Between Memories And Oblivion
3 Capítulo 2: Almost There
Notas iniciais
Espero que gostem, e após ver uma foto do Light Yagami que tenho salva aqui no PC, acho que criei um slogan pra fanfic (se é que isso existe em fanfics...):
"Toda vez que Marluxia sorri,um anjo espontaneamente entra em combustão". Cuidado, Sora, HAUHAUHAUAHUA.
ENFIM! Depois de toda essa encheção de linguiça básica,apenas desejo uma boa leitura pra vocês.
Sora saiu de casa a passos rápidos, embora estivesse cansado e as manchas escuras sob os olhos afirmassem isso. Ele e Riku tinham passado os dois últimos dias inteiros procurando por Roxas, mas sem nenhum resultado. O moreno já estava começando a se desesperar e frequentemente resmungava consigo mesmo sobre como havia sido irresponsável.
-Ele está bem, Sora. Vamos achá-lo hoje. -Riku falou, cobrindo quase todo seu corpo com uma capa branca que servia para esconder suas asas, uma precaução a mais.
-Deus queira... –Sora respondeu, fechando a porta de casa e adentrando a rua, seguido pelo amigo.
Tinha acabado de amanhecer e o lugar ainda estava um pouco deserto. O sol estava agradável, com aquele calor no frio da manhã. Sora já estava roendo as unhas de tanta ansiedade. Não tinha conseguido dormir na noite anterior, só pensando onde e como estava seu mestre. Ele estaria bem? Com frio? Com fome? Sozinho? Não tinha feito alguma besteira, tinha? E se ele tivesse deixado Hillyria?!
Só de pensar nisso sentiu alguns calafrios e apressou mais os passos. Quanto mais cedo encontrasse seu mestre, melhor, até porque, se não conseguisse, recorreria ao Palácio Central e aos Serafins para ajudá-lo a encontrar o loiro, o que era uma medida mais que desesperada.
Sora e Riku vagaram pelas ruas de Hillyria por horas, tanto que pouco a pouco as vias começaram a encher de outros anjos, que por sua vez lançavam olhares desconfiados ao ex-demônio.
Riku, mesmo não sendo mais um demônio completo graças a sua “transformação”, ainda tinha uma aura meio hostil em volta de si. No meio de todos aqueles seres tão puros, estava mais que na cara que ele era diferente, ainda mais com aquela capa branca que deixava claro que ele escondia algo, mas Sora tinha insistido com era melhor com ela do que sem ela. Vai entender.
Logo chegou o meio-dia, e o sol já não estava tão bom assim.
-Sora, vamos voltar pra casa e descansar um pouco... Já andamos a manhã inteira. Roxas vai ficar bem, mesmo se esperar só por uns minutos. -Riku falou, sentando-se num banco de pedra próximo a uma fonte.
-Como você sabe?! Ele pode estar morrendo! Eu não posso simplesmente abandoná-lo assim! Você não está preocupado?!-Sora exclamou, balançando os braços diante do “descaso” do maior em relação ao desaparecimento de Roxas.
Riku não estava lá muito preocupado. Sim, estava preocupado, mas, sério, alguém que sobrevive a uma guerra e a tantas outras coisas não pode morrer assim tão fácil. Mas claro que se dissesse isso a Sora, o moreno só se desesperaria mais.
-Claro que estou preocupado, mas se nós nos cansarmos demais, que irá procurar por ele?-Riku argumentou, cruzando os braços.
-Bem... Ham... Quer saber?! Você pode voltar pra casa, mas eu vou continuar procurando por meu mestre! Porque, se fosse eu, ele faria o mesmo!-Sora falou, dando as costas ao amigo e se afastando, mas nesse exato momento, Riku se levantou e o ergueu sobre o ombro. Ah sim, eles iriam para casa mesmo que Sora não quisesse.
-Vamos para casa e esse é o ponto final.
-Me solta! Me solta! Eu tenho que achar o Roxas! Ele pode estar em apuros! Sozinho! Chorando! Gritando por seus amigos, mas graças a você, ele vai morrer e nós não o encontraremos! Seu idiota, cabeça-oca, imbecil, burro!-Sora esperneava no ombro do amigo, esmurrando-o ao mesmo tempo.
-Para com isso, Sora, você parece uma criancinha.
-Mas... Mas...
Riku atreveu-se a olhar nos olhos do moreno e encontrou-os marejados. Essa não. Ele não iria chorar, iria?
-Sora, você...?
O moreno gritou e tão logo caiu em prantos. Riku revirou os olhos, pondo o outro no chão e olhando em volta. Alguns dos anjos observavam a cena de longe, com olhares estranhos.
-Sora, pare com isso. -Riku mandou, segurando o amigo pelos ombros e balançando-os. -Você não é uma criança! Se quer tanto achar o Roxas, você tem que ser um homem!
Sora levantou o olhar e limpou os olhos. Fungou um pouco.
Aqueles orbes azuis ainda úmidos, aquela expressão desolada e todo aquele drama que o menor fazia... Riku não podia lidar com aquilo. Acabaria, cedo ou tarde, cedendo ao querer do moreno, porque no fim das contas, só queria vê-lo sorrir novamente.
-Você quer mesmo ir atrás do Roxas nesse sol quente? Sério? Não podemos nem parar em casa pra, sei lá, comer alguma coisa?-Resmungou, recolhendo os braços.
-Não! Precisamos achar Roxas! Custe o que custar!
Riku suspirou e revirou os olhos mais uma vez. Por quê? Por que simplesmente não negava e ia para casa? Sora fazia exatamente o que Kairi fazia com ele, usando aquele olhar e aquela cara de cachorro pidão que, sabe quem o porquê, Riku não resistia.
-Tudo bem, tudo bem...
-Isso! Vamos, não podemos perder nem mais um segundo!-Sora pegou a mão do maior e puxou-o para longe dali, adentrando outra rua.
Riku, no fim, não pode evitar sorrir um pouco. Sentir a mão de Sora colada a sua, mesmo que ela fosse menor e mais leve, era uma sensação engraçada...
Uma hora depois eles estavam caminhando numa rua próxima a saída da cidade, onde as Crianças-Anjos viviam. Outros anjos que tinham acabado de tornar anjos também iam morar ali.
Sora estava ofegante, com sede, com fome e tão cansado quanto esperaria estar, mas não desistiria ainda. Riku, por outro lado, agora estava realmente considerando a idéia de abandonar o outro e voltar pra casa.
Foi então que ambos avistaram dois anjos deixando uma das casas ali perto.
Sora estreitou os olhos, tentando enxergar melhor, e tão logo reconheceu a silhueta mais baixa e loira. Riku reconheceu ambas as silhuetas, mas empalideceu como se estivesse vendo um fantasma. E realmente acreditava que estava.
