Lauren apenas se lembra de quando Percy a pegou em seus braços para tirá-la do fundo do mar. Lembra-se também de ter se aconchegado no abraço do irmão e se sentiu envergonhada por ele estar sentado ao lado de sua cama no chalé de Poseidon.

– Hã…? Percy, o que…? — disse ela, porém não conseguiu terminar por conta do sono que ainda não a havia abandonado por completo.

– O que aconteceu? — disse ele em tom sério — Bem, só sei que ninguém te viu até a hora do jantar. Ficamos preocupados e começamos a te procurar até que eu achei você adormecida no fundo do mar a 100 metros da arrebentação.

A culpa e a curiosidade começaram a tomar conta dela.

– Quem me procurou?

– Eu, Annabeth, Thomas, John, Sophie e até Nero.

Náuseas a atingiram ao escutar o nome de Nero, porém ela deixou isso de lado.

Um momento se passou até que Lauren disse:

– Percy, me desculpe… — ela começou a dizer, mas o irmão a interrompeu.

Percy suspirou e deu um sorriso leve, relaxando um pouco.

– Lauren, não precisa se desculpar. Procuramos você porque quisemos, não porque nos sentimos culpados. Só não faça mais isso, ok?

– Ok. E eu agradeço a preocupação, mas não estou pedindo desculpas só por isso.

Lauren enrubesceu e Percy pareceu desconfiado.

– Certo, por que então?

– Bem… Por ter meio que discutido com você hoje mais cedo. Eu não deveria ter feito aquilo. — respondeu ela com lágrimas de arrependimento se formando nos olhos.

Percy pareceu surpreso e os dois se abraçaram.

– Lauren, hã, tudo bem. Relaxa. — disse ele meio sem jeito.

Isso era a característica de Percy que Lauren mais adora: ele fica sem graça com demonstrações de afeto; e ela não pôde deixar de rir.

– Que horas são? — ela perguntou.

– Nove da noite.

– Ah. — de repente, uma súbita ideia passou pela sua cabeça. — Dorme aqui comigo hoje, Percy?

Percy por um momento pareceu um tanto quanto surpreso e assustado.

– Mas por quê? — perguntou ele.

– Tenho medo de ter aqueles pesadelos, muito mais agora que encontrei a raiz deles.

– Tenho que avisar a Annabeth… — disse ele já levantando da cadeira ao lado da cama.

– Não tem, não! — disse Lauren puxando ele de volta e percebendo que foi um ato idiota no momento em que o fez.

“Será que o Thomas ficará com ciúmes?”, Lauren começou a refletir, mas logo descartou a ideia já que Percy era seu irmão.

– Okay, okay. Mas não ficarei a noite toda certo?

– Certo.

Percy se deita na cama e Lauren se aconchega no peito do irmão. Nesse momento John entra no quarto com tudo.

– Lauren, Annie me disse que Percy… — disse John estranhando aquela cena — Ah, ta… Desculpa. Vou ali pro chalé 11 ver se Sophie está bem e mais tarde eu volto.

– Sim, agora vá logo — disse Lauren quase expulsando-o do chalé e rindo em seguida.

***

Já passava da meia noite quando John voltou para o chalé, silenciosamente. Ele deitou e dormiu. Lauren demorou mais tempo, podia ouvir Percy roncando levemente ao seu lado, mas não conseguia dormir. Foi conseguir dormir lá pra uma hora da manhã. Assim que dormiu seu pesadelo de sempre começou.

Ela estava sentada na grama e ao seu lado tinha um garoto idêntico a ela, John, com quem brincava. Havia também uma mulher, que ela sempre achou que fosse sua mãe biológica — o que se constatou como sendo verdade já que Lauren conheceu John.

Sua mãe — pelo menos quem ela pensava que fosse sua mãe — era Lillian Heronwood, a mulher com quem morou até os onze anos. Era mulher de um grande executivo, Peter Stafford, que era teoricamente o pai dela.

Voltando ao sonho: os três, John, Lauren e a mãe deles, pareciam uma família feliz. Nada poderia atrapalhar eles. Pelo menos era o que a Lauren de três anos do sonho pensava.

Algo nascido das sombras surge por trás deles, a mulher os pegou e abraçou como sinal de proteção, mas mesmo com toda essa defesa o nascido das sombras pegou Lauren e começou a puxá-la. Uma mão dela estava sendo segurada pela mãe e a outra por John que gritava desesperadamente seu nome.

Lauren gritava para o monstro a largar, mas ela era puxada com mais força cada vez que tentava se libertar. Sua mão começou a escorregar da de sua mãe, porém a única que não a soltava era a que estava sendo segurada por John. Mas mesmo com toda a vontade de não deixá-la ir, ele não conseguiu segurá-la por muito tempo e ela foi levada.

Lauren acorda gritando o nome de John ao mesmo tempo que ele acorda gritando o nome dela. Os dois estão ofegantes e suados. Eles se entreolham, levantam de suas respectivas camas, e se abraçam. Lauren está quase chorando.

– Me prometa que nunca vai deixar alguém nos separar de novo! — disse Lauren ofegando e com a voz sufocada pelas lágrimas.

– Prometo. — respondeu John.

Nesse momento, Lauren percebeu que Percy não estava mais no quarto.

– Que horas são? — perguntou ela se recuperando.

John olhou para se relógio de pulso em cima de sua mochila.

– Cinco e meia da manhã, por quê?

Lauren tentou disfarçar o desapontamento por Percy já ter ido para a Casa Grande, embora já fosse previsto que isso aconteceria já que ele sempre acorda mais cedo que o resto dos semideuses.

– Ah, temos que nos arrumar. Daqui a uma hora é o café-da-manhã.

– Certo. Quer ir tomar banho primeiro ou eu vou?

– Eu vou. — disse Lauren rapidamente e se apressou para o banheiro pegando antes suas roupas.

Lauren entrou no banheiro e trancou a porta. Ligou o chuveiro e começou a tirar a roupa. Seu pijama estava ensopado por conta do suor provocado pelo pesadelo. A roupa grudava mais em seu corpo a medida que ela tentava tirá-la, fazendo com que ficasse mais suada. A preguiça e o sono tomaram conta dela fazendo com que entrasse no chuveiro de calcinha e sutiã.

Começou a se ensaboar lentamente, deixando o tempo passar, enquanto absorvia todas as informações. “É, eu acabei de implorar para uma pessoa, que descobri ser meu irmão gêmeo, não me abandonar. Da última vez não deu muito certo”, pensou Lauren. A última pessoa para qual disse isso foi sua melhor amiga Kayla que acabou morrendo. E se essa fosse sua maldição? Pedir que as pessoas não a abandonem e elas morrerem tentando.

Lauren não tomava o banho cuidadosamente para tirar a água do mar (até porque se não quisesse, não precisava se molhar. Deveria estar em um livro chamado “As Vantagens de Ser Filho de Poseidon”.), mas sim para tirar o suor.

Terminado o banho, Lauren jogou suas roupas intimas no chão, pouco se importando se estavam molhadas ou se John as veria ou não, se enrolou na toalha e saiu, para deixar John tomar banho.

Olhou para a cama dele e lá estava John, dormindo novamente. Será que tinha demorado tanto assim? Ela sentou na cama dele ao seu lado. Começou a chamá-lo bem baixo, não querendo acordá-lo bruscamente; o pesadelo já havia feito isso. Depois de um tempo percebeu que isso não adiantaria e começou a passar a mão em seus cabelos, aqueles mesmos cabelos pretos e sem direção que Lauren tinha, só que em uma versão mais curta.

John parecia ter afundando no sono, pois não estava acordando, e Lauren pensou que talvez tenha lhe faltado isso por parte da mãe dele — quer dizer, mãe deles. Talvez por parecer tanto com Lauren, vê-lo deveria remoer ela. “Pergunto sobre isso depois”, Lauren gravou mentalmente.

John deu um gemido e mudou de lado. Lauren riu.

– Acorda aí, criatura. — disse ela dando leves sacudidas nele.

Ele reclamou novamente.

– Acorda logo, caramba! — disse Lauren agora dando tapas leves em seu rosto.

Finalmente conseguiu. Ele abriu os olhos, bocejou e se espreguiçou. O sol entrou por uma fresta na janela e encontrou seu rosto, refletindo nos seus olhos verdes fazendo-os brilhar.

– Depois de um ano resolveu sair de lá? — riu John

– Besta — riu Lauren — Vai logo tomar banho que você tá todo grudento de suor.

– Você não estava muito melhor, não.

– Exato, não estava, agora estou. Vai logo.

John sentou-se na cama.

– Então… É… Hum… Certo. Pergunta: como eu deixo o chuveiro quente? — perguntou John.

– Você é filho de Poseidon, vai descobrir. Agora vá tomar logo o seu banho que eu não quero demorar para ir tomar café, estou morrendo de fome — respondeu Lauren

– Espera uns dez minutos só. Não vou demorar um mês que nem você — disse ele indo para o banheiro.

Assim que John entrou no banheiro, Lauren saiu para ir ao chalé de Hades ver se Thomas já havia acordado. No caminho, avistou Klaire, a filha de Atena mais fofa do acampamento. Seus cabelos castanhos que balançavam ao vento e seu rosto triangular alegre, contrastavam de um jeito fascinante com seus olhos cinzas tempestuosos (característica dos filhos da deusa da sabedoria).

– Hey, Lauren! — disse Klaire — E aí? Como vão as coisas?

– Hey! Bastante complicadas até — respondeu Lauren um tanto quanto cansada de tudo aquilo.

– Sério? O que aconteceu? Tem a ver com os romanos recém-chegados? — perguntou a filha de Atena, sempre curiosa.

– Sim. Como você sabe da chegada deles?

– Todos estão falando — disse Klaire com um brilho estranho nos olhos. — Já até vi um de longe e gostei dele! Pelo o que falam, ele é bem corajosos!

– Certo, como ele é? — perguntou Lauren sentindo nojo ao criar a hipótese de ser Nero.

– Ah, ele é alto e moreno. Foi tudo o que consegui ver. Pelo o que vi, ele tinha uma espada, e é bastante bonito.

Se pudesse, Lauren teria vomitado até as tripas naquele instante, mas apenas disse:

– Ah, é o Nero…

– Nossa, que nome legal! — disse Klaire fascinada e rindo — Acho que já podemos contar com ele.

– É, claro… — disse Lauren sem querer falar o quão desapontada a menina ficaria ao ver o garoto de perto. — Ãhn, acho melhor eu ir. Até mais, Klaire.

– Até, Lauren!

“Coitada”, pensou ela após se afastar da doce menina. “Acho que essa vai ser a decepção do século.”

Alguns minutos mais tarde, Lauren finalmente chegou ao chalé 13, o chalé de Hades, e para sua surpresa, Thomas estava saindo.

“O quê?”, pensou ela. “Ele acordou às 6 da manhã por livre e espontânea vontade?”

– Amor? — Lauren chamou.

– Oi, Lauren! — disse ele parecendo feliz, alegre e contente.

– Ok. O que você ta fazendo acordado e tão feliz?

Ele ponderou por um momento e sorriu.

– Depois do café eu te falo.

Lauren franziu as sobrancelhas, mas não discutiu. Não gostava muito de surpresas já que sua curiosidade era imensa. Porém não contestou o namorado e tentou ao máximo não pensar nisso.

– Ok, então. Vamos.

E os dois partiram em direção ao refeitório.

Ao chegarem lá, encontraram John e Sophie olhando para todos os lados, perdidos, sem saber para qual mesa iriam.

Thomas se desgrudou de Lauren — o que a deixou levemente triste — e foi para o lado de John utilizando a viagem pelas sombras — uma característica bem peculiar dos filhos de Hades que consiste meio que em se teletransportar de um lugar ao outro utilizando as sombras. Ela já imaginava o que o namorado faria.

– Perdidos? — disse no ouvido dele.

John pulou de susto, o que fez com que Sophie o imitasse e Lauren e Thomas começaram a rir.

– Ei! — reclamou John — Como você fez isso?

– Ser filho de Hades tem as suas vantagens — ele disse — Agora, vou indo me juntar aos meus irmãos. Até mais.

– Tchau, amor — disse Lauren, se aproximando para dar um beijinho nele.

Após Thomas se afastar, John não conteve sua curiosidade.

– Hã, certo. Como você consegue namorar aquele cara sem dar a ele um colar com um sininho? — perguntou — Ele realmente me assustou.

– Com o tempo você se acostuma. Agora vamos para a nossa mesa. — disse Lauren se lembrando de que eles não sabiam como funcionavam a organização das mesas — Ah, certo. Aqui as mesas são divididas por chalé. Então eu e John vamos para a de Poseidon, e Sophie, como você não foi reconhecida ainda, vai para uma daquelas de Hermes ali.

– Certo. Até mais, John — disse ela.

– Até, Sophie. — respondeu ele — Ok, qual é a mesa de Poseidon?

– Venha.

E eles seguiram até uma mesa vazia no canto do refeitório, perto de uma cheia de semideuses e semideusas de idade próxima a deles ou menor.

– Quem são eles? — John perguntou.

– Digamos que o Lorde dos Céus andou muito ocupado ultimamente.

– Ah — disse John espantado.

– Welcome to the masquerade. — disse Lauren estendendo os braços.

– O quê? — John perguntou confuso.

– Nada não. É uma música que eu gosto e eu sempre quis fazer isso, foi mal. Agora vamos comer. É, aqui funciona assim: você pensa na comida que você gostaria de comer agora (de preferência uma típica de café da manhã agora) e ela aparece na sua frente. Isso também acontece com a bebida. E no jantar você tem que dar um pouco da sua comida para seu pai olimpiano, isso acontece quando você joga ela na fogueira e é chamado de “oferenda”. Só isso. Bom apetite.

Com isso, um prato de ovos mexidos e uma caneca com leite puro apareceu na frente de Lauren.

– Hã, certo. — disse John, meio confuso.

Então um prato cheio de bacon, ovos e panquecas apareceu na frente dele.

– Eba! — disse o garoto parecendo encantado e Lauren não pôde deixar de rir.

É incrível como às vezes uma coisa pode parecer simples para uma pessoa e fantástica para outra. No mundo, tudo é relativo; Lauren aprendeu isso ao longo de sua jornada. Ovos com bacon pode parecer uma coisa tão banal para você, mas para uma criança passando fome parece uma refeição e tanto.

Quando acabou de tomar o café, Lauren pediu licença e foi até a mesa do chalé de Hades — que tinha apenas três pessoas: Thomas, Lynx — uma garota que Lauren as vezes encontrava por aí — e Nico di Angelo, o filho do deus do Submundo mais famoso de todos os tempos. Ele ajudou os Sete Grandes a derrotarem Gaia e, antes disso, ajudou o Acampamento Meio-Sangue a vencer a guerra contra Cronos.

Agora ele viaja entre os dois acampamentos, pois meio que faz parte dos dois por ser muito apegado à sua meia-irmã Hazel, filha de Plutão, e estava no acampamento grego agora em segredo — se os romanos soubessem, o acusariam de ser traidor — para visitar Percy, seu velho amigo. Sem mencionar o fato de ele ser um dos semideuses mais lindos e fofos dos últimos tempos.

– Thomas? — disse Lauren.

– Ah, oi. Tenho que ir, gente. Até mais tarde — disse ele para seus irmãos.

Ele a guiou até a praia, antes passando no chalé de Apolo para pegar o arco negro de Thomas e uma aljava de flechas aleatórias. Ele não vivia sem aquele arco pendurado em seu ombro; vivia ali e ele só tirava para tomar banho e dormir. Pelo menos era o que Lauren esperava. Eram um presente de seu pai Hades, de quem Thomas gostava muito.

“Também nunca tiro a Maré Vermelha do cabelo”, pensou Lauren. Ela possuía uma espada que virava uma presilha de conchas, além de uma pulseira de pérolas que virava um escudo em situações de maiores necessidades. Ambos foram presentes de seu pai, Poseidon.

Tinham cerca de vinte minutos antes do início das atividades do acampamento.

Sentaram-se na areia, de frente para o mar — Thomas ainda com o arco pendurado em seu ombro, é claro, e fazendo uma pose que ela achou muito sexy — e Lauren esperou-o começar a dizer algo.

– Então, Lauren… Você tinha me perguntado por que eu tinha acordado cedo e tão feliz, certo?

– Sim, Tommy. Diga. — respondeu ela com a voz suave.

Esse era o apelido secreto dele. Aparentemente, filhos de Hades não gostam de apelidos em público. Thomas enrubesceu ao ouví-lo, o que sempre acontecia.

– Bem, é que… — disse ele, hesitando.

– Diga logo. — pediu ela.

Ele sorriu.

– Sonhei que éramos casados.