Between Memories And Oblivion

4 Capítulo 3: Finally There


Notas iniciais
Bem,primeiramente,devo dizer que esse é o maior chap que já escrevi (26 pags do word),então fiquem felizes. Como sempre,devo pedir desculpas pelo atraso (*APANHA*)MAS NÃO FOI CULPA MINHA! EU JURO! (Kallein> Mentira,é sua sim) (Eu> Tá,tá,é minha...) Enfim,por causa do tamanho do chap,o final pode estar meio... Tenso, de um ponto de vista que vocês vão julgar (tipow,depois de 26 pags,seu cérebro não funciona muito bem... Pelo menos o meu). BOA LEITURA,CORES!!!

Logan abriu a porta de casa, seguido por Altair, e depois voltou a fechá-la. Haviam acabado de chegar do Palácio Central e de falar com os Serafins, explicando o que tinha acontecido e qual era a causa de seu súbito sumiço por quase três dias.

O anjo suspirou, olhando em volta enquanto ligava as luzes. Quase que o hospital não os liberava mais cedo, graças a seus ferimentos, mas como ambos podiam seguir em frente sem a ajuda de médicos e enfermeiros o tempo todo, receberam alta. Até porque, Logan não aguentava mais aquela roupa esvoaçante de hospital, onde todo e qualquer vento era fatal para encontrar-se nu de repente.

O engraçado fora que assim que puseram os pés na rua, alguns anjos pediram que lhe acompanhassem até os Serafins, e depois de três horas seguidas de interrogatório, finalmente foram liberados. Agora, a lua se sobressaía sobre as nuvens e nada de útil tinham feito o dia inteiro... Pelo menos no ponto de vista de Logan.

Altair subiu as escadas, meio que mancando. Ainda estava machucado, mas com a velocidade de recuperação que seu corpo tinha, logo estaria novo em folha. O Arcanjo não falara muito após saírem do Palácio Central, e Logan se perguntava se algo estava errado ou se ele apenas estava cansado demais para conversar.

A casa, totalmente igual a todas as outras da cidade (se não fosse por umas mínimas coisas, como teias de aranhas, móveis quebrados e um leve cheiro de mofo), estava em estado deplorável. Como não havia sido habitada desde que tanto Altair como Logan foram para a guerra, estava totalmente imunda e parecia que a qualquer momento iria desabar. Mas casas de anjos não desabam, nem mesmo se um furacão for parar bem ao lado delas, o que deixava claro o quão horrível era o estado da casa.

Provavelmente, Logan teria que limpar, sozinho, tudo aquilo. Não achava ruim, apenas... Sentia aquela costumeira moleza antes de fazer qualquer trabalho que fosse considerado pesado. Como todo e qualquer adolescente normal, claro (não que ele fosse muito normal para os padrões, mas enfim...).

Foi até a cozinha para começar o trabalho, lavando louças que estavam enterradas sobre milhares de camadas de pó.

Enquanto isso, Altair checava o estado do seu quarto. O armário onde guardava as roupas tinha um cheiro desagradável, então pôs todas as roupas que tinham permanecido ali dentro para lavar. O curioso era que nem todas eram brancas. Algumas eram azuis, tanto de tons claros como de escuros, vermelhas, uma ou outra amarela e somente uma preta, que geralmente usava para ocasiões mais... Tristes.

Checou outras coisas no cômodo e depois saiu, vendo a situação do banheiro do corredor (o único da casa, na verdade, graças a uma certa briga que aconteceu uma vez entre... Ah, isso é outra história), e claro, o quarto de Logan, que quase sempre estava organizadamente desorganizado de tão... Desorganizado. Tanto que às vezes chegava a, literalmente, doer no coração do pobre Arcanjo, que era totalmente sistemático e bastante rígido com suas próprias regras.

Checou a cama (com mofo), os lençóis (mofados) e as roupas (fedendo a mofo e a outra coisa que o mais velho não identificou). Abriu todas as gavetas do armário, admitindo que estava um pouco curioso.

Desde que Altair admitira Logan em sua casa, como seu aprendiz, só entrara no quarto do menor uma única vez, que fora quando apresentara o cômodo ao novo morador. Até então, sempre vira o interior do quarto através da porta aberta, mas passar pela mesma, não. Jamais. Bem, até aquele momento.

Como qualquer criatura racional, Altair era curioso, sim... E como qualquer anjo, tinha certeza de que não deveria estar fazendo aquilo. Mas se Logan era tão direito como sempre aparentara ser, não teria nada a esconder, certo?

Então suspeitava de que o próprio aprendiz estivesse escondendo algo? Não, não era um motivo tão sujo, e sim, no fundo, ele sentia que, durante todos esses anos de convivência, nunca conhecera bem Logan, não o quanto deveria conhecer. E por ser incrivelmente orgulhoso (“sou um Arcanjo, me obedeça. Eu dou ordens, eu que mando em vocês, reles anjos”), e até um pouco... Tímido, já que não era acostumado com aquilo, não tinha coragem de perguntar ao mais jovem sobre seus gostos, seus desgostos, seus sonhos e essas coisas pessoais.

E também, porque se fizesse tal pergunta, era bastante provável que Logan também quisesse saber mais sobre seu mestre... E dizer essas coisas a outra pessoa era deveras constrangedor para o mais velho. Por isso, investigar era a melhor maneira de descobrir, indiretamente, coisas sobre outras pessoas.

O Arcanjo varreu os olhos sobre tudo, desde debaixo da cama até os confins do armário, mas nada achou. Será que aquele “pirralho” não escrevia um diário ou algo assim?

-Mestre! O que quer para jantar?!-Gritou o aprendiz do primeiro andar, fazendo o outro dar um pequeno pulo de susto. Estaria morto, ao menos por dentro, se Logan o pegasse fazendo algo tão... Errado, ali.

Claro que, se Altair tivesse 100 amigos, nenhum deles jamais pensaria que o Arcanjo poderia, um dia, “invadir” o quarto de alguém e procurar por algo que mostrasse seus segredos mais íntimos... Ou algo que dissesse apenas a cor favorita do outro, também era útil.

(O próprio Arcanjo também não acreditava que estava fazendo aquilo...)

Desistindo, Altair se levantou e caminhou em direção a porta, mas tropeçou em uma das tábuas do chão de madeira que parecia mais elevada do que as outras, como se estivesse mal posta... Ou talvez escondendo algo. Com os olhos tendo um brilho bastante suspeito para uma criatura que supostamente deveria ser pura, o Arcanjo se pôs de joelhos e, com um pouco de esforço, retirou a tábua.

Ali havia um pequeno caderno, e a julgar pelo estado, era muito velho. O Arcanjo pôs a tábua de volta e examinou o conjunto de papéis quase se partindo em suas mãos.

Uma escrita leve, meio ilegível, enfeitava o papel amarelado. Os olhos azul-claros do Arcanjo percorreram o caderninho, e logo encontraram conjuntos de palavras, que formavam versos, e que por sua vez, formavam estrofes.

No topo do céu eu vi,

Vi, ouvi, cheirei e senti.

A cor das suas asas,

Tão brancas e imaculadas.

Do topo do céu, você caiu.

Mergulhou, despencou, simplesmente ruiu.

E nos meus braços pousou,

Tão vulnerável e desprotegido, pousou.

Abriu os olhos e sorriu,

Tão lindamente, sorriu.

Mas não ousei te soltar, pois

Essa sensação, eu não queria parar...”

-Mestre?-A voz de Logan soou no corredor, indicando que ele estava se aproximando de seu próprio quarto, na mesma hora, Altair parou de ler e escondeu o caderninho no bolso da calça, assumindo uma expressão mais fria e indo até a janela, fingindo que estava olhando a vista que dava para o quintal de trás e depois para a rua.

-Ah, mestre, o senhor está aqui. –Logan falou, indo até o outro e se postando ao seu lado. –Como não me respondeu, eu vim ver o que o senhor iria querer para o jantar.

-Qualquer coisa serve. -Altair respondeu apenas, se acalmando quando notou que não havia hostilidade na voz do outro, afinal, o Arcanjo estava em seu quarto sem sua permissão.

