Best Friends

4 Chapter Three: First Obstacle


— Posso falar com você um instantinho?

— V-vou deixar vocês sozinhos – disse Drielly, pelo que ela contou.

— Obrigado, Drielly.

Também de acordo com ela, ela ficou atrás da porta acompanhando a conversa dos dois, quando eles chegaram à copa para conversar com privacidade.

(…)

— Eu queria saber o que estava acontecendo, porque pelo clima que estava ali, a coisa não acabaria bem.

(…)

— Quero falar sobre o que houve hoje. Olha, eu sinto muito mas é que… quando eu estou dentro da água, eu me esqueço de tudo e de todos. As meninas também não se deram conta da passagem do tempo, você viu. Eu sei que nós extrapolamos ao permanecer na lagoa por tanto tempo, desculpa mesmo.

— O que você sente pela Ann?

— Hein? Olha, cara, não confunde as coisas. Ainda não rolou nada entre a gente, e acho que nem vai rolar. Mesmo porque com tantos amigos ricos e bacanas como vocês, acho difícil ela olhar justamente para o filho da cozinheira!

Kurt era o filho da cozinheira do alojamento, talvez fosse até obrigação sua ser gentil com todos…

— Eu não acredito em você!

… mas, até hoje, acredito que isso faça parte do caráter dele.

— Sai de perto da gente. Eu não gosto de você, nunca gostei!

— Alfie – segundo Drielly, Kurt pareceu impactado com a informação – Não me leve a mal, mas eu acho que as meninas que devem decidir se querem andar comigo ou não. Vocês podem ser três, mas dois votos a favor de mim pesam contra o seu único voto contra. Além do mais, é você que está se excluindo, ficando emburrado pelos cantos. Eu não tenho nada a ver com o fato de elas não estarem te achando divertido. Conversando, acho que tudo pode se acertar. Mas, se você não quiser interagir de um jeito pacífico, você é a única pessoa que vai perder nessa jogada, irmão.

— Eu não quero falar com você! Eu sei que você quer namorar a Ann e eu não vou deixar! Saia de perto dela ou a gente vai brigar feio!

— Cara, se você chegasse em mim de um jeito mais normal tipo “Kurt, dá uma força aí, eu gosto da Annie e tal”, eu até pensava no teu caso. Mas você chega aqui que nem um psicótico de filme de terror, aponta o dedo na minha cara e acha que eu vou te obedecer? Nem ferrando. Vou continuar perto dela sim, e, se você curte ela, trata de se declarar logo. Ela pode ser inteligente, mas não é adivinha. Se ela te quiser, eu saio de cena. Se não, eu tô no páreo, entendeu? Mesmo porque você não é dono dela.

— Eu já te avisei!

(…)

— O barulho que você ouviu na copa na copa, naquela hora, era o Kurt sendo empurrado pelo Alfie. Foi ali que ele queimou a mão, quando tentou se apoiar no fogão.

Levei a mão à boca, pasmada.

(…)

— Merda! — Kurt gemeu.

Eu escutei seus gritos nessa hora e fui ver o que aconteceu.

— Alfie, o que foi que você fez? — Drielly perguntava, desesperada. Ela imediatamente ficou em silêncio quando eu cheguei por lá – Anne, o que você faz aqui?

— O que aconteceu? — inquiri.

— Droga! Meti o meu braço todo nessa porra da panela sem querer!

Agora, eu entendi porque Alfie ficou daquele jeito catatônico, naquele estado de ausência onde ele parecia congelado, sem dizer ou fazer nada. Mas eu não prestava atenção em Alfie o bastante para me inteirar dos seus modos naquela hora. Corri para socorrer Kurt e não reparei em mais nada. Ele também não disse uma palavra sequer para acusar Alfie. Era um cara muito nobre… com tudo o que tinha acontecido, ele poderia ter acabado com Alfie, e não o fez.

— Bem que eu achei aquilo tudo muito estranho… Então, foi isso o que aconteceu…

— … foi.

