Best Friends

6 Chapter Five: Last Birthday


— Pronto. Agora eu sigo direto, é isso?

— Eu vou esperar aqui cinco minutos e você segue andando. Ontem fui na frente e você me seguiu, que eu vi!

Alfie riu timidamente e coçou a cabeça, constrangido com minha observação.

— Se achar que está perdido, apenas pare de caminhar e espere eu encontrar você. Fique visível!

— Tá bom.

Senti que ele queria dizer mais alguma coisa, mas Alfie ficou quieto. Olhei para ele com ares de interrogação, como se esperasse ele completar o raciocínio.

— Desculpe, Lilith. Eu sei que eu deveria saber vir sozinho para a parada, mas o caminho é longo demais. Eu sempre me perco quando tento vir sozinho.

— Da última vez, foi um desastre. Só te acharam de noite, achei que sua mãe fosse morrer de susto! E isso porque o caminho nem é tão longo! Imagina aquela nossa colega que a casa fica a meia hora da parada! Essa sim tem do que reclamar!

— Eu não consigo mesmo decorar o caminho. Já tentei de tudo. Eu odeio ser desse jeito! Eu odeio saber que você tem vergonha de andar comigo…! Espero que algum dia eu consiga fazer você sentir orgulho de mim, Ann.

— Duvido! – respondi secamente.

Eu estava irritada. Havia acabado de me curar de uma gripe, mas ainda estava abatida. Minha mãe me pediu que eu ficasse em casa mais um dia, para não ter uma recaída, então eu estava psicologicamente preparada para dormir até mais tarde. Alfie veio correndo para a minha casa, pois seu pai, irritado com o fato de ele não ter aprendido o caminho até o ponto de ônibus, o obrigou a sair sozinho aos berros, e trancou a mãe dele no quarto para que ela não o ajudasse. Ele não chegou a dizer isso, mas para mim é óbvio que rolou violência física. Seus olhos estavam vermelhos, e ele com certeza tinha chorado muito antes de me pedir ajuda.. Para evitar que Alfie se perdesse, eu tive que abrir mão do meu último dia de descanso para me arrumar e levar ele.

Mesmo me irritando com esses detalhes inconvenientes de sua existência, Alfie sempre foi muito carinhoso e era hábito dele colocar os sentimentos de todas as pessoas acima dos dele. Naquele dia, no recreio, ele me procurou para um particular quase ao fim do recreio.

— Ann!

— O que foi?

— Eu fiquei aqui esperando um tempão para falar com você. Acho que suas amigas já foram embora.

— Ah, é? E daí?

— Eu queria te dar meu convite de aniversário. É na sexta.

Quando vi aquele convite, como vi a muitos outros convites de aniversário do mesmo Alfie, jamais pensei…

— Eu vou ver se eu vou.

… que estaria segurando o último.

— Hah! 16 anos? Nunca tinha prestado atenção que você era mais novo do que eu, Alfie.

Ele sorriu com candura, como sempre fazia quando eu o respondia de um jeito amigável, o que era raro. Sorri para ele de volta, porque é o que a gente faz quando vê alguém como Alfie sorrindo. Mas a fisionomia dele ficou tensa em um segundo, e ele apontou para algo atrás de mim como se eu tivesse acabado de ser pega por um professor colando.

— O que foi…?

— Annie, o que é isso? — perguntou uma das minhas amigas, tomando o convite da minha mão.

Elas estavam em grupo.

— Ai, não acredito! Sério que esse nerd teve coragem para te chamar para ir na festinha de aniversário dele? Meu Deeeeeus, que falta de noção!

— Que ridículo! E é claro que você não vai, né?

— Pois é – falei, tentando acompanhar o ritmo delas. Tomei de volta o convite nas mãos e o exibi bem alto, como se quisesse ridicularizá-lo ainda mais expondo o tema infantil escolhido por D. Melissa – Por que você me deu esse convite besta mesmo? Ano após ano é a mesma coisa, e você não aprende! Só crianças fazem festinha de aniversário! — prossegui, rasgando o convite em dois pedaços, depois em quatro, e parei quando não consegui rasgar em oito, atirando o que restou do papel no rosto dele – Se você quiser ser popular, que tente ser às custas de outras pessoas!

— Demais, é isso aí!

— Mandou ver!

— Aterrorizou! Esse não te convida nunca mais para nada!

— Ai, Annie! Como você pode ser vizinha de uma figura dessas? Que vergonha! Eu me mudava para outro planeta!

— É coisa da mamãe, que me obriga a sair com ele sempre!

Alfie, ajoelhando-se naquela posição que um cavalheiro faz quando quer pedir uma dama em casamento, levou as pontas dos dedos até o seu convite despedaçado. Olhou para mim com uma expressão que era pura tristeza: sem ódio, sem raiva, sem nada, apenas tristeza. Foi como se uma flecha tivesse me atravessado o peito, mas ignorei meus sentimentos mesmo assim. Passei o braço em torno dos ombros de Richelle e a convidei a ir comigo. Enquanto me distanciava, cercada daquelas que poderiam ser consideradas as mais belas adolescentes daquela instituição de ensino, acrescentei:

— Vocês acreditam que ele não sabe voltar sozinho para casa até hoje?

— Não acredito!

— Nossa, que horror! Ele é praticamente um adulto!

— É retardado, não vê?

— Ann…!

Alfie me chamou, e eu voltei a cabeça para vê-lo.

— Por quê…?

— Porque o quê, debiloide? — gritou uma das meninas, rindo em seguida.

— Sua maldade aumenta a cada dia que passa – ele piscou, e duas grossas lágrimas desceram ao longo do seu rosto lentamente.

Richelle, com as mãos na cintura, se aproximou dele. Empurrou seu queixo para cima com o indicador (Alfie estava de cabeça baixa) e perguntou:

— Que foi? Ela perdeu um grande evento, foi? O quê que ia ter lá? Palhaços e piscina de bolinhas? Retardado.

— Isso é a cara do Alfie, se quer saber – eu disse, tentando imitar um simulacro de sorriso.

O que eu estava fazendo era cruel até para os meus padrões, e eu estava claramente desconfortável. Só as meninas não percebiam. Depois de arquejar algumas vezes, num choro silencioso, Alfie levou a parte interna de um dos pulsos para enxugar os olhos e anunciou:

— Sinto muito. Eu não vou mais te incomodar.

— O que é, hein? — desafiei – É uma ameaça de suicídio? Vá em frente, bebezão.

— Ele acha que alguém se importa! — vibraram as meninas, aplaudindo e rindo.

Nesse dia, não vi Alfie em sala no primeiro horário, e a explicação para isso é que ele teve um mal estar repentino. Os meninos disseram ter escutado alguém vomitando no banheiro masculino, e hoje acredito que fosse ele. Depois, Alfie foi pego tentando fugir para casa e levou uma detenção, porque ninguém acreditou que ele estivesse mesmo passando mal. Ele foi encontrado por volta de cinco da tarde, desmaiado na biblioteca, pelo vigilante noturno que ia iniciar suas atividades.

Eu me lembro que nesse dia cheguei em casa e minha mãe me perguntou se eu não tinha visto o Alfie, porque ele não tinha voltado para casa ainda. D. Melissa, nervosa e chorando, segurava nas mãos trêmulas uma xícara de chá servida pela mamãe. Foi terrível observar as duas juntas: mamãe, com seu terno formal e o crachá ainda pendurado, esguia, recém saída do trabalho, de salto alto, maquiada, poderosa e jovial com seu cabelo curto pintado de uma linda cor acobreada, a boca contornada em um vermelho absoluto; e D. Melissa com uma longa saia plissada e amarrotada, um suéter largo desbotado a cloro, os cabelos castanhos como os de Alfie desgrenhados e matizados de fios prateados, o rosto abatido e cheio de sulcos profundos, as mãos e os pés com luvas e botas de vitiligo. Jamais qualquer pessoa que as olhasse juntas diria que as duas tinham a mesma idade. Em comparação com o que eu a tinha conhecido, ela tinha envelhecido uns vinte anos.

E então veio o telefonema da escola, dizendo que Alfred tinha saído da escola direto para o pronto-socorro.

Naquele tempo, a saúde de Alfie já estava muito desgastada. Qualquer acesso nervoso – e ele tinha vários – já o punha de cama. Ele literalmente somatizava qualquer desgaste psicológico que tivesse, mas na época eu via isso como uma forma de chantagear as pessoas, acreditava que era tudo produto de fingimento. Eu não entendia o que aquilo queria dizer em sua plenitude e, para ser sincera, também não me importava. Eu tratava aquele menino como um brinquedo que eu pegava e largava de volta na prateleira quando tinha vontade. Não o enxergava como um ser humano e acreditava mesmo que ele estava ao meu pleno dispor. Quando fui visitá-lo, eu o fiz mais por minha consciência do que necessariamente pensando nele.

— Alfie está descansando, Annette. Volte em outro momento.

— Ele… está bem?

— Detectaram uma desidratação muito forte, porque ele não havia se alimentado. Ficou em observação até ontem e voltou para casa hoje.

— Isso é tudo o que disseram?

— Annie, meu filho não disse o que houve com ele, mas toda vez que acorda, ele não para de chorar. Você sabe de alguma coisa a respeito disso?

Engoli em seco, sem saber o que responder. Talvez ela já soubesse a resposta e estivesse apenas querendo me testar. Mas talvez não soubesse, e eu decidi apostar nisso:

— Não, não sei de nada. Alfie anda arredio e misterioso, não compartilha mais as coisas comigo como antes.

— Annie, ele não para de falar em você! Óbvio que ele não fala nada quando está acordado, porque não quer que eu o proíba de falar com você, mas vez por outra solta alguma coisa durante o sono! E tem algumas coisas estranhas que eu ando observando nessa amizade de vocês! Meu filho não é uma pessoa triste, mas ultimamente está numa situação que não quer nem levantar da cama! Alguma razão para isso deve ter e eu acho que a resposta está em você!

— A… a senhora está enganada! Eu e Alfie estamos normal, é isto. Normal.

— O que quer que esteja acontecendo, o que quer que esteja fazendo, por favor, pela saúde do meu filho, não torne a fazê-lo! Eu só vou deixar você entrar porque o próprio Alfie me pediu para procurá-la, o que aliás nem fiz! Entre.

Quando adentrei a casa deles, notei de cara que o clima estava estranho, sombrio, silencioso. Nem a TV estava ligada, e nessa hora era comum ver o pai de Alfie escutando a TV bem alto e dando ordens para D. Melissa trazer sua cerveja, ou lavar alguma louça suja. Se eu entrasse e dissesse estar preocupada com Alfie, ele faria algum comentário machista e grotesco, como numa vez que eu fui visitá-lo e ele disse na minha cara que o problema de Alfie era “não dar uma, e que eu poderia resolver isso tendo a generosidade de ceder minha boceta para ele”.

— Deixe-o assim. Não tente acordá-lo. Foi muito difícil fazê-lo dormir.

Olhei para Alfie através de uma fina fresta na porta. Não cheguei a entrar no quarto, jamais faria isso sem o consentimento da D. Melissa, mas estava torcendo internamente para que ele abrisse os olhos. Enternecida pelo sono profundo que o filho estava desfrutando, a mãe dele abriu a porta discretamente e entrou. Sentou-se à beira de sua cama, tocou na cabeça adormecida do filho e disse:

— Qualquer coisa positiva e carinhosa que você puder dizer para o Alfie, faça agora. Ele precisa muito de você neste momento.

Nesse momento e em todos os outros, isso sim, alfinetei mentalmente.

— Está bem, D. Melissa – eu respondi.

O simples som da minha voz fez Alfie se levantar de um salto – quer dizer, dentro do que permitiram suas limitações físicas.

— Ann?

— Alfie, não se levante, meu filho. Você ainda está muito fraco.

Ignorando a mãe, ele se ajoelhou na cama e me abraçou.

— Você veio, você veio, eu não acredito…! Ann…! Me desculpe, Ann! Não era para eu ter aparecido naquela hora, mas elas tinham acabado de ir embora, como eu ia saber que--!?

— Shhh! — eu o convidei a se calar, olhando para a D. Melissa, que me encarou com o dobro de desconfiança em relação a como tinha me deixado ali – Você não fez nada errado… eu que sou uma idiota!

Eu disse essas palavras com a cautela de quem se via vigiada. Porém, quando olhei para trás de novo, D. Melissa havia nos deixado sozinhos.

— Alfie… você me entende, não entende?

— Eu não sei, Anne. Você não está mais brava comigo?

— Por que eu ia estar, Alfie? É você que tem que me perdoar…

— Eu fiquei um pouco triste, mas já passou.

— Verdade?

Ele apenas assentiu com a cabeça, sem me responder para além disso. Notei que ele lagrimava um pouco. A lembrança daquele acontecimento ainda estava fresca e dolorosa em sua mente.

— Está tudo bem.

— Escuta – eu o balancei para que ele olhasse para mim – Se você se recuperar a tempo da sua festa de aniversário, eu prometo que estarei lá!

— Lilith! — ele sussurrou, e me abraçou outra vez.

(…)

— … e você sabe que eu falei tudo aquilo para preservar minhas amigas, não sabe?

— Aham.

Afaguei a cabeça dele como se faz a um cachorro. Só faltei dizer “Bom garoto!”

— Mas, Lilith…

— O que foi?

— … o que você faz perto das suas amigas para poder me preservar?

Era a pergunta que valia um milhão. É claro que eu não fazia nada. Não acreditava que Alfie era o tipo de amigo a ser preservado. Percorri o olhar por todo o quarto, evitando encará-lo. Cheguei a enrubescer de constrangimento. Alfie não costumava ter sacada para fazer esse tipo de pergunta.

— Olha, eu… eu ignoro você para que elas não fiquem falando besteiras a seu respeito! Isso é um grande sacrifício para mim, você não faz ideia de como eu sofro fazendo isso! — gaguejei – Viu? Eu também sou capaz de me sacrificar por você!

Sentei-me à beira da cama de Alfie e fiquei no mesmo nível que ele. Ele, que estava sobre os joelhos, sentou-se sobre as pernas e cerrou os olhos enquanto eu afagava seu rosto. Eu quase achei que ele estava aguardando um abraço, ou um beijo, mas quando eu me aproximei dele e enlacei seu corpo magro em meus braços, ele simplesmente desmoronou em cima de mim. Alfie imediatamente tentou se recompor, disfarçando seu abatimento, mas seus olhos ainda estavam estranhos, sonolentos, semimortos, como se ele estivesse dopado, e ele, que caiu deitado, não conseguia nem se mexer do lugar.

— Você me abraçou muito forte – ele argumentou, mas era mentira.

Aquilo era um desmaio, tenho certeza.

— Alfie! — falei, apreensiva, sacudindo-o – Olhe para mim!

