Best Friends

5 Chapter Four: Second Opinion


— O Alfie… é verdade. Eu sabia que ele era doente – Drielly me explicou, com algum pesar, pelo que notei, mas sem derrubar uma lágrima – Mas eu nunca imaginei que...

Acho que o distanciamento de anos fez com que ela não sentisse o impacto da morte dele tanto quanto eu.

(…)

— Este é você com quatro anos?

— Sim, sou eu.

— Isto não pode ser verdade, porque você não é careca!

(…)

— Eu me lembro que, naquele álbum de fotografias que Alfie me mostrava, na legenda que a mãe dele escreveu, estava escrito algo mais ou menos assim, em letras garrafais: “ALFIE SAINDO DO HOSPITAL! MEU BEBÊ ESTÁ COMPLETAMENTE CURADO!!!”

(…)

— Mamãe me disse que eu era muito doente, mas eu já me curei. É por isso que eu tenho cabelos de novo! Agora, ela diz que eu tenho que falar sempre que doer em algum canto.

— E o que você tinha?

— Tinha um problema no sangue, parece. Eu era muito pequeno, mas foi o que me contaram. Depois, eu tive outro problema na perna, quase falaram em cortar. Eu ia ficar igual um pirata, andando com perna de pau! Mamãe não queria que eu ouvisse esse papo, mas eu escutei ela e o médico conversando enquanto fingia estar dormindo. Só que aí eu me tratei, melhorei de novo e eu só fiquei assim, andando meio torto. Olha aqui, a operação.

— Wow, que cicatriz feia. Isso dói ainda?

— Não, já sarou. Ei, mas sabia que às vezes me dá uma dor de barriga estranha? Eu não consigo nem dormir de tanto que dói! Só que eu não gosto de contar essas coisas para a mamãe, porque ela começa a chorar e eu não gosto de ver a mamãe chorando.

— Mas, e se você ficar doente de novo? Você tem que contar para a sua mãe, não é?

— Não é nada de mais. Dói bastante, aí passa um bom tempo sem doer e depois volta a doer de novo. Eu devo estar comendo muito doce! Não tem nada a ver ficar contando esse tipo de coisa para a mamãe, se em alguma hora isso para. Eu ia preocupar ela à toa!

— Eu não sei não. Se eu fosse você, contaria. Dor não é legal.

— Mas eu não gosto do hospital! E mamãe sempre me leva para lá quando eu falo que alguma coisa está doendo! Eles começam a me picar com agulhas, a tirar sangue de mim e me dão uns comprimidos muito ruins para tomar! Eu fico enjoado e querendo vomitar! Sem falar que ficam me cortando toda hora! Eu vou ficar feio assim! E lá também é frio e fede a éter, e eles ficam me colocando por horas deitado perto de uma maquinona fria e gelada, dizendo que eu não posso me mexer! O cobertores são finos e eu fico com muito frio o tempo todo! Eu não quero ter que ir para lá não, é muito ruim mesmo!

— Que malvados!… Epa, parece que bateu o sinal. Hora de voltar para a minha sala.

— Bom, então este álbum aqui vai voltar para a mochila. Amanhã eu trago outro, o álbum das minhas férias onde meu irmão aparece! Você vai adorar!

— Deve ter sido muito legal, estou ansiosa para ver. Até mais.

— Ei, ô Drielly...

— O que foi?

— Como é o nome daquela menina que vive andando com você?

— Eu tenho andado mais com a Annie. É a de cabelo castanho, que usa rabo de cavalo?

— É essa mesmo! Eu acho ela muito linda!

(…)

— Se você visse o sorriso que ele me deu quando soube o seu nome… Se você soubesse quantas vezes ele tentou se aproximar de você antes daquele dia… mas nunca teve coragem, e contava comigo para aproximá-los. Até hoje, me pergunto se Alfie se aproximou de mim por amizade a mim mesmo ou se para ter a chance de se aproximar de você algum dia...mas…

(…)

— Eu já reparei que a Annie sempre gosta dos meninos mais velhos, principalmente os das outras classes. Você não faz o tipo dela, eu noto isso pelos outros garotos que ela gosta. É melhor você desistir. Eu já vi a Annie dando fora em uns moleques e ela não é nada gentil.

(…)

— ...mas eu estava cansada de ele viver no meu pé com o mesmo assunto. Ao mesmo tempo, eu tinha muita pena dele, porque eu sabia o que ia acontecer se ele se declarasse. Eu escutei de alguém uma vez que, quando saem de cena, os palhaços são os primeiros a chorar. Alfie se encaixava perfeitamente nessa definição. Lembrava um pequeno pierrot desprezado por sua colombina…

— Eu não sabia de nada disso. Nunca iria supor que vocês estavam arquitetando algo assim.

— Eu tentei te falar dele algumas vezes. Lembra daquela vez que uma garotinha caiu e, enquanto todos riam dela, Alfie foi socorrê-la?

— Não me lembro.

— Eu te disse “Aquele menino parece legal. Qualquer dia desses eu vou falar com ele.” Aí você falou, toda desdenhosa: “Você tem um gosto bizarro. Haja coragem para andar de braços dados com isso” etc etc

— Eu nem me lembrava mais disso. O garoto era ele?

— Sim. Naquele dia, eu estava testando você. Vendo o que você achava dele. Quando vi você reagir daquele jeito, achei cruel demais permitir que Alfie tentasse se aproximar de você, e então disse a ele francamente que desistisse.

Drielly suspirou, e acrescentou:

— Alfie era uma linda criança. Deve ter se tornado um belo rapaz.

Apertei os olhos, lembrando-me de quando pedi a ele que fingisse não me conhecer.

— Eu fui horrível com ele. Se ele era bonito, eu era incapaz de perceber.

— Ele era bonito, sim. Alfie, com certeza, deve ter tido muitas chances de namorar, mas, para o azar dele, só tinha olhos para você.

— Não, Drielly. Você está enganada. Nenhuma das meninas enxergava Alfie como um possível namorado. Ele era, no máximo, amigo de algumas delas. Na verdade, acho que nem isso. Elas o viam como uma criança. De certa forma, estavam certas. Ele não se desenvolveu mentalmente, e ficou exatamente do jeito que você deixou até o dia em que morreu. Quando ele era criança, aquilo que ele era parecia um comportamento compatível para a idade. Mas, quando ele cresceu, isso se revelou muito constrangedor. Não era por maldade, mas eu tinha vergonha dele.

— Ah. Nossa.

(…)

— Alfie, eu sei que você deve estar furioso comigo mas, deixa eu explicar, por favor!