-ROXAS!-Sora gritou, correndo até seu mestre e pulando nele, fazendo com que caíssem no chão. -Você está bem?! Está com frio?! Com fome?! Sentindo-se sozinho?! Onde diabos você esteve?! Procuramos por você em todo lugar!
-Sora!-Roxas sorriu, tirando o moreno de cima de si e sentando-se no chão, massageando a cabeça. -Desculpe por não ter procurado vocês...
-Não importa! O que importa é que você está bem!-Sora falou, abraçando o loiro mais uma vez e olhando-o nos olhos. -Você está bem mesmo? Você não está mais...
-Onde está Riku?
Ambos se levantaram do chão e Sora chamou Riku, que estava assistindo a cena de um pouco mais longe, ainda com uma expressão meio que assustada no rosto. Ele se aproximou e cumprimentou Roxas com um aperto de mãos, mas o tempo todo não tirava os olhos da silhueta ao lado do loiro.
-Então, Roxas, quem é seu amigo?-Sora perguntou, referindo-se a silhueta ruiva e alta ao lado de seu mestre.
-Ah, é mesmo, você nunca o conheceu, Sora. Este é Axel. -Roxas respondeu, sorrindo e apontando o ruivo, que por sua vez estendeu uma das mãos ao moreno.
-Prazer.
-Então você é o famoso Axel que sequestrou meu mestre... Mas você não tinha morrido?-Sora perguntou, apertando a mão do outro e recolhendo-a em seguida. Se aquele era mesmo o Axel, fazia um pouco de sentido, uma vez que Roxas não estava mais tão depressivo, mas... Cara, ele não tinha morrido?! Ou melhor, ele não teve sua alma destruída e perdida por toda a humanidade?!
-Bem, aparentemente, ainda estou vivo. -Axel respondeu. Aquelas pessoas eram todas loucas, e ele estava se controlando para não sair correndo dali. Primeiro o loirinho, agora aquele moreno... Não queria imaginar quando tivesse que falar com o anti-social de cabelos prateados.
-Ah... Bem, como deve saber, sou Sora. Não sei se meu mestre falou de mim pra você...
-Falou um pouco.
-Ah... Este é Riku. Você deve tê-lo conhecido, lógico, ele era seu servo...
Riku se aproximou um pouco e apertou a mão de seu “mestre”. Claro que ele já percebia que algo estava errado. Primeiro que, antes de tudo, ninguém tem sua alma destruída e renasce como um anjo completamente normal. Não que anjos fossem criaturas normais, mas...
-Axel... -Riku murmurou, recolhendo as mãos e pondo-as nos bolsos. — É você mesmo? Mas você não tinha...
-Morrido? Não. Pela centésima vez, eu não morri. Meu nome é Axel e eu sou um anjo daqui em diante. Não, não fui um demônio, muito menos o general deles. Então parem com isso, okay?
-Ham... Posso falar com vocês um instante?-Roxas perguntou, levando os outros dois para um lugar mais distante. O loiro explicou a situação, observando Sora olhá-lo atentamente e Riku tirar as mãos dos bolsos para cruzar os braços.
Cinco minutos depois, os três se voltaram para Axel novamente, que por sua vez ainda pensava num meio de fugir dali... Se bem que não adiantaria, uma vez que estava dando abrigo ao loiro e agora todos sabiam onde morava. Suspirou, massageando as têmporas. Precisava ir ao Palácio Central para falar com os Serafins naquele dia ainda.
-Então... Ham... Vocês iam fazer alguma coisa...
-Hey! Parem aí!-Uma voz gritou, atraindo os olhares dos outros. Cinco anjos vestidos em branco e vermelho estavam se aproximando rapidamente do grupo, logo cercado. Eram os Vingadores.
-O que vocês querem?-Roxas perguntou, sendo empurrado, junto com os outros, para o meio da rua, onde dois dos Vingadores agarraram Riku e prenderam suas mãos com correntes que lembravam muito algemas.
-Mas o que...?-Riku começou a falar, mas foi impedido por outro Vingador que tinha coberto sua boca com uma mordaça.
-Hey, hey! Soltem-no!-Sora exclamou, mas logo outros Vingadores fizeram o mesmo com ele.
Roxas olhava tudo sem entender. Não sabia por que havia Vingadores logo ali, em Hillyria, muito menos porque eles estavam fazendo aquilo com eles. Não tinham feito nada, tinham? Não... Pelo menos nada que se lembrasse.
-Ei, vocês dois, vocês também estão presos por confraternizar com Intrusos. Se entreguem pacificamente ou sofrerão as conseqüências sob o julgamento dos Serafins. -Um dos Vingadores falou, mostrando mais duas correntes e se aproximando.
Roxas gelou por um instante. O que fazer? Correr? Fugir e deixar os amigos para trás? Nem pensar. Se entregar? Bem, se ele não tinha feito nada, não tinha por que resistir. Lutar? Se vingar por eles terem tratado seus amigos tão mal? Mas então ele daria motivo pros Vingadores, mas...
-Aaaaai!-Roxas exclamou quando outro Vingador o pegou desprevenido e deu-lhe um chute no estômago, fazendo-o ir ao chão, onde outro Vingador bateu em sua cabeça.
-Hey! Deixem o loirinho em paz!-Axel exclamou, esmurrando um dos Vingadores, mas logo também sendo subjugado e preso com as correntes-algemas.
Todo o grupo estava preso e cada um era escoltado por um Vingador, enquanto o líder deles andava na frente. Iam para o Palácio Central agora. “Um ótimo jeito de se apresentar uma primeira impressão, Axel, parabéns”, o ruivo pensou enquanto era empurrado junto com os outros. Talvez o resultado tivesse sido diferente, ao menos para ele, se não tivesse intercedido ao favor de Roxas. O porquê de fazer aquilo? Não sabia, mas algo dentro de si não pode ficar só olhando enquanto os Vingadores faziam aquilo com o loiro.
Não demoraram muito a chegar no grande prédio que era o Palácio Central, totalmente feito de mármore branco, com detalhes em ouro e prata. Axel teria que vir naquele lugar mais cedo para receber sua “missão”, pois como era um anjo praticamente “recém-nascido”, tinha que descer a Terra para guardar um humano que os Serafins escolhessem. Era o ritual que cada anjo tinha que passar, pelo menos uma vez. E como pensou antes, não era o melhor jeito de se causar uma primeira impressão.
Os quatro amigos, ainda escoltados pelos Vingadores, entraram no lugar, viraram extensos corredores e finalmente pararam em frente a uma enorme porta de mármore, tão alta e pesada que parecia impossível de se mover.
Um anjo se aproximou do Vingador-Líder e perguntou do que aquilo tudo se tratava.
-Informem a Kaleo que encontramos os Intrusos e seus comparsas. Tenho certeza de que ele vai querer saber disso. -O Vingador-Líder falou autoritariamente enquanto o anjo se afastava e atravessava, literalmente, como um fantasma, a porta de mármore a sua frente.