E o pior daqueles dias é que, preocupada com as queimaduras de Kurt, eu amanhecia e anoitecia ao lado dele. Alfie, coitado, nem tinha como se manifestar, pois temia mais do que tudo a delação.

(…)

— Alfie, nem ouse entrar nesse quarto, agora que está tudo dando certo entre eles! Não adianta nada ficar com raiva agora! Quem mandou você ser criança e não falar com a Anne logo? Agora, está aí. Tem outro a fim dela! E contra esse garoto, Alfie… você não tem a menor chance.

(…)

— Eu estava com muita raiva dele, porque vi como tudo começou, sabe?

Drielly me disse que Alfie passou aquele dia todo chorando, mas isso não foi o pior.

— Acho que você já pode descansar, não precisa se preocupar comigo…

— Kurt! O seu braço está descascando todo, como você pode estar bem?

— Ah, nem é tudo isso, eu já consigo servir mesas.

— Pois você não deveria estar fazendo isso! É perigoso! Você pode se machucar de novo!

— Não pega nada não. Além disso, já está na hora de o “plebeu” aqui voltar à realidade. E você, princesa, já pode voltar para a sua realeza, junto com os outros príncipes e princesas…

— Isso não tem nada a ver, seu bobo! Eu já deixei bem claro que não avalio as pessoas pelo que elas têm! E eu gosto de você, mesmo você não sendo tão bem de vida quanto os outros meninos daqui.

Tentei corrigir aquela declaração tão espontânea…

— C-claro que estou falando de gostar como amigo!

— Ann, eu também gosto de você.

… mas não deu muito certo. A sensação que eu tive naquele momento, eu não sei descrever… mas o primeiro pensamento que me ocorreu é que aquilo tudo era tão milagroso que não podia ser verdade! Eu só poderia estar sonhando!

Kurt foi um garoto que eu conheci antes de Walter. Cronologicamente falando, ele foi meu primeiro namorado. Eu tinha uns onze ou doze anos. Ele foi o meu primeiro beijo, e foi responsável por um dos momentos mais mágicos da minha vida! Eu gostava muito dele, e ele demonstrar o mesmo interesse por mim, dentre tantas garotas que tinha ali, me alegrou e me envaideceu de uma forma que até hoje eu não sei como explicar. Eu simplesmente invisibilizei Alfred por causa dele.

(…)

— Alfie viu vocês naquela hora, Annie.

— Então, por isso…

— É, o buquê no chão. Alfie ia seguir o conselho do Kurt de se declarar para você. Eu, que já sabia o que estava acontecendo naquela hora que vocês dois estavam sozinhos, fiquei vigiando a porta do quarto porque sabia que, depois das atividades do acampamento, ele ia correndo te procurar.

— Isso também explica o que aconteceu no dia seguinte.

(…)

— Kurt, então você está aqui! — eu me anunciei de longe.

Ele estava à beira da lagoa pescando. Era um dos lados baixos dela, diferente daquela parte alta de onde a gente tinha pulado naquele dia.

— Você já está melhor? Eu te procurei por dois dias seguidos, mas sempre diziam que você estava ocupado com algo.

— Estou melhor, sim.

— Nossa, você está estranho. O que foi que aconteceu?

Como ele não respondeu, prossegui:

— Tome! Uns biscoitos que eu mesma ajudei sua mãe a fazer. Ela mandou que eu os trouxesse até você.

— Ann, eu… queria que você esquecesse do que houve naquele dia. Eu acho que… eu fiz aquilo sem pensar. Além disso, o Alfie…

— O que tem o idiota do Alfie? O que foi que ele te disse? Ele brigou com você? Por quê?

— Olha, não sou eu que tem que te dizer isso. É ele. Só que eu traí a confiança dele e estou bem mal com isso. Eu não joguei limpo e fiz tudo ao contrário do que disse que ia fazer. Sinto muito, Ann.

— Seu bobo! Esquece o Alfie! Eu não tô nem aí para ele. Todo mundo diz que a gente tem algo, mas é mentira. Eu nunca tive nem teria algo com ele. É de você que eu gosto.

— Por que você gosta de mim?

— Porque você é esperto, bonzinho além, é claro, de muito bonitão!

— Sério? Onde você viu isso?

— Eu gosto de você por muito mais do que isso, Kurt.

— Ok, eu me rendo. Além do mais, essa história do Alfie não tem mesmo nada a ver.

— Pois é, nada a ver. E olhe, eu vou te contar uma coisa, mas não diga isso para ninguém… Eu acho que ele anda interessado na Drielly, só vive com ela para cima e para baixo! E, quando eu me aproximo dos dois, eles de repente ficam quietos. Aí tem coisa!

— É, faz sentido – Kurt assentiu, afagando meus cabelos.

Eu estava completamente apaixonada por ele.

— Coma!

— É a primeira vez que eu vou comer peixe assado na hora, como se realmente estivesse acampando!

— Fala sério!

— É verdade!

Na verdade, até hoje, quando eu me encontro com Kurt, meu coração dispara. Mas, naquela ocasião, nos separamos com o fim das férias. Deve ter sido um alívio para Alfred.

(…)

— Pobre Alfie. Mal dava conta de controlar os ciúmes de vocês dois. E, quanto mais tudo parecia ficar óbvio, mais cega o amor que você sentia por Kurt te deixava…

Baixei os olhos, envergonhada.

— Tinha uma garota que também gostava do Kurt. Quando ela viu que ele melhorou, me mandou deixar flores no quarto dele, como forma de congratulá-lo pela recuperação. Ela ficou com vergonha de ir pessoalmente e, como naquele tempo, eu já sabia que o Kurt estava com você e não iria olhar para ela de qualquer maneira, não vi por que não obedecer o pedido dela de deixar com ele o presente. Ela também achava mais apropriado que eu, como amiga próxima dele, fizesse isso.

— E aí?

(…)

— Kurt, uma das meni--!

(…)

— Eu pensava que uma garota que não se declarou abertamente não tinha como causar problemas. Em compensação, eu tinha me esquecido de Alfie. Ele estava no quarto do Kurt, vestindo as roupas dele.

— O quê??

(…)

— Alfie! Mas são… as roupas do Kurt!

— Ficaram boas em você.

(…)

— Eu quase morri de vergonha por Alfie quando escutei a voz do Kurt. Mas ele também estava sendo condescendente. As roupas ficaram enormes e desproporcionais no Alfie, afinal ele era muito menor do que o Kurt. Eu não esperava que ele fosse estar ali, e foi aí que tudo desandou diante dos meus olhos sem que eu pudesse fazer nada!

(…)

— Eu vi você e a Ann...! Você prometeu, você me disse que me deixaria tentar!!

— Pensei melhor. Não posso? Eu sinto muito, Alfie, mas pelo menos por enquanto não é de você que a Annie gosta!

— Meninos, acalmem-se! Não vamos dar show aqui, a Annie está aí no quarto ao lado…!

— Eu gosto da Annie de verdade, não é justo a gente perder tempo só porque você quer.

— Eu não vou deixar…!

— Você não tem que deixar nada, cara. A Anne não é um objeto que você possa dar ou emprestar. Ela é uma garota que pode decidir com quem vai ficar, e ela já optou por não ficar com você. Se você ficar pentelhando e mostrando que não respeita a decisão dela, é porque não gosta dela de verdade e que só a quer por puro desejo de posse!

— Você não entende nada do que eu sinto!! Cala a boca!

— Eu não sei e também não me interessa. A única coisa que eu sei é que a Annie não tem como ser feliz ao lado de um cara que não consegue nem se declarar para ela.

(…)

— Enfim, o gentil Kurt mostrou o seu lado mais cruel… As roupas de Kurt não tinham o poder de deixar Alfie confiante e altivo como ele.

Cerrei os olhos e inspirei fundo. Tudo aquilo que Drielly estava trazendo à tona era informação demais para mim.

(…)

— Kurt está demorando… Alfie não veio mais com a gente, né?

— É? — eu me lembro de Drielly ter dissimulado tudo o que sabia, agindo naturalmente como se nada estivesse acontecendo – Será que ele não nos viu? Olha ele ali, sozinho naquela mesa.