-Não sei fazer esse prato, mestre.

-Pois eu sei. -Falou, se virando e saindo do quarto, descendo as escadas em seguida.

Logan olhou seu mestre se afastar, frio como sempre. Estava acostumado com respostas curtas, comandos diretos e conversas geralmente comuns, mas as vezes se pegava imaginando se não haveria uma faceta que Altair escondesse... Não, talvez não.

Balançou a cabeça e deixou o quarto, sem se preocupar com o fato de seu mestre ter entrado no mesmo. Como mestre e dono da casa, ele podia fazer aquilo, e o aprendiz sabia disso, portanto, ele não se opunha.

Encontrou seu mestre na cozinha, e hora depois, ambos estavam comendo sobras de comida congelada, que para a tristeza de ambos, era a única coisa que havia resistido a todo aquele tempo, totalmente intactas.

Lavaram os pratos após comer, conversando sobre frivolidades, como o clima e o que fariam amanhã, mas uma vez que a guerra tinha acabado, não tinham nada para fazer. Sim, férias! Poderia ser algo bom se não parecesse tão... chato.

Guardaram a louça após enxugá-la e Altair se pronunciou, dizendo:

-Logan, vou me recolher. Se quiser sair, fique a vontade, mas volte antes do amanhecer. Tenha uma boa noite.

O aprendiz assentiu como sempre fazia. Nessas horas, parecia que seu mestre estava quase que lhe empurrando para fora de casa.

-Bons sonhos, mestre. –Acrescentou baixinho, observando o outro subir as escadas com os longos cabelos claros novamente caindo pelas costas. Tão sedosos...

Logan balançou a cabeça e logo foi para o banheiro tomar um longo banho. Não estava a fim de ficar em casa, mas também não estava muito a fim de sair. Não queria encontrar ninguém, mas também não queria ficar só...

Suspirou ao terminar, enxugando-se e saindo do banheiro (que, lembre-se, ficava no final do corredor do segundo andar) com uma toalha presa a cintura e mexendo freneticamente nos cabelos, buscando secá-los logo.

Entrou em seu quarto, constatando que a porta dos aposentos de seu mestre estava fechada, e fechou a sua própria, despindo a toalha e ficando totalmente nu. Caminhou até o armário e abriu as gavetas, decepcionando-se. “Sim, todas as roupas foram postas pra lavar por causa do mofo...”. Parece que teria de dormir nu naquela noite, não que aquela idéia lhe agradasse muito...

Ainda pensou em vestir as roupas com que passara o dia, mas estas estavam ainda piores, pois fora com elas que viera carregando seu mestre nos braços durante todo aquele longo percurso até Hillyria, e graças ao “atentado”, todas as malas tendo seus pertences foram para os ares.

Logan, decidindo ficar em casa (não podia sair nu por aí), caminhou até a cama e deitou-se, cobrindo-se com o edredom, sentido frio. A janela estava aberta, o que resfriava bastante o quarto, e uma vez que estava de noite e as ruas não transmitiam barulho algum, o cômodo estava meio que assustador...

O anjo fechou os olhos. Não sentia sono, apenas um curto cansaço. O vento que vinha da janela, frio, bateu em seu rosto e ele se encolheu sobre as cobertas. Sempre dormira só, e em nenhuma vez sentira necessidade de procurar a proteção de alguém nessas horas, então, por que estava sentindo-se tão... Vulnerável?

Quem sabe fosse por causa da guerra, uma vez que, nela, ele e seu mestre dormiam um ao lado do outro na tenda, procurando economizar espaço. Sim, às vezes ocorriam situações constrangedoras, como um deles se acordar no meio da noite e sair de fininho para fazer suas necessidades fisiológicas e acabar pisando naquele que dormia num colchão (leia-se: Logan) ao lado da cama onde dormia o tal pisador (leia-se: Altair). Fica difícil de acreditar que alguém tão poderoso como Altair saía para fazer xixi no meio da noite, mas ele também é um ser vivo...

Sentindo frio, Logan chegou a pensar se seu mestre também estava enrolado em cobertas, igualmente nu. Por alguma razão que desconhecia, corou. Talvez a solução mais simples para o frio fosse fechar a janela, mas aí o quarto ficaria terrivelmente abafado.

Quem sabe precisasse de um ventilador...

O anjo sentou-se na cama, agora insone. “Merda...”, pensou, massageando as têmporas. A probabilidade de ter que acordar cedo no outro dia para apenas limpar a casa era enorme, então precisava dormir o quanto antes. Mas estava com frio, pensando besteiras e até com um pouco de medo diante de todo aquele escuro.

O que era uma idéia simplesmente absurda.

Levantou-se da cama e saiu do quarto, enrolado no edredom da cintura para baixo, voltando ao banheiro. Ligou a luz e lavou o rosto, olhando-se no espelho. A mesma cara de sempre, só que mais cansada e um pouco vermelha.

Deixou o banheiro e caminhou até seu quarto, mas algo o fez parar.

O quarto mais próximo do banheiro do corredor era o de Altair, e agora, a porta do mesmo estava curiosamente entreaberta, como se o convidasse a entrar. Logan engoliu em seco e se aproximou, olhando pela pequena fresta que mostrava os aposentos do mestre.

O quarto estava escuro, exceto por uma pequena parte sob a janela que era iluminada pela luz do luar, que, acaso ou não, era justamente onde a cama de Altair ficava, e logo, onde ele dormia naquele exato momento.

Sem perceber, Logan empurrou um pouco a porta para adentrar o quarto, caminhando e indo parar bem ao lado de seu mestre.

Nunca, em nenhum dos milhares de dias que já vira seu mestre adormecido, ele jamais tivera uma face tão serena, nem mesmo quando Logan o carregara nos braços após o “atentado”.

O anjo não demorou a sentir que deveria ir embora dali, mas hesitou. Queria ficar só por mais uns minutos. Aquela expressão era tão reconfortante que ele logo esqueceu o escuro, o frio e tudo mais que lhe inquietava.

Altair estava deitado de costas para cima, sobre os travesseiros e com o edredom cobrindo seu corpo somente até a cintura, o que indicava que ele também estava dormindo sem roupas. Seus braços estavam ao lado da cabeça e seus cabelos, que pareciam fios de prata ao luar, cobriam parte das costas. Seu rosto, que só podia ser visto se Logan se inclinasse um pouco para frente, tinha uma expressão tão relaxada que ele quase parecia estar morto, mas seu peito, e logo, suas costas, continuavam a subir e descer num ritmo bastante hipnotizante.

Logan, com uma das mãos segurando o próprio edredom que ameaçava cair, estendeu a outra, livre, no ar, buscando contato com aquela pele branca que parecia resplandecer.

Não sabia o que estava fazendo, nem o porquê e nem se deveria. Apenas estendeu a mão, e tão logo sentiu aquela textura macia, deslizou os dedos pelas costas do mestre adormecido. Estava fascinado.

-Mestre... -Murmurou, repetindo o movimento de seus dedos sobre a pele do outro, provocando arrepios inconscientes.

-Logan... O que você...

O aprendiz rapidamente recolheu a mão e engoliu em seco, vendo, lentamente, seu mestre se virar na cama e olhar, com olhos confusos, o anjo ao seu lado. Altair se sentou, puxando o edredom para mais perto.

-O que estava fazendo?-Apenas perguntou, olhando nos olhos azul-escuros do outro, tão mais escurecidos que os seus.

-Eu... Ham... Queria acordá-lo, mestre. -Logan mentiu, com seu coração batendo tão rapidamente que temia que Altair pudesse ouvir, como se já não bastasse seu rosto tão vermelho quanto sangue de tanto corar.

Altair ponderou a reposta, mas se julgava verdadeira ou não, não falou. Voltou a perguntar:

-Para quê?

-Para... Ver se o senhor estava bem. O médico disse que de cinco em cinco horas eu deveria ver seu estado, se estava estável ou se precisaria voltar ao hospital.

