Best Friends

7 Chapter Six: Depression


Chegamos em casa. Eu estava destruída, como se as palavras de Richelle e das demais garotas tivessem me navalhado o corpo todo. Aquilo era um único dia de bullying, e pensar que Alfie passava por isso sempre me fez ter um novo olhar sobre seus problemas de socialização. Eu estava com muita raiva delas, e se Alfie estivesse, em relação a mim, com um décimo do ódio que eu estava daquelas garotas, eu estava correndo risco de vida.

(…)

Enquanto escovava os dentes, fitei meu semblante cansado no espelho. Eu parecia mais velha, com os olhos sem vida e os lábios curvos para baixo. Enxaguei o rosto, pisquei algumas vezes e voltei a me encarar, tentando me concentrar no que eu era, numa tentativa de extrair daqueles olhos mortos a alegria que um dia eles tiveram. Sorrir me deixou com expressão de louca. Não me reconhecer mais me fez chorar.

Cheguei à conclusão de que a perseguição social cria algo irreversível no seu psicológico, um enfraquecimento definitivo; sua autoconfiança fica minada e você cai vulnerável como um doente. Ninguém, nem com as melhores palavras, consegue mais te convencer de volta de sua superioridade, e aqui estamos falando de mim – imagine a situação de quem não carrega meus talentos e atributos. Seu sorriso nunca mais volta a ser sincero e toda tentativa de forçá-lo se revela uma imitação vazia e inútil de algo que pode se repetir esteticamente, mas mentalmente, jamais. Naquele tempo eu estava testemunhando, indefesa, cética e impotente, a demolição total dos meus privilégios.

(…)

Ao sair do banheiro, mudei de personagem e tentei exibir novamente a minha indumentária de imbatível, orgulhosa, imponente. Pelo menos de Alfie eu queria esconder meu abatimento, ainda que para fazer isso eu tivesse que desviar meus olhos dele o tempo todo.

Apanhei meu vestido – o mesmo com que mamãe tinha me presenteado no dia anterior – de cima da cama. Era com ele que eu estava na aula, e como eu tinha usado ele pelo dia todo, o natural era que eu quisesse colocá-lo no cesto de roupas sujas, mas logo estranhei que ele estava encharcado e cheirando muito forte. Ao aproximá-lo do meu rosto para identificar que odor familiar era aquele, vi uma enorme mancha de desbotamento em sua estampa; Alfie havia derramado nele um frasco inteiro de água sanitária. Olhei para trás e o vi na entrada do quarto, com aquela cadeira de rodas que me lembrava de sua deficiência e que atualmente era seu escudo para tudo. Perto de seus pés, estava o invólucro da garrafa, como uma sinistra propaganda da minha desgraça...

(…)

Fazer Alfie comer também estava dando trabalho, tanto porque ele não queria comer por birra como também porque ele dizia passar mal com tudo o que era oferecido.

— Você está irreconhecivelmente magro – disse-lhe, impaciente, certa vez – Assim, você vai cair doente.

— Eu não quero comer isso! Me faz enjoar só com o cheiro.

Ele tentava bloquear o avanço do prato mostrando as palmas da mão para mim, num gesto que significava querer afastamento. Mas eu estava disposta a fazê-lo comer de qualquer maneira, e não sairia dali enquanto não conseguisse.

— Alfie, por favor, não complica! Sua mãe vai reclamar depois que você está emagrecendo! É isso que quer: deixar sua mãe triste?

Quase parecendo o meu Alfie de antigamente, ele se rendeu e obedeceu meu comando. Comeu umas duas colheradas e depois voltou a insistir:

— Eu não quero mais.

— Não – eu o havia encurralado entre duas paredes, para não lhe deixar alternativas – Você só vai sair daqui depois que comer tudo!

Quando finalmente terminei de alimentá-lo, fui lavar seu prato. Estava me sentindo a última palavra em realização, o semblante todo demonstrando a satisfação pelo dever cumprido. Se eu fizesse aquilo todos os dias, suas chances de adoecer diminuiriam, ele ficaria com um aspecto melhor e consequentemente nada no sentido de ele emagrecer sob meus cuidados seria dito. Quem sabe até conseguiríamos restabelecer a comunicação, pois éramos obrigados a interagir durante essa atividade.