— Eu vou já falar com ele.

Para variar, alguns moleques mais velhos estavam brincando com Alfie. Eles tinham acabado de roubar a maçã da sua merenda, e, vendo que isso não causou nenhuma reação nele, tomaram seu prato de comida também.

— Neném está tristinho, né? Own, então também não vai querer comer!

— Ô seu baleia gorda, tira essa sua pata nojenta do prato do Alfie, ou você vai ver só!

A reação de Alfie foi amarga e ao mesmo tempo inesperada para mim:

— Eu não preciso que você me defenda!

— Alfie…!

— Eu sei me virar sozinho!

— O que está acontecendo?

Meu Deus, hoje imagino o que Alfie deve ter pensado quando Kurt chegou por trás de mim, tocando no meu ombro e fazendo aquela pose de “namorado protetor”.

— Tem alguém incomodando você, Alfie?

— O único que está incomodando aqui é você! Você não é meu amigo! Cai fora!

— Alfie, o que deu em você? Que bicho te mordeu? O Kurt é nosso amigo!

— NÃO INTERESSA, VÃO EMBORA DAQUI, VOCÊS DOIS!! EU ODEIO VOCÊS!

— Mas por quê?

— Vamos embora daqui, Annie – eu me lembro de Kurt ter me arrastado dali.

— Eu também acho melhor vocês irem – Drielly falou.

Eu não conseguia acreditar que a nossa amizade acabaria daquele jeito, só porque eu decidi ficar ao lado do cara que eu gostava...

— Você está sendo um imbecil, cara! — Kurt falou por cima do ombro, me conduzindo.

… só porque eu não teria mais tanto tempo assim para ser amiga dele.

— Annie, não liga para ele. Ele mesmo é culpado do que está acontecendo.

— Mas culpado do quê? Eu não estou entendendo, pode me explicar??

Eu me desviei de Kurt e voltei alguns passos na direção de Alfred. Nós estávamos sendo encarados em peso pelas, pelo menos, 150 outras crianças que estavam ali além dele e de nós no refeitório.

— Alfie, você acha que eu não vou mais ser a mesma com você só porque estou namorando um menino? Está aborrecido porque eu estou namorando antes de você? Nós ainda somos amigos! Não deixe nossa amizade acabar por causa de uma bobagem dessas! Você é meu melhor amigo, eu nunca abandonaria você…!

— Você não entende, Ann…!

— Alfie, se você não consegue aceitar que estou feliz com Kurt, isso quer dizer que você despreza meus sentimentos! Que você me odeia! Se você me quer longe do Kurt, nem vejo por que considerar você meu amigo! Eu não sei se você sabe disso, mas as amizades podem ser boas, só que não nos deixam completamente felizes! Você sabe mais do que ninguém que eu sempre quis gostar de alguém “daquele jeito”, e Kurt é essa pessoa! E você só vai se dar conta do quanto está sendo egoísta e sacana quando for a sua vez de gostar de uma pessoa desse jeito e eu for lá dizer que você não pode gostar dela! Que coisa! Você deveria ser menos infantil! Se está incomodado com minha felicidade a ponto de deixar de ser meu amigo, dane-se! Eu também não faço mais questão nenhuma de você! Moleque!

— Eu já entendi, Ann – Alfie respondeu, cabisbaixo – Não precisa brigar comigo. Eu não vou mais atrapalhar vocês.

Depois disso, Alfie voltou a andar com a gente. Voltou até a brincar conosco, mas não era mais a mesma coisa. Eu pensava que era porque a gente vivia na água ou fazendo outras coisas impossíveis para ele. Só que teve uma vez que, mesmo sem saber nadar, Alfie pulou na piscina do clube, na colônia de férias. Além de quase morrer afogado, ainda foi salvo pelo Kurt. Passado o susto, briguei com ele e o xinguei bastante.

— Você só faz besteiras! Se o Kurt não estivesse lá…!

Hoje eu vejo que tudo o que fazíamos contribuía para deixá-lo…

— Gente, vamos brincar de outra coisa? Eu não sei montar a cavalo!…

— Ai, Alfie, cala essa boca! Você não sabe é fazer nada!

… ainda mais diminuído.

— … Tá… então, eu vou ficar aqui, olhando vocês…

— É, só não vai sair daí, senão você vai se perder! Você não sabe andar meio metro sozinho sem fazer alguma coisa errada!

— Aham. Tá bom.

Mas ele não me escutou. Alfie cismou que ia escalar uma árvore bem alta. Em vez de causar grande impressão em qualquer um de nós, tudo o que ele conseguiu foi ficar pendurado sem conseguir descer. Nós nos acabamos de rir do seu desespero, mas depois que ele caiu de lá de cima e se esborrachou todo lá embaixo, a brincadeira perdeu a graça.

Resumindo, tivemos que tomar conta dele até a equipe de resgate aparecer, o que foi anunciado para dali a algumas poucas horas. Eu teria pelo menos uma semana a mais para ficar ao lado de Kurt, mas por causa dessa imprudência de Alfie, teríamos que ir embora mais cedo.

— Hoje é nosso último dia, né?

— É. O que você vai fazer amanhã neste mesmo horário, quando eu não estiver mais aqui?

— Não sei. Acho que vou chorar bastante.

— Kurt… Eu não queria me afastar de você!

Nós nos abraçamos, e este foi nosso último contato físico. Optei por não beijá-lo, para não tornar a despedida pior. E assim findou o meu primeiro namoro, por culpa de Alfie.

Meu sonho de verão tinha acabado, e agora era hora de voltar à realidade. Tive que me contentar em ficar com Alfie, já que agora tanto Drielly quanto Kurt não faziam mais parte do nosso círculo. Mas, em vez de voltar a falar com ele, eu fiz uma extensa e desumana greve de silêncio. Eu estava com ódio de Alfie, e atribuía a ele o fracasso do meu namoro com Kurt. Eu também já estava enojada de sua burrice para tudo. Não existe possibilidade de você conhecer alguém como Kurt e considerar alguém como Alfie minimamente tolerável, e eu expressava isso à farta. Eu só ficava com ele direto porque tanto a mãe dele quanto a minha forçavam nossa convivência, sem se dar conta de que, naquele momento, a última coisa que a gente queria era se ver.

Eu já estava cansada de Alfie no meu pé. Depois de Kurt e Walt, outros garotos se interessaram por mim, e ele ficava sempre em cima para eu não conversar com nenhum deles. Mas teve um em especial que me chamou mais a atenção do que os outros, e então tive que ser franca em dizer que ele sumisse da minha frente ao menor sinal de que esse garoto iria se aproximar de mim. Por incrível que pareça dizer isso, Alfie concordou com o plano e continuava sendo fiel como um cachorrinho. Porém, toda vez que algo dava errado na minha aproximação com aquele menino, era nos braços dele que eu ia chorar…

— Este é o “A” maiúsculo. Este é o minúsculo. Agora vai… copia.

Eu estava parada na entrada da casa de Alfie sem coragem de entrar, depois de passar o dia inteirinho sem falar com ele. A mãe dele pacientemente tentava me substituir, mas sem mim ali, Alfie era distraído e não conseguia olhar para o caderno por mais de dois segundos.

— Valeu a tentativa, filho, mas a perna está muito para cima ainda. Vai, tenta deixar a perninha do “A” mais perto da linha. Vá! Tente de novo.

— Deixa comigo. Comigo, esse daí aprende!

— Querido, não machuque Alfie. Falando assim, você assusta o menino.

— Cala essa boca, cadela! Acha que eu não dou conta do meu próprio filho? — com um único empurrão, ele a fez voar para o outro lado da sala. Ela caiu por cima de uma mesa e se machucou em alguns bibelôs, mas não teve coragem para reclamar dos ferimentos. Eu apenas via que D. Melissa balançava a mão dolorosamente.

Agarrando a cabeça de Alfie pela nuca, o pai dele o forçou a encarar o caderno (os olhos dele queriam se desviar para ver a série que passava na TV).