-Estou bem. -Altair falou, dando de ombros, mas ainda olhando nos olhos do outro.

-Que bom, mestre, mas tem certeza de que não está sentindo nada? Nenhum sintoma estranho?

-Não.

-Então, perdão por acordá-lo, mestre.

-Mas não era isso que você deveria ter feito?

-Sim, mas...

-Então não peça desculpas.

-Sim, meu mestre.

Logan assentiu, abaixando a cabeça numa curta mesura, olhando para os lados freneticamente. O que fazer agora? Deixar o quarto? Ou ficar ali? Mas por que ficar ali? Estava claro na entrelinhas que Altair queria dormir, sozinho, agora.

O anjo deu as costas ao mestre e caminhou até a saída, mas antes, Altair voltou a levantar a voz:

-Espere, Logan. Venha aqui.

O aprendiz obedeceu, voltando a se aproximar da cama de seu mestre. O que ele iria querer agora? “Por que você estava me alisando agora a pouco, seu profano? Isso é uma blasfêmia!”, Logan pensou que ele fosse dizer, mas, na verdade, Altair se estendeu até um criado mudo do outro lado da cama e de dentro de uma das gavetas tirou um pequeno caderno, cujo tinha lido inteiro assim que se recolhera após o jantar.

-O que é isso?

Logan corou mais ainda, lembrando que tinha escondido aquele caderninho no lugar mais difícil de achar que encontrara. Por que Altair estava com ele?!

-É um caderno, senhor. -Respondeu somente, reprimindo qualquer resquício de nervosismo, do mesmo modo que seu mestre lhe ensinara a fazer em situações difíceis.

-Você o escreveu?

-Sim, mas foi algo muito passageiro, sabe? Um surto de inspiração, se o senhor me permite dizer... Como o senhor o ach...

-Você pode ler o restante deste poema aqui?-Altair perguntou, abrindo o caderninho e mostrando o mesmo poema que começara a ler mais cedo (e que já tinha terminado de ler, mas...).

-Ham... Claro, meu mestre.

Logan, com apenas uma das mãos, pegou o caderninho e o abriu o bastante que fosse preciso para ler o que estava escrito nele, e apesar de estar meio escuro, leu:

Nessa hora o tempo deveria parar,

Para sempre eu devia te segurar.

Mas nem um segundo se passou,

E mais uma vez, tudo se arruinou.

Esperei que você voltasse,

Noite e dia, esperei.

Mas não existia frase que explicasse,

A dor pela qual passei.

Tudo porque você sorriu,

Tão lindamente, sorriu.

E me encantou, mas para longe,

Você voou.”

Logan terminou de ler mais um conjunto de estrofes e olhou para Altair, que por sua vez tinha uma expressão estranha no rosto, como se prestasse atenção inteiramente nas palavras que deixavam a boca do anjo.

-Continuo?

-Sim.

Recuperando fôlego, Logan leu o último conjunto de estrofes daquele poema.

Mas não desisti de esperar,

Tão pacientemente, aguardar.

Sempre olhando para o céu,

Sempre com a razão coberta por um véu.

Então você voltou.

Caiu e despencou.

Só para mais uma vez, eu lhe pegar.

Com meus braços a lhe abraçar.

E você sorriu.

Tão lindamente, sorriu.

E não me arrependi de esperar,

Muito menos de começar a te amar.”

Logan voltou a olhar para Altair, que pela primeira vez em muito tempo, esboçou um curto sorriso, quase inexistente.

-Não é uma obra de arte, mas...

-O senhor leu? Tudo? Até os outros poemas deste caderno?

-Sim, algum problema? Não imagino porque você teria escondido algo assim do seu próprio mestre, Logan.

-Eu... Não queria que ninguém o lesse.

-Então por que não o destruiu?

-Porque... Eu estava certo de que não seria preciso, mestre.

-Eu lhe incomodei com isso?

“Muito”, pensou em responder, mas balançou a cabeça e respondeu:

-Não, mestre.

-Você deveria escrever mais, Logan.

-Não é algo que eu ame fazer, mestre. É apenas um passatempo.

-Entendo.-Altair falou, finalmente desviando o olhar. Não queria, mas teve que assumir aquela cotidiana expressão fria que quase sempre tinha. Altair sabia que, por Logan ser seu aprendiz e servo, tudo que ele o mandasse fazer, o mais novo faria, inclusive contar seus segredos. Era uma atitude baixa, e apesar de tentadora, o Arcanjo jamais faria isso.

No fundo, se perguntou se havia, de alguma forma, magoado Logan por ter lido algo que, provavelmente, era muito pessoal.

-Vou me deitar agora, mestre. -Logan falou, envergonhado. Céus, Altair tinha lido os poemas! Logan deveria tê-los destruído antes, como muitas vezes pensara em fazer.

-Sim, vá. Boa noite, Logan.

-Boa noite, mestre.

Logan foi até a porta, mas antes de deixar o quarto, sem se virar, perguntou:

-Mestre... O senhor gostou? Dos poemas?

Se Logan estivesse de frente para Altair, poderia ter visto outro resquício de sorriso se formando em seus lábios.

-Sim.

E então Logan deixou o quarto, fechando a porta atrás de si. Apesar de ter quase sido pego fazendo algo que não deveria, de ter mentido, de ter lido algo que ele próprio escrevera mas sempre morrera de vergonha de mostrar a alguém e de ter sentido sentimentos estranhos a noite inteira, ele estava feliz.

Altair o havia elogiado. E isso era muita coisa.

Com um sorriso estranhamente bobo no rosto, Logan voltou a seu quarto, pensando o quão estranha a noite também havia sido.

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Kaleo se deitou na cama, cansado, massageando as têmporas. Todos os três Serafins já estavam em seus quartos, descansando, e só ele estava com insônia. Ou talvez não, mas mesmo assim, era o que estava mais preocupado naquela casa.

Desde o começo do dia, não houvera sequer uma notícia boa, apenas as regulares... E claro, aquele “desastre” que acontecera a Altair e a seu discípulo. Nada do cocheiro que guiava a carruagem fora encontrado, e como sua alma não voltara a Hillyria (ele ainda não havia renascido), as coisas pareciam piorar.

Quem seria o causador do “atentado”? Teria alguma ligação com o mesmo culpado por roubar Masamune? Seriam o mesmo? Atacaria de novo? Onde ele estaria? Nos arredores da cidade? Tantas perguntas rodopiavam na cabeça do próprio Serafim que logo a mesma começou a latejar.

Levantou-se da cama e resolveu ir ao banheiro, tomar um banho gelado para acalmar os pensamentos e em seguida tentar dormir. Despiu-se, entrou no boxe e ligou o chuveiro, sentindo a água lavar-lhe os cabelos, que já precisavam de um corte por passarem do tamanho.

Não gostava daquele comprimento, chegando aos ombros, mas hesitara todo aquele tempo em cortar por causa do seu estimado colega e amigo, Kalleb. Uma vez, sorrindo, ele se aproximara e dissera que o mais velho ficava mais bonito com cabelos daquele tamanho, e desde então, Kaleo resolvera adiar a sessão com o barbeiro.

Realmente, estava ficando louco em escutar conselhos do outro, mas simplesmente não conseguia resistir. E, ultimamente, estava ficando cada vez mais difícil resistir a qualquer coisa que estivesse relacionada a Kalleb. Tudo. Tudo que aquele menino pedia, o outro atendia sem hesitar.

E, com mais freqüência ainda, Kaleo se via pensando no outro, não de forma saudável, mas de uma forma luxuriosa demais, egoísta demais. “Meu Kalleb, meu Kalleb, meu Kalleb”, chegava a murmurar em sonhos.

Por que sentia-se tão atraído? Qual era seu problema? Claro que, além de eles dois, as próprias “imperfeições” deles não ajudavam, uma vez que Kaleo precisava “tocar” e Kalleb precisava que alguém o “tocasse”.

Uma verdadeira tortura. Tocar ou não tocar, eis a questão.

O Serafim suspirou, terminando de banhar-se e pegando uma toalha estendida sobre a pia, enxugando-se e voltando ao quarto, pegando um pijama no armário. Vestiu-se e voltou a se deitar.