Lembro-me de um dos dias da amizade em que eu me reuni com meu grupo e não convidei Alfie, porque ele não era aceito. Não é que eu tivesse esquecido. Eu só…

— Ann! Por onde esteve? — ele perguntou, pulando em mim para me abraçar — Fiquei te procurando ontem o dia todo! Feliz dia do amigo! Um pouco atrasado, hehe…

Alfred me deu um cordão de ouro com um pingente delicado, lindo, lindo…

— Alfie, isso deve ter custado uma fortuna!…

— Eu economizei uns cinco meses de mesada e fiquei também na locadora do meu tio, o irmão da mamãe, quando você terminava de me ensinar as lições.

— Você sabe passar troco?

— Não, nada disso. Eu só tinha que dizer para ele quando alguém tentava colocar um DVD dentro da roupa!

— Entendi, que legal.

— Mamãe me ajudou com o que ficou faltando para completar. Ela disse que é uma forma de agradecer você por me ajudar com a escola.

— Você e sua mãe são uns amores! Obrigada! Eu adorei!

Inclinei-me para dar um beijo no rosto de Alfie, e ao mesmo tempo ele se virou para me dizer alguma coisa: “Que bom! Fiquei muito nervoso achando que você não...”

“...gostaria.” Talvez fosse essa a palavra final do que ele ia falar. Alfie não chegou a concluir seu raciocínio, porque antes que ele conseguisse fazer isso, nossos lábios se encostaram.

Ficamos paralisados nessa posição por uns dois segundos e, se não fiquei assim por mais tempo, foi porque Alfie virou o rosto e baixou a cabeça. Ele evitava me olhar, como se pensasse que eu ia brigar com ele.

— D-desculpe! — falei, sem acreditar no que tinha acontecido, e menos ainda no quanto eu gostaria de ter permanecido daquele jeito.

Por outro lado, Alfie percebeu meu constrangimento e foi solidário a ele; se ele me desejava, reprimiu isso para não me envergonhar. Aliás, ele foi muito bom nisso, porque logo mudou de assunto:

— E...então – disse, fingindo com uma facilidade irritante que nada tinha acontecido – Se você não apareceu ontem, deve ser porque preparou um presente bem legal para mim, não é?

Eu não tinha pensado em nada para ele!!

De novo, Alfie aproximou seu rosto do meu, mas dessa vez foi para me encarar sem dar a menor chance de eu desviar. Ele me perguntou, com seus trejeitos infantis:

— Você não fez nada para mim, Lilith?

— Eu já disse para não me chamar assim! É mórbido!

— Você está mudando de assunto para eu ficar distraído!

— É claro que não!

— Foi isso, sim. Ah, mas, pensando bem, não é uma data tão importante quanto aniversário ou Natal… Sem falar que você deve gastar muito para passear com seu namorado e dar presentes a ele, eu vou entender.

— Mas, Alfie! Eu tenho um presente bem especial para você! Por isso, não fique chateado!

— Você tem?

— É claro que sim! Eu só queria fazer suspense!

Quando entramos no ônibus para irmos à escola, eu fiquei olhando à distância vitrines de lojas e supermercados, mas nenhum doce ou roupa pareciam atraentes o bastante para rivalizar com um cordão de ouro. Alfie estava certo de que ganharia um presente muito especial de mim, e agora eu não poderia desfazer seu sorriso dizendo que daria algo comum. Mas o pior é que Alfie estava certo: nos últimos dias, eu tinha torrado todo o meu dinheiro com idas para o cinema com o Chris, a ponto de até o presente de amigo oculto que entreguei para a pessoa na festa do dia anterior ter saído de um pedido de adiantamento de mesada que fiz à minha mãe. Quando ela me perguntou sobre o que eu daria a Alfie no Dia da Amizade, eu menti que já tinha o presente dele, e que meu dinheiro teria acabado nisso. Foi fácil sustentar essa mentira, pois ela passava o dia trabalhando e só voltava tarde da noite. Assim, não ficou sabendo das minhas escapadas para o cinema às tardinhas.

Então, aconteceu que passamos por uma concessionária da qual Alfie sempre admirava os veículos. Sem pensar em mais nada, arrisquei:

— Está vendo aquele carro azul ali? Ele é seu.

Alfie acreditava em tudo o que eu dizia, até nos maiores absurdos. Só que, dessa vez, eu exagerei.

— Sério? Como você fez para comprar algo tão caro, Lilith? Que demais!

— Como você fez, eu pedi uma ajuda da minha mãe e eu também tinha umas economias.

— Eba! Eu tenho um carro! Eu tenho um carro!

— É, mas não vai ficando muito convencido. Você só vai poder levar ele quando tirar a sua carta de motorista.

— ANNNN, como você é má! Não dá para buscar meu carro sem ter carta? Eu posso falar para o meu pai dirigir! Ele vai ficar muito feliz em andar de carro novo! O nosso está tão velho…

Bem que minha mãe me dizia, em seus comentários mais maldosos…

— Se eu tiver um carro, eu vou levar mamãe para passear por todos os lugares!

… que Alfie tinha o raciocínio abaixo da média até para alguém que tinha dislexia.

— E eu vou perguntar se as velhinhas que estão carregando compras querem ajuda! E também vou passar por aqueles lugares cheios de moradores de rua e mandar eles subirem, para eles saberem como é legal andar de carro!

Mas ele era tão meigo e doce que eu não me cansava de ouvi-lo…

Alfie era tão irracional que não conseguia entender…

— Eu estou muito feliz!!

— Tá, mas é segredo. Não vá contar a ninguém! Se sua mãe souber que eu comprei um carro para você antes de você ter sua carta de motorista, ela vai ficar furiosa comigo!

— É mesmo?

— Sim! É capaz de ela me proibir de falar com você!

— Oh! Não contarei a ninguém então. Nem à minha sombra!

— É o melhor.

… que em nenhum lugar do mundo era possível que uma criança comprasse um carro.

Quando voltamos da aula e fomos à casa de Alfie para as lições de sempre, ele quase me entregou:

— Mamãe! Mamãe! Eu quero tirar minha carta de motorista!

A mãe dele sorriu sem acreditar:

— De onde tirou essa história, querido? Que perigo! Com essa idade, você nem pode ter habilitação, você é tão novo…! Isso só será possível quando você tiver 16 anos...Tenha paciência, que esses três anos vão passar rápidos como um jato, viu?

Alfie baixou a cabeça e começou a chorar. A mãe dele o abraçou e ficou naquele “tudo bem, tudo bem, já passou”.

— Ohhh, não fique triste. Não me ouviu dizer? Vai ser rápido! Além disso, você pode jogar seu joguinho de mão porque seu pai dirige por você. Não tem nada de divertido em dirigir! É uma responsabilidade enorme, e, quando chegar o momento de fazer, você vai achar muito chato!

— Não é verdade, eu quero pegar meu carro logo!

Para minha sorte, ela não entendeu de forma literal o que ele disse.

A partir daquele dia, toda vez que passávamos com o ônibus escolar perto daquela concessionária, Alfie ficava agitado e falava coisas como “Olha meu carro! Ali está ele!”. Às vezes, eu ficava muito envergonhada por ele, porque ele não baixava o volume da voz quando dizia isso. Acho que os adolescentes em volta entendiam que ele estava se referindo a um sonho de consumo, mas uma vez expliquei a uma amiga por que ele sempre falava aquilo e ela espalhou para o resto dos estudantes todinhos. Até garotos de outras turmas souberam, e Alfie ficou conhecido como “Maserati Azul”. Conclusão: sempre que o ônibus dobrava a rua a caminho da concessionária, os garotos começavam a rir. Quando Alfie começava a fazer suas exclamações sobre o tal carro, ele era acompanhado por um coro de gargalhadas. Ele olhava em volta, admirado, esperando que alguém também contasse a piada para ele.

— Do que eles estão rindo, Lilith?

— De piadas imorais. É melhor nem ouvir.

— Ah.

E isso se repetiu todos os dias, até o dia em que o carro que eu disse que era do Alfie foi vendido.

— O meu carro… cadê ele? Cadê o meu carro? Anne, meu carro sumiu!

Alfie fez um escândalo de grandes proporções e exigiu que fôssemos deixados ali, pois queria conferir pessoalmente o que tinha acontecido. O motorista ficou preocupado, mas a pressa dos demais estudantes e a minha segurança em garantir que eu sabia o caminho de volta o fez concordar em nos deixar na rua da concessionária, antes que a histeria de Alfie acabasse provocando um acidente (ele chegou a querer manobrar o volante no lugar do motorista, ordenando que ele parasse). Eu fugi, também, para que os nossos colegas não tivessem a chance de explicar ao motorista a mentira que eu tinha contado comigo ainda ali presente.

— Alfie, volta aqui! — corri atrás dele.

— Eles vão me explicar agora por que o meu carro sumiu!

— Para! Chega! Olha a vergonha que você me fez passar!

Inconformado, Alfie agitava-se debaixo de minhas unhas e garantia que ia falar com o gerente do lugar até devolverem o suposto carro dele. Arrisquei mais uma desculpa:

— Olha só como funciona: você compra o carro, mas se não vier buscar logo, outro dono leva! Agora, larga de ser mimado e chorão e vamos embora! Não estamos atrasados, se tomarmos um outro ônibus podemos chegar a tempo!

Engraçado que eu dizia isso, mas quando ele chorava de verdade, eu me comovia.

— Tudo porque você não me deixou pegar o carro logo! Agora, outro dono pegou ele! De que adiantou me dar um carro se eu não podia tirar uma carteira de motorista? É claro que outro dono ia pegar, eles não iam deixar o carro três anos parado lá!

— Cala essa boca, seu retardado! — eu perdi a paciência e o esbofeteei – Estou cheia de você ser tão idiota! Para de chorar feito uma mulherzinha e vamos embora! Que saco! Por isso que nem teu pai te aguenta! Imagina achar que vai ter um filho normal e nascer um fracasso como você!

Tomando o seu braço, eu o arrastei até um ponto de ônibus. Saí gritando com ele pelo caminho, com todo mundo olhando e não estava nem aí:

— Tomara que você arrume uma namorada logo! Aí, sua mãe para de me obrigar a andar com você o tempo todo! Que coisa! Parece criança!

Quando olhei para Alfie, vi que ele enxugava os olhos molhados com as duas mãos e logo me dei conta de um detalhe:

— Alfie, cadê sua pasta? Não vai me dizer que você não trouxe com você! Você… esqueceu a sua pasta no ônibus, Alfie? Você é doido???

Alfie olhou para mim, apavorado, e em seguida, para as próprias mãos vazias. Sua respiração começou a ficar agitada, falha, descompassada. Não havia uma célula do corpo dele que não tremesse. E ele começou a dizer, em desconexas partículas de frase:

— Não posso… casa… voltar…! Não quero… Papai vai me bater…! Fugir…! Tenho que fugir…!

Eu sabia que Alfie estava certo...

— Uma vez, eu também esqueci do meu material por aí e não chorei! Para com isso, seja homem!

… mesmo assim, tudo o que fiz foi minimizar seu sofrimento e rir dele.

Sentado ao meu lado, durante a aula, Alfie não parava de chorar. Eu comecei a achar preocupante a reação dele. Se bem que, para os outros, aquilo tudo parecia muito engraçado.

— Tá chorando por que, bebezão? Perdeu namoradinho, foi?

A professora se aproximou e perguntou:

— Alfred, querido, por que você está chorando tanto? Vamos até a enfermaria, vamos?

Ela o sobraçou e o guiou em direção à porta, enquanto os meninos xingavam e riam de Alfie. Todos eles sabiam do escândalo que ele tinha feito no ônibus, e eles alternavam entre imitar algumas de suas falas desesperadas, rir ou interpretar o que seria o motorista sem entender nada do que estava acontecendo. Eu não sabia se ficava mais desesperada por Alfie ou se por mim, que estava a ponto de ser entregue ali, diante de todos.

— Gente, parem com isso – a professora pediu – Eu irei acompanhá-lo, enquanto isso fiquem aqui quietinhos.

Aproveitando que a professora saiu, chamei a classe para conversar e disse a eles algo no sentido de que “a brincadeira ia perder a graça se dissessem que eu inventei a mentira sobre o carro azul, que era melhor manter essa história oculta”. Eles concordaram imediatamente, afinal é esse o efeito que garotas bonitas e influentes provocam em um bando de moleques de 13 anos. As meninas mais invejosas podiam até ter pensado em me entregar, mas eu tinha amigas o bastante para intimidá-las até o fim desta encarnação. De qualquer modo, não foi preciso: todos concordaram que aquilo foi genial, e um tema para caçoar de Alfie pelo resto da vida. Os mestres não entenderem do que estávamos falando dava até um tempero a mais na brincadeira.

Tudo combinado, e fui até a enfermaria “prestar solidariedade” a Alfie. Na verdade, minha intenção ali era de que o Maserati Azul ficasse caladinho assim como todos os outros que prometeram se manter em silêncio sobre esse assunto.

— Alfie, para de chorar e me escuta! — pedi, baixinho, enquanto a professora foi para a sala da pedagoga fazer um telefonema – Isso é muito sério e pode me comprometer! — quando olhei para o rosto dele, vi que o anel da Lilith tinha feito um pequeno corte abaixo de sua sobrancelha, provavelmente fruto do tapa que eu dei nele. Baixei os olhos, envergonhada dessa observação. Suspirei e continuei: — Não vá contar para ninguém essa história de carro! Se você falar alguma coisa sobre isso, eu vou me ferrar, aí eles vão me expulsar da escola e eu vou estudar lá na outra ponta da cidade! Você quer isso?

Ainda chorando e soluçando, Alfie me olhou nos olhos e balançou a cabeça numa negativa.

Baixei a cabeça para disfarçar meu sorriso de alívio. Eu já sabia que tinha assegurado o silêncio de Alfie e eu realmente achava que isso era tudo em que eu deveria pensar. Disse para ele esperar um instante e fui até a professora contar que ele estava desesperado por ter esquecido seu material no ônibus, e restringi a história a isso. A professora que, eu percebi, chamava os pais de Alfie para ir para lá e recebia deles a notícia de que eles estavam nas proximidades, acrescentou mais este detalhe à sua ligação.

Voltei para Alfie e dei um abraço nele, e notei que ele não retribuiu. Até me afastou a pretexto de enxugar o nariz e os olhos. Antes que eu pudesse esboçar qualquer preocupação com isso, a professora veio até nós:

— Annette, querida! Você precisa deixar Alfred sozinho um pouco! Não me entenda mal, mas ele se torna tão dependente de você que sequer tem tempo para conhecer outras crianças. Nem mesmo conseguiu explicar sozinho o que tinha, e eu pensando que fosse algo mais sério! Eu fico preocupada com isso porque pode haver uma situação em que vocês sejam colocados em salas separadas, e então a rotina dele se tornará bem difícil. Por que não tenta, se gosta tanto dele, enturmar Alfie com o resto dos seus amigos?

— O pessoal não gosta muito dele.

A professora, que por sinal se chamava Srta. Williams, encarou Alfie condoída, como se eu tivesse dito palavras que ele não podia ouvir.

— Eu acho que isso é uma das coisas que podemos falar na reunião.

Se eu fosse um desenho, teria ficado com um ponto de interrogação sobre a cabeça. Do que ela estava falando?

— Alfred, meu amor, pare de chorar, vai ficar tudo bem… Eu já chamei seus pais aqui, eles já sabem do que houve com seu material e garanto que estão muito calmos, eles não vão brigar com você… Por isso, não precisa ficar desesperado…!

Alfie virou o rosto para a minha direção, e o que vi na fisionomia dele foi o mais puro pavor.

— Não…! Por que você contou para eles? Eles não podiam saber! Eles não podiam saber!

— Annette, volte para a sala e diga a todos que façam a lição 3.

— Mas professora, eu…!

— Faça, por favor.

— POR QUE FEZ ISSO??? — Alfie berrou, me dando um susto tão grande que, ao tentar abrir a porta da enfermaria para sair, acabei colidindo a cabeça nela – NÃO ERA PARA ELES SABEREM!

— Mas, Alfred, eu já disse, fique tranquilo – a professora tentou tocar nele, tomando um tapa na mão como resposta – Ai!

— Alfie, pare com isso! – pedi, massageando a testa machucada – A gente teve que preparar eles, para eles já virem aqui sabendo disso! Eles vão estar calmos, confie em mim!

— Eles não podiam saber, eu tenho que ir embora daqui!

— Não, Alfred! Tudo o que tivermos que conversar, precisa ser na presença deles! E se você os teme a ponto de estar tão assustado, a assistência social também precisa ter conhecimento disso! Annette – a professora insistiu, pelo puro prazer de ter quem obedecesse uma ordem sua – Vá para a sala e diga aos demais aquilo que pedi para fazerem!

— C-certo – gaguejei, preocupada com o que Alfie diria sobre mim quando eu não estivesse presente.

Quase me sentia grata por ele ter outra distração na mente naquele momento, mas dependendo do quão escandalosamente ele se comportasse, mais eu teria com o que me preocupar. Nem consegui dar conta de atravessar o corredor para a minha sala, e escutei gritos horríveis de Alfred:

— VOCÊ NÃO ENTENDE!! EU TENHO QUE IR EMBORA! NÃO POSSO FICAR AQUI! EU NÃO POSSO FALAR COM ASSISTENTE NENHUM! NÃO CHAME NINGUÉM, EU NÃO POSSO FALAR COM NINGUÉM, EU SÓ QUERO SAIR DAQUI ANTES DE ELES VIREM!

E a professora, desesperada:

— Enfermeira, por favor! Faça alguma coisa, me ajude a segurá-lo!

Em um segundo, o corredor se encheu de estudantes e professores totalmente confusos.

— Os pais dele já estão aí – vi a sombra da enfermeira falando, através do vidro fosco.

— NÃO DEIXE ELES ENTRAREM!

— Alfred, seja razoável – insistia a professora – Eles só vieram te buscar para ir para casa, acalme-se!

— NÃO! NÃÃÃÃÃOOOO! EU NÃO POSSO IR COM ELES!

— Por que, meu querido? O que acontece de tão grave? Me explique!

— Abram caminho! — pediu o Sr. Casey, o diretor – Todos para suas salas, isto é uma ordem!

Uma ordem que ninguém obedeceu, diga-se de passagem. Ninguém queria perder aquele espetáculo, não importando se seria detido ou suspenso depois.

— Alfie, mamãe está aqui – D. Melissa anunciou, para tranquilizá-lo. Com isto, a enfermeira abriu a porta.

Ele, segurado pelos ombros pela Srta. Williams, debatia-se, apavorado.

— Venha comigo, filho. Vou preparar a sua janta favorita. Venha!

— NÃO VOU! NÃO VOU! NÃO QUERO IR! ME DEIXA AQUI!!!

Ele se soltou da professora, mas, ao ter o braço agarrado por ela novamente, ouvi dizer que ele a mordeu. Isso foi algo que não pude ver por causa da confusão, mas disseram que a mordida foi tão profunda que ela sangrou, e isso teria feito ela desistir de apanhá-lo. Alfie ignorou a mãe e saiu atravessando o corredor em ziguezague, colidindo em uma ou outra pessoa no caminho.

— Para onde você está indo, filho? — D. Melissa perguntava aos prantos.

Mais lá adiante, o cara da limpeza e uma secretária agarraram Alfie, cada um por um lado do braço.

— ME SOLTAAAAAA! SAI!

Nessa hora, eu notei que o pai de Alfie havia chegado lá e agarrado a gola da sua camisa para impedi-lo de correr. Como Alfie estava engravatado como sempre, aquilo devia estar sufocando. Mesmo assim, ele gritava a plenos pulmões:

— ME SOLTAAAA! ME SOLTA, PAPAI!

— Pare com isso, menino!

— NÃOOOOO… ME SOLTAAAA… EU NÃO QUERO IR COM VOCÊS!

— Alfie, fica quieto! — gritei.

Mas Alfie não me obedeceu. Não sei de que forma, ele escorregou dos braços do pai e dos dois funcionários que o seguravam e continuou correndo. Foi cercado no fim de um corredor, cuja única saída era um desses janelões envidraçados que o parapeito é tão baixo que até um neném conseguiria saltá-lo. Mas essa janela estava fechada, e apenas um homem muito forte era capaz de abri-la. Alfie olhou para a janela e para os pais ali, e não teve dúvidas: começou a bater no vidro com o intuito de quebrá-lo. Foi desesperador ver que em algum ponto da janela, ele tinha conseguido, e feriu as mãos seriamente. Se não tivesse sido impedido a tempo, talvez tivesse se jogado de uma altura de quinze metros.

— Não o deixem ver os ferimentos – a enfermeira orientava, tentando segurar as mãos de Alfie para baixo enquanto o responsável pela limpeza erguia o queixo dele e o pai o agarrava pela gola da roupa.

Eu não acho que os pais dele iriam bater nele, para falar a verdade, mas Alfie estava desesperado demais para se dar conta disso. Na hora, eu não estou brincando, a primeira coisa que me passou pela cabeça ao vê-lo coberto de sangue era que seu pai o tinha atacado a facadas. Depois que eu escutei de outras pessoas que o franzino Alfred havia conseguido arrebentar uma grossa janela de vidro, movido pelo medo extremo que sentia do pai. Mas assim como seu escândalo teve um súbito início, teve um repentino fim: contido por umas quatro ou cinco pessoas diferentes, Alfred finalmente desfaleceu nos braços do pai. Acho que essa foi a primeira vez que eu vi uma pessoa desmaiar na minha frente.

— Certo, criançada, vamos cada um para suas salas pegar seus materiais! Estão todos liberados por hoje! — murmurava a professora Williams, com a voz alterada por causa da dor.

— Nada de ficar pelos corredores! Sr. White, isole aquela área ali – ordenava o diretor.

— Sim, senhor!

— Sra. Melissa – chamei, mas ela não me escutou, passando direto e indo na direção de Alfred.

— Volte para a sala! — alguém gritou, me empurrando.

O pai de Alfie não estava zangado com ele, mas o motivo não era a Srta. Williams tê-lo avisado antecipadamente sobre a perda do material de Alfie. Provavelmente, este também foi o motivo pelo qual eles não puniram Alfie pelo seu achaque em plena escola.

Naquele dia, fiquei sabendo que seus pais foram no consultório médico buscar o resultado de um dos seus muitos exames de rotina. Alfie estava muito doente, eu só não sabia do quê.

— Annie, vamos logo! Estamos liberados! — Chris me chamou, tocando no meu ombro.

Caminhamos até a saída, nesse trajeto minhas pernas estavam bambas como gelatinas. Ao longe, vi Alfie seguindo numa maca, cercado de uma imensa equipe de paramédicos.

— Será que ele vai abrir o bico?

— Ele não vai me prejudicar. Os outros é que eu não sei.

Alfie passou muito tempo longe das aulas. Só não reprovou porque passou o resto do ano letivo justificando suas ausências com atestados (levados pela D. Melissa) e, quando ele finalmente conseguiu voltar de forma presencial nos últimos dias, se esforçou muito na recuperação. Nas férias de fim de ano, ele ficou todo esse período acamado, sem poder comemorar as festividades com os amigos. Institucionalmente falando, não sei no que deu sua crise no meio da escola. Acredito que seus pais devem ter inventado que ele tinha acessos nervosos vez por outra ou qualquer coisa assim. Alfie deve ter sido obrigado a confessar que não sofria violência nenhuma em casa, ou ao menos um processo o seu pai estaria respondendo, e não era o que parecia estar acontecendo.

Naquele Natal, mamãe tricotou um suéter e pediu que eu o entregasse a Alfred no quarto dela, onde ela mandou acomodá-lo a pedido de D. Melissa, enquanto as celebrações aconteciam na sala da minha casa, reunindo familiares e alguns poucos vizinhos. Não me dignei sequer a separar dinheiro para dar um presente para o meu melhor amigo. O dinheiro a mais que ganhei da minha mãe pelo Natal, somado ao restante da minha mesada comum, bancou um tênis caro que, no fim das contas, eu nem veria Chris usando. Alfred não me deu presente nenhum, a não ser um cartão feito a mão com cartolina, glitter e uns adesivos. Ele explicou com sua voz fraca, quase irreconhecível, que sua família estava passando por dificuldades financeiras sérias e ele ficou todo o tempo, desde que adoeceu, sem receber mesada.

D. Melissa também ficou mais com ele no quarto do que participando dos jogos, conversas, brindes e karaokês que os adultos propuseram noite adentro. Vez por outra, ela ia levar para ele algum prato de comida “saudável”, já que ele não podia comer quase nada do que preparamos, mas sempre voltava com o prato cheio, talvez com algumas beliscadas, olhava para a gente com um ar fúnebre, dava de ombros com tristeza e dizia: “Ele não comeu quase nada”.

— Só você mesmo para ter o azar de ficar de cama numa situação dessas, Alfie – observei, ao visitá-lo — E ainda está de pijama! Nem vai aproveitar o Natal para usar o suéter que minha mãe deu! Vai ficar estranho se você usar suéter de pinheiros no decorrer do ano, e ano que vem você pode estar grande demais para caber nele!

— Então, me ajuda a usar ele hoje – ele me respondeu, tentando sorrir.

Tentei tirar a camisa dele para colocar o suéter, mas mal ergui a barra da roupa, ele disse apressadamente:

— Eu posso colocar por cima, sem problemas. É que estou meio cansado, Lilith.

Contraí a cara, entre irritada e desconfiada. O que ele estava escondendo? Depois, as pernas dele estavam espantosamente finas. Observei isso quando sugeri que ele tirasse a calça do pijama e mudasse para uma calça de verdade.

— Suas pernas estão tão magras… você anda comendo?

— Agora eu posso. Semanas atrás, eu não podia.

— Por quê?

— Porque eu estava de dieta, e agora não tô mais! — ele me explicou, com aquele jeitinho infantil que só ele tinha.

— Quando é que você vai poder nadar no rio com a gente? Você está ficando branquelo e feio!

— Não sei. Ainda estou meio fraco. De qualquer maneira, eu não podia me afastar da margem, era chato ver vocês lá no meio e eu sem poder ir atrás…

— O que você tem, mesmo?

— Um problema besta. Eu estava me alimentando mal, só isso. Eles me mandaram comer outras coisas, tomar umas vitaminas e agora eu vou ficar bem!

Ele sabia que tinha algo sério, mas não queria me contar. Todos os adultos em volta pareciam obedecer essa sua estranha vontade de me alienar de tudo o que estava acontecendo.

— Viu? — falei, apontando para o seu nariz – Você está proibido de adoecer!

— Tá – ele respondeu, com seu sorriso tímido e doce.

— Amanhã, eu, Chris e as meninas vamos acampar e cair na água. Tem certeza de que não vai querer ir?

— Não, Lilith. Você mesma disse que seus amigos não gostam de mim.

Dei de ombros, tentando não me sentir culpada.

— É, verdade. Melhor mesmo você não ir. Eles só iam falar besteiras.

— Aham.

Achei estranha a forma de ele falar, e, desconfiada, inquiri:

— Tem alguma coisa acontecendo que eu não sei? Você está sabendo de algo que as meninas fizeram ou falaram? Qual é! Por que você está esquisito assim?

— Nada não.

— Ora, você sabe sim. Fala!

Alfie baixou a cabeça e a balançou negativamente. Mas não me convenceu, por isso eu o agarrei pelos ombros e o forcei a me encarar.

— Está doendo, Ann.

— Não quero saber! Se você está sabendo de algo, vai ter que me dizer!

Alfie relutou, mas acabou falando:

— Sabe o que é, Annie? Eu vi o Chris e a Sarah se beijando. Ele é seu namorado, ele não deveria beijar outra garota, certo? Ou ele namora vocês duas, quer dizer, isso pode? Fica feio um casal de três pessoas…!

— Como assim? Desde quando você--!?

— O que tem? Está errado? Eu sabia que não devia te contar, porque você ia ficar zangada…!

Eu o vi com ela quando fui com meus pais ao supermercado, naquele dia que eu saí pela primeira vez depois de ter voltado do hospital… eles estavam no estacionamento, e não me viram… eu estava vigiando o carrinho de compras enquanto meus pais manobravam o carro para mais próximo da saída.

— Você tem certeza de que eram eles?

— Ai, Annie, meus braços…!

— Responda!!

— Sim.

— Como pode saber, com esses óculos enormes que você nunca limpa? Deve ter visto errado.

— Meus óculos não são sujos, Annie!

— Mas, com certeza, nesse dia estavam! Chris e Sarah, você está louco? Aquela idiota com o meu namorado, você não tinha nada melhor para inventar? Você sabe o quanto o Chris batalhou para me dar o primeiro beijo? E você vai me dizer que ele traiu a garota mais bonita e popular do colégio por aquela magrela feiosa e burra? Você só pode estar mentindo! Mas eu já sei o que está acontecendo…!

— Sabe…?

— Todo mundo na escola diz que você é caidinho por mim! E eu não sou idiota para dizer que nunca percebi isso!

Se eu tivesse confessado o assassinato de uma pessoa, Alfie não teria me olhado com tanto espanto.

— Desiste! Se contenta em ser só o amiguinho, tá? Você não tem e nunca vai ter a menor chance, muito menos inventando essas mentiras sujas!

— Não é verdade – Alfie disse, de olhos baixos e cabeça idem – Eu não gosto de você dessa maneira não.

— É mesmo? — dei de ombros, em um gesto de desdém – Não é o que andam dizendo na escola! Todo mundo sabe, e você achava que ninguém tinha percebido esse tempo todo?

Alfie levou a mão à boca. Notei que ele continha um soluço que queria se formar no fundo de sua garganta.

— As pessoas são bobas… e ficam contando mentiras…! Você sabe como eles gostam de zombar de mim e de me deixar constrangido!

— Olha, eu acho isso ótimo! Seria um desastre se inventassem que estamos namorando ou qualquer coisa assim.

Alfie apenas piscou repetidamente os olhos, sem nada dizer.

— Qualquer um que nos visse juntos, diria que eu mereço coisa melhor. Olhe para você…!

— O… o que há comigo?

— Você não tem nenhum atrativo, além de ser passado para trás por todo mundo que aparece! Quando você tenta responder alguma questão em sala, geral fica em um silêncio constrangido, esperando você terminar de passar a vergonha do dia. Eu não sei como você ainda tem coragem de tentar, sinceramente! Minha mãe outro dia me disse que você com certeza vai ter problema para achar trabalho, e eu não duvido. Você já parou para pensar como vai ser quando você tiver que arrumar um emprego, Alfie? Você não vai poder levar sua mãe para aprender as coisas no seu lugar, e assim como os professores te avacalham em sala, da mesma forma vai ser quando você tiver um chefe!

— Ann, sai daqui.

— Ah, não me diga! Está aí outra coisa que eu detesto em você! Ninguém pode falar umas verdades para você, que você começa a chorar! Você é fraco, e quando não desperta pena nas pessoas, faz elas ficarem com muita raiva, sabia? Ninguém gosta de gente chorona e burra. O mundo não vai piorar só para que gente como você se sinta parte de algo!

— Eu estou cansado de dizer que está tudo bem sempre, enquanto você me diz coisas como essas, Lilith…! Você acha que eu sou tão burro assim? Eu sei que qualquer um deve gostar de ser seu amigo, mas eu não gosto de você só porque você é bonita ou porque você me ajuda com as tarefas… nem porque é cheia de amigos… eu só gosto de você, Annie! Não me importo com nada disso que te cerca…!

Fiz um muxoxo. Queria expressar alguma contrariedade, para não externar que estava começando a me sentir culpada, ridiculamente culpada por tudo o que havia acabado de dizer.

— Mas…! Quando você começa a me diminuir perto de outras pessoas que são como você, eu fico triste…! Eu começo a pensar que não sou importante para você, e…

— “Importante”, Alfie, se orienta! Importante para mim é o meu namorado, os meus amigos… digo, os interessantes! Você é só um fardo que a minha mãe e a sua me obrigam a carregar, porque assim sustentam a ilusão de que seus filhos prosseguirão a amizade que elas tiveram quando jovens! Só que elas, quando tinham a mesma idade que nós, eram garotas que podiam falar uma com a outra com a certeza de que ambas tinham a mesma idade mental! Nenhuma delas tinha que aguentar alguém como você!

— Um dia eu vou parar de te incomodar, Lilith.

— Bom saber, e espero que seja logo! Quando você se aproxima de mim, as pessoas começam a rir, porque você é uma piada de mau gosto, Alfie. Sabe o que eu vou fazer agora, Maserati Azul? Vou para o meu quarto, arrumar minhas bagagens para viajar amanhã com o meu namorado! E você vai ficar em casa, assistindo especiais de Natal com a D. Melissa te dando sopinha na boca, porque ela é a única mulher no universo que te aguenta e vai te aguentar na vida!

Eu caminhei em direção à porta, mas tive inspiração e maldade para dizer mais estas palavras:

— Ah, e outra coisa: se você não quiser mais ser meu amigo depois de tudo o que eu falei, eu não estou nem aí! Para mim, vai ser um grande favor e eu não vou encontrar problema nenhum em dizer às nossas mães que briguei com você! Já passou da hora de acabar com essa farsa. Você nunca foi meu amigo, Alfie. Está mais para um estorvo.

(…)

Depois disso, eu passei mais um ano e meio namorando Chris. Esse foi, inclusive, o tempo em que eu e Alfie passamos sem nos falar…

Alfie se tornou um adolescente calado e solitário, bem diferente da criança alegre e cheia de amigos que um dia foi. Por causa do que falei, também parou de tentar responder aos professores quando eles perguntavam quem sabia dar a resposta de algo. Apesar de muito estudioso, as notas dele caíam a olhos vistos, e ele chorava, porque sabia o que isso ia significar em sua casa. Às vezes, eu o olhava da minha janela e tinha vontade de falar com ele, mas por orgulho não coloquei essa vontade em prática.

— Idiota… bem que você podia vir aqui falar comigo! Agora fica aí sozinho com essa cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança! Bem feito!

Eu nem tinha percebido o quanto Alfie tinha crescido, e, quando me dei conta, aconteceu de uma vez só. Ele estava bem alto, e seus braços haviam perdido os contornos infantis, os ombros estavam mais largos. Se ele não abrisse a boca, até poderia ser considerado atraente. Mas não era nele propriamente que eu estava pensando. Ver Alfie pela janela naquele dia me deu uma ideia, uma excelente ideia, que eu só não executava por falta de um voluntário perfeito.

Confesso que no período em que eu e Chris namoramos, eu nunca o vi com Sarah uma vez sequer. Porém, mal terminou comigo, ele apareceu com ela em menos de uma semana. Lembranças sobre aquela confissão de Alfie começaram a apimentar minhas suspeitas, e desde então minha mente só abarcava um único desejo: o de me vingar. Eu estava disposta a separar aqueles dois de qualquer jeito! Bom, minha arma de vingança estava diante dos meus olhos, bastava apenas eu me aproximar dela, apanhá-la e usá-la…

No dia seguinte, fui à escola decidida a dar início ao meu plano. Logo percebi a oportunidade de me aproximar de Alfie quando dois moleques colocaram suas pernas para ele tropeçar, isso no meio de um corredor. O material dele ficou todo espalhado pelo chão e, enquanto todos riam, eu caminhei para apanhar suas canetas e cadernos.

— Quer uma ajuda?

(…)

— Nossa, Alfie! Como você cresceu! Estou até emocionada!

— Nós dois crescemos, Annette. Você também está grande.

Recuei, chocada ao vê-lo me chamar pelo nome de batismo. Isso com certeza não era um bom sinal.

— Você...não me chamou de Lilith.

— Eu me lembro que você dizia que não gostava desse apelido.

— É verdade. E “Ann”, “Annie”, não rola?

Alfie voltou-se para mim e ficou me encarando, mas não disse nada.

— No que você está pensando? — perguntei, não gostando nem um pouco daquela cara desconfiada dele.

— Também estou pensando nisso. Você passou tanto tempo afastada que mim que cheguei a pensar que não me reconhecia mais. Quando passava por mim, não me olhava e nem me dizia coisa alguma...

— Ah, esquece isso! Como está sua mãe?

— Bem.

— E seu pai?

— O mesmo de sempre.

Alfie olhou em volta e afrouxou a gravata. Desabotoou uns dois botões da blusa e revelou uma marca roxa no peito. Mas não foi aquilo que me chamou a atenção, e sim um corte feio e profundo que ele tinha no pescoço, semelhante a uma marca de facada. Uns três ou quatro pontos devem ter fechado aquela incisão.

— O que é essa cicatriz? Eu não me lembro dela.

— É do cateter.

— O… o quê? E para que você precisava de um?

— Para tomar uns medicamentos na época que fiquei internado – ele falou, gaguejando.

— Você ficou internado???

— Por pouco tempo. Não foi nada grave.

— Nada grave e você precisou de um cateter?

— É… é que eles reclamaram que minhas veias eram finas.

— Isso deve explicar por que você passou tanto tempo longe daqui no ano passado!

— É de antes. No ano passado, não precisava mais dele. Me ausentei por outro motivo.

— Posso fazer um comentário?

— Hum.

— Você está bonito, Alfie.

— Ah.

— Estou falando sério! — falei, tirando seus óculos.

— Ei, espere…!

— Só acho que deveria ficar sem esses óculos. Nunca pensou em operar seus olhos?

— Não posso fazer isso sem saber como meu corpo ia reagir. Seria como pedir para não enxergar nunca mais – ele respondeu, piscando repetidamente, desorientado sem o objeto que lhe permitia ver.

— Bom, mas pelo menos suas roupas você poderia mudar!

— O que há de errado com minhas roupas?

— Por que não usa um moletom, uma jaqueta? Você anda sempre tão formal, quem mais se veste assim?

Voltamos a conversar, e por todo esse tempo fiquei tentando meter na cabeça dele que ele tinha potencial para ser popular com as garotas.

— Eu não me importo com essas coisas, Lilith… digo, Annie.

— Você sabe que pode me chamar do que quiser!

— Certo.

— Mas o que acha de ir para a escola amanhã com um visual mais descolado?

Alfie combinou isso comigo, mas no dia seguinte estava vestido do mesmo jeito de sempre. Só que eu não deixei quieto e trouxe comigo uma jaqueta que Chris tinha deixado na minha casa. Para que ninguém a reconhecesse na escola, eu a tingi de preto (antes era azul, da cor de jeans). Mal dei de cara com ele, eu o arrastei para o banheiro de deficientes físicos, me aproveitando de sua baixa frequentação, e o obriguei a remover a gravata e o colete, abri alguns botões de sua camisa e depois coloquei a jaqueta nele.

— Eu não vou ter coragem de sair assim!

— Ah, para com isso! Você não está nu!

— É estranho e não combina comigo...

— Combina sim! Vamos, anda!

— Ann…!

Como se pensasse que eu poderia proteger ele de alguma coisa, Alfie se agarrou em mim, me abraçando. Queria respeitar o momento dele, mas, se eu fizesse isso, ficaríamos ali o dia todo sem que meu plano fosse executado. Por isso, fiz o que fazia sempre para obter dele o que queria: agi com rudeza e severidade.

— Anda logo! Você não quer fazer sucesso com as garotas?

— Não, eu nem consigo falar com elas!! Eu não preciso fazer isso, elas vão rir de mim!

— Claro que precisa! Quer ser esse perdedor para sempre? Você é gay, por acaso? Vem logo!

Sem consultá-lo, eu o arrastei dali e só soltei sua mão quando ele estava plantado no meio do pátio. Ele cobriu o rosto com as mãos, como se estivesse vestido de forma muito vergonhosa, o que era estranho, porque agora é que ele estava minimamente tolerável.

— Eis o novo Alfie! — anunciei, apresentando-o para minha roda de amigos como se eles não o conhecessem.

Os moleques assobiaram, em galhofa, e as meninas riram sem se preocupar em esconder de quem riam. Porém, quando Alfred tirou as mãos de cima do rosto, a risada delas virou silêncio.

— M-meus óculos… Annie…

— Eu só os devolverei ao fim da aula! Anda, se esforce! Você consegue andar sem eles! Não consegue?

— Eu… não sei.

— Olhe discretamente… — sussurrei a Alfie, apontando para a Sarah – Você ainda se lembra dela? É ela que está com o Chris agora. Lembra do que combinamos?

Friamente, mantive contato com Sarah e Chris, pois sabia que para me vingar deles não poderia aparentar estar mal resolvida com o fim de nosso namoro. Foi fácil convencer Alfred a aderir ao meu plano. Bastou pressioná-lo com aquela máxima: você concordaria em fazer qualquer coisa para recuperar minha amizade?

— Mas o que significa isso?!

Em um momento onde Sarah se afastou de Chris para ir até o bebedouro, coloquei Alfie para segui-la e puxar conversa. Depois, preparada para o que ia acontecer, esperei o momento certo para mostrar ao Chris a cena que eu queria que ele visse. Sim, fiz Alfie desperdiçar seu primeiro beijo com uma garota que ele mal conhecia por minha causa.

— Seu desgraçado, o que faz com a minha namorada?

Mas ele sacrificou bem mais do que isso. Chris caiu matando em cima dele, e Alfie era fraco demais para revidar.

— Chris, pare com isso, você vai matá-lo!

— Está defendendo seu amante, vadia?

— Você está louco? Ele me agarrou de repente, eu nem esperava…!

— Vem com essa para cima de mim? Cala essa boca…! Você é outra que não presta! Depois eu me vejo com você!

— Chris – toquei em seu ombro, ensaiando minha maior cara de contrita – Não vale a pena fazer nada disso. Você só vai ter problema com a direção do colégio e não vai resolver nada assim.

— Annie, eu nunca deveria ter me afastado de você! Pelo menos você nunca me traiu...

Sorri internamente, mas para manter o personagem me conservei séria.

— Chris, vamos conversar! As coisas não são como você viu! Aliás, essa Anne, o cara não é amigo dela? Você não acha isso, no mínimo, suspeito?

— Sai de perto, antes que eu perca a cabeça! Acha que eu não vi como você olhou para ele?

Vi Chris esbravejando o caminho todo até sumir com Sarah atrás dele. Quando eles ficaram a uma distância segura de mim, dei dois pulinhos e gritei:

— Yes!!

Alfie, no chão, tentava aos poucos se levantar. Ele esfregou a manga da jaqueta nos lábios e no nariz, e vi que por onde ele passou o rosto, deixou sangue. Fiquei assustada por ele, mas naquele contexto eu não poderia demonstrar um mínimo de compaixão e amizade.

— Deu certo, Ann…? Ele vai gostar de você de novo? Você vai ser… minha amiga novamente…?

Ele não conseguiu obter as respostas que esperava, pois apagou no meio do caminho. Alguém o acordou com éter e depois o conduziu à enfermaria. Ele só teve que pegar seu material em sala e foi liberado. Eu também tomei minha mochila e dei um jeito de escapar com ele, levando-o até sua casa.

— Mas o que aconteceu com você, Alfie? — a D. Melissa ficou em choque ao vê-lo, e não era para menos. Alfie tinha os dois olhos roxos, o nariz sangrando sem parar, um ferimento na testa, provavelmente causado por um anel que Chris não tirava do dedo e a boca toda inchada.

— Eu soube que ele andou beijando uma garota que tem namorado – expliquei, antes que ele próprio pudesse dizer alguma coisa – Olha, não briguem com ele, ele está bem machucado.

— Eu não acredito que esse moleque…! — por incrível que pareça, eu vi orgulho no tom de voz do Sr. Gerald, pai de Alfie.

— Anne, leve-o para o quarto dele enquanto eu pego o kit de primeiros socorros.

Soube que durante todo o meu período de afastamento, Alfie não disse uma palavra sequer contra mim. Ele não entregou para a mãe dele o que teria nos afastado, por isso foi relativamente fácil regressar à casa dele. Quando perguntada a respeito, disse à D. Melissa algumas meias verdades: que eu tinha entrado para um emprego de meio período, e isso aconteceu mesmo, mas por apenas três meses, e não por um ano como eu falei. Depois, mencionei um curso de fotografia que pedi para minha mãe, também esticando o prazo dele. De duas semanas, deixei que ela pensasse que ele tinha durado seis meses. Meus fins de semana, expliquei, estavam tão sobrecarregados de atividades acumuladas que eu mal podia pensar em levantar da cama, quanto mais visitar Alfie.

— Deve ter sido um período sofrido – D. Melissa lamentou – Quando Alfie trabalhou com o meu irmão para comprar aquele colar para você, também vivia cansado e com sono, coitadinho.

Eu logo percebi de quem Alfie tirou aquela burrice incorrigível.

— Bom, Alfie, depois dessa eu acho que você pode me pedir qualquer coisa!

Alfred não parava de chorar. No fundo, eu sabia que não era por causa dos ferimentos, e sim por ter sido forçado a fazer o que fez. Eu só não sabia qual era o problema real: ter beijado uma garota contra sua vontade ou a dor na consciência por ter prejudicado uma inocente. Se bem que, se essa piranha tinha se metido com meu namorado enquanto eu ainda estava com ele, de inocente ela não tinha nada e todo malfeito contra ela era pouco.

— Alfieee, estou falando com você! Não vai me pedir nada?

Hoje, vendo as coisas com mais clareza, eu consigo perceber que eu estava dando a Alfie a chance de ele me pedir algo que talvez ele não quisesse, mas eu queria: um beijo.

— Ann está feliz?

— Você está brincando? Depois daquilo? Você foi fabuloso!

— Então… eu também estou – e a conversa morreu aí, me deixando com uma frustração que, à época dos acontecimentos, eu não conseguia entender.

Alfred sabia que tinha feito algo muito errado. Mas, se isso me deixasse feliz, meu amigo não se importava de abrir mão de suas próprias convicções. Por esse motivo, além de, é claro, não saber brigar, ele não buscou se defender dos ataques de Chris. Por falar em Chris, nós até voltamos por um tempo, mas não teve mais o mesmo encanto, sabe? Convenientemente, apareceu um novo aluno chamado Peter e eu fiquei logo de cara de olho nele…

Quando soube que meu namorado estava saindo novamente com Sarah, nem me importei. Fiquei até aliviada pelo término.

A mãe de Alfie e todos no colégio ficaram muito decepcionados com ele. Muita gente passou a tratá-lo mal depois daquele episódio com Sarah, incluindo as pessoas que eram neutras durante o bullying dos mais fortes contra ele, ou aqueles que protestavam contra os maus tratos que lhe infligiam. Enfrentando tudo e todos em silêncio, mais uma vez, em nenhum momento ele citou o meu nome.

Com o tempo, Alfred também deve ter percebido que eu não me tornei a amiga que prometi que seria.