— Viu como você conseguiu? — disse, enquanto lavava a louça – Olhe como seu prato ficou limpinho!

— Eu quero ir ao banheiro.

— Eu já lavei o prato, falta secar. É rapidinho.

— Agora.

— Larga de ser exagerado e espera!

Ele ficou em silêncio por um momento, mas poucos segundos depois eu escutei Alfie tossindo e aquele barulho inconfundível de gente vomitando. Apesar de tentar, na época, acreditar que ele tinha feito aquilo de propósito, como um bulímico faria, eu sabia que a coisa não tinha se dado daquele jeito. A cara dele era sofrimento puro, e ele lagrimava e arfava como se estivesse com dificuldade real de respirar, como se sua garganta estivesse se fechando e se contraindo de forma alheia à sua vontade. Fiquei em choque; ninguém conseguiria fazer aquilo por querer.

Larguei o prato em cima da pia e corri na direção dele. Não sabia se limpava primeiro ele ou primeiro o chão, ou se tirava suas roupas, eu não sabia de nada. Nunca tinha sido preparada para uma situação daquelas. Peguei um guardanapo de pano e, lutando contra todo nojo que pudesse sentir, tentei limpar seu colo, a parte mais afetada e emporcalhada de todas. Descartei aquele guardanapo, que ficou cheio, na lixeira, e fui atrás de outro, com o qual limpei o peito de sua camisa social – ele não se vestia de outro modo.

— Desculpa, Alfie! Eu não sabia… Eu… eu achei que você estivesse – sem saber o que fazer com as mãos, eu fazia gestos aleatórios idiotas. Ele devia estar me achando uma estúpida, e olha que era difícil imaginar Alfie achando alguém mais estúpido do que ele — … não sei, fingindo, só para me irritar. Você tem que parar de tentar me boicotar, eu acabo não levando nada do que você diz a sério! Eu estou cuidando de você, você depende inteiramente de mim agora! Não pode se prestar a essas tolices, tem que dialogar comigo, trabalhar comigo, para que esse tipo de coisa não volte a acontecer!

Sem dizer nada, ele tentava se levantar da cadeira de rodas, e naquele momento eu pude ver como ele se sentia frustrado por depender de mim, uma pessoa que ele odiava. Quando aproximei o lenço de seu rosto para limpá-lo, ele o desviou com tanta força que acredito que esse movimento deve tê-lo ferido; sua bochecha ficou vermelha. Ele tentou sair de perto de mim, e eu tentava voltá-lo para mim novamente, precisava fazer isso para higienizá-lo.

— Pare, droga!! — gritei, frustrada com seu comportamento rebelde.

— Eu não quero mais ficar aqui! — ele berrou de volta, aos prantos – Me devolva para minha mãe! Eu fico em casa sozinho, eu só não quero mais ficar aqui!

Sem discutir, empurrei sua cadeira de rodas na direção do banheiro. Ele tentava deter o avanço da cadeira com sua perna menos pior, mas todas suas tentativas de parar no mesmo lugar foram frustradas, pois segui a condução impiedosamente, acho que cheguei a machucá-lo, pois teve uma hora que ele parou de tentar me deter. Coloquei um andador em sua direção e, ao fim desse andador, a cadeira de banho.

— Venha, eu te ajudo.

Ele mais uma vez recusou minha ajuda, me empurrando várias vezes, recuando sua cadeira, avançando na direção da pia e tentando ligar a torneira para se limpar sozinho. Frustrada e esgotada, deixei ele fazer o que queria. Sentei-me na tampa da privada e esperei ele ver por si mesmo que não conseguiria sozinho o que buscava, pelo menos se o que ele desejava fosse ficar completamente limpo.

— Sua cadeira sujou toda – argumentei, exasperada – Você tem que levantar daí para eu poder limpar!