Cortaria os cabelos no dia seguinte, mas era provável que logo eles voltassem ao mesmo tamanho, uma vez que, por alguma razão, seus cabelos (apenas os da cabeça) cresciam bem mais rápido que a média.

Fechou os olhos e esperou o sono chegar, sem sucesso. Maldita insônia que vinha lhe incomodando já fazia várias semanas.

Virou-se para o outro lado, dando de cara com a parede. O ar estava meio frio, graças à janela aberta, mas o Serafim nada sentia de desconfortável. Aliás, tudo estava muito aconchegante, mas sentir sono era outra história.

Fechou os olhos com mais força, sem resultado algum.

“Faria qualquer coisa para poder dormir...”, pensou, enquanto uma resposta vinha do fundo de seu âmago.

Bem, ele tinha uma teoria... Infundada e bem tola, mas bem, poderia funcionar. A possível causa de sua insônia era sua preocupação, certo? Ou teria algo mais? Quem sabe um certo Serafim que dormia no quarto ao lado? Então... Se ele conseguisse “satisfazer” pelo menos uma dessas suas “preocupações”, ele poderia dormir, certo?

Não custava tentar.

“Custa sim, seu idiota. Quer piorar mais as coisas?”, Kaleo pensou, voltando a virar-se a cama, dessa vez também cobrindo o rosto com o travesseiro. Tinha que parar de pensar naquilo... Era errado, ele não deveria. Como o líder dos Serafins, era ele que tinha de ser o mais certo...

Mas não tinha sido ele que escolhera virar Serafim... Mesmo assim, nada poderia fazer. Teria de aguentar as conseqüências...

Uma longa hora se passou, e nada do sono vir. Kaleo já estava praguejando, não aguentava mais. Levantou-se da cama e saiu do quarto, batendo a porta com força, sem perceber.

Estava com raiva, o que não era uma boa coisa, e pior, não tinha nada nem ninguém para descontá-la. Desceu as escadas, ascendendo as luzes e indo até a cozinha, onde abriu a geladeira e pegou três maçãs de uma vez, jogando-as no chão e destruindo alguns outros utensílios domésticos. (Ah, sim, a geladeira havia sido consertada e todas as comidas foram repostas).

Kaleo abriu os armários e pegou algumas das panelas, jogando-as na paredes, fazendo tanto barulho que era provável ter acordado metade da vizinhança. Mas ele não estava se importando com os outros, o egoísmo havia tomado conta de si.

Ficar com raiva, para o líder dos Serafins, jamais era boa coisa. Primeiro, ele perdia grande parte do controle sobre si, e um de seus grandes pecados (ou todos eles) assumiam o controle. Depois, só quando ele tem descontado toda sua raiva que seu estado melhora... Então ele ficava culpado e se excluía de todos os outros. Nunca era boa coisa, mas chegava a ser engraçado (do ponto de vista sádico).

Abriu mais alguns armários e de, dentro deles, tirou alguns pratos e xícaras, jogando-os no chão.

-Porra! PORRA! POR QUÊ?! Maldita Masamune!-Gritou, chutando as panelas e cortando os pés, mas sem se importar. -Maldito ladrão! Maldita insônia, MALDITO KALLEB!

-Kaleo?-Perguntou uma voz de repente, amansando a ira do outro enquanto o mesmo se virava para encontrar o Serafim loiro nos primeiros degraus da escada, meio sonolento, embora assustado e... Magoado.

-Kalleb? Acordei você?-Perguntou Kaleo, subitamente calmo e arrependido. Oh, céus, ele tinha escutado a última parte, não tinha?

-E provavelmente a vizinhança inteira. -Falou outra voz, Kallil, descendo as escadas. Estava com a mesma expressão hostil de sempre, só que, dessa vez, mais mal-humorada.

-Kaleo, você... -Começou o menor deles, com os orbes verdes se enchendo d’água e a voz começando a embargar. Ah, não, ele iria chorar? Por causa da pessoa que menos queria que ele chorasse?

-Olha, Kalleb, foi um mal-entendido, eu...

Só que não adiantou o outro começar a explicar, pois assim que abriu a boca, o Serafim mais jovem subiu correndo as escadas e se trancou em seu quarto, e logo, podia-se ouvi-lo chorando.

-Parece que alguém disse algo que não devia... -Kallil começou, cruzando os braços.

-Você, cale a boca e volte para seu quarto. AGORA. -Ordenou Kaleo, olhando diretamente nos orbes do outro. Uma coisa era desobedecer a um simples pedido, onde o mais musculoso dos Serafins tinha direito a recusar, mas aquele tipo de ordem era definitiva, e até o mais teimoso dos anjos tinha que obedecer. Por isso, com a cara mais emburrada do que antes, Kallil retornou a seu quarto.

Novamente só, magoado por ter machucado os sentimentos de Kalleb, culpado por ter passado dos limites, arrependido por ter destruído metade da cozinha e com mais raiva por tudo isso, Kaleo gritou.

Proferiu palavras que mais ninguém em Hillyria sabia, e por um instante, o tempo parou, o céu escureceu totalmente e ele caiu de joelhos enquanto o chão se desfazia sob seus pés. Palavras proibidas, de imenso poder.

Por quase uma eternidade, ele ficou ali, caído, com a respiração pesada enquanto a magia que tinha invocado sem perceber tomava sua força vital, deixando-lhe mais cansado do que estivera em uma semana.

Então parou e tudo voltou ao normal, como se nada houvesse acontecido, e até a cozinha, quase demolida por dentro, estava intacta novamente. Acumular tanto poder dentro de si podia ter suas qualidades... E problemas.

O Serafim suspirou,se levantou e voltou a seu quarto. Queria pedir logo desculpas a Kalleb, mas ele sabia que de nada adiantaria... Até porque, estava cansado demais... Jogou-se na cama e adormeceu.

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Marluxia desceu do carro e se encostou ao lado do portão da escola. Eram quase três horas e logo tocaria o sinal par ao fim das aulas, o que significava que em breve estaria com seu alvo.

Depois de ter passado a manhã inteira (na floricultura) planejando o próximo passo com Naminé, aquilo era quase uma tortura. Tão perto,e ainda assim, tão longe... Todos os segundos pareciam durar a eternidade ali. Pela trocentésima vez naquele dia, ele olhou no relógio de pulso: 14h57min da tarde.

Jurou que mataria a diretora se ela ao menos ousasse em atrasar o toque.

O russo olhou em volta, encontrando os olhos do porteiro, um homem já idoso com uma barba branca por fazer, de estatura baixa. O funcionário do colégio mantinha uma expressão suspeita enquanto Marluxia se limitava ao olhar frio.

Não eram todas as pessoas que simpatizavam com seu estilo, claro, nem com aqueles olhos azuis gélidos como a neve. Mas o russo já estava acostumado, e depois de tanto tempo, mal dava importância para aquele tipo de coisa.

O sinal finalmente tocou (para o bem da diretora), e logo uma enxurrada de alunos corria por aqueles portões, todos ansiosos para chegar em casa o mais cedo possível. Aqueles que estavam esperando por alguém ou simplesmente preferiam ficar no colégio se sentavam em mesas ao lado da portaria, do lado de dentro.

-Marluxia?-Perguntou uma voz, atraindo a atenção do russo, que encontrou seu alvo parado bem ao seu lado.

-Ah, olá, Naminé. Pronta para ir?-Perguntou amistosamente, olhando de esguelha de vez em quando para o porteiro, que ainda mantinha uma expressão suspeita no rosto.

-Sim, claro, vamos então. Até amanhã, senhor Gilbert. -A garota acenou para o porteiro, se afastando em seguida. Marluxia, sem evitar, foi atrás dela, mas antes deu um daqueles sorrisos, como se dissesse “você perdeu, otário”.

Minutos depois, quando o russo e a loira caminhavam na calçada, sem ter aparentemente nenhum destino marcado, Marluxia levantou a voz.

-E então, Naminé? Onde quer ir hoje?

