensado que elas eram de madeira, mas, de perto, vi que eram feitas na verdade de bambu. Lembrei que havia um nome para aquele tipo de espada. Shina? Shini? Não, Shinai. A “lâmina” da shinai era bem comprida. Chutei que ela inteira tinha quase um metro. Não era bem o tipo de arma que eu estava acostumado, mas serviria.
Andei até o centro do tatame, encarando a menina. Katsuo se posicionou entre nós. Ele se virou para a parede mais próxima, a menina fez o mesmo. Fixado na parede havia uma espécie de templo em miniatura. Duas pequenas velas queimavam lançando uma fina fumaça para cima, uma em cada canto do pequeno templo. Já havia visto aquilo. Funcionava como um altar para os deuses. Se não me falhasse a memória, ele se chamava Kamidana. Katsuo falou algo em Japonês. Ele e a menina se curvaram na direção do Kamidana. Fiz o mesmo. Depois eles se viraram e Katsuo disse algo parecido. Julguei que deveria me curvar novamente. A menina e eu nos cumprimentamos, um curvando-se para o outro. Imaginei se teria que me curvar para mais alguma coisa, mas Katsuo falou mais uma palavra. Não precisava saber Japonês, para reconhecer que seu tom dizia para começarmos.
A menina se colocou em posição, segurando a shinai com as duas mãos. Comecei atacando, correndo em sua direção e desferindo um golpe na diagonal. Ela se defendeu, tentei mais um golpe, mas novamente ela defendeu. Acelerei os golpes, combinando diferentes sequências, porém todos paravam batendo na shinai dela. Não sei se a provocação antes da luta tinha alguma influência, mas aquilo estava me irritando. Seu olhar estava totalmente concentrado, porém calmo. Isso me fez forçar mais ainda os ataques. Dessa vez ela ao menos começou a recuar enquanto se defendia. Achei que se a colocasse para fora do tatame ganharia, ou ao menos conseguiria alguns pontos ao meu favor, então continuei forçando-a a recuar.
Ela estava há apenas um passo para o fim do tatame quando, em vez de se defender, ela se esquivou, indo para o lado rapidamente e me surpreendendo. Ela atacou, mas consegui me defender, embora precariamente. Estava esperando outro golpe, mas ela apenas voltou para o centro do tatame.
— Já vi o bastante — ela disse — você não tem talento nenhum.
— O quê?!
Antes que pudesse me controlar, avancei sobre ela, desferindo mais um golpe. Ele foi parado, desviado para o lado e, antes que pudesse me recompor, mais um golpe veio. Senti a vibração dele em minha shinai, mas não cheguei a vê-lo. Então, quase que em seguida, vi a shinai dela vir em minha direção. Tentei evitá-la, mas não pude. A shinai me acertou em cheio, pegando a testa e o nariz. Com o golpe, tropecei para trás e caí.
— Ippon! — Katsuo anunciou.
Sabia o suficiente de lutas para saber que “Ippon” não era uma coisa boa de receber, principalmente quando se estava caído no chão. Senti a ponta da shinai encostar em meu peito. A menina sorriu convencida. Ela abriu a boca, mas tinha voltado a falar em Japonês. Observei-a passar pela porta que tinha vindo e fechá-la.
Vi que Katsuo me olhava. Sabia o que tinha que fazer. Levantei-me do chão e recoloquei a espada no barril. Sem dizer uma palavra eu deixei aquela sala para trás, voltando por onde tinha vindo. Mesmo sem olhar soube que Katsuo me acompanhava, um pouco atrás.
Após apanhar as minhas coisas eu voltei ao caminho de pedra e caminhei, fazendo o caminho de volta. Fui até o banco de pedra mais distante do doujou. Somente ali percebi que Katsuo não estava mais me seguindo. Meu corpo desabou sobre o banco, largando a mochila no chão. Naquele momento eu sentia como se toda a minha vida fosse como a luta que eu acabara de ter: uma derrota, um fracasso. Sentia como se todas as minhas derrotas tivessem se juntado para me atacar. Não tinha conseguido salvar Marie, não havia conseguido nenhuma informação sobre a Ordem e, por último e pior, tinha falhado completamente com Liza. Era inevitável pensar nela naquele momento. Lembrar-me dos últimos momentos da sua vida.
— Eu te amo — ela dissera.
De algum jeito aquilo tornava tudo pior. Queria que dissesse o contrário, que a flecha tivesse sido disparada. Era o que tinha que acontecer, era o certo. Inconscientemente levei a mão até meu braço, onde um pequeno sol havia sido marcado com as cinzas de Liza. Tinha sentido como se o próprio sol estivesse queimando minha pele, o que, de certa forma, era verdade. Porém eu nem ao menos gritara de dor. Era estranho pensar no porquê disso. Talvez fosse apenas um contraponto com o que eu sentia por dentro. Era uma sensação parecida com a de ser queimado, mas, ao mesmo tempo, totalmente diferente. Enquanto a dor que Apolo me causara fora quente demais, a dor que sentia por dentro desde a morte de Liza era fria. Extremamente fria.
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