— Vai, Alfie! Anda! Assina essa porra! Olha essa merda dessa letra! Parece um animal escrevendo! Na verdade, até um porco faria um serviço melhor do que esse!

Com brutalidade, ele pegou o lápis e entornou a mão de Alfie em volta dele. Cada grito que ele dava, eu me contraía de medo. Todos os dias, eu dava graças a Deus que meu pai podia ser um mulherengo e querer levar uma vida de solteiro, mas nunca se comportou com a minha mãe desse jeito. Na verdade, vendo o pai de Alfie, eu até me tranquilizava que a separação havia feito ele morar longe de nós. Vai que, de repente, ele mudava de ideia e começava a agir assim…

— Assina, vai! Copia essa merda de letra, seu mongoloide retardado! Qualquer moleque da sua idade sabe escrever que nem gente, você é pior do que eles, por acaso? Anda logo, antes que eu perca a paciência com você, seu fracassado…!

Alfie vez por outra levava às mãos aos olhos. Ele devia estar chorando, mas, a exemplo da mãe dele que chorava discretamente atrás de uma coluna, ele também lutava para tornar suas lágrimas imperceptíveis. Deu a entender que chorar na frente do pai dele o fazia ficar ainda mais violento.

— Mas estava demorando para o menininha começar a choramingar! Vou te dar uma chance, mas só essa! — o pai dele anunciou, tirando o cinto e o depositando no canto da mesa – Você tem 15 minutos para você copiar essa página da cartilha no seu caderno, e com uma letra decente! Se você não fizer isso…

Alfie balançou a cabeça numa negativa, obviamente considerando a tarefa impossível. Eu já sabia que aquilo ia acabar mal, então driblando todo o meu medo, entrei. Não adiantou nada: o pai de Alfie já tinha acertado seu rosto com um soco.

— Moleque burro!

— Alfie – eu contava que o pai dele fosse se envergonhar de me ver ali e, com isso, parar a agressão.

Mas ele já tinha agredido Alfred na minha frente, por que hesitaria em fazer isso agora? Naquela hora, eu nem tinha pensado com lógica, só queria salvá-lo. Alfred foi encurralado na parede e, lá chegando, tomou repetidos chutes nas pernas, até cair. Quando ele ia chutar na cabeça de Alfie, eu gritei o nome dele bem alto, para me fazer notar.

— ALFIE!

E o pai dele parou, não ao me ver, mas ao constatar que tinha mais algumas meninas comigo. Eu estava sendo chamada para a festa de aniversário de uma de minhas amigas, e, quando eu falei em Alfred, elas ficaram ansiosas por conhecer meu melhor amigo.

— Chame logo o Alfred, Annie! Já está ficando tarde! — pediam as meninas, que conversavam tão ruidosamente entre elas que nem foram capazes de perceber o que estava acontecendo ali.

Correndo até a porta, e lutando para que não se pudesse notar a turbulência do lado de dentro, D. Melissa me atendeu toda descabelada. Os olhos, vermelhos, estavam a custo enxutos.

— Oi, Annie – ela tentou sorrir para mim – Você veio falar com o Alfie, é?

Ela deu um olhar para dentro da sala, e fez algum sinal com a cabeça para que o filho se levantasse e enxugasse o nariz, que estava sangrando. Ele veio cambaleando até a porta.

— Ei, Ann.

— Ah não, Annie! — uma das meninas reclamou – Eu não acredito que o Alfred que você falou era esse menino!

— Eu pensava que era aquele bonitão do terceiro ano! Que droga, você nos enganou!

— Bom, Alfie – sorri muito sem graça, com as meninas falando tudo aquilo dele na cara – Essas são minhas amigas, Susanna e Richelle… vai ter uma festa na casa da Munich hoje, eu achei que seria legal você ir com a gente…

— Nem morta, Annie! — disse Susanna – Eu que não quero um tipo desses com a gente! Que vergonha!

— É o moleque mais burro da sala, e ainda por cima se veste igual a um mórmon…!

— Um mórmon, essa foi boa!

— E não é?

— Ridículo! Nem pensar que eu vou andar por aí com uma coisa dessas a tiracolo! Prefiro desfazer meu penteado, tirar meu vestido e voltar para casa!

— Eu também!

— Mas, meninas! Eu não sei onde a Munich mora, e vocês prometeram me levar lá!

— Bom, então você que sabe: ou a gente, ou ele.

— Não tem problema não, Ann...Eu ia ficar em casa estudando, de qualquer jeito…!

Para ele, sempre estava “tudo bem” qualquer coisa que eu fizesse…

— Eu falo com você amanhã, Alfie. Se cuida.

— Você é louca? Ele parece tão filhinho da mamãe!

— Acho que ele vai ser gay quando crescer.

— Pode crer que vai!

— Se duvidar, antes de crescer!

(Olhei para trás, e vi o pai de Alfie agarrando seu ombro. Virei o rosto para a frente, tentando mentalizar que eu não tinha nada a ver com aquilo)

— Anda, moleque! Entra! Até essa garota que você tanto gosta tem vergonha de você! É o que dá ser burro!

...e, muitas vezes, eu dei graças a Deus por isso.

— Não… ela veio me chamar porque se lembrou de mim!

Esse Alfie que tudo suportava foi o único responsável pela sustentação de uma amizade tão longa. Ficar contente com sua disponibilidade não aliviava o peso que eu sem saber carregava na minha consciência… Por outro lado, algo de sádico em mim sempre queria testar qual era o limite de sua fidelidade.

— Alfie, eu estou interessada no Chris, mas todas as meninas dizem que aparecer com você está me prejudicando! Eu acho melhor você não andar mais comigo. Digo, nem perto dele, nem longe. Simplesmente não fale mais comigo na escola. Ninguém pode pensar que eu tenho qualquer contato com você, entendeu? Não me cumprimente perto do Chris e nem tente enturmar quando eu estiver perto das meninas! E, quando entrarmos no ônibus escolar, trate de sentar em um lugar bem distante de mim!

Ele nunca me dizia não, por pior que fosse o meu comando. Também não dizia nada sobre o quanto minhas exigências o aborreciam. E, quando ele se manifestava...

— Eu… não posso mais ser seu amigo?

— Ah, não seja tão dramático! Você só não pode ser meu amigo na frente de outras pessoas, só isso. Eu vou continuar indo na sua casa normalmente!

— Isso não parece divertido, Ann. Eu não quero…!

— Ah, é? O problema é seu. Tem que ser assim e pronto! Você está me atrapalhando, seja generoso e me ajude!

...eu virava o jogo. Ele era tão inocente, e eu o manipulava como bem entendia!

— Se eu fosse uma esquisita e você uma pessoa normal, você ia entender por que eu não quero que você apareça perto dos meus outros amigos! Se você for meu amigo de verdade, não vai colocar seu bem estar acima do meu!

— Você está certa, sim. Desculpe… Eu só tenho pensado em mim. É verdade. Eu sou tão egoísta…!

Se nada disso desse certo, eu jogaria a cartada do fim do meu namoro com o Kurt, e obteria o mesmo resultado. Nos nossos duelos, eu sempre saía vencedora.

(…)

Alfie era o centro das atenções quando pequeno, porque era engraçado, e crianças adoram gracinhas. Alfie era bom nisso, porque não tinha o menor senso de ridículo. Ele ficava feliz em ver as pessoas rirem dele. Mas, conforme ele foi crescendo…

— Boa sorte com seu novo namorado.

… os palhaços não eram mais levados em conta em um universo que prezava essas duas coisas essenciais a todo adolescente: a beleza e a inteligência. Alfie era “bonitinho”. Como eu posso dizer? Tinha o rosto bonito, mas não era o tipo de garoto que as meninas assumiriam namorar orgulhosamente. Eu mesma conhecia umas colegas que achavam o Alfie lindo, mas que tinham vergonha de dizer isso até entre elas.

Talvez o problema dele fosse essas roupas de velho que ele usava: gravatinha certinha, colete, gola fechada até o último botão, calça comprida social com vinco, sapatos de verniz etc. Talvez fosse a falta de inteligência que ele ostentava a cada vez que era questionado por um professor, ou mesmo quando ele tentava responder uma questão por iniciativa própria. Alfie era generoso com os mestres, nunca deixando os “Alguém pode ler isso?”, “Alguém pode responder esta pergunta?” sem resposta. Para sua infelicidade, os próprios professores que ele tentava agradar riam dele quando ele demonstrava sua estupidez. Só sei de uma coisa: era claro para todo mundo que Alfie gostava de mim, mas eu, como todas as outras pessoas, sentia vergonha dele e nisso eu não tinha nada de especial...

— Alfie! Ô Alfie, não tá me vendo não?

Alfie obedeceu por algumas semanas minha ordem de afastamento, mas no fim eu mesma não aguentei vê-lo sozinho e deprimido daquele jeito.

— Posso mesmo me sentar ao seu lado no ônibus hoje?

— Claro que sim! Não precisava levar ao pé da letra tudo o que eu falo!

— Ah! Que bom, que bom! Eu fico muito feliz!

Alfie pulou em cima de mim e me abraçou com tanta alegria que eu não pude evitar de sorrir junto com ele.

— Tá bom, já chega! Pare, Alfie! Está me sufocando, seu maluco!

Mas nossa alegria durou pouco tempo. Enquanto Alfie estava muito distraído esfregando o queixo na minha cabeça de um lado para o outro, eu reconheci ao longe a calça que Chris sempre repetia naquele tempo. E ele parecia caminhar na minha direção.

— Ei, ô Annie…

Empurrei Alfie, mas já era tarde demais: ele tinha nos visto.

— Não foi você que me falou que nem conhecia esse idiota, que não tem nada com ele? O que ele faz sentado ao seu lado?

Sem saber o que falar, voltei-me para Alfie e disse, ensaiando minha maior cara de irritada:

— E eu não tenho mesmo não! Está louco, garoto? Está me abraçando por quê? Tarado, quem te deu essa intimidade?

E isso não aconteceu só uma vez ou duas. Toda vez que alguém do meu outro ciclo de amigos se aproximava, eu fingia não conhecê-lo nem ser amiga dele. “Já disse para parar de me incomodar”, “nem te conheço” e “o que fez você pensar que era meu amigo?” passaram a ser expressões usuais do meu vocabulário.

— E levanta daí, porque este era o lugar que eu estava separando para o Chris! Idiota!

Ao longe, eu escutava os meninos vaiando e rindo:

— Alfie se deu mal, se deu mal!

Nem sei por que ele continuou ao meu lado.

— Desculpe por aquilo de hoje cedo. É que, como eu te expliquei, o pessoal começa a zoar quando nos vê juntos! Mas, olhe só, trago uma boa notícia: deu tudo certo comigo e o Chris! Estamos namorando!

— Mas você não gostava do Kurt?

— Do Kurt? Alfie, de que tempo você é, hein? O Kurt já passou! Foi! Tem dois anos que eu não o vejo, achou que eu fosse ficar viúva dele para sempre? Sem falar que, depois dele, teve o meu lance com o Walt… seu cabeça de vento esquecido!

— Mas você estava falando com ele pela internet outro dia, que eu vi!

— Claro!! Somos dois bons amigos virtuais. Eu estava olhando as fotos dele, deixei um comentário e ele retribuiu meu afago mandando um depoimento. Normal!

Acho que Alfie preferia me ver chorando por um “fantasma” do que por um garoto de carne e osso.

(…)

— Eu não julgo o Alfie, inclusive faria igual – disse-me Drielly – Deve ser sofrido ficar esperando que, namoro errado após namoro errado, a pessoa acabe gostando milagrosamente de você. Eu sinceramente espero que ele tenha desistido, parado com isso, gostado de outra garota, sei lá! Aliás, desde que eu cheguei aqui, você não cogitou passarmos na casa dele. Vocês brigaram? Ele está namorando com alguma doida psicótica e possessiva?

— Não, Drielly. Alfie está morto.