-Ham... Qualquer lugar, pra mim, serve. -Ela respondeu, dando um pequeno sorriso, coisa que atraiu o olhar do mais velho ao seu lado, despertando algumas fantasias que, logicamente, envolviam sangue.

-Não conheço nenhum lugar com esse nome.

A garota riu, olhando para o chão, mas resolveu falar:

-Bem... Tem uma exposição... De um artista...

-Onde é? Se for longe, eu posso pagar um táxi.

-Não, é que... É de um artista meio... Chato. -A garota falou, quase gaguejando. Se era para ser um dia divertido, teria de ser para ambos.

Marluxia sorriu diante da hesitação da menor, pondo as mãos nos bolsos por causa do frio.

-Se você gosta, tenho certeza absoluta que não é chato. Agora, vamos, me diga onde é e farei de tudo para que, em dentro de meia hora, estejamos lá, mesmo que seja no fim do mundo.

A garota voltou a rir, fazendo o outro sorrir também. Ela confiava tão completamente no russo que chegava a ser previsível demais, chato demais, porém... Algo impedia que Marluxia acabasse com aquela diversão antes do tempo. Não, ele seguiria o procedimento até o fim, não porque estivesse com pena de matá-la, e sim... Porque esta vontade estava crescendo cada vez mais.

Como o combinado, em menos de meia hora ambos estavam num museu do outro lado da cidade, onde grandes fachadas se estendiam em todos os lugares, anunciando a inédita exposição de Kheir Kallein, O Pintor Cego.

Vários quadros eram expostos nas paredes, sempre com um estilo impressionista e demasiado belo, principalmente para um artista que, sim, era mesmo cego de ambos os olhos.

Naminé, durante todas as três horas que passaram dentro do museu admirando a exposição, tinha uma expressão tão alegre no rosto que muitos dos idosos (a maioria dos visitantes) olhavam sem entender. Não era todos os dias que encontravam alguém tão jovem interessado em obras de artes e não em internet e coisas do tipo, tantos que alguns até chegaram a puxar assunto, mas logo Marluxia se metia no meio e acabava interrompendo a conversa, chamando a garota para olhar um outro quadro noutra sala mais distante.

Oh, sim, muito possessivo com seus “objetos”.

Era noite quando o russo e a americana deixaram o museu, com Naminé falando freneticamente:

-Você viu?! Eu adoro demais aquele artista! Ele é tão legal! Os traços dos desenhos dele são tão vívidos e tão limpos! Parecem até fotos de verdade! Eu queria tanto desenhar daquele jeito...

-Você consegue, pelo menos um dia, consegue.

-Espero que sim. Ah, Marluxia, você é formado em alguma coisa?-Perguntou a menina, olhando para o outro com olhos curiosos.

“Sim, em direito, medicina e engenharia, primeiro lugar em todas”, pensou em responder, mas resolveu deixar para depois... Senão poderia parecer que ele estaria mentindo ou se gabando, afinal, ele só tinha 24 anos mesmo...

-Sou formado em... Turismo.

-Ah... Achei que você tivesse feito algo mais... Difícil, como direito, medicina, sei lá...

-Não, eu não gosto muito dessas coisas... — “Apenas adoro”. Medicina porque, bem, qual lugar melhor para cortar corpos de graça? Não foram poucas as vezes que ele teve de sair no meio da aula por estar excitado demais... Mesmo. E direito porque ele simplesmente adorava todo aquele processo e, tinha que admitir, já tivera o sonho de se tornar juiz só para poder definir o destino daqueles que passavam por suas mãos... Engenharia? Apenas para passar o tempo.

-Tudo bem então. Eu quero me formar em artes plásticas.

-Muito bom, tenho certeza de que será uma das maiores pintoras do século.

-Não exagere!-A garota exclamou, rindo e batendo de leve no outro.

-Ah, não é para exagerar? Então você será a maior pintora deste país, atualmente, e se você me bater de novo, vai conhecer a dor em seu estado mais bruto. -Ele falou, sorrindo de maneira brincalhona e olhando maliciosamente para ela.

-Você não ousaria em bater numa mulher, Sr. Russo.

-Mulher? Que mulher? Só estou vendo uma adolescente que adora quadros sem noção...

Naminé fez uma cara de humilhada e deu outro tapa em Marluxia, fazendo com que ele a olhasse de cima numa ameaça muda.

-Alguém pediu para sofrer hoje...

-Não, não, não, espera! Hahaha!-Naminé riu, correndo para longe dali em direção a um parque não muito longe, seguida por um Marluxia “pseudo-aborrecido” com aquilo.

Ambos correram por mais alguns minutos até estarem completamente dentre as árvores de um bosque no parque, com as luzes dos postes se afastando cada vez mais, assim como os barulhos dos carros e outros sons típicos de cidades.

Naminé continuava a rir e a correr, e Marluxia simplesmente se limitava a tentar pegá-la, mesmo que, para ele, aquilo não passasse da mais pura brincadeira de criança. Se fosse uma perseguição de verdade, a coitada já estaria morta.

O que a alegre Naminé não sabia era que, bem a sua frente, ficava um pequeno lago congelado, mas por este não ter um gelo grosso o bastante para aguentar sequer o peso de um cachorro de porte grande direito, se tornara bastante perigoso. Até tinha uma placa nas proximidades de tal lago, avisando do perigo, mas quem disse que, naquela diversão toda, a garota percebeu?

Tanto que, correndo mesmo, ela pisou na fina camada de gelo e imediatamente afundou, com mochila e tudo, logo sendo tragada para dentro da água tão gelada que em dentro de poucos segundos ela sentiu os dedos dos pés dormentes.

Mas Marluxia, sempre cuidadoso, avistou tal placa. O russo se aproximou um pouco da margem do pequeno lago, observando o buraco agora formado onde o gelo cedera sob o peso da garota. O que faria? Deveria salvá-la? Mesmo que mais tarde fosse a matar?

Não seria má idéia salvá-la, uma vez, que dessa forma, era bem provável que ela confiasse ainda mais nele (se é que isso era possível). O único porém daquilo era que, tentando, ele poderia morrer também.

Salvar ou não salvar? Aquela não era uma pergunta que devesse ser feita para um psicopata.

“Não”, ele pensou, já despindo o casaco e tudo mais que pesasse de roupas e objetos, “serei eu que tirarei sua vida e provarei do gosto do seu sangue...”.

Então, por mais incrível que pareça, Marluxia pulou no lago. Tudo isso 3,4 segundos depois de ela ter caído na água, o que significava que ambos ainda tinham uma chance.

Sendo o melhor nadador do estado (só não fora o do país porque não quisera chamar atenção demais para si), o russo não demorou a alcançar a garota e a pegá-la. O difícil era voltar para cima com todo aquele frio, tanto que uma braçada chegava a quase queimar todos os músculos.

E aquilo lhe lembrou de alguns dias de sua infância, na Rússia, quando tinha que pescar nos lagos gelados no inverno e acabava se molhando...

O russo emergiu, pegando ar com toda a força que seus pulmões tinham, e nadou em direção a margem do lago. Nem fora tão difícil assim... Para um psicopata em ótima condição física e mental, claro.

Marluxia, uma vez fora daquela água gelada e já batendo os dentes, deitou Naminé no chão (repleto de neve) e fez a primeira coisa que uma pessoa normal faria: Chamou uma ambulância.

-Oi, eu preciso de uma ambulância urgente para o Parque Strugglefield. Uma amiga minha acaba de cair num lago e eu a salvei, mas acho que ela pode morrer de frio e...

Depois de uns segundos de trocas de informações, foi dito ao russo o que fazer (como se ele já não soubesse) para manter a garota viva enquanto a ambulância não chegava.

Marluxia não prestara um pingo de atenção as palavras daquela mulher, mas pelo o que se lembrava de quando estudara medicina (torcera para não estar errado), não era muito difícil.