Riku observava cada coisa com atenção. Estava inquieto, ansioso e talvez até um pouco temeroso. Não sabia o que havia detrás daquela porta, nem quem havia ou o que aconteceria a ele depois que a atravessasse. Por alguma razão, temia mais por seus amigos, um em particular, do que por ele mesmo.
Sora apenas tentava não se desesperar. Estava preocupado com Riku e com seu mestre, e até um pouco com Axel, embora o tivesse acabado de conhecer e, tinha que admitir, não gostasse muito dele.
Roxas sentia dor no estômago e estava meio tonto pela pancada que recebera na cabeça, mas tirando isso, poderia estar radiando felicidade, já que Axel tinha basicamente lhe defendido. Mas aquela não era hora, e assim como os outros, estava preocupado com seus amigos e, claro, com o ruivo.
Axel rezava para não receber uma punição, rezava para que aquilo não fosse mais que um mal-entendido e rezava para que aqueles loucos (o loirinho, o moreno e o anti-social de cabelos prateados) fossem mandados para um manicômio com todo o direito que tinham. Ou até rezasse para que eles fossem liberados mesmo, até nem se importava, contanto que ficassem distantes.
O anjo que tinha atravessado, literalmente, a porta de mármore voltou a aparecer e disse:
-Vocês serão recebidos agora.
Então as portas se abriram com um rangido meio alto e uma sala branca, assim como as demais, se mostrou. Não era muito diferente, exceto pelo teto alto, tendo um basculante que deixava passar toda a luz e vento para dentro do cômodo, e três cadeiras no centro.
Estas tinham quase três metros de altura, e sentados em cada uma, havia três Serafins. Algumas pessoas diriam que não há diferenças entre Serafins, Arcanjos e anjos, mas suas características estão bastante claras, principalmente pela aura que é emanada de cada um, uma vez que os anjos possuem uma bastante fraca, os Arcanjos, um pouco mais forte, e os Serafins quase que incandescente.
O grupo e os Vingadores adentraram o lugar e logo as portas atrás de si voltaram a se fechar completamente.
Um dos Serafins, o que estava sentado na cadeira do meio, tendo cabelos prateados e olhos de mesma cor, se inclinou para frente. Observava a todos com curiosidade.
Roxas, Axel e os demais do grupo piscaram os olhos sem entender. Aqueles eram os Serafins? Mas pareciam ser tão jovens!
-Qual o motivo de tudo isso, Levim?-O Serafim do meio perguntou, não num tom hostil, mas ainda assim, autoritário.
-Estes são os Intrusos e seus comparsas, senhor. Estivemos procurando por eles e finalmente os achamos. -Levim, o Vingador-Líder, falou orgulhosamente.
-Entendo. Pode ir embora, Levim. Cuidaremos do resto.
-Sim, senhor.
Os Vingadores se afastaram e deixaram o lugar. Uma vez que a porta pode ser ouvida se fechando novamente, o Serafim do meio sorriu, não tão simpaticamente quanto parecia.
-Bem vindos ao Palácio Central. Meu nome é Kaleo. A minha direita vocês tem Kalleb e a minha esquerda, Kallil. Como devem saber, nós somos os Serafins e cuidamos desta cidade. Apresentem-se e expliquem-se.
Riku, desconfortável com toda aquela situação, apenas virou o rosto e se manteve em silêncio. Não obedeceria a aqueles malditos anjos crescidos, evoluídos ou o que fosse. Sora desviava o olhar entre seus amigos e os Serafins, sem saber o que fazer. Temia que ao falar, dissesse alguma besteira que só piorasse a situação.
Roxas então levantou a voz, ajeitando a postura, embora ainda estivesse tonto.
-Sou Roxas. Aqueles são meus amigos, Riku e Sora, e este é Axel.
Kaleo se acomodou melhor na cadeira. Seus olhos não deixavam a silhueta de Riku, ainda coberta com a capa branca. Então deu-se conta de que conhecia o nome do loiro.
-Ah! Você é o Roxas? Aquele Roxas? Aquele que tentou se matar após ver o suposto amor da sua vida morrer? Morto pelo Arcanjo Altair?
-S-Sou eu mesmo, senhor. -Roxas assentiu, sem saber exatamente como aquele Serafim sabia daquilo. Bem, sendo um Serafim, ele deveria saber das coisas, não é? Mas mesmo assim...
-Estivemos procurando por você. Achamos sua história muito... Interessante. -Kaleo desviou sua atenção para Sora, sorrindo um pouco mais. -Presumo que você seja o servo de Roxas, Sora, estou certo?
Sora piscou algumas vezes e assentiu.
-Muito bem... Você, Riku, é o Intruso real aqui. E você, Axel, não passa de uma testemunha que foi metida nisso tudo por um engano, certo? A história toda já está na cara. -Kaleo falou mais uma vez, pulando de sua cadeira e caindo no chão com um barco surdo, de pé.
O Serafim andou até Riku e tirou sua capa branca, deixando a mostra as asas acinzentadas do ex-demônio.
Kaleo estreitou os olhos, confuso.
-O que é isso?-Kalleb perguntou inocentemente, encolhendo-se na cadeira enquanto Kallil apenas cruzava os braços.
Kaleo estendeu uma das mãos e tocou nas penas cinza, arrancando uma e levando até o nariz, cheirando-a.
-Você é um... Híbrido. Puro, mas não tanto. Sujo, mas não tanto. Embora agora você esteja mais para anjo do que para qualquer outra coisa. O que você foi antes?-Kaleo perguntou, ainda com a pena em suas mãos.
-Nada que você não saiba. -Riku respondeu rispidamente. Não gostava nem um pouco daquele cara dizendo o que ele era. Talvez pelo fato de que ele mesmo não sabia mais o que era.
-Um demônio? Você foi um demônio que conseguiu entrar em Hillyria... -Kaleo falou, apresentando e resolvendo suas próprias suposições. -Incrível... Você deveria ter morrido. Todo demônio que se aproxima desta cidade é vaporizado imediatamente, então devo presumir que você não era um demônio normal... Um descendente de anjo caído, talvez? Bem, se você entrou na cidade, mas não é um anjo completo, faz sentido que seja considerado um Intruso.
-O que vocês vão fazer comigo?
-Nada. Agora você é um Híbrido, então mesmo que seja meio demônio, também é meio anjo. Não atacamos anjos e nem os repudiamos. Mas como você se tornou um Híbrido... Isso sim é curioso.
-Kaleo, e se ele for de Sephiroth? Descendente dele, quero dizer, mas e se também ele tiver feito... Coisas “boas”?-Kalleb falou, baixo, mas audível.
Kaleo se virou para o amigo e pensou em suas palavras por um instante.
-Pode ser que isso seja uma causa, Kalleb. Na verdade, é uma boa explicação. Por ser descendente logo de Sephiroth, pode ser que tenha conseguido se infiltrar na cidade, mas isso não explicaria sua transformação... A menos que o Supremo Senhor tenha querido isso. Talvez ele esteja lhe dando uma outra chance...