Eu me aproximei dele e coloquei suas mãos em volta do meu pescoço. Alfred ainda tentou oferecer alguma resistência, mas caiu no chão. No limite, chorou. Era um choro desesperado, desconsolado, daqueles de comover o mais duro dos corações. Não me animei a tripudiar dele, apenas estendi a mão e o auxiliei sem fazer mais nenhum comentário sobre suas limitações. Numa combinação de apoio em meus ombros, andador e cadeira de banho, consegui finalmente transferi-lo de lugar.

— Tem que tirar isso – falei, sobre sua camisa.

Calmamente, eu o ajudei a escovar os dentes e tomar banho. Se foi difícil tirar sua roupa, vestir nele um pijama foi pior ainda, mas consegui. O fato de ele não resistir a nada do que foi feito mostrava que ele estava esgotado a ponto de abrir mão do orgulho. Conduzi Alfie à minha cama para ele poder descansar. Ele queria ficar sozinho para poder chorar com privacidade, mas eu não ia me distanciar dele de novo e permitir que ele realimentasse toda aquela postura inimiga.

— Alfie, levanta um pouco. Preciso pentear seu cabelo.

Com a cara virada para o outro lado, ele me ignorava. Seu peito, que tremulava em alguns momentos, dava pistas de que ele ainda chorava.

— Tá. Deixa que eu faço daqui mesmo.

Quando passei o pente na lateral da cabeça dele, um punhado anormal de cabelo veio junto. Fiquei muito espantada com aquilo, e perguntei sem reservas:

— Alfred! O que é isso? Seu cabelo… caiu um monte!

Levando a mão ossuda ao encontro do lugar que eu penteei, ele cerrou os olhos e disse:

— Deixa assim mesmo. Eu só quero dormir.

Fiquei sentada ao seu lado, esperando que ele me dissesse alguma palavra amiga e consoladora, como diria antes, com aquele sorriso meigo:

— Não é nada de mais, Ann.

Mas nada desse tipo foi dito. Ainda de olhos fechados, ele disse com hostilidade:

— Pare de olhar para mim. Assim, eu não consigo dormir!

Mesmo tentando parecer indiferente quanto ao próprio estado, ele não me convencia. Eu sabia que ele estava escondendo algo de mim, e isso ao mesmo tempo que me preocupava, me abatia. O que seriam todas aquelas cicatrizes que ele tinha pelo corpo, que eu vi durante o banho? Eu não era estúpida a ponto de não saber a verdade, mas não confrontava ninguém sobre isso com medo de sabê-la, real, palpável e anunciada. Na minha cabeça, não saber dos problemas de Alfie faria eles sumirem. Essa forma egoísta de pensar, aliás, foi responsável por eu não dar a ele o amparo devido. Que ele me perdoe por isso.

(…)

Não foram poucas as vezes que sonhei que milagrosamente Alfie levantava de sua cadeira de rodas. O sonho mais comum era eu acordar com ele pulando em cima de mim dizendo bom-dia como ele fazia quando era pequeno e eu perguntando “aquele atropelamento foi um pesadelo?” e ele me respondia com outra pergunta: “Que atropelamento?”. Era cruel acordar e ver em volta, no meu quarto, tudo aquilo que mamãe tinha comprado do próprio bolso para facilitar a estadia de Alfie na minha casa: sua cadeira de banho, a comadre (aquela bandeja hospitalar que ora os pacientes usam para fazer suas necessidades fisiológicas quando deitados, ora para escovar os dentes sem precisar sair da cama), suas muletas, o andador e, quando eu ia para a varanda, as duas tábuas compridas que serviam para fazer de nossa escada comum uma rampa improvisada e provisória, só para a entrada dele...

Teve um dia que eu pensei que esse sonho ia se realizar quando notei que estava muito silêncio, e assim que fui ao cômodo da casa ocupado por Alfie (ele nunca queria ficar sozinho comigo em lugar nenhum) eu o vi dando uns três passos apoiado em suas muletas. Tudo ilusão: ele estava literalmente se equilibrando, bastou me ver para despencar. Quando ofertei ajuda, ele esbravejou, me mandou embora, gritou comigo, disse que eu era culpada pelo seu estado, surtou pra valer. Sem conseguir me aproximar, fui obrigada a deixá-lo sozinho, e ele ficou ali no chão por horas. Só concordou em receber ajuda quando estava a minutos do momento em que sabia que sua mãe ia chegar, como se não quisesse mesmo que ela soubesse de nada daquilo. Sua dissimulação estava atingindo um nível demoníaco.