Mesmo com frio, tirou a camisa encharcada, deixando o peito nu e expondo algumas cicatrizes graças a sua infância nas ruas de Moscou, mas ignorou o fato, trazendo Naminé mais para perto e a abraçando fortemente. O que é melhor que calor corporal? As roupas, por estarem encharcadas e geladas demais, só atrapalhavam, mas uma coisa era tirar uma camisa, ainda mais quando se era um homem, e outra coisa completamente diferente era despir uma menina.

Por isso, até a hora da ambulância chegar, cerca de dez minutos depois, Marluxia ficou abraçado a Naminé, tendo a atenção de ver se ela estava respirando direito e se tinha se machucado em algum lugar, mas, ainda bem, nenhum dano havia sido causado, não aparentemente.

O que, para ele, era um grande alívio, pois era provável que acabasse pegando um resfriado depois daquela aventura insana... Olhou para longe, ouvindo as sirenes da ambulância se aproximar e suspirou. Ficar tão perto assim daquela garota estava lhe provocando pensamentos não muito bons para a hora, e mais do que nunca, a vontade de pegar seu chaveiro-estilete, a poucos centímetros dali, e cortar aquele pescocinho branco exposto, bem perto de seus lábios, lhe tentou.

Mas se os enfermeiros o encontrassem repleto de sangue e tudo o mais, logo ele estaria em maus lençóis, então, por hora, teria de resistir àquela tentação.

Uma hora depois, ambos estavam no hospital. Naminé estava sendo examinada e, noutro quarto, vestindo apenas aquela roupa de hospital, estava Marluxia, enrolado com três cobertores e espirrando um bocado.

Já tinham contatado a mãe da garota, e a mesma dissera que estava a caminho. Enquanto ao russo, cinco pessoas já vieram, do nada, parabenizá-lo por ter salvado a garota. É, notícias assim se espalhavam bem rápido.

O psicopata, sozinho no quarto, se deitou na maca, abraçando-se, ainda tremendo. Maldito frio, maldito inverno. Em pouco tempo, um médico viria lhe perguntar coisas que provavelmente ele já sabia, apenas por regulamento, e por mais que quisesse, ir para casa apenas chamaria mais atenção do que o normal, então teria que passar a noite naquele lugar.

Odiava aquele cheiro do fundo do coração, e aquelas roupas mais ainda... Se é que tinha um coração, mas mesmo assim, era modo de dizer.Fechou os olhos e esperou adormecer, e quando estava finalmente entrando no mundo dos sonhos, alguém abriu a porta do quarto, e uma vez que era um quarto particular e ele era o único enfermo ali, bem, só podiam estar atrás dele.

Não que a pessoa, ao abrir a porta, tenha feito muito barulho, mas mesmo assim, quando se é treinado para estar sempre alerta, é quase impossível não escutar o barulho da maçaneta girando e as dobraduras da porta gemendo. Por isso, no segundo seguinte, Marluxia já estava totalmente desperto, apesar de continuar a manter os olhos fechados.

A pessoa adentrou o quarto, e acreditando que o russo estava dormindo, falou:

-Dormiu? É uma pena... Queria tanto agradecer por ter salvado minha filha... -Uma voz feminina falou. A mulher demorou-se mais um pouco e deixou o quarto, fechando as luzes, até aquele momento, ligadas.

Ah, então até a mãe da menina viera lhe falar? Bem, podia ter arriscado sua vida, mas se conseguisse a confiança da mãe de seu alvo, bem, era como conseguir um passe livre de entrada e saída da casa de Naminé, o que era, definitivamente, uma ótima coisa.

E o russo sorriu aquele sorriso logicamente não humano que sorria todas as vezes que se imaginava com seu alvo nas últimas horas do mesmo. Um quarto escuro, facas, sangue... Era simplesmente tão tentador que só pensando naquilo, ele se excitava.

Estava quase voltando a adormecer quando sentiu uma estranha sensação lhe descer pela espinha... Estava sendo observado. Não sabia como, nem por quem, mas estava, isso ele sentia. E odiou essa sensação.

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Axel, Roxas, Riku e Sora estavam um ao lado do outro num lugar chamado “A Borda do Céu”. Era daquele lugar que você poderia, literalmente, cair em direção a Terra, e era o único modo de chegar até a mesma.

Nenhum deles carregavam pertences, bolsas ou coisas do tipo, afinal, eles não precisariam daquilo mesmo. Suas únicas tarefas eram guardar humanos. Não seria muita coisa se não o pequeno e insignificante fato de que os tais humanos eram apenas os mais difíceis de guardar, tanto que todos os anjos que tentaram guardá-los já tinham voltado...

Axel sorriu de forma cética. Não acreditava que aquilo daria certo, mas como era um ritual de passagem para os anjos, bem... Faria seu melhor.

Roxas estava muito animado, em suma. Ele podia ir parar no último círculo do Inferno, mas se estivesse ao lado de Axel, era o mesmo que estar no paraíso. Realmente, de nada tinha daquele anjo que ficou “desligado” por meses a fio...

Sora estava animado igualmente. Era uma aventura! Seria ótimo sair daquele ambiente puro demais de Hillyria, principalmente para Riku, sua maior preocupação no momento...

Riku estava emburrado. Aqueles malditos Serafins não tinham o direito de mandar nele... Bando de imbecis.

-Bem... Acho que vou sentir falta desse lugar.- Sora falou, brincando, mas sem olhar para trás, que era onde Hillyria estava agora.

-Pois eu não vou. -Riku respondeu, cruzando os braços.

-Nem eu. -Roxas respondeu, sorrindo para Axel.

-Não sei porque não tive a oportunidade de passar muito tempo aqui...-O ruivo comentou, revirando os olhos. Estava começando a se irritar com toda aquela disposição do loiro ao seu lado.

-Quem vai primeiro? Eu e Riku? Ou você, Roxas, e Axel?

-Podemos ir todos juntos.

-Querem dar as mãos?

-Não sou criança, não preciso me segurar em ninguém.

-Nem eu.

-Mas vocês já caíram do céu alguma vez?

Axel e Riku ficaram em silêncio, agora ambos de braços cruzados e faces emburradas.

-Imaginamos. -Roxas e Sora responderam em uníssono, sorrindo.

O loiro se aproximou mais da “Borda do Céu”, olhando lá em baixo. Era, literalmente, uma borda, uma margem, e lá em baixo você podia ver toda a Terra, só que, ao cair, você sempre ia parar na cidade onde seu humano escolhido estava. De lá você teria que partir numa busca para encontrá-lo, sozinho. Ou “sozinhos”, como era o caso desta turma que ainda decidia que iria na frente.

-Querem decidir no adedonha?-Sora sugeriu, indo para o lado de Roxas.

-Não, melhor não. Que tal pauzinhos?

-E onde encontraríamos isso? Estamos a quilômetros de nossas casas!

-Podemos usar... Penas das asas!

-Não sou masoquista. Até porque...

-CHEGA!-Axel exclamou, perdendo a paciência, se aproximando dos dois anjos e pegando o loiro pela mão. -Estamos indo, Roxas.

-Mas... Eu nem me despedi... -O loiro reclamou, olhando com olhos manhosos para o ruivo, que agora olhava em direção a Borda.

-Você os verá de novo, tenho certeza. Adeus, Sora e Riku. -Axel falou para os outros dois que os olhavam sem entender. Sora com aquele sentimento de raiva pelo ruivo estar tratando seu mestre daquela maneira grosseira e Riku pelo simples fato de Axel ter ido na frente.

O ruivo, ainda segurando a mão de Roxas, recuou um pouco e correu, pegando velocidade e em seguida pulando em direção a Borda. Em cerca de meio segundo, estava caindo em queda livre, mergulhando, em direção a Terra.

-Axel!-Roxas exclamou, segurando-se com mais força na mão do outro e tentando chegar mais perto, mas sem conseguir. Era tanto vento que ele mal conseguia manter as asas fechadas.

O ruivo, percebendo a dificuldade do menor, estendeu o outro braço, trazendo-o mais para perto e o abraçando em seguida. E assim caíram, juntos, abraçados, até porque, caso se separassem durante a queda, seria um grande problema para se juntarem mais tarde.

Enquanto isso, Riku e Sora olhavam o lugar onde antes os dois amigos estavam.