-Riku é uma pessoa muito boa, senhor. -Sora começou, corando quando atraiu a atenção do Serafim para si. -Ele não é como um demônio comum. Ele sempre foi... Ham... Gentil comigo. E ele escolheu vir para Hillyria por própria vontade. Ele também sorri, às vezes.
Kaleo sorriu e cruzou os braços. Então aquilo explicava muita coisa. Um demônio que resolve mudar... Pode ser que, ao mudar tanto, ele tenha se distanciado do demônio dentro de si e tenha se tornado mais anjo, pois uma vez que existe sangue celestial em suas veias, isso não seria impossível. Quem sabe a atmosfera de Hillyria só não tenha ajudado em sua transformação, tornando-a exterior também? Era mais uma hipótese...
-Então, Riku, isso foi um mal entendido. Você agora é, tecnicamente, um anjo. E como todo anjo “recém-nascido”, você precisa receber uma “missão”. Conversaremos sobre isso mais tarde. -Kaleo falou, andando em direção a Sora.
-Sora e Roxas... Eu já sei bastante sobre vocês e sobre os problemas que vocês causaram na Guerra da Planície do Adormecer. Não preciso que me contem nada, mas só para deixar claro... Sora, você não deveria ter trago alguém de fora sem antes falar conosco, e Roxas, do que eu sei, você deveria estar no manicômio da cidade. Ambos receberão suas punições mais tarde.
-O que?! Mas eu fiquei com medo de vocês fazerem alguma coisa com o Riku e por isso... -Sora começou, mas Kaleo o interrompeu erguendo uma de suas mãos.
Roxas também quis reclamar, mas sabia que isso não adiantaria, e por isso somente assentiu. Contanto que pudesse ver Axel todos os dias, estava bom para ele. Mas levantou a voz novamente para fazer outra pergunta:
-Precisarei voltar pro manicômio? Ou posso ficar na casa de algum amigo?
Kaleo estreitou os olhos novamente, pensando, enquanto Kalleb descia de sua cadeira e ia parar ao seu lado, segurando seu braço e escondendo-se parcialmente atrás do amigo.
-Bem, você não me parece louco, então não precisa voltar. Enquanto onde ficar, isso você decide. Porém, isso não lhe tira a punição que deverá pagar. -Kaleo falou, desviando o olhar pra Kalleb e sorrindo.
-Eu entendo. -Roxas afirmou, mais aliviado. Detestaria voltar aquele lugar.
Kaleo, com Kalleb consigo, se aproximou de Axel e correu seus orbes prateados pelo ruivo, desconfortável com tudo aquilo e ainda por cima preso com as correntes.
-Eu sei que você, Axel, não fez nada de errado, mas... Seu nome me é familiar. Altair falou de você... Mas não deve ter sido nada importante, então passemos adiante. Já que você está aqui, nada mais justo do que receber logo sua “missão”, certo? Também darei uma para Riku. Kallil, mande trazer as missões que estão sobrando, por favor.
O Serafim que ainda estava em sua cadeira acomodou-se melhor, dizendo:
-Vá você buscar. Não sou empregado de ninguém.
-Não estou dizendo que você é um empregado, apenas...
-Pare de ficar falando e vá buscar logo, seu inútil.
-Como é que é?-Kaleo exclamou, virando-se para o colega. -Repete na minha cara, seu...
-Eu vou buscar, Kaleo, não se preocupe. -Kalleb falou, soltando o braço do amigo e se afastando para desaparecer atrás das cadeiras.
Kaleo levou uma das mãos as têmporas. Era uma maldição sempre se irritar com Kallil? Por que ele não podia simplesmente atender seus pedidos? Era pedir demais apenas obedecer? Ou ele tinha que negar e dar aquelas malditas respostas? Bem, pelo menos dessa vez ele não tinha dito nenhum palavrão...
-Idiota de merda... Sempre mandando nos outros... Que se foda. -Kallil falou, deitando-se despreocupadamente na cadeira enquanto Kaleo suspirava e respirava mais lentamente.
-Queiram me desculpar, eu... -Kaleo começou, mas logo Kalleb estava ao seu lado novamente, com dois envelopes em mãos.
-Eu achei estes na segunda sessão. São os que sempre estão “voltando” ultimamente. -Kalleb falou, pondo as mãos nos bolsos.
-Ah... Sim. Mas já “voltaram”? As coisas não devem estar indo muito bem, mas... -Kaleo se voltou para Axel e lhe estendeu um dos envelopes. -Você será o anjo da guarda do humano cujo nome estiver aí dentro. Você tem que ter cuidado com este humano, pois ele está atraindo muito demônios e, bem, três anjos já “voltaram”.
-Voltaram?-Axel perguntou.
-Como vocês sabem, quando um anjo morre, ele volta para Hillyria. Os anjos que guardaram esse humano já morreram e voltaram para cá. Quando isso acontece, a tarefa é passada para o próximo recém-nascido. Você será o quarto anjo da guarda “dela”.
-Dela? É uma humana?
-Abra o envelope.
-Eu gostaria, mas... Minhas mãos estão atadas. -O ruivo falou, sorrindo e apontando com os olhos as correntes que ainda prendiam seus pulsos, assim como os restantes do grupo.
-Sim, eu me esqueci desse detalhe. -Kaleo falou, fazendo aparecer em suas mãos uma chave dourada, que foi usada para soltar Axel e os demais. -Agora abra o envelope.
Axel obedeceu e logo avistou um documento com o nome de sua protegida, idade e outras características. Kaleo também entregou o envelope restante para Riku, que fez o mesmo.
-Agora só falta decidir a punição de vocês dois, Roxas e Sora... -O Serafim começou, mas foi interrompido por Kalleb puxando a manga de sua camisa.
-E se eles também fossem para a Terra, heim? Já que tantos anjos estão voltando, não seria bom mandar dois de uma vez? Assim eles protegiam mais os humanos e cumpriam sua punição. O que acha, Kaleo?
-É uma ótima idéia. -O Serafim falou, sorrindo quase que maliciosamente.
Todo anjo prefere qualquer punição a ser anjo da guarda. É cansativo, chato e dura uns bons anos. Sora não estava contando com aquilo, mas não achou tão ruim, contanto que pudesse ficar com Riku. Roxas também não gostou muito mas, se ficasse com Axel, seria uma oportunidade perfeita de ficarem juntos vinte e quatro horas por dia.
-Bem, Kalleb, como foi sua idéia, quem ficará com quem?-Kaleo perguntou, fitando o menor ao seu lado.
-Eu? Mas... Eu... Okay, deixe-me ver... Você disse que eu posso escolher, não é? Então, Roxas, com quem você quer ficar?
-Com o Axel.
-E você, Sora?
-Com o Riku.