— Está tudo bem, eu só preciso dormir um pouco.

Eu me distanciei dele e ele disse, com um olhar terno, enquanto eu me dirigia para a porta:

— Vejo você na sexta.

Alfie estava muito doente, mas insistia na festa de aniversário porque eu prometi que estaria lá. Não duvido que tenha fingido para a própria mãe uma recuperação que na verdade nunca aconteceu.

Naquela noite, tudo o que eu pretendia deu errado, a começar pelo fato de que minhas amigas me convidaram para uma balada imperdível: Peter, o novo garoto no qual eu estava de olho, estaria lá, afinal também era o aniversariante daquela sexta-feira. Quando fui àquela festa, eu juro, tinha apenas a intenção de fazer a social, dar “oi” rapidinho, ficar até os parabéns e depois ir para a festa de Alfie e ficar lá até a hora que aguentássemos ficar acordados.

Porém, quando chegamos na danceteria onde ia acontecer a festa de Peter, descobrimos que chegamos cedo demais, e que a festa começaria a partir de sete e meia, oito da noite, isso no horário oficial, porque na verdade o ambiente terminou de ser preparado umas oito e dez e o agito real só começou por volta de oito e meia, nove horas, com a chegada do aniversariante. Os parabéns, que minhas amigas colaram em mim para me obrigar a assistir, só aconteceu às dez e meia ou mais. Depois disso, a bebedeira ficou livre e eu parei de olhar para o relógio. Numa certa hora da noite que eu nem me lembro mais, Peter e eu fomos ao banheiro da boate aos beijos e tivemos um amasso quente lá dentro. Nós nos beijamos de língua e ele me masturbou usando os dedos. Enquanto me dava prazer, conduziu minha mão até seu sexo e me fez agarrá-lo. Meu corpo espontaneamente já sabia o que fazer. Com os movimentos certos, senti sua masculinidade crescer na minha mão, e seus fluidos a encheram. Ele, que me beijava, se afastou de mim e disse:

— Ei, vai com calma, estou sem camisinha. Não vai dar para ser hoje.

Só ao escutar sua dispensa que parece que caí na real sobre a gravidade do que eu ia fazer. A experiência inédita me trouxe um pouco de estranheza e culpa, por isso peguei um táxi e segui para casa meio atordoada. Eu não recusei e nem manifestei qualquer desejo de resistir ao ato, afinal na hora tudo foi ok e eu estava de acordo com a coisa toda, mas depois fiquei me sentindo suja, violada, como se tivesse acabado de acontecer comigo uma daquelas coisas que divide sua vida em Antes e Depois. Por isso, quando desci do táxi e passei pela frente da casa de Alfie, olhando através das cortinas abertas sua sala decorada com balões coloridos, não tive paciência de entrar. Era como se eu não fizesse mais parte nenhuma daquilo. Fiquei do lado de fora, acompanhando o movimento e pensando que nem o melhor argumento do mundo faria Alfie me desculpar. No relógio, já despontava meia noite e quarenta e cinco minutos.

Vi alguns garotos que nunca se deram bem com Alfie ao redor de seu videogame de última geração, um presente que, se a D. Melissa conhecesse bem o filho, saberia que ele jamais teria intelecto para usá-lo. Todos brincavam exceto ele, que, sentado no alto da escada, parecia ser confortado pela mãe. Ele deve ter esperado por mim a noite toda. Pude imaginar claramente seu rosto a cada vez que a porta era aberta e algum convidado entrava: a decepção e a expectativa estampadas em sua cara, as horas correndo, eu ausente, ele ansioso e me esperando minuto a minuto… Entre um e outro palavrão e risos dos garotos que jogavam, escutei a mãe de Alfie dizer:

— Filho, não fica triste… A Annie deve ter tido algum compromisso importante…ou aconteceu alguma coisa. Você já foi falar com a mãe dela, não foi? O que ela disse?

Alfie se levantou e saiu descendo as escadas.

— Alfie, querido, aonde você vai? É a sua festa, todos os seus amigos estão aqui…

Os meninos, preocupados com a possibilidade de serem expulsos, olharam para a direção daquela conversa. Entreolharam-se, deram de ombros e voltaram a jogar.

— Eu só quero ficar sozinho um pouco, mãe.

Ela o agarrou pelo braço. Foi a primeira vez que me dei conta de que Alfie estava mais alto que D. Melissa.

— Filho… você está chorando?

— Eu estou bem.

— Não está. É por causa dela, não é?

Alfie abriu a porta da frente, ignorando a pergunta da mãe, que o seguia a passos frenéticos. Quando eu me dei conta de que ele vinha para fora mesmo, corri para trás de uma árvore. Alfred se sentou na escadinha de quatro degraus que havia na frente de sua casa.

— Mãe, está tudo bem. Me deixa ficar sozinho, por favor.

— Está bem, filho. Mas não fique aqui por muito tempo. Vou pegar um cobertor para aquecer você e vou dar uma olhada no que seus amigos estão fazendo.

— Obrigado, mãe.

D. Melissa foi para dentro, e Alfie ficou ali, chorando de soluçar. Depois de tudo o que tinha acontecido comigo, tudo o que eu queria era lavar o corpo, botar a cabeça em ordem e dormir, se eu ainda conseguisse. Eu estava muito envergonhada e preocupada em como ia repercutir na escola o que eu e Peter tínhamos feito. Ele ia contar para alguém? Ia manter segredo? Não sabia nem mesmo dizer o que eu ia fazer se ele tornasse a me procurar de novo. Quando ele disse “não vai dar para ser hoje”, ele disse mesmo o que eu entendi: que na próxima vez que me encontrasse, ia querer transar para valer? Enfim, por todas as variáveis do mundo, a última coisa que eu queria era me encontrar com Alfie e ter que dizer a ele por que não fui na sua festa. Me doía, especialmente, saber que, se eu tivesse ido à festa dele, nada daquilo teria acontecido.

Discretamente, quis me retirar dali dando passos para trás até encontrar o fim do terreno de Alfie, mas eis que uma lata de refrigerante que eu não tinha visto pôs meu plano abaixo. Alfie olhou para a direção em que eu estava, e cumprimentá-lo foi inevitável:

— Oi… Alfie…

— Eu fiquei te esperando a noite toda… você prometeu…!

— Alfie, eu prometo que te explico tudo amanhã, mas agora eu preciso mesmo ir para casa.

— É sempre assim, sempre depois, sempre mais tarde, sempre depois das suas amigas, dos seus namorados, sempre depois…depois!

— Não começa a fazer espetáculo, tá? Eu estou cansada, e bebi um pouco também. É melhor falarmos disso amanhã, quando estivermos mais calmos. Eu também estou cheia de problemas e não quero discutir com você!

— Eu estou cansado de sempre ficar por último em tudo, Annie! Eu sou sempre o último “plobrema” que você precisa resolver! O que eu fiz de errado para você me odiar tanto?

— Oh, Alfie! Não começa com esse dramalhão que eu estou com problemas bem maiores do que os seus, pode estar certo disso! Vamos conversar amanhã, já disse! Não quero ouvir falar de suas lamentações hoje!!

— Eu não vou te dar outra chance de falar comigo, Ann!

— Por mim, tanto faz! — dei de ombros e virei as costas – Nerd idiota! Acha que eu te devo alguma satisfação? Não fui à sua festa estúpida porque não quis, pronto, acabou! Tive uma festa melhor e cheia de gente descolada para ir, era esta a explicação que queria?

Alfie agarrou meu braço, me forçando a encará-lo:

— O que você disse? Você foi mesmo a outro lugar? É por isso que está arrumada…! Sua mãe me disse que você estava doente quando fui te procurar!

— Pois é, mas agora você sabe a verdade! Está feliz agora? Me larga! Que inferno! Você está me machucando! Não está satisfeito, já não disse o que você esperava ouvir? O que quer de mim ainda?

— Annie! Isto tudo só aconteceu porque você prometeu que iria vir! Você prometeu! — disse ele, às lágrimas – Esta festa foi muito mais para você do que para mim! Você era a única pessoa que eu esperava ver!

— Problema seu! Será que você nem desconfia de que qualquer baladinha de fim de semana é mais interessante do que sua grandessíssima festa de aniversário? Eu já sou uma mulher, não tenho tempo para festinhas infantis de nerds espinhentos que ainda pensam ser crianças!

Nesse momento, ele me soltou simultaneamente a este grito desnecessário que dei:

— Me solta!

Para completar, eu o empurrei. Ele caiu sentado na grama, mas logo se levantou e veio atrás de mim. Por um segundo, olhei para a janela de sua casa, para acompanhar se D. Melissa já chegava com o tal cobertor que prometeu que ia buscar, e o que vi foi todos os moleques que até então jogavam com a cara colada no vidro. Isso redobrou minha preocupação, eu não queria ser vista ali brigando com ele. Corri para a rua, e Alfie veio atrás de mim. Ele tentou me alcançar, mas eu comecei a correr em zigue-zague com intenção de fazê-lo desistir, ao bancar o idiota diante de todos. Mesmo causando risos nos amigos lá dentro ele não tinha noção nenhuma de quando estava sendo ridicularizado e continuou tentando me seguir, acompanhando os contornos absurdos que eu fazia ora na grana de seu quintal, ora no asfalto da rua à frente de sua casa sem cerca.

— Vai ficar mesmo correndo atrás de mim? Então corra, Alfie, corra, idiota!

Outros convidados que ainda não tinham visto aquilo começaram a surgir atrás dos primeiros, e ao fim de tudo, vi que mais de dez meninos ficaram ali concentrados, acompanhando a humilhação de Alfred e rindo. Normalmente, ficar diante de uma plateia me deixava mais sádica, mas naquela ocasião, eu ia ter que prestar contas do que fazia à D. Melissa, e a possibilidade não me animou a continuar.

— Anne, me escuta!

— Chega! Eu não sou obrigada a falar com você! Eu vou para a minha casa, e nem pense em me seguir!

— Eu preciso te dizer…

— Não quero ouvir! E saia do meio da rua!

Talvez isso tenha sido uma intuição, talvez um aviso óbvio.

— Eu não posso mais guardar isso só para mim, Ann. Eu gosto de…

Antes que ele terminasse o que ia me dizer, um carro o atingiu em cheio. Eu mesma por muito pouco não fui baqueada pelo automóvel.

— ALFIE! — gritei, correndo na direção dele.

O motorista do carro e sua namorada desceram, e pelas coisas que ouvi eles falando, eles sequer tinham se dado conta de que tinham passado por cima de uma pessoa.

— É um cachorro? — perguntava a mulher, abobada, mesmo vendo um garoto deitado no asfalto – Ai, meu Deus, é um cara! Enoch, você acertou um moleque!

É sério, me deu vontade de bater naquela retardada histérica.

— Não mexa nele! Eu vou chamar alguém! — o cara falou, apanhando seu celular no bolso e começando a digitar o número da emergência, imagino.

Atraída pelo barulho que escutei, vi que todos os garotos que estavam na sala nos observando correram para fora. D. Melissa, que vinha atrás com o cobertor na mão, querendo entender o que tinha se passado, veio atrás deles, perguntando de um e de outro o que eles estavam fazendo, no que estavam pensando, o que estava acontecendo. Meu ar, que tinha ido embora todo gritando o nome do meu amigo, voltou de uma só vez e eu estava cansada como se tivesse corrido da escola para casa vinte vezes. Eu hiperventilava. Caí por cima das minhas pernas, sentando numa posição estranha e desconfortável que fazia com que elas parecessem um W. Não sustentando aquela posição por muito tempo, engatinhei até Alfie. Ele estava consciente, apesar de uma cachoeira de sangue molhar a parte de trás de sua cabeça. Sorri ao constatar que ele estava vivo, e quis segurar a cabeça dele nas minhas mãos, mas o cara que dirigia o carro gritou comigo para que eu não mexesse em nada. Obedecendo-o – eu não sabia o que fazer mesmo ali – repousei com a maior delicadeza possível Alfie de volta no chão, e achei que o acidente que o vitimara houvesse tido apenas aquilo de saldo, mas um lado consciente meu no fundo sabia que não tinha sido tão simples assim. Tentar me enganar não adiantou: quando ouvi os “Meu Deus” dos meninos em volta, foi que parei para olhar mais para baixo, e a visão era assustadora.

Uma das pernas de Alfie estava completamente dilacerada, o sapato que ele usava a vários metros do pé descalço (eu fiquei olhando para aquele sapato por um bom tempo, como se ele fosse a coisa real na qual eu devesse depositar minha atenção). A parte de baixo da perna dele estava torta para o lado como se ele tivesse criado uma nova articulação; a tíbia e a fíbula estavam expostas, eu literalmente vi os dois ossos apontando para o alto. Na outra perna, esta que, por incrível que pareça, estava em melhor estado, quem deu um jeito de deslocar para fora do lugar foi o osso da rótula. Uma parte da pele havia se rasgado, revelando parte do conteúdo interior. Toda a pele das pernas em volta, nos dois casos, estavam muito raladas, e o tecido da roupa desgastado como se ele tivesse sido arrastado por vários metros, o que provavelmente se tornou possível pelo fato de o carro ter passado por cima delas.

— Meu Deus!… Meu Deus!… — era tudo o que eu conseguia falar, enquanto soluçava.

— Senhora, eu juro que eu não tive culpa! Eu não sei como, esse menino se jogou na frente do carro, e…!!!

— Foi do nada, do nada mesmo!!

— Ele estava correndo atrás da Annie, que estava fugindo dele! – atiçou um dos moleques. Desgraçado filho da puta.

— Annette, saia daqui!

— D. Melissa, eu juro que posso explicar tudo o que aconteceu, eu só…

— TIRE AS MÃOS DE CIMA DO MEU FILHO!! — ela gritou, jogando o cobertor que tinha trazido para Alfie agressivamente sobre mim.

Andei alguns metros catatônica, ainda com aquele lençol na cabeça, sem acreditar no que estava acontecendo. Toda aquela histeria atraiu a atenção de todo mundo, como era óbvio que ia acontecer, e mamãe não foi exceção. Foi nela que me encostei para conseguir me manter em pé. Eu estava perplexa, em choque. O mesmo Alfie que me segurou daquele jeito tão agressivo, agora estava perdendo rios de sangue e poderia morrer! Poderia ficar com sequelas permanentes! E eu era responsável direta por aquilo!

— O que aconteceu com minhas pernas, mãe? Dói muito!

— Não olhe para baixo, filho! Olhe para a mamãe, fique calmo, eu estou aqui…!

Parece que, enquanto esteve do lado de dentro em busca de trazer um lençol para Alfie, a D. Melissa soube, com alguns daqueles moleques que estavam lá, o que eu tinha feito com o convite de aniversário de Alfred. Na escola todos sabiam disso, de modo que eu sequer conseguiria imaginar qual deles fez isso. Considerando a fealdade do que eu tinha feito, mamãe não conseguia entender por que eu queria tanto sair dali…

Mas o pior disso não foi encarar nenhum deles, não. Depois disso, o Alfie que eu conheci desapareceria para sempre.

~

Alfred passou muito tempo no hospital, acho que uns três ou quatro meses. D. Melissa não queria mais visitar mamãe por minha causa, mas eu escutava elas duas conversando pelo telefone, combinando horários para tomar conta dele no hospital. A necessidade obrigou D. Melissa a procurá-la: eu soube que o pai de Alfie tinha saído de casa dias antes do aniversário do filho, e que D. Melissa tentou ocultar esse fato até o último momento, porque ele estava animado demais para a festa. Quando voltou para casa, essa nova realidade logo desabou sobre ele.

— Ele raspou a conta, eu não tenho nada agora! Não tenho mais nada que eu possa vender aqui – escutei D. Melissa lamentar, numa ligação que mamãe fazia com ela no viva-voz – A minha cunhada descobriu que meu irmão estava me ajudando com as contas da casa e fez um escândalo…! Ele já teve problemas demais por minha causa... e eu não tenho sequer como pagar ele, não sei mais o que fazer…!

— Calma, Melissa! Eu acho que posso pedir um adiantamento para o meu chefe e ajudar vocês!

— Eu não posso te pedir uma coisa dessas, Janet! Você sabe que eu não vou poder pagar!

— Não pense nisso agora. A prioridade é cuidar de Alfie, é nele que temos que focar!

— Eu mal sei escrever, como vou arrumar um emprego, Janet? E, mesmo que eu arrume um emprego, com quem deixarei meu filho? Como vou honrar as dívidas que tenho contraído? Eu não trabalho há mais de vinte anos! Ninguém vai querer me contratar uma mulher velha e burra como eu!

— Você já entrou em contato com a Assistência Social?

— Eu já me cadastrei em alguns benefícios, mas até agora não tive resposta. Eu não posso mais esperar! Vou ter que fazer alguma coisa, agora que Alfie saiu do hospital eu posso, eu não sei, eu estava pensando em fazer alguma coisa e vender, quem sabe dava certo! Todo mundo sempre elogiou meus doces, talvez eu possa fazer alguns e tentar vender pelo bairro…

— Eu acho isso uma excelente ideia, Melissa! Por isso mesmo, acho que se eu te emprestasse…

— Eu não tenho nenhuma garantia de que vou poder te pagar, Janet, entenda!

— Não tem problema, tenho certeza de que você faria o mesmo por mim e por minha filha. Além disso…

Notei que, nessa hora, a ligação caiu. Na verdade, D. Melissa bateu com o telefone na cara da minha mãe, mesmo.

— Que estranho!

— Mãe, eu preciso te contar uma coisa sobre o aniversário de Alfred – eu me aproximei dela, decidida a contar aquilo que D. Melissa, por não sei qual razão, nunca revelou.

(…)

— Eu não sei nem o que dizer. Eu estou envergonhada, chocada! Sinto como se eu tivesse feito parte de uma grande mentira – disse ela, ao terminar de me ouvir.

Para comover ela, ou não, não sei, eu chorava todas as minhas lágrimas.

— Eu nunca deveria ter dito a Alfie que você estava doente naquele dia! – ela concluiu, por fim – Eu só não queria que ele ficasse magoado e triste com você, porque ele é o amigo mais precioso que você tem e eu não queria que você o perdesse. Mas agora tudo faz sentido! Melissa sempre deu vários pretextos esse tempo todo para nunca aparecer aqui! Quando eu falava de você ir ver Alfie, conversar com ele, ela dizia que ele estava na casa do irmão dela, ou na casa de qualquer pessoa! E, minutos depois disso, eu ficava intrigada ao vê-lo lá! Annie, minha filha, o que foi que você fez?…

De qualquer maneira, D. Melissa não demorou muito tempo para aceitar o empréstimo que mamãe ofertou. O motivo era claro: quando voltou da casa dela, mamãe disse que ela não tinha mais nada na geladeira, e que estava sem TV, sem aparelho de som, sem DVD, sem micro-ondas, sem a coleção de CDs que tinha, vários móveis estavam faltando, enfim, mamãe disse que a casa dela estava vazia como a casa de um toxicômano. A prateleira cheia de brinquedos e enciclopédias que Alfie adorava não tinha mais nada. Alfred e sua mãe, no pior momento de suas vidas, estavam sozinhos e sem entretenimento algum. Pelo que soube da mamãe, o pai de Alfie estava se escondendo na casa de um e outro parente, fugindo de toda a responsabilidade sobre a mulher e o filho.

(...)

Um dia, eu estava voltando da escola quando fui assediada por ele e outros caras ao passar na frente de um bar. Ele estava bebendo todas e tinha os braços em volta de uma garota jovem. Pela idade que ela aparentava ter, devia ter acabado de largar a escola. Aquilo me enojou de uma tal forma, eu fiquei com vontade de dizer tanta coisa, mas não consegui falar nada. Apenas levantei o dedo médio para ele e saí andando. Ele me chamou de “vaquinha metida” enquanto os outros caras o vaiavam e riam.

(…)

Soube que Alfred ficou com sequelas definitivas do acidente. Esteticamente, conseguiram refazer o formato de suas pernas, mas na prática elas não serviam para mais nada. Ele não conseguia se apoiar por mais do que cinco segundos na perna menos danificada, e na que ficou em pior estado, ele perdeu vários centímetros de comprimento do membro, e para bom entendedor isso quer dizer o seguinte: ele jamais voltaria a caminhar novamente, nem mesmo a mancar. No começo, tinham esperanças de que ele fosse conseguir andar de muleta, mas o passar dos meses eliminaria essa possibilidade. Por algum tempo, D. Melissa ficou obcecada em pesquisar na internet aquelas cirurgias de extensão de membros, alongamento ósseo, sei lá como que chama, e conversava sobre isso com minha mãe com uma empolgação que até me dava alguma esperança, mas sua realidade financeira não condizia com seus planos e ela logo perceberia isso, quando não tivesse mais nem um centavo para fazer uma reles pesquisa dessas na biblioteca virtual do bairro. Por fim, o assunto ficou resolvido no seguinte: mamãe deu um jeito de falar com a comunidade católica local para fazerem uma ação que permitisse a Alfie ter uma cadeira de rodas, e logo acharam um doador. Uma família cuja matriarca tinha morrido há poucas semanas fez o favor de fornecer a ele a cadeira da falecida, e só assim Alfie pôde novamente sair da cama para voltar às aulas.

Quando D. Melissa começou a fazer seus doces, a ideia era de que ela os preparasse de tarde ou de noite e os distribuísse de manhã, depois de levar o Alfie na escola. Mas ela perdia tanto tempo nesse traslado e os pedidos começaram a aumentar de uma tal maneira que ela não teve outra opção, a não ser aceitar a sugestão da minha mãe de que eu o levasse comigo quando fosse para a escola, ainda mais depois de um episódio onde ela ficou tão cansada que desperdiçou uma fornada inteira de biscoitos ao tentar assá-los de madrugada. Ela chorou com tanta dor que minha mãe chorou junto com ela nesse dia.

Levá-lo com ela para ficar de olho nele enquanto fazia as entregas também se revelou uma escolha infeliz: Alfie reclamava muito de querer ir para a cama e deitar, pois sentia dores excruciantes, além de pedir para ir ao banheiro repetidamente nos momentos mais inoportunos.

A família do irmão dela não estava disposta a cuidar de Alfred e a assistência social falhou no sentido de disponibilizar cuidadores por menos horas do que D. Melissa necessitava. Eu fiquei durante um bom tempo me perguntando por que D. Melissa precisava de alguém para cuidar do filho se trabalhava em casa, mas fora o fato de ela ter que entregar pessoalmente as encomendas, tinha um detalhe: o cheiro dos bolos, biscoitos e petiscos preparados pela mãe enjoava Alfie terrivelmente, a ponto de ele botar o que tivesse no estômago para fora. Irônico pensar nisso agora, porque no normal dele, Alfie adorava os doces da mãe. A doença dele tinha chegado a fazer isso, a expulsá-lo de sua própria casa.

Uma vizinha com quem ela deixou o Alfie por uns dias enquanto fazia suas entregas o abandonava sozinho por horas, pois se recusava a sair da frente da televisão para assisti-lo por poucos minutos que fosse. Nas duas semanas em que ficou lá, Alfie voltou sujo de excrementos para casa umas três vezes, pois não tinha condições de ir sozinho ao banheiro. No fim, ela tirou o corpo fora após uma discussão com D. Melissa, onde ela teria dito na cara dela que Alfie não era seu filho e D. Melissa que se virasse.

Uma outra pessoa com quem Alfie foi deixado, foi um senhor viúvo – e esse caso foi estranho e abriu margem às piores interpretações possíveis. Dessa vez, escutei mamãe e D. Melissa conversando que a mãe de Alfie “achou que esse homem fosse bom porque ele adorava cães e gatos, mas Alfie voltava de lá quieto e aterrorizado”, e ela começou a desconfiar de “maus tratos, se não coisa pior”. Outro trecho que me chamou a atenção nessa mesma conversa das duas foi minha mãe perguntando “Mas então, por que você não o denuncia?”, e D. Melissa, acariciando os cabelos do filho adormecido no sofá, respondeu:

— Alfie não quer me dizer nada, e eu não posso acusar ninguém por coisas que só eu desconfio.

Esse acontecimento para mim foi a gota d’água. Naqueles dias, D. Melissa já tinha voltado a frequentar nossa casa, mas eu era instruída pela mamãe a me trancar no meu quarto e não sair de lá enquanto a visita não acabasse. Geralmente, eu escutava a conversa delas escondida. Nesse dia, porém, eu me revelei.

— Deixe Alfie aqui, que eu cuido dele.

A discussão foi longa, mas obtive êxito. Foi dessa forma que Alfie voltou para minhas mãos.

(…)

— Agora, eu vou cuidar de você. Ninguém mais ficará entre nós...

Ele foi entregue a mim oficialmente em um domingo pós missa. Sua mãe havia adquirido o hábito de ir nelas, pois além de ter seus doces comprados em peso por lá, também fazia isso como forma de agradecer a comunidade por tudo o que eles vinham fazendo por ela e pelo filho. Alfie usava terno e estava todo vestido de luto, exceto pela camisa branca. Parecia saído de um velório, mas estava lindo. D. Melissa pretendia passar o domingo preparando suas receitas, e mamãe não ficaria em casa porque iria ao cinema com um colega de trabalho (claro que estava rolando um clima entre eles, mas ela estava com vergonha de compartilhar isso). Logo de cara, eu estava encarregada de passar um dia inteiro sozinha com ele.

Eu já sabia que Alfred estava imerso numa espécie de greve de silêncio ao levá-lo para as aulas nos outros dias, mas foi preciso passar um dia inteiro ao lado dele para ter noção da dimensão que isso tomou. Ele não sorria mais. Antes, eu tinha que mandar ele calar a boca para ele parar de falar, e agora era eu que me calava de vergonha ao ver que eu perguntava as coisas dele, oferecia as coisas para ele, e ele fingia que eu não estava mais ali.

Para começar, ele se recusou a comer o dia inteiro. Não quis tomar nem água. Contrariada com suas atitudes, atravessei a rua e fui para uma lanchonete próxima. Pedi um milkshake, uma minipizza e uma enorme porção de batatas fritas. Devorei isso diante dele bem devagarinho, para forçá-lo a me pedir qualquer coisa, pois eu sabia que ele adorava aquilo tudo. Não teve jeito: tive que dar o braço a torcer e perguntar se ele queria um pouco. Ele me encarou por um segundo e depois desviou o olhar. Toquei no braço dele e o sacudi, reforçando a pergunta, fingindo que não estava entendendo que estava sendo ignorada. Ele tirou o pulso do alcance de minhas mãos violentamente e girou sua cadeira de rodas de modo a ficar de costas para mim.

Bufei, mas voltei a me sentar diante da TV para acompanhar o episódio final de uma série que queria ver muito. Do nada, a TV desligou e eu achei até que a energia elétrica tinha caído, mas a lâmpada continuava acesa. Fui mexer atrás do televisor para ver se o plugue estava frouxo, e nada. Só quando olhei para Alfie que entendi o que estava acontecendo: ele estava com o controle remoto na mão, e havia feito aquilo sem me consultar.

— Alfie, por que fez isso? — perguntei, ligando novamente a TV no botão.

Acompanhei a programação por mais cinco minutos e, mais uma vez, ele desligou a TV na minha cara. Inspirei fundo e, contrariada, liguei a TV de novo. Ele tornou a repetir o mesmo comportamento. Apertei os punhos, lutando contra aquela fera interior que queria me fazer bater nele.

— Já chega! Me dá esse controle agora!

Muito sério, aliás, sério que beirava o assustador, ele escondeu as mãos com o controle na parte de trás da cadeira de rodas. Não queria ficar ali medindo forças com ele, mas também desejava muito ver o fim da série. Argumentei com ele que os minutos estavam passando, e que o episódio iria acabar. Nada o convenceu.

— Você adorava ver essa série comigo, acompanhou todas as temporadas até agora, e agora que a série vai encerrar, você não me dá o direito de ver o último episódio? Você está de sacanagem, garoto?

Ele me respondeu com um sorriso frio e perverso, uma expressão pavorosa que jamais imaginei ver no rosto dele. Recuei, com medo. Fui até a varanda para esfriar a cabeça, torcendo para que minhas amigas tivessem gravado o episódio de alguma forma. Minha respiração estava acelerada, eu não sabia dizer se mais de temor ou de raiva. Se fôssemos apelar para a lógica, eu tinha muito mais chances de ferir Alfie do que o contrário, e esse era meu medo, perder o controle e, consequentemente, a última oportunidade de me reconciliar com meu melhor amigo e reconquistar a confiança de sua mãe. Eu precisava ter calma. Ou melhor, eu estava com essa ideia em mente quando escutei o barulho de algo líquido sendo derramado.

A primeira coisa que me passou pela cabeça foi que eu teria deixado a torneira ligada, ou que sei lá, eu não conseguia explicar a origem daquele barulho. Quando saí da varanda e fui correndo para dentro, o tapete da sala estava todo coberto de milkshake, e Alfie estava tranquilamente sacudindo o copo para fazer cair dele as últimas gotas da bebida, não estando nem aí se estava sendo visto ou não. Ele jogou o copo para o alto me encarando, sem desviar o olhar, como se estivesse me desafiando. A barra da minha saia branca e minha coxa ainda sujaram de chocolate um pouco, com os rodopios que o objeto fez no ar antes de atingir o chão.

— Mas que porra é essa que você está fazendo? Enlouqueceu, moleque?

Sem me dar resposta, ele girou sua cadeira e me deu as costas de novo. Rodou, rodou, e percebi que ia em direção à saída.

— Ei, espera! O que você vai fazer?

Alfie só não conduziu sua cadeira em direção à escada frontal da varanda porque eu segurei suas rédeas a tempo. Arfando, desesperada, gritei:

— Você quer morrer? O que acha que vai acontecer com você se cair daí?

Sem respostas, eu o conduzi para dentro de novo. Por todo o caminho, ele tentou segurar as rodas, para evitar que a cadeira tomasse a direção que eu queria, mas eu me aproveitei de minhas vantagens físicas e o trouxe para dentro de volta, ele querendo ou não.

(…)

As horas pareceram caminhar quatro vezes mais devagar do que o habitual. Eu estava exausta, mas não era a única; depois de limpar a sala e lavar o tapete de toda a arte que Alfie aprontou, me deparei com o mais absoluto silêncio. Eu me aproximei dele devagar, temerosa do que ia encontrar, mas o que vi me arrastou à lembrança dos mais doces anos de minha infância: com a cabeça levemente pendente para a direita, ele dormia. Seu rosto tinha amadurecido muito pouco, e ele ainda tinha traços suaves e pueris como os de uma criança, com leves contornos demarcados pela adolescência. Os óculos, que sempre foram grandes para o seu rosto, caíam-lhe junto ao peito, presos por correntinhas de nylon. Toda a carranca que ele ostentava nos últimos dias não estava mais ali; ele dormia indefeso como nos velhos tempos. Quis tocar em seus cabelos num gesto de afeto, mas temi que ele acordasse e recomeçasse seu ciclo irritante de pequenas vinganças, por isso o deixei em paz.

Concluí que a opção mais segura, para mim e para ele, era mantê-lo ali, descansando. Peguei um cobertor grosso no quarto e com ele cobri suas pernas, me esforçando ao máximo para que ele não percebesse. Sucesso. Tomei um livro escolar, depositei sobre a mesa de centro da sala e comecei a fazer alguns exercícios. Eu estava muito desconcentrada e minha produtividade não estava nada boa, mas ela piorou de vez quando eu comecei a escutar um “clic-clic-clic” de caneta. Ergui os olhos, que estavam focados no caderno, e os mirei na direção de Alfie. Ele não estava mais na ponta da sala como estava antes, e sim diante de mim, do outro lado da mesa. O pano que eu havia colocado sobre suas pernas estava desembrulhado, espalhado pelo chão. Foi assustador, porque eu nem percebi ele se aproximando!

— Você quer ir para a cama deitar?

Solícita, eu me dispus atrás dele, no intuito de empurrar sua cadeira, mas quase caí ao perceber que ela não se mexia.

— Mas que droga tá acontecendo aqui?

Alfie tinha aprendido a usar uma alavanquinha que travava as rodas da cadeira. Ele a usaria contra mim muitas outras vezes, mas naquele dia eu demorei a encontrá-la.

— Alfie, não faça isso! Eu quase caí por cima de você! Com você recém operado, algo grave pode acontecer! Isso não tem graça!

Tentei empurrá-lo, mas ele segurou as rodas com as mãos de novo. Bufei, contrariada. Posicionei ele de frente para mim e por fim me sentei no sofá.

— Você quer conversar?

Sem me responder, ele continuou apertando o botãozinho da caneta, produzindo aquele barulhinho clic-clic-clic irritante. Fiz um muxoxo, olhei para o alto e o encarei de novo.

— Eu não me lembro de você ter perdido sua língua no acidente, Alfie! Estou perguntando se você quer conversar. É sim ou não?

Ele olhava para a pontinha da caneta surgindo e sumindo, numa clara intenção de fingir que eu não estava ali. Tomei a caneta das mãos dele e a atirei na parede, fazendo com que ela se partisse em peças variadas que se espalharam pela sala toda. Agarrei Alfie pelos braços, como naquele dia em que eu me recusava a acreditar que Chris estava me traindo e disse, forçando-o a me encarar, dada a proximidade de nossos rostos:

— Pare com isso. Você está tentando me sabotar, e eu não vou permitir, garoto!

Por um milésimo de segundo, vi que seu olhar sério e carrancudo foi substituído por aquela expressão inocente e cheia de ardor que ele fazia quando, sem querer, eu chegava muito perto dele quando nós éramos pequenos. Seu olhar passeou por minha boca, e em seguida por meus olhos. Estava carregado de desejo, era visível. Enrubesci. Forçosamente, porém, depois ele voltou a me olhar daquele jeito duro que já estava se tornando comum, mas eu vi, por um instante eu pude perceber que ele não me odiava. Soltei seus braços irritada e ao mesmo tempo confusa e pesarosa. Ele estava querendo tirar minha paciência, mas eu ia ter que ser forte se quisesse recuperá-lo; essa era a nossa última chance.

— Desculpa – falei, afagando seus braços que deviam estar doendo, pela forma forte com que eu os agarrei – Você está bem? Eu machuquei você?

— Água – e essa foi a primeira coisa que ele disse em todas as horas que esteve lá.

— É para já – respondi, toda sorridente, contente em ter arrancado algo dele.

Entreguei o copo com água em suas mãos. Ele me devolveu imediatamente sem beber, dizendo que estava muito gelada. Fui até a torneira externa da geladeira e misturei a água gelada com um pouco de água natural.

— Toma.

Ele bebeu uns dois goles de água, e quando pensei que ele fosse tomar o resto, ele simplesmente cuspiu o restante na minha cara. Afastei-me, chocada. Fechei bem os olhos, pois eles ardiam. Um dos lados foi acertado com muita força.

— Ai! Merda! — xinguei, esfregando-os.

Bem nessa hora, escutei as vozes de D. Melissa e mamãe conversando pelas proximidades.

— Oi, Annie! Oi, Alfie! Chegamos! — mamãe alegremente anunciava sua presença.

Elas abriram a porta e entraram praticamente juntas. Esfreguei o rosto na manga da blusa para enxugá-lo e me apressei em correr para o meu quarto, já que D. Melissa estava vindo junto com mamãe.

— Alfie, onde está Annie? Anniiiiieee, querida! Trouxe um presente para você!

Ouvir aquilo me deixou animada, e eu fui ao encontro delas. Encarei por um segundo a D. Melissa para sondar sua reação à minha presença, e ela, mesmo tentando forçar uma cara neutra, virou o rosto. O ambiente ficou silencioso e constrangedor, por isso agradeci minha mãe e disse que ia para o meu quarto, arrumar umas coisas.

— Oh, querida! Experimente! Achei a sua cara, acho que você vai gostar.

Abri o embrulho, tentando ignorar o climão que estava ali, e me deparei com um lindo vestido florido de primavera.

— Mãe, que lindo! Eu adorei!

— O que fizeram aqui o dia todo? Parecem tão quietinhos – mamãe perguntou, afagando a cabeça de Alfie.

— Nós vimos um pouco de série, almoçamos e depois fomos estudar um pouco.

Eu fiquei olhando para ele embasbacada. Aquilo era tudo mentira!

— E aí, filho? Pronto para ir? — D. Melissa perguntou ao filho, ignorando a mim e à minha mãe.

— Sim, mamãe. Estou cansado. Tudo o que eu quero é a minha cama de volta!

Continuei olhando para Alfie com quanta estranheza foi possível. Lá estava ele, o meigo Alfie, de volta. Nada daquela expressão carrancuda e nervosa, não. Com a minha mãe, ele também agiu normal. Sorria como antigamente, falando com aquela vozinha suave e amável:

— Boa noite, D. Janet.

— Boa noite, meu querido. Vou ficar de devendo um presente também, prometo que na próxima eu trago algo muito bonito para você!

— Obrigado, mal posso esperar!

— Obrigada, minha amiga, e até amanhã. Não sei como agradecer o que vocês têm feito por nós – disse D. Melissa, à minha mãe. Constrangida e tesa, acrescentou, à distância mesmo, olhando para mim um segundo e em seguida baixando os olhos: — Sou muito agradecida por cuidar de Alfie, Annette.

Nossa, como eu odiava ouvir meu nome normal! Isso nunca era indicador de boa coisa, nem na voz da mamãe, nem na voz de ninguém.

— Filha, eu preciso te dizer: que dia maravilhoso…! Eu e o Solomon fomos à galeria de arte, depois almoçamos em um restaurante maravilhoso que eu nunca tinha ouvido falar! Lá eles serviam…

Mamãe falava, falava e eu não escutava nada.

— … depois, aproveitamos que era caminho e fomos para o cinema! Você já viu o filme…?

Eu só conseguia pensar: aquilo era real? Aquilo tinha mesmo acontecido? Qual era a de Alfie? Merda, isso parecia tão cruel e dissimulado da parte dele! Se eu disser que esse tipo de coisa está acontecendo, quem vai acreditar?

— Annie, está me ouvindo? Ô, Annie! Ah, filha! Eu estou tão feliz!

(…)

No dia seguinte, como tinha voltado a ser de praxe, eu levava Alfie para a escola. Já tinha me acostumado ao fato de ele não dizer uma palavra enquanto estávamos juntos, mas naquele dia ele falou, no tom sarcástico e amargo que tinha passado a lhe ser usual:

— Suas amigas estão vindo aí, e minha mãe não está mais por perto para você precisar fingir que se importa comigo.

Forcei a vista e realmente enxerguei as meninas vindo em nossa direção. Ótimo, se Alfie queria uma prova de amizade para voltar a ser o mesmo comigo, eu ia dar isso a ele.

— Annie, fala sério! Desse jeito, nós vamos acreditar no que andam dizendo: que, além de babá do atrasado do juízo, você agora também virou namoradinha dele! — Richelle começou o massacre.

— Como será que aleijados trepam?

— Credo, isso deve ser nojento, Molly!

— Muito nojento!

Cada coisa que elas falavam era pontuada por gargalhadas, algumas naturais e outras claramente prolongadas e forçadas, para aumentar a crueldade das piadas. Inspirei fundo, doida para socar aquelas desgraçadas, mas eu era uma só e eu não queria expor Alfie ao que elas eram capazes de dizer. Por pior que ele estivesse se comportando, elas ainda não sabiam de nada disso, por isso seus ataques eram gratuitos e desumanos. Tomei as rédeas da cadeira de Alfie e tentei conduzi-lo em outra direção. Contrariada, percebi que ele usava aquela trava de segurança para impedir nosso avanço. O que ele queria fazer ali? Quanto mais ele precisava ser humilhado para ficar satisfeito?

— Em qual série ele está agora? Na primeira ou na segunda? — provocou Munich.

— Por incrível que pareça, está na mesma sala que a gente! Anos pendurado nas costas da Annie dá nisso! — Susanna atalhou, rindo – É verdade que ele é tão insignificante que ninguém percebe que ele está lá, mas ele é um dos nossos!

— Já pensou ele na foto de formatura? Pior que, por viver sentado, ainda vão colocar esse lixo na frente de todo mundo!

— Você poderia largar esse estorvo, Annie! Aí, ele ia ter que se virar sozinho, ou seja: ia reprovar e não ia mais precisar se formar junto com a gente e estragar a foto do nosso anuário escolar! — acrescentou Richelle.

— É! Você poderia empurrar ele naquela lagoa lá atrás do colégio e fingir que não viu nada, afinal, se ele já não tinha chance nenhuma de ser algo na vida antes, imagina agora! — Munich emendou — Seria até um ato de caridade!

— É verdade que ele perdeu as pernas correndo atrás de você? Todo mundo disse isso! — Susanna me perguntou.

— CALEM A BOCA! — gritei, perdendo a paciência – Vocês já pararam para se ouvir? Como vocês têm coragem de dizer essas coisas de cara limpa?

— Ah, não vem querer bancar a santinha agora! — disse Richelle – Se for verdade o que andam dizendo, tudo o que aconteceu com ele é sua culpa!

— Sim, é minha culpa, mas eu estou tentando me redimir! A mãe dele me deu um último voto de confiança para conservarmos nossa amizade, e...!

— E você faz questão?

— Sim, faço!! Nós nos conhecemos desde crianças, vocês não são capazes de mensurar o valor que Alfie tem para mim!

— Ela está ficando louca!

— Depois de nós fazermos toda a sua propaganda para o Pete, é difícil acreditar que você vai largar aquele gato para ficar com essa coisa! Tenha dó, Annie!

— E nem é só o Peter! Por onde passou, Annie ficou com os caras mais gatos!

— Mas, depois de tantas aventuras, Annie descobre o verdadeiro amor com um quatro olhos! Que lindo!

— Ah não, precisamos contar isso para todo mundo!

— Annie, não estou te reconhecendo! Você ainda tem tempo para não precisar passar por essa vergonha!

— Eu não me importo mais com o que nenhuma de vocês pensa! Eu não vou mais abandonar o Alfie por causa de vocês! Para mim já chega, vocês não entendem isso? Eu não quero mais ser essa pessoa cruel, eu não me vejo mais sendo amiga de pessoas como vocês, me deixem em paz!

Quando as meninas foram embora, eu me ajoelhei diante de Alfie, tomei seu rosto nas mãos e lhe dei um beijo na testa. Meu Alfie normal estaria com o rosto molhado de lágrimas, mas aquele não estava. Isso era muito estranho, era como se algo básico estivesse faltando nele.

— Alfie… o que aconteceu com você?

Sem responder o que perguntei, ele limpou meu beijo de sua testa com a costa da mão.

Sem mais ter o que fazer, distanciei-me dele, dando-lhe o espaço que eu imaginei que ele queria. Desativei a trava das rodas de sua cadeira e conduzi Alfie até nossa sala. Lá chegando, escutei pessoas rindo de nós discretamente. O Alfie de antigamente baixaria a cabeça ou me perguntaria, olhando para mim com aqueles olhos de cachorrinho que ele tinha: “Do que eles estão rindo, Ann?”, mas aquele novo Alfie não. De cabeça erguida, ele encarava diretamente cada um de nossos agressores. Foi ele, aliás, que mudou a direção de seu olhar para a lousa, fazendo com que eu percebesse o que estava desenhado lá: dando ênfase em nossos órgãos genitais, fizeram um desenho que representava eu e Alfie transando em cima de sua cadeira de rodas. Os óculos imensos identificavam Alfie, os cabelos longos da boneca de palito simulavam minha aparência.

— Quem foi o idiota que fez isso? — bradei, e me limitei a dizer isso, porque ninguém respondeu minha pergunta.

Coloquei minha mochila sobre a carteira, tirei meu caderno para fora, arranquei uma página e fui limpar aquilo, antes que algum professor visse.

Aos poucos, eu ia sabendo o que era ser contaminada com a má sorte de Alfie.