-Vamos, Riku?-O moreno perguntou, sorrindo daquela forma brilhante que só ele sabia sorrir.

-Que escolha tenho, hã?

-Não vai ser tão mal assim, você vai ver. Ah, não se esqueça de fechar suas asas na qued...

Antes que pudesse terminar, o ex-demônio puxou o anjo e logo ambos também caíam.

Quase que quinze minutos depois...

Axel se levantou do chão, balançando a cabeça com força, cheia de neve. Roxas, ao seu lado, estava tão tonto que nem conseguia se sentar sem sentir náuseas.

-Podia ter sido pior. -O ruivo falou, pondo-se de pé e batendo as mãos nas roupas, que também estavam repletas de neve. Ah, as roupas eram uma camisa de mangas longas e a calça branca de sempre, embora a camisa estivesse com vários botões abertos por causa da queda.

-Podia, sim... -O loiro falou, ainda deitado na neve e com a mão tampando a boca, evitando vomitar ali mesmo.

Axel olhou em volta. Estavam no meio de um bosque, e a julgar pelo barulho dos carros lá fora, estavam no meio de um parque. O sol, brilhando no meio do céu, indicava que era, mais ou menos, doze da manhã.

-Roxas, vamos, precisamos achar o humano logo.-O ruivo reclamou, desviando a atenção para o amigo, que ainda estava deitado.

-Não tô me sentindo muito bem...

-Francamente... Eu, que nunca tinha feito isso, já estou perfeitamente normal...

-Você já fez isso, várias vezes, apenas não se lembra... E pior, você, além de “Cair”, você “subia”, o que é bem pior... -O loiro falou, ainda com a mão na boca.

-Lá vem você com essa história de memória de novo...

-Pode me dar uma mão? Por favor? Eu não consigo me manter em pé.

Axel revirou os olhos e se aproximou do loiro. O ruivo pegou Roxas no colo e o levantou, começando a andar por entre a floresta até achar a saída da mesma.

-Axel, somos só eu e você agora...-Roxas comentou, ainda tampando a boca.

-O que quer dizer com isso?

-Você sabe que não podemos ver outros anjos, certo? Nem falar com nenhum humano, então, tecnicamente, por cerca de uma vida (humana) ficamos sozinhos. Por isso que é um ritual de passagem, por ser muito difícil para alguns ficar só.

-Grande coisa...

-Você diz isso agora, mas depois você vai ver o quanto é ruim... Mas, você tem alguma idéia de onde o humano esteja? Quero dizer, a humana?

-Não... E como essa cidade parece ter um tamanho grande, seria melhor se você pudesse andar ou voar também. A acharíamos mais rápido.

-Tudo bem, vou tentar.

Axel pôs Roxas no chão, que teve uma súbita tontura, mas depois melhorou consideravelmente.

Algumas horas depois, ambos os anjos procuravam pela garota que deveriam guardar. Seu nome era Naminé Silverplate, filha de Angela Simpson com o empresário Lux Silverplate.

Tinha 16 anos e morava apenas com a mãe na cidade de Twilight Town. Seu pai, que todos os meses mandava uma mesada e mais o dinheiro da pensão, era dono de várias multinacionais pelo mundo. Nada de irmãos ou sequer parentes no mesmo país.

Primeiramente, Roxas e Axel procuraram nos cantos mais cheios da cidade, apesar de terem como referência apenas uma foto dela. Procuraram em becos, bares, lojas, parques... Todos os lugares exceto as óbvias escolas da cidade.

Tanto que só começaram a procurar nas escolas quando estava quase anoitecendo, e uma vez sem nenhuma pista sobre a protegida de ambos, os anjos se sentaram na beirada de um prédio, ofegantes e cansados.

Enquanto isso, Riku e Sora também procuravam por seu humano. Seus pousos haviam sido bem menos dolorosos, só que, diferente da ficha de Naminé, o humano que eles tinham de guardar quase não possuía informação alguma.

Havia um nome: Marluxia Allumait. Idade: 24 anos.

E nada mais. Nada dos pais, nem nenhum sinal da família. Riku se surpreendeu como o céu poderia saber tão pouco, mas talvez fossem tantos humanos que uns escapassem de ter suas fichas preenchidas corretamente.

Quando deu quase três horas da tarde, o ex-demônio e o anjo moreno se sentaram num banco de uma praça. Claro que nenhum deles fazia idéia de que todos estavam reunidos numa cidade só, até porque, eles nem podiam se ver.

-Estou cansado... -Sora reclamou, se deitando no banco.

-Mais do que eu, impossível.

-Estou com sede...

-Estou com mais.

-Estou com frio...

-Isso eu não sei.

-Não podemos parar por hoje? Continuamos a procurar o humano amanhã, por favor.

-Não acho uma boa idéia, Sora. É melhor acharmos logo esse cara, até porque, o céu poderia se aborrecer com a gente, e eu não quero aqueles idiotas dos Serafins pegando no meu pé.

-Você se preocupa demais, Riku. Aqui não é o Inferno, o que significa que podemos errar e dar a nós mesmo uma folguinha de vez em quando...

-Não e ponto final, Sora. Ande, levante-se. -Mandou o mais velho, fazendo o mesmo. -Julgando pela idade do humano, ele deve estar trabalhando em alguma loja, num cargo baixo, então...

-Mas já olhamos em mil lojas! Passamos a manhã inteira procurando e nada!

-Mas vamos achar dessa vez. Vamos procurar por lojas menores... Está vendo aquela floricultura? Quem sabe ele não trabalha lá?

Sora suspirou e foi até estabelecimento, decorado na entrada dos mais diversos tipos de anões de jardim e, claro, flores. Flores coloridas, flores grandes, flores venenosas, flores feias e até fedorentas. De tudo tinha aquela loja.

Riku, olhando pela vitrine do lado de fora, comparou todas as pessoas ali dentro com a foto que tinha em sua ficha, mas não consegui achar o humano. Olhou no relógio ao lado do caixa, mostrando que era pouco mais das 15h00min. Se ele houvesse chegado um pouquinho mais cedo, poderia ter encontrado seu protegido.

Mas, uma vez que não é possível voltar no tempo (a não ser que você seja um todo-poderoso Serafim), Riku e Sora tiveram que continuar sua busca. E, assim como Axel e Roxas, eles só conseguiram uma pista de seu humano ao anoitecer.

O ruivo e o loiro estavam voando sobre um parque quando ouviram o curto estrondo ressoar no ar, atraindo a atenção de ambos para baixo, onde alguém havia acabado de cair no rio.

Imediatamente desceram até o local, parando um pouco mais atrás. Era naquela horas que o coração dos anjos doía, pois era proibido terminantemente de interferir em assuntos de natureza humana. Por exemplo, um anjo, por mais que ele queira salvar seu protegido, não pode levar um tiro por ele ou salvá-lo de uma morte mundana, e sim, protegê-lo de influências sobrenaturais... Ou seja, protegê-lo de demônios e outras criaturas.

Por isso que, quando ambos pousaram e viram que aquele homem de cabelos rosas estava pensando em salvar a pessoa que caíra na água, Roxas sentiu uma pontada no coração. Pensar?! Aquela pessoa poderia morrer! Não é hora para pensar!

-Roxas, nem pense em fazer algo. -Axel avisou, já observando as reações do outro.

-Não vou fazer, mas... Ele não vai... Salvar aquela pessoa?

-Vamos embora daqui. -O ruivo falou, se virando, certo de que o homem de cabelos rosa não moveria um músculo para salvar o descuidado que caíra no lago congelado. -Não quero ficar pensando nisso depois.

-Mas, Axel... Não podemos...

-Sim, podemos e vamos. Os Serafins nos mandaram seguir as Leis, e é isso que estou fazendo.

O ruivo estava se afastando dali quando sentiu o toque do loiro, que agora segurava sua mão. Axel levantou o olhar e encontrou os olhos do menor, mais úmidos.

-Por favor? São só alguns minutos, ou talvez nem isso.

Axel suspirou. Roxas às vezes lhe irritava, enchia o saco e acabava com sua paciência, mas, por alguma razão que o próprio ruivo não sabia responder, ele gostava daquele garoto.

Às vezes, tinha a impressão de conhecer Roxas, como um amigo esquecido ou até algo mais, mas então balançava a cabeça e se dava conta de que era tudo uma grande besteira, afinal, não tinha como ele, na vida passada, ser um General do Exército dos Demônios, tinha?

-Tudo bem... -O ruivo assentiu, dando um sorriso desanimado.

-Obrigado, Axel.

Quando Roxas voltou a prender sua atenção ao homem de cabelos rosa que estava de pé na margem do lago congelado, ele não estava mais lá. Apenas algumas de suas roupas e seus pertences estavam sobre a neve, nada mais.

-Para onde foi o... -O loiro começou a falar quando, de repente, o homem emergiu da água, trazendo consigo uma pessoa inconsciente.

E o susto que Roxas levou foi tão grande que quase ele gritou. Aquela garota! Era aquela garota! Era ela a humana que tinham de proteger!

-Roxas, aquela não é a menina? A humana?-Axel perguntou, olhando na ficha em suas mãos agora.

-Sim, é! Ainda bem que a encontramos... Embora não tenha sido numa boa hora, claro. Ela quase morreu!

Então eles viram toda aquela cena e, quando a ambulância chegou, eles a acompanharam, voando, até o hospital, onde não deixaram o lado da menina nem por um segundo.

Uma vez que Naminé estava descansando em seu quarto e sua mãe tinha ido em casa pegar algumas roupas, os anjos puderam, finalmente, descansar. A loira estava bem, porém, ainda não tinha acordado e os médicos temiam que ela pudesse ter desenvolvido alguma doença interna. Mas, além disso, parecia bem.

Roxas estava ao lado da maca dela, olhando sem parar o rosto da garota... Jurava que conhecia aquele rosto em algum lugar, mas não se lembrava de onde...

-Roxas, hey, não chegue tão perto assim dela. -Axel falou, deitando mais a poltrona onde estava, acomodando-se melhor ali.

O loiro se levantou e olhou para o amigo sem entender.

-Por quê? Não tenho doença alguma para passar.

-Porque, se ela acordar e te ver, ela vai se assustar.

-Mas ela não consegue me ver, dãã!

-Estou apenas brincando, mas saia de perto dela. É sério, está me deixando agoniado já.

-Tudo bem, tudo bem. Ciúmes agora, é?

-De quem? De você? Não mesmo.

Roxas riu, indo até o ruivo e sentando-se no chão ao seu lado. Por no quarto só haver aquela poltrona e a maca, o único lugar que restava para dormir, livre, era o chão. Aquele pensamento lhe trouxe lembranças da guerra na Planície do Adormecer...

Axel bocejou, se ajeitando um pouco mais na poltrona. Ah, bem que ele poderia estar bem confortável ali... Roxas levantou o olhar, invejando um pouco o ruivo.

Resolveu que não havia mal em perguntar, havia?

-Axel, Axel... Posso dormir com você, aí?

O ruivo olhou para baixo e, sorrindo maliciosamente, disse:

-Vejamos... Não.

-Por quê?

-É uma poltrona, e não uma cama. Só cabe um aqui.

-Eu posso dormir no seu colo. Sou pequeno e leve, além de estar acostumado com espaços apertados.

-Não.

-Por favor, Axel! Você não vai deixar seu pobre amigo dormir no chão, vai?

-Vou.

-Tudo bem, então. Amanhã minhas costas estarão muito doloridas e, quando eu nem conseguir me mover direito por causa da dor, vou lembrar que grande amigo fez isso comigo...

Ah, Axel ODIAVA quando Roxas fazia aquilo. Aquele tipo de chantagem emocional era seu ponto fraco, porque por mais que dissesse que não se importava, bem no fundo, ele se importava com aquele loiro o bastante para acabar cedendo a seus caprichos... E Roxas sabia disso.

Porém, mesmo assim, Axel tentou resistir. Tentou com todas as forças resistir àquela culpa que começava a preencher-lhe o peito, como se fosse um veneno que infectasse o sangue. Ele não podia deixar Roxas dormir no chão, podia? Não, e nem deveria, mas...

Axel demorou tanto naquele bate-papo mental (deixo ele no chão? Ou não? Mas ele merece, ele vive me irritando... Ou será que não? Ele é um carinha legal...) que Roxas até tinha perdido as esperanças. Tinha se escorado na poltrona e encostado a cabeça na lateral da mesma, e estava sonhando quando o ruivo desistiu de resistir e, num movimento rápido, pegou Roxas nos braços e o trouxe para seu colo, encostando sua cabeça em na curva de seu pescoço, com as pernas caindo para o lado.

Agora sim, Roxas parecia um bebê.

Axel corou com toda aquela proximidade, principalmente com a contínua respiração quente que deixava as narinas do menor, batendo direto em seu pescoço, provocando arrepios. Bem, talvez aquela não tenha sido uma boa idéia, mas... Tarde demais para se arrepender.

Roxas ainda se aconchegou mais em Axel, dormindo tão bem que nem era possível descrever direito.

Enquanto isso, Riku e Sora, nesse meio tempo, também tinham achado seu humano. Só que não foi algo tão por acaso...

Depois de procurar em todas as ruas, bairros, becos, bares, lojas, prédios e buracos da cidade eles não encontraram nada. Invadiram colégios, escritórios, estacionamentos... Tudo. Nada do bendito humano que parecia estar era se escondendo deles.

Então Sora veio com a brilhante idéia de procurar nos hospitais.

Então foi a vez de invadir quartos, mais escritórios, arquivos, salas vazias e salas assustadoras, com aquelas ferramentas que te fazem ter calafrios... E não tiveram nenhuma pista.

Na verdade, estavam no terraço de um desses hospitais quando viram, de longe, uma ambulância se aproximar.Riku estreitou os olhos, rezando (sim, rezando!) para que o bendito humano estivesse lá dentro, mesmo que quase morto (o que facilitaria muito seu trabalho, tinha de admitir).

-Você acha que é ele, Riku?-Sora perguntou, balançando as pernas sem parar.

-Não sei... Mas tenho um palpite que sim...

-Quer checar?

-Sim, mas esse é o último. Se não for ele, só vamos voltar a procurá-lo amanhã. Os Serafins que se fodam, estou pouco me lixando...

Sora riu e ambos foram até a ambulância, vendo quando puseram uma garota loira na maca. Pelo o que o ex-demônio vira, as vítimas foram uma garota e um rapaz, que ainda não tinha visto até aquele momento.

Sora riu e ambos foram até a ambulância, vendo quando puseram uma garota loira na maca. Pelo o que o ex-demônio vira, as vítimas foram uma garota e um rapaz, que ainda não tinha visto até aquele momento.

Procuraram mais um pouco até que decidiram olhar nos computadores as fichas da vítimas. A garota caíra num rio, blá, blá blá... O rapaz a salvara, blá, blá, blá... Ah, sim! O nomes: Naminé alguma-coisa e Marluxia... Marluxia Allumait.

-Sora! Sora, eu o achei, achei! Quarto 1011, décimo primeiro andar.-Riku gritou quando finalmente viu o nome do humano que passaram a manhã inteira procurando.

Notas finais
Subiram as escadas e em poucos minutos, lá estavam eles dois, no quarto do homem que deveria proteger o máximo que pudesse (seguindo as leis, claro). Porém, ao atravessar a porta, a atmosfera em torno do humano era tão... Venenosa, tão cheia de ódio e sangue que Riku até pensou que ele fosse um demônio... Mas aquilo era impossível. Sem poder escolher, eles passaram a noite ali, guardando o psicopata, que já se sentia terrivelmente observado... ---------------------------------------------------------------- Cara,o chap ficou tão grande que tive que por nas Notas Finais o restinho... Bem,espero que tenham gostado! Obrigada por lerem,e lembrem-se,suas opniões só podem ser expressas por reviews,e não expressá-las faz mal pro fígado. KISSES!