-Então eu quero que o Roxas fique com o Axel e o Sora fique com o Riku!-Kalleb exclamou, sorrindo para Kaleo, que revirava os olhos divertidamente. Estava mesmo esperando que o menor fizesse algo como aquilo.
-Muito bem então. Voltem para suas casas e descansem. Amanhã vocês deixarão a cidade e terão de descer até a Terra. Devem procurar seus humanos e guardá-los. Lembrem-se das Leis e, bem, tudo dará certo. Estão dispensados agora.
Kaleo, levando Kalleb consigo, voou até sua cadeira e deixou o menor sentado em seu colo confortavelmente enquanto o grupo deixava o lugar.
Uma vez fora do Palácio Central, os amigos conversaram mais um pouco, então Sora voltou para sua casa com Riku e Roxas voltou com Axel. No dia seguinte deixariam os céus para descer até o mundo dos humanos...
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Há vários quilômetros de Hillyria...
Logan abriu os olhos, piscando algumas vezes. O céu estava escuro e tudo ao seu redor estava silencioso. O que tinha acontecido? Onde estava seu mestre? Levantou-se, desorientado.
Lembrava-se de um grande barulho... De seu mestre gritando por seu nome... Então apagou. Por quanto tempo tinha ficado desacordado ali, no meio da estrada para Hillyria?
-Mestre? Mestre Altair?-Logan chamou, andando com passos vacilantes ao redor dos destroços da carruagem, cujo as sobras não passavam de pedaços de madeira.
Procurou e não demorou a encontrar as roupas do anjo que guiava a carruagem. Ele deveria ter morrido e voltado a Hillyria, mas como o renascimento durava alguns dias, era provável que ninguém ainda estivesse sabendo do ocorrido. O que significava que nenhuma ajuda viria.
Logan continuou procurando entre os destroços, mas estava tudo muito escuro e a Lua, coberta pelas nuvens, pouco ajudava, e além disso, temia que ao acender alguma luz, chamasse atenção de algum inimigo. Pode ser que quem os tivesse atacado ainda estivesse por perto.
-Mestre Altair? Onde o senhor está?-Voltou a chamar, ouvindo apenas o silêncio. Foi então que minutos depois ouviu um barulho bastante baixo, um sussurro.
Logan correu, tropeçando, até de onde vinha o som, encontrando o braço de seu mestre sob várias tábuas de madeira e outros destroços. Tirou-as de cima do Arcanjo e achou Altair, respirando dificilmente e com vários cortes superficiais.
-Mestre! O senhor está bem? Está muito ferido?-Logan perguntou, aliviado.
Altair abriu um pouco os olhos e sorriu. Embora não fosse uma hora muito apropriada, segundo Logan, o aprendiz também não deixou de sorrir. Ver seu mestre esboçar um sorriso era raro, imagine vê-lo por um todo.
-Logan... Você está... Bem?-Altair perguntou entre uma respirada e outra.
-Sim, mestre, estou bem. Acho que não estou ferido nem nada. O senhor consegue andar?
-Não... Logan, saia daqui... Vá buscar ajuda em Hillyria...
-Não posso deixar o senhor sozinho, mestre.
-Vá, Logan... É uma ordem...
O aprendiz engoliu em seco. Sabia que deveria obedecer acima de tudo, mas... Se deixasse Altair ali, sozinho, quem garantiria que não aconteceria nada a ele? E se, quando ele voltasse, Altair estivesse morto por causa dos ferimentos? Jamais se perdoaria se seu mestre morresse, principalmente quando ele podia ter evitado.
-Não posso, mestre.
-Não seja insolente...
-Nós vamos juntos, mestre.
Logan ergueu Altair nos braços sem muita dificuldade, embora na mesma hora tenha sentido uma pontada de dor nas costelas e no ombro, mas tratou de ignorar a dor. Seu mestre reclamaria mais ainda se soubesse que ele estava ferido, mesmo não sendo muita coisa.
O aprendiz ajeitou mais os braços, tentando acomodar melhor Altair. Para sua surpresa, o Arcanjo era leve, e tendo-o tão próximo, podia até sentir um cheiro deixando sua pele. Se ambos não estivessem feridos, praticamente no meio do nada, na noite fria e no escuro, até pareceria um daqueles contos de fadas onde o príncipe segura a princesa nos braços. Embora ambos não tivessem nada haver com princesas e príncipes, mas enfim...
Logan começou a dar os primeiros passos em direção a Hillyria, que era um aglomerado de pontos de luzes no horizonte. Não seria boa idéia voar ali, pois além de chamar mais atenção, não confiava em suas asas para carregar duas pessoas.
Tão logo, seu mestre começou a reclamar.
-Logan, seu idiota... Me deixe aqui e vá...
-Não posso, mestre, eu já disse.
-Vai ficar cinco anos de detenção... Seu idiota...
-Que seja, mestre, eu não ligo. Vamos voltar juntos, custe o que custar.
-Seu... Maldito... Eu... Vou...
Então Altair parou de falar. Logan abaixou os olhos até seu mestre, mas ainda conseguia ver seu peito subindo e descendo. Ele tinha apenas adormecido, um efeito colateral depois de toda aquela confusão.
Seus olhos então pousaram no rosto do Arcanjo, parcialmente coberto por seus cabelos longos e de um tom loiro bastante claro. Altair, por mais que tivesse seus anos de vida, tinha que admitir, não aparentava ser velho. Fosse porque os anjos envelhecessem bem mais devagar que os humanos, ele parecia ter uns... 27 anos, humanamente falando, claro.
Enquanto Logan tinha cara de uns 18, totalmente adolescente ainda. Não que fizesse muita questão de sua aparência, mas... Talvez se perguntasse por que nunca passava muito tempo com as anjas de sua idade. Quer dizer, a última vez que tinha visto e falado com uma fora antes da guerra, e nenhuma levara a nada sério. Como os humanos chamavam isso mesmo? Solteiro? Em tempo integral? Ou como os humanos mais “hostis” diziam... Encalhado?
“Pare, Logan, isso não é hora de pensar essas besteiras”. E realmente não era. Na verdade, nunca tinha parado para pensar nessas coisas. Não sentia muita falta de uma companhia, talvez pelo fato de estar sempre com Altair.
Talvez esse fosse um dos seus motivos. Por sempre estar com Altair, nunca estava com mais ninguém. Claro que seu mestre disponibilizava tempo para que Logan fizesse o que quisesse fazer, mas o aprendiz sempre abria mão daquele tempo para ficar com seu mestre, seja estudando ou apenas em casa com ele.
Mas... Sentia-se arrependido? Não, não sentia-se. Então por que todas essas perguntas, assim de repente? Seria melhor, por hora, esquecer o assunto. Precisava se concentrar em chegar a Hillyria o mais cedo possível.
Então sentiu seu mestre se mexer um pouco em seus braços, deixando sua cabeça cair no peito do menor. Agora ele parecia tão... Tão menos assustador, menos frio, menos com-cara-de-mau.
Logan pensou se Altair tinha alguma anja em qual pensasse, mas aquela não era uma pergunta que se atrevesse a fazer. Não, de jeito nenhum, ele prezava por sua vida.
O aprendiz continuou caminhando por várias horas até que o sol nascesse e Hillyria ficasse um pouco mais perto. Não parou para descansar, apenas continuou, passo por passo.
Quando o sol se pôs novamente, suas pernas ardiam de exaustão, e seus braços estavam quase que dormentes. Estava com sede e com fome, e o ferimento em suas costelas e ombros parecia ter piorado. Mas mesmo assim não parou de andar, tanto que ao amanhecer, Hillyria já estava bastante próxima.
Foi só no meio da noite que Logan e Altair adentraram os portões da cidade. Uma vez que não haviam guardas, o aprendiz não teve dificuldades, e uma vez entre as ruas, tratou de tomar logo o caminho mais curto para o hospital.
Por causa do horário, estava tudo muito silencioso e vazio, e até um pouco assustador, o que fazia Logan, frequentemente, olhar para o rosto de seu mestre, buscando algum tipo de suporte que dissesse: Estamos quase lá.
Haviam se passado dois dias desde o acidente com a carruagem, ou seja, dois dias desde que Altair abrira os olhos e falara, mas até aquele ponto ele não voltara a acordar e nem a se mexer. Parecia estar morto se não fosse por seu peito subindo e descendo. E isso preocupava seu aprendiz.
Quando finalmente chegaram ao hospital, os curandeiros aplicaram sua atenção em Altair, colocando-o numa maca e cuidando de seus cortes e hematomas. Pouco depois, foi a vez de Logan de ter seu corpo examinado. Descobriu-se que tinha deslocado o ombro e quebrado duas costelas, e mais de uma vez os curandeiros perguntaram como ele tinha caminhado uma distância tão grande carregando seu mestre sem descansar. O próprio Logan não sabia, apenas sabia que tinha sido um milagre.
O mestre e aprendiz foram então tratados e dormiram no hospital, em quartos separados, mas no mesmo corredor.
Logan passou o dia seguinte inteiro dormindo, e só a noite abriu os olhos, sentindo todo seu corpo doer. Estava com sono, mas algo lhe perturbava, tanto que levantou da maca e deixou seu quarto.
O bom, ou ruim, da sociedade dos anjos é que eles confiam muito no bom senso de cada um. Por exemplo, nos hospitais não existem seguranças, pois eles sabem que todo anjo tem o bom senso de permanecer em seu quarto e de não causar nenhum problema. O mesmo vale para os guardas nas entradas da cidade. Os anjos sabem que nenhum demônio se aproxima tanto da cidade, e que todos os anjos que entram e saem de Hillyria são de confiança, então para quê guardas?
Por isso, quando Logan decidiu caminhar pelo corredor vestindo somente aquela roupa de hospital (branca, claro), ele não demorou muito a achar o quarto de seu mestre. Sem fazer muito barulho, ele abriu a porta e adentrou o cômodo, fechando-a atrás de si.
Ainda dormindo na maca calmamente, estava Altair. Respirava sem dificuldade, e nem parecia estar tendo nenhum pesadelo. Logan não sabia porque tinha ido ali, talvez quisesse apenas checar como estava seu mestre.
Aproximou-se da maca para olhar mais de perto. Ataduras cobriam o corpo do Arcanjo, muitas delas, mas tirando isso, ele parecia estar bem. Não estava com febre nem nenhuma cicatriz visível, o que era um grande alívio.
O aprendiz se afastou um pouco e sentou-se numa poltrona próxima, tomando cuidado ao se sentar para não magoar seu ombro e costelas. Apenas ficou ali, observando seu mestre dormindo, com seus cabelos dourados caindo em cascata para fora da maca. Logan imaginou, por um momento, como seria Altair de cabelos presos...
Então adormeceu, parcialmente deitado na cadeira, no mesmo minuto que seu mestre abria os olhos e olhava ao redor, logo encontrando sua silhueta.
“Ah, então conseguimos? Logan, seu idiota...”, Altair pensou observando o anjo quase que ao seu lado. Bem no fundo, estava feliz em saber que seu aprendiz estava bem, mas ele tinha certeza de que nenhum curandeiro teria deixado Logan dormir na cadeira de seu quarto.
Mas não reclamou, não dessa vez. Apenas voltou a fechar os olhos, ainda cansado. Mas tudo bem, pois ele sabia que, quando acordasse, provavelmente seu aprendiz ainda estaria ali, provavelmente babando ou então provavelmente discutindo com os curandeiros.
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Na Terra...
Marluxia sorriu e logo deixou sua casa para entrar, mais uma vez, em sua caminhonete. Sim, que dia glorioso aquele! Finalmente voltaria a fazer contato com seu alvo...
Deu a partida e logo estava na rua. Não faltava muito tempo para que as aulas de Naminé terminassem, então nem teria que esperar muito tempo, o que, para ele, era um enorme alívio.
Se aproximou do colégio, estacionou a caminhonete não muito perto do prédio e esperou alguns segundos, suspirando quando ouviu o toque. Saiu do carro e, levando uma mochila consigo, caminhou pela calçada do lugar, entrando no mesmo.
Como era maio, o mês das mães, seu chefe na floricultura pediu que ele fosse a alguns colégios próximos para perguntar se por acaso os mesmo não iriam querer comprar rosas para distribuir para seus alunos. O que viera muito a acalhar.
Marluxia foi até a recepção e, usando todo seu suposto charme e sotaque claramente estrangeiro, perguntou se a escola não gostaria de fazer um acordo com a floricultura para que trabalhava. A recepcionista, claramente corada, sem saber se, nas entrelinhas, aquele era um pedido para sair ou só uma conversa formal sobre compra de flores, disse que só quem poderia resolver aquele assunto era a diretora, e que ela não estava no momento.
Fazendo sua cara de desapontado, Marluxia deixou um panfleto e o cartão da loja, mesmo dizendo que no dia seguinte voltaria para falar com a diretora, e então deixou a recepção.
Caminhando pelo saguão principal, logo avistou Naminé descendo as escadas, carregando costumeiramente seu caderno de desenho nos braços. A garota logo o reconheceu e sorriu, se aproximando em seguida.
-Oi! Você é aquele cara que me ajudou naquele outro dia, o russo!-A garota exclamou, claramente surpresa. Como Marluxia esperava, ela não se lembrava muito bem dele.
-Olá pra você também, mocinha.
-O que faz aqui?
-Lembra que eu disse que arrumei um trabalho aqui perto? Bem, é numa floricultura, e como você sabe, estamos em maio, mês das mães, rosas...
-Ah, entendi... Veio fazer propaganda?
-Exatamente.
-Então... Ham...
-Naminé, você tem algum tempo livre agora?
A garota levantou o olhar para o psicopata a sua frente, meio que surpresa por ele ainda lembrar do seu nome. Não sabia se dizia “sim” ou “não”. Algo dentro de si, talvez seus instintos de sobrevivência e bom senso, gritavam para que ela dissesse não, mas ela preferiu contar a verdade.
-Tenho sim. Na verdade, eu tenho a tarde inteira, embora geralmente eu vá direto pra casa porque não tenho nada pra fazer.
-Bem, já passou das três da tarde e meu turno acaba em dois minutos. Quer fazer alguma coisa?-Marluxia falou, sorrindo carismaticamente.
-Eu... Ham... Claro.
-Então vamos. -Marluxia falou, caminhando em direção a saída do prédio, sendo seguido por Naminé. Embora quisesse, ainda estava muito cedo para segurar a mão dela.
-Aonde vamos?
-Você gosta de patinar no gelo, Naminé?
-Não muito... Eu geralmente caio antes de colocar o primeiro pé no gelo. Sou um desastre, mas... Por que pergunta?
-Eu estava pensando em levá-la a um parque aqui perto. Eles têm uma bela pista de gelo lá, principalmente no inverno, ou seja, agora. Mas se você não quiser ir...
-Ah, então eu acho que posso tentar. -Naminé sorriu, corando um pouco.
-Tem certeza? Não quero que você venha só por obrigação, eu quero que você se divirta.
-Não, é sério. Está tudo bem mesmo. Você sabe patinar?
-Um pouco. -Marluxia respondeu. Claro que aquilo era também era mentira e que Naminé descobriria naquele dia ainda.
Ambos caminharam um pouco até chegarem ao parque onde, em estações mais quentes, tinha um lago não muito grande e, quando congelava, se tornava perfeito para patinar. De fato, várias pessoas, adultos, adolescentes e crianças, estavam ali. Grande parte sorria enquanto o restante tentava não cair.
Marluxia se aproximou de uma espécie de cabine que oferecia patins por cinco dólares e pagou seus calçados e os de Naminé, que olhava quase que temerosa pra pista de patinação. As bolsas de ambos repousavam, junto com as de outros patinadores, ali perto.
O russo agradeceu ao atendente e voltou para onde a garota estava, entregando-lhe um par que se encaixava em seus pés. Sorriu quando viu a expressão da loira, quase arrependida de ter aceitado ir ali.
-Não precisa ter medo, é apenas gelo. -O rapaz falou, sorrindo simpaticamente.
-Não tenho medo do gelo, tenho medo é de acabar caindo no meio de toda aquela gente, ou então de me machucar. -Ela falou, ainda olhando a pista.
-Não vou deixar você cair, e se por acaso você cair, eu te ajudo a levantar.
Ela ergueu os olhos e Marluxia continuou a sorrir, mais confortavelmente dessa vez. O rapaz pegou sua mão e ambos foram em direção a pista. Indo na frente, ele deslizou sobre o gelo como se fosse algo inconsciente de tão fácil.
-Você disse que só sabia patinar um pouco!-Ela exclamou, sentada num dos bancos que tinham bem ao lado da pista.
-E é só isso que eu sei. -Mentiu ele. Marluxia era o tipo de pessoa que era ótima em tudo o que fazia. Sempre tirou as melhores notas, era o melhor esportista, o aluno exemplar, o rapaz perfeito aos olhos de qualquer outra pessoa. Perfeito, se não fosse sua incomum sede por morte. -Vamos, venha patinar.
Ele deslizou até perto dela e estendeu uma mão.
-Mas... E se...
Antes que ela terminasse, o rapaz a puxou, fazendo com que ambos deslizassem juntos pela camada de gelo sob seus pés. Naminé tinha os olhos semi-abertos, como se fosse cair a qualquer hora, mas depois de alguns minutos tendo seu equilíbrio ainda controlável, ela os abriu mais.
-Eu ainda não...?
-Eu disse que não a deixaria cair.
Ela olhou nos orbes azuis do outro e voltou a desviar para o gelo. Até pareciam um verdadeiro casal ali, patinando juntos e de mãos dadas. Corou um pouco e resolveu mudar de assunto.
-Você sabia que... Ham... Nosso estado é o único nos EUA que permite que tenha aulas mesmo durante o inverno? Eu não sei por que tudo isso, mas acho um saco.
Marluxia sorriu. Exatamente como previra, em relação à escola, Naminé era como a maioria. Não gostava de estudar e, provavelmente, no tempo livre, preferia desenhar.
-Mas, e se durante o inverno não houvesse aulas? O que você faria?-O rapaz perguntou, desviando de outro casal de patinadores.
-Eu acho que ficaria em casa, desenhando. Ou então iria para o parque que tem mais perto de casa. Ele também me inspira a desenhar às vezes.
Aquela resposta confirmava que Naminé não tinha muitos amigos. Era solitária, morava apenas com a mãe e nem tinha irmãos. Seu pai estava em outro país. Simplesmente perfeito.
Um silêncio incômodo pairou por um momento e Marluxia resolveu jogar assuntos mais casuais, principalmente aqueles que apontavam os gostos da garota. Aquele interrogatório indireto o hipnotizava, tanto que na maior parte, foi ela que falou e ele apenas ouviu.
Não demorou muito a anoitecer, e quando as luzes do parque se acenderam, ambos decidiram que já estava na hora de voltarem para casa. À noite, as ruas eram perigosas.
Devolveram os patins, pegaram suas coisas e deixaram o parque, ainda conversando comumente. Então, após atravessarem umas duas ruas, Marluxia parou.
-Eu gostaria de deixá-la em casa, mas infelizmente não sei onde você mora. No entanto, tenho receio de que algo aconteça a você se continuar indo só.
-Estou indo pra lá agora. Você pode vir comigo se quiser, minha mãe só chega lá pra mais tarde durante a semana. -Falou ela, inocentemente. Não percebia que estava dando detalhes cruciais a um psicopata.
-Tem certeza de que não se importa? Eu quero ir, mas posso ser um maníaco assassino. Não tem medo disso?
Ela riu, como se aquilo fosse uma simples piada.
-Você é legal demais pra ser um psicopata ou algo do tipo.
-Se você diz... -Marluxia deu de ombros, sorrindo novamente. Ela estava na palma de sua mão. Se quisesse, naquela noite ainda, poderia matá-la. Seria tão fácil quanto respirar: Insistir para entrar em sua casa, soltar uma ou duas cantadas e deixar seu lado sedutor governar. Então, quando ela caísse em sua armadilha, era só tirar de dentro do bolso interno esquerdo da calça, uma pequena lâmina curva, escondida sob a forma de um simples chaveiro. Pressionar a lâmina contra sua pele branca, na altura do pescoço, sentir seu suor, seu medo, enquanto tapava sua boca com a outra mão. Ela não conseguiria fugir, pois provavelmente estaria contra a parede, literalmente. Então, seria apenas deixar a lâmina escorregar um pouco enquanto seus gritos seriam sufocados por sua mão. Tão tentador. Logo sentiria o odor do sangue, mas ela ainda não estaria morta. Aquele pequeno escorregão tinha sido só para assustar. Rasgaria suas roupas, para ter uma visão completa do corpo de sua vítima, e a jogaria no chão, ficando sobre ela em seguida. Então, ainda segurando a lâmina, cortaria sua pele na altura do...
-Marluxia?-Naminé chamou, balançando sua mão em frente aos olhos do rapaz. -Você está bem?
O russo balançou a cabeça algumas vezes, tocando-se de que estava sonhando acordado. Um sonho deveras tentador, mas que deveria ser deixado para lá. Por enquanto.
-Sim, sim. Estava apenas pensando alto. -Respondeu, voltando a andar ao lado da loira.
-Em quê? Ah, desculpe, é uma pergunta pessoal...
-Estava pensando se irei vê-la amanhã. -Mentiu ele, mas olhando a reação da garota, que se resumiu em corar e desviar o olhar para o chão. Decidiu brincar um pouco. -Desculpe. Você não deve gostar de ter alguém praticamente perseguindo-a, certo? Mas me pergunto se isso não é rotina para uma garota tão encantadora como você. Os meninos da sua sala não devem lhe deixar em paz, não é?
-Ah, bem... Eu não me importo se você vier me ver amanhã, depois da escola. -Ela respondeu, corando mais. -E não, nenhum menino fala comigo, na verdade. Eles preferem mais as patricinhas do que as caladas, como eu.
-Bando de tolos que não sabem apreciar uma beleza verdadeira.
-Pare de falar isso... Está me deixando constrangida...
-Mas é a verdade, Naminé. Você é muito mais bonita do que todas aquelas patricinhas oferecidas com quilos de maquiagem no rosto. -O russo falou. Naminé levantou mais o olhar, surpresa. Então ele tinha notado de que ela não usava maquiagem?
-Mas...
-Mas como você está corando demais com tudo isso, vamos mudar de assunto. Ah, essa é sua casa?-Perguntou, uma vez que Naminé parara diante de uma casa com dois andares, mas bastante simples. Tinha um gramado na frente, cercas brancas nos limites do terreno, e uma árvore alta que dava para uma janela de um dos quartos do segundo andar. Tratou de decorar mentalmente o número da residência e todas suas características.
-Sim, é aqui que vivo. Então... Obrigada por me acompanhar hoje, e por me ajudar com os patins. -Ela falou, olhando para o chão e tentando esconder seu rosto.
-Foi um prazer. -Ele disse, não resistindo e se curvando, como um cavalheiro. Quando voltou a se erguer, encontrou os olhos azuis da garota. -Então, amanhã, depois da aula?
-Ham... Sim.
-Estarei lá, esperando.
Mais um silêncio incômodo pairou no ar. Marluxia estava calmo, apenas esperando por algum sinal de seu querido alvo para seu próximo ato. Naminé estava tão nervosa que temia que o rapaz a sua frente ouvisse seus batimentos cardíacos.
Do que ela se lembrava, nunca tinha sido beijada, muito menos chamada para sair. Nunca nenhum garoto a tratara tão bem, embora tivesse uma aparência atrativa. Sempre fora tímida demais para falar com qualquer garoto, ou até com garotas, o que influenciava bastante em sua falta de amigos, mas também, devido a uns “curiosos” acontecimentos que ocorriam em torno dela, muitos a evitavam.
Porém, sentia-se a vontade com aquele estrangeiro de cabelos pintados de rosa, e apesar de sentir-se constrangida, fosse pelo jeito que ele a tratava, ela se sentia bem melhor com ele do que com qualquer outra pessoa. Melhor até do que com sua própria mãe, que só chegava de madrugada e só acordava e saía depois que Naminé tinha ido para a escola. Ou seja, ela passava praticamente o dia todo sozinha, desenhando sem parar.
-Eu... Ham... Vou entrar em casa agora... -Ela falou, tirando de dentro da bolsa as chaves da casa.
Marluxia sorriu e se aproximou, abaixando-se em seguida para depositar um leve beijo em sua testa. Ainda era muito cedo para um beijo de verdade, pois como Naminé era muito inexperiente naquele assunto, provavelmente se assustaria ou acharia que era apenas interesse. Pessoas tão excluídas tendiam a acreditar que tudo tinha segundas intenções. Ou não, mas de qualquer forma, aquela não era hora nem lugar.
-Boa noite, minha princesa. -Marluxia sussurrou, como se fosse apenas para ela ouvir. Então se afastou e deu-lhe as costas, voltando a caminhar pela calçada em direção ao lugar que, bem mais cedo, tinha deixado seu carro.
Se ele tivesse se olhado para trás, teria visto a pobre garota corando incrivelmente e lutando para prestar a atenção nas chaves e para abrir a porta. Mas ele já sabia de tudo isso sem sequer olhar.
Meia hora depois, já dentro do carro e voltando para casa, Marluxia sorriu. Um sorriso tão cruel e tão demoníaco que um humano normal não poderia imitar. Toda aquela fachada que ele mantinha perto da garota estava funcionando mais que perfeitamente. Tudo estava indo de acordo com o plano, tão bem que chegava a enjoar.
O russo estacionou o carro na garagem, entrou em casa e jogou-se sobre o sofá. Agora que pensava, tinha tantas faces diferentes que mal sabia qual era a sua verdadeira. Mas com isso não se importava agora. Ansiava o dia seguinte. Sonhava com aquele momento, aquele tão decisivo.
Tudo ficara mais fácil, uma vez que agora sabia onde seu alvo morava, e com que freqüência sua mãe aparecia lá. Não que antes não soubesse onde seu alvo vivia, apenas não tinha muita certeza. Segui-la durante o dia de carro levantaria suspeitas, e segui-la a pé também, até porque não sabia dos horários da mãe. Porém, agora que tinha conhecimento de todos esses detalhes, tudo se tornava um pouco mais divertido.
O russo pegou seu celular e discou para um número que já tinha dado ao trabalho de decorar. Um pedido. Logo uma das prostitutas estaria em sua casa, e então ele poderia continuar a sonhar aquele sonho tão tentador com seu alvo, ao mesmo tempo em que era satisfeito.
Só tentaria não matar a prostituta dessa vez.
Notas finais
Também espero que com esse chap, o desamor de vocês pelo Altair diminua um pouco. Sério, ele vem se tornado um dos meus personagens preferidos originais dessa fanfic (depois do Logan).
Enfim, agradeceria muito de vocês deixassem reviews, ajuda muito na hora de se inpirar sabe... SENÃO EU MANDO O ALTAIR ATRÁS DE VOCÊS! E O MARLY TAMBÉM! *apanhatottallyemorre*
KISSUSSS!!!
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