(…)

Conforme os dias iam se passando, seu humor só piorava. Como se soubesse o quanto essa acusação me feria, começou a repetir frequentemente que estava daquele jeito por minha culpa.

— Você não se cansa de repetir isso, quando vai parar de me torturar com esse assunto?

— Só quando eu morrer.

— Que besteira é essa agora?

— Você se lembra quando eu te entreguei o convite do meu último aniversário?

— O que tem?

— Nada.

Mas eu sabia a que fato ele estava se referindo. Quando eu rasguei o convite e ele começou a me questionar sobre minha maldade, eu perguntei se ele ia se matar e o incentivei a ir em frente. São palavras que eu nunca tirei da minha cabeça, obviamente, depois de tudo o que aconteceu nem tinha como, mas também porque imediatamente após falar isso, me arrependi. Era minha intuição me avisando sobre tudo aquilo que estavam escondendo de mim.

— Eu nunca disse aquelas coisas de coração, Alfie. Só queria que você entendesse isso.

— Se você não pensasse aquilo, teria dito outra coisa.

— Eu não sei o que deu em mim! Só não queria ser fragilizada pela piedade diante das meninas, só isso! Eu sei que fui uma idiota!

— Você pensava que seria mais fácil viver sem precisar cuidar de mim.

— Não é verdade, Alfie!

— Não? A mamãe também pensa assim.

— Pensar isso de mim tudo bem, mas até da sua mãe?

— Ela conseguiu um emprego numa confeitaria aqui perto, ficou sabendo?

— Minha mãe falou por alto. Fico feliz por isso. Vai ser mais fácil para vocês ter uma renda fixa.

— Outro dia ela estava falando ao celular, ela está saindo com algum cara de lá.

Sorri. Achei que isso fosse o adequado, afinal era uma notícia feliz.

— Que bom, Alfie.

— Ela só está esperando eu morrer para reconstruir a vida ao lado dele – disse ele, após gaguejar várias vezes a palavra “reconstruir”.

— De onde tirou isso? Sua mãe ama você, tudo o que ela está fazendo é por sua causa! Agora ela não pode mais arrumar um namorado que você se sente passado para trás? Deixa de ser egoísta!

— Papai foi embora por minha causa. Ele fez uma carta, eu a vi escondida na gaveta da mamãe. Ela não me mostrou, achou que eu não fosse saber. Mas eu vi.

— Seu pai saiu de casa porque é um covarde que abandonou a mulher e o filho! Isso não diz nada sobre você!

— Ele disse que eu era um fracassado que ia viver sendo ajudado por todo mundo, e que no dia que minha mãe morresse eu ia virar um mendigo.

— Que horror!

— Ele está certo.

— Não, não está!

— Está, sim. Eu não sirvo para nada, não tenho nenhum talento, não decoro coisa alguma para a escola e nem mesmo sou bonito.

Fiquei sem saber o que responder.

— Eu não tenho várias namoradas como o Luigi, meu pai falou disso também. Que era melhor Luigi estar vivo e eu ter morrido.

— Alfie, para com isso!

— A mamãe vai ter uma outra chance, e espero que dessa vez o filho novo dela dê certo.

O que ele disse não fazia nenhum sentido para mim. Foi exatamente isso que eu disse, ao que ele completou:

— Ela me contou ontem. Menti que fiquei feliz para ela não se preocupar.

— Alfie, a sua mãe…?

— Eu me acostumei a pensar que tudo o que ela fazia era por minha causa, e agora que ela faz uma coisa por ela mesma, eu estou triste. Não é sobre ser justo, nem ser maduro. Eu não estou aqui para conseguir isso.

Dei de ombros, sem saber o que falar. Mas estava satisfeita de finalmente ver ele se abrir comigo.

— Eu estou sendo egoísta por pensar que ela deveria esperar?

— Esperar o quê, Alfie?

— Nada – ele meneou a cabeça subitamente, como se admitisse a si mesmo que falou mais do que deveria.

— O que está acontecendo que todos vocês não querem me contar? Fora a sua… — deixei o espaço da palavra “invalidez” em aberto, pois não queria pronunciar aquilo – tem alguma outra coisa acontecendo com sua saúde que eu não sei?

Ele me encarou por longos segundos sem responder nada. Repentinamente, mudou de assunto:

— O que acha de assistirmos a MTV?

(…)

Depois desse dia, eu achei que Alfie voltaria a falar normalmente comigo. Mais uma vez, me enganei. Ele tinha mergulhado de novo naquele tipo de silêncio mórbido e assustador que não combinava nem um pouco com aquele garotinho que eu reconhecia como falante a ponto de beirar a inconveniência. Fiquei sabendo que o motivo era que naquele fim de semana D. Melissa traria o seu novo namorado para minha casa, para todos nós o conhecermos.

Mamãe me deu maiores detalhes da ordem dos acontecimentos, que até eu desconhecia: Solomon, o cara que estava andando para cima e para baixo com ela, comprou um dos doces da D. Melissa e reconheceu que ela tinha muito talento naquilo. Ele disse que conhecia um amigo que talvez pudesse empregar D. Melissa, e através dessa pequena rede de contatos, a mãe de Alfie conseguiu um emprego formal numa confeitaria. Por isso que, nas últimas semanas, ela estava voltando mais tarde e às vezes até deixando Alfie dormir na minha casa. Ela dizia estar fazendo vários extras para sustentar os caros medicamentos de Alfie, mas hoje vejo que no meio dessas extras devia estar acontecendo um ou outro encontro romântico também.

Como o negócio do relacionamento aconteceu eu não sei, mas escutei mamãe e D. Melissa conversando uma vez que esse cara, chefe da mãe do Alfie, tinha aconselhado ela a cuidar mais de si mesma e tinha até bancado uma ida dela ao salão de beleza para ela renovar o penteado e esconder os fios brancos, a pretexto de manter uma boa aparência perante a freguesia. Devo reconhecer que ela recuperou muito da jovialidade nisso. Nessa mesma conversa, fiquei sabendo também que a mãe do Alfie estava tentando formalizar o divórcio, mas o pai dele já tinha faltado umas duas audiências e ela estava quase para conseguir o ganho de causa por abandono de uma das partes, isso tem um nome jurídico que eu não me lembro agora. Se fosse luta, seria vencer por W.O. (Como a divisão dos bens se daria eu não faço ideia, mas parece que a ideia de D. Melissa era morar com seu novo amor, o que deixara Alfie ainda mais contrariado).

Imagino que mais produzida, usando um uniforme justo que valorizava suas medidas e agora confiante por se sustentar pela primeira vez em décadas, a mãe de Alfie tenha despertado alguma atenção positiva do chefe, e assim ela começou a receber convites para sair. Pelo que entendi, e pelo que os prazos mostravam, a atração entre eles havia sido imediata e fulminante; foi um espaço de duas semanas para eles começarem a oficializar encontros, e uns quarenta e cinco dias para ela perceber que estava gestante. Aquela irresponsabilidade que seria uma tragédia se o homem não fosse outro se revelou, na verdade, uma grande alegria para os dois, que agora estavam apenas esperando o divórcio sair para se casarem no cartório. Todos estavam felizes, minha mãe principalmente ao ver a alegria da amiga, mas Alfie não estava nem um pouco satisfeito com aquilo. Uma vez, ele me disse essa frase que só depois de sua morte eu entenderia:

— É como se eles estivessem me enterrando antes do tempo!

Isso aconteceu num dia em que o namorado de D. Melissa apareceu com um buquê de flores para ela e um berço branco em seu dia de folga. Alfie estava na minha casa, por isso eles não chegaram a se encontrar. D. Melissa até chorou de alegria, e quando veio visitar minha mãe, a primeira coisa que veio contar foi isso.

(…)

Uma coisa curiosa sobre esse comportamento de Alfie é que, reforço, apenas eu sabia de seu pensamento real acerca das coisas. Tanto para mamãe quanto para D. Melissa as coisas estavam indo muito bem. Eu cheguei a pensar até que eu estava delirando, pois a discrepância entre as palavras e ações de Alfie eram assustadoras. Diante da mãe, ele dizia alegremente que queria ver sua barriga crescer e que estava louco para segurar seu irmãozinho, ou irmãzinha, nos braços; para mim, ele falava coisas do tipo “eu sei que ela só quer que eu morra para viver tudo isso sem mim”, “eu só sirvo para atrapalhar a felicidade dela” e era daí para baixo. Uma vez tentei falar a verdade para a minha mãe e ela me disse bem assim: “Eu acho que você deve ter sonhado, querida. Alfie jamais diria uma coisa dessas”.

Nesse dia do berço ele estava impossível. Tentando distraí-lo, eu o convidei para estudarmos juntos o conteúdo do dia, mas ele lançou para longe o caderno umas duas vezes e, enquanto eu apanhava seu material do chão, ele repetia como um louco “eu não preciso disso, nada disso adianta para mim agora”. Quando eu perguntei a ele o que ele queria dizer com aquilo, ele começou a alternar choros e risos numa sequência completamente estranha e bizarra. “Eu não vou ser ninguém, por que tenho que fingir que isso vai mudar alguma coisa?”, ele prosseguiu. Quando eu comecei a chorar com ele, ele simplesmente riu da minha cara e me disse que todo o meu pranto era fingimento, que eu nunca choraria por ele, que eu estava mentindo e que eu só chorava por garotos como o Kurt e o Chris. Ele me fez ficar realmente envergonhada da minha vida amorosa. Alfie não me disse isso com essas palavras, na verdade nem me lembro que palavras ele usou, mas o raciocínio da coisa era: ele me considerava promíscua. Ah, lembrei: ele me disse que eu era “vulgar”, que “saía com todo mundo” e que “toda hora estava a fim de um cara diferente”. Pela primeira vez na vida – e eu nunca pensei que algo assim pudesse ser possível – eu percebi semelhanças entre o Alfie e o pai dele.

(…)

Numa certa sexta-feira, um dia antes do sábado onde o encontro entre nossas famílias aconteceria, eu não pude mais escapar das investidas de Peter e disse que estava tudo bem ele ir à minha casa. Primeiro, porque eu não poderia ir até a casa dele, e segundo, porque na minha casa eu teria o Alfie para segurar vela e impedir que ele avançasse o sinal.

Enquanto eu empurrava a cadeira de rodas de Alfie, ao voltar da aula, ele me sobraçava os ombros, cheirava meus cabelos, me dava beijos na orelha ou mordidas nos lóbulos. Eu o empurrava pedindo discretamente para ele se conter, mas ele não ligava. Notei que a cada risinho que eu dava, Alfie cerrava os olhos, como se estivesse contendo um ataque de fúria. Às vezes, ele apertava as mãos, e com uma ou outra reação, não importava – eu me afastava de Peter para que aquilo não continuasse.

— Bom, esta é a minha humilde residência! Agora, ajude-me com aquelas coisas – falei, apontando as duas grandes tábuas de madeira que garantiam o acesso de Alfie à minha casa.

— Você faz isso sozinha todos os dias?

— Às vezes, eu peço ajuda do menino que entrega jornais. Ele passa mais ou menos nesse horário, até porque também estuda. Parece que ele é da sala vizinha.

— Acho que eu sei quem é o paspalho – disse ele, com aquele jeito arrogante de colegial que se acha o vencedor na hierarquia escolar.

Após subirmos com Alfie, – eu dei graças a Deus por Peter estar ali, só para ter ajuda com isso – eu fechei a porta e entramos.

— É amplo aqui!

— É, minha mãe escolheu esta casa a dedo. A decoração também ficou por conta dela. Já moramos aqui há bastante tempo.

— Já decidiu o que nós vamos assistir?

— Tem Alvin e os Esquilos, O Justiceiro e aquele Juno, que está todo mundo comentando que é bom. Eu ainda não vi ele, tô pensando em assistir.

— 2008 tá sendo foda com os lançamentos! Pena que eu não trouxe O Homem de Ferro. Eu não sei se você gosta de filme de herói, mas esse ficou bem bacana, eu gostei.

— Nós podemos assistir qualquer hora dessas.

— Mas poderia ser na minha casa. Claro, se você quiser e tiver tempo – ele falou, lançando um olhar de escárnio para Alfie, que avançava sua cadeira de rodas para o meu quarto, só para não ficar com a gente ali na sala.

— Então, sobre “isso” — eu indiquei a direção que Alfie tomou com o queixo – vai ser um baita problema.

— Você não tem com quem deixar esse figura não? Quando foi que virou babá dele?

— Olha, faz tempo – suspirei, resignada.

(…)

Não vou mentir que acreditava mesmo que Peter tinha ido em casa para ver filmes. O caso é que eu ainda torcia para estar errada. Durante toda a exibição de Juno, ele ficou forçando contato, seja tocando no meu ombro, tentando me dar beijos de surpresa, beijando meu pescoço e minha nuca, subindo a mão pelas minhas pernas começando do joelho e, por fim, descendo a mão pelo meu pescoço, ombro, busto e encerrando a investida acariciando meu mamilo por cima da blusa. Suas tentativas eram interrompidas por eu indo ao banheiro, eu pegando refrigerante, eu fazendo pipoca ou eu indo ver como Alfie estava. Como ele estava de porta trancada pelo lado de dentro, não pude fazer valer essa desculpa por muito tempo.

(Vou confessar uma coisa aqui: não era que eu não estivesse a fim de Peter, mas eu não conseguia tirar da cabeça aquilo que Alfie falou sobre minha conduta)

Quando eu me sentei, Peter estava com o braço esticado ao longo do encosto do sofá. Ele usou aquela posição estrategicamente para me apanhar pela cintura assim que eu me acomodasse. Fingi não estar incomodada com aquilo e fiquei dando pipoca em sua boca para mantê-lo ocupado, mas como sempre fazia, ele apontava para a TV como se quisesse mesmo ver o filme e quando eu olhava para a tela, ele devagarzinho passava a mão em mim como se estivesse distraído. Dessa vez, ele segurou minha cintura de lado e a ponta do seu polegar começou a levantar minha blusa lentamente. Minha respiração começou a acelerar de tensão: eu estava sem sutiã, ele ia literalmente tocar no meu peito se percorresse alguns centímetros de pele! Segurei o balde de pipoca juntando os cotovelos para deter o avanço de sua mão, mas mesmo assim ele encontrou algum erro na minha defesa e sua mão foi cheia no meu seio, que imediatamente reagiu ao seu toque; eu permiti que ele continuasse o que vinha fazendo, porque, não vou negar, estava ficando muito gostosa aquela carícia.

— Nossa, você está terrivelmente excitada!

— Como pode saber? — desafiei, ofegante.

— Você está prensando as pernas.

— Mentira!

— Como se soubesse que elas correm o risco de não ficarem mais juntas.

— Você é um merda de um convencido – ri forçadamente, mas ainda sem tirar a mão dele de onde estava.

Confiante por eu não detê-lo, ele já tocava meu mamilo com as pontas dos dedos sem fingir distração nenhuma. Com o indicador e o polegar, ele o puxava e acariciava suavemente.

— Quando uma mulher está excitada, eles endurecem e os seus estão duros como pedra!

— Ah, pára…!

— Naquele dia, eu não tinha notado o quanto seus seios eram deliciosos. Quero vê-los agora mesmo!

— Agora estamos vendo filme! — resisti, mas sem um tom real de resistência na voz.

— Agora, não estamos mais – ele pegou o controle remoto e desligou a TV.

Olhei para ele com um misto de apreensão e excitação, e coloquei a pipoca na mesinha de centro à nossa frente. Nos reorganizamos no sofá de modo a eu deitar sobre o sofá com as costas, mas manter as pernas no chão; ele por cima de mim.

— Você fechou a porta quando a gente entrou?

— Estou com preguiça de apurar.

— Eu vou ver – ele disse, mas eu o puxei pela gola da camisa.

— