Better Together
2 A Notícia
Notas iniciais
Com o casamento de sua mãe, Merida soube que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Soube imediatamente que sua vida viraria de cabeça para baixo, mas não esperava o que viria a seguir. Quando Noel comunicara que tinha sido promovido a chefe de setor, Merida ficou feliz por ele. Conforme ele dera a entender, era um cargo disputadíssimo e de muita responsabilidade. Mas nunca imaginaria o que viria depois. Uma noite, logo após o jantar, Elinor bateu à porta do quarto de Merida, com uma expressão um pouco tensa.
– Podemos conversar? — Ela sugeriu.
Merida tirou os fones de ouvido e fechou o notebook, sentando-se na cama.
– Você já soube que o North recebeu uma promoção, não é?
Merida assentiu, um pouco desconfortável com o tom que sua mãe estava usando.
– As coisas ficaram um pouco difíceis, ele terá que trabalhar em uma filial do outro lado da cidade agora.
– Mãe. — Merida interrompeu, desejando que Elinor fosse direto ao ponto e dissesse de uma vez o que queria. — O que a senhora está querendo me contar?
Elinor sorriu, parecendo cansada.
– Sou tão transparente assim? — ela disse, mais para si mesma do que para a filha. Inspirou fundo. — Merida, nós teremos que nos mudar.
–Nos mudar? — Merida protestou, mal se dando conta de que estava gritando. — Não, mãe. Não podemos! Temos uma vida aqui. Eu tenho uma vida aqui. Conhecemos todas as pessoas da vizinhança, minha escola é perto, meus amigos...
– Merida, também há ótimas escolas nesse novo bairro. Você, e os seus irmãos poderão estudar na mesma escola do Jack. A vizinhança é ótima e você precisa ver a casa que escolhemos...
– Você já escolheu uma casa? Como pôde fazer isso sem falar comigo? Eu já sei: é tudo por causa dele, não é? — Merida desatou a falar sem controle. — Por que é que ELE não muda de escola? Por que temos que adaptar nossas vidas a ele?
– Merida. — Elinor repreendeu — Você está agindo como uma criança. Se você parar para pensar, será o melhor para todos nós e...
– Não! Isso é o que você quer! Você mudou depois que se casou com ele.
– Merida! — Elinor exclamou.
– Eu não vou! Já me cansei disso, não vou adaptar minha vida à daquela albino de...
O tapa veio certeiro, atingindo Merida em cheio. Ela ficou alguns segundos com o rosto virado na direção da bofetada, com um olhar incrédulo, incapaz de encarar a mãe.
– Merida. Jack é seu irmão agora. Ele faz parte dessa família, assim como North. Eu não vou admitir esse tipo de comportamento com eles. Eu esperava que você já não fosse mais tão imatura e que pudesse reconhecer as coisas boas que virão com essa mudança. Com o tempo você vai aprender que...
Merida olhou-a, com o rosto marcado de um dos lados. A expressão em seu rosto fez Elinor vacilar. Merida a olhava como se não a conhecesse. Após alguns segundos, desviou o olhar e saiu, batendo a porta antes que a mãe pudesse reagir.
– Merida! — Elinor gritou, mas a filha já estava a caminho da porta.
As lágrimas turvaram a visão dela e Merida não conseguiu desviar-se de Jack ao passar pelo corredor, esbarrando nele com força e quase derrubando-o no caminho. Ele se afastou mais do que depressa.
– Ô, cuidado aí... — ele se interrompeu ao ver as lágrimas. — Merida, o que foi que...
– Cale-se! É tudo culpa sua! Tudo culpa sua! — Merida rugiu, apontando o dedo na face dele.
Abriu passagem no corredor com um empurrão, retirou um cardigã pendurado atrás da porta e saiu para a rua, batendo a porta com tanta força que as paredes tremeram.
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Merida caminhou a esmo, cumprimentando alguns conhecidos pelo caminho. Macintosh Júnior sorriu e acenou para ela quando Merida passou na frente da academia da família dele, vestindo aquela camiseta regata cavada que ele adorava usar para exibir os músculos que achava que tinha. Merida acenou de volta, mas não retribuiu o sorriso.
O senhor Dingwall cumprimentou-a com um aceno de cabeça quando passou por ela na rua, acompanhado por aquele seu filho que estava sempre com um olhar perdido. Merida retribuiu o gesto quase sem pensar. Gostava daquelas pessoas. Muitos deles tinham sido amigos de seu pai e faziam parte da vida dela desde muito antes de poder se lembrar. Não suportava a ideia de se afastar deles.
Nem se deu conta de onde estava indo. Andava distraída, e quando se deu conta estava dentro da padaria de Maudie.
Maudie era uma mulher corpulenta e sorridente, amiga de sua mãe desde os tempos da faculdade. Conhecia Merida desde que ela nascera, assim como seus irmãos. Elinor e Maudie sempre estiveram próximas e Elinor inaugurou sua loja de tapetes quase na mesma época em que Maudie abriu sua padaria. Merida assistira desde pequena o crescimento do negócio de Maudie, e o que costumava ser uma simples confeitaria, crescera ao ponto de ocupar metade da quadra, virando também uma rotisseria com um amplo cardápio e um espaço elegante e agradável onde as pessoas costumavam almoçar e jantar.
Merida costumava tomar café da tarde lá com seus irmãos ao voltar da escola, sempre puxando conversa com Maudie no processo. Não conseguiu reprimir as lágrimas ao se lembrar que em breve, não poderia mais fazer aquilo. Virou-se para ir embora, antes que Maudie a visse naquele estado, mas já era tarde.
– Merida? — ela chamou
Merida se virou para ela e correu em sua direção, abraçando-a. Maudie afagou os cabelos dela, um pouco preocupada, depois puxou Merida pela mão, levando-a até uma das mesas, olhando para trás algumas vezes, como se para certificar-se de que ela estava bem. Quando Merida se sentou, ela fez sinal para uma atendente no balcão:
– Jenny, por favor, me traga um chocolate quente, sim? E um daqueles bolinhos escoceses. — Depois pareceu lembrar de algo. — Ah, Jenny, traga dois de cada.
Virou-se outra vez e se sentou, segurando as mãos de Merida nas suas.
– Agora me diga o que aconteceu. Nunca te vi chorar desse jeito.
Merida contou tudo entre arquejos e soluços, parando de vez em quando para bebericar o chocolate quente e morder o bolinho. Maudie também comeu, mas não desviou os olhos dos de Merida nem uma única vez enquanto o fazia, assentindo pensativa.
– Merida, eu conheço você desde que nasceu e sei que nunca se assusta com nada. Mas mesmo agora estou vendo que você está com medo. O que exatamente está assustando com essa mudança?
– Não quero me mudar. — ela fungou baixinho. — Essa é a casa onde vivi com o meu pai. Todas as minhas lembranças boas, tudo o que construímos juntos, vamos jogar tudo fora se começarmos uma vida em outro lugar. Todos os amigos da nossa família, todos os que o conheceram moram aqui. Abandonar tudo isso... Seria como... Como se eu o apagasse de vez da minha vida.
– Veja as coisas pelo seguinte lado. — Maudie sugeriu, assentindo para si mesma. — O que é que você acha que seu pai iria querer? O que é que ele diria?
– Ele me diria para tentar. — Merida admitiu a contragosto, baixando o olhar para o próprio prato.
– Exatamente. Fergus sempre dizia a todos como você era valente e como ele se orgulhava de sua filha mais velha. Fugir de uma situação nova não é o que ele gostaria que você fizesse. Aquela Merida, a Merida de que ele se orgulhava jamais fugiria.
Uma nova lágrima riscou o rosto dela, mas Maudie a enxugou com o polegar.
– As lembranças que vocês construíram são apenas suas. Não importa para onde você vá, nada vai tirar isso de você. Mesmo que conseguisse apagá-lo da sua vida, sempre haverá alguma coisa para te lembrar de que ele esteve nela. — Ela se inclinou e apanhou um caracol avermelhado entre as mechas de Merida, que sorriu com o gesto.
Merida assentiu.
– Agora que você conseguiu arruinar a minha dieta. — Maudie comentou com um sorriso. — O que acha de eu te dar uma carona até a sua casa? Elinor deve estar preocupada com você.
– Se não se importa, eu posso ficar aqui mais um pouco? Não quero voltar para casa agora, só queria ficar um pouco sozinha por enquanto. Prometo que não vou atrapalhar em nada.
– Atrapalhar! — Maudie fez um gesto de desdém. — Como se você fosse capaz de uma coisa dessas! É claro que você pode ficar o tempo que quiser, querida. Mas eu vou ligar para a sua mãe e avisar que você está aqui e dizer para ela que eu vou te levar para casa, está bem? E não sei se vou poder te dar muita atenção, daqui a pouco é hora do jantar e esse lugar vai encher...
Merida assentiu. A padaria e rotisseria de Maudie funcionava até as 22:00, e tinha muitos clientes que vinham de um hospital próximo para jantar.
– Vou trazer alguma coisa gostosa para você comer. — Maudie disse, enquanto voltava para trás do balcão para ajudar seus funcionários.
Merida acomodou-se nos fundos, em uma mesinha individual, perdendo-se entre os próprios pensamentos e três fatias de pizza que Maudie lhe trouxera, observando com desinteresse os médicos e enfermeiras que encheram a rotisseria para jantar.
Em menos de nada o movimento começara a diminuir e os funcionários limpavam as mesas para fechar a loja. Maudie a chamou alguns minutos depois, com a bolsa em uma mão e a chave do carro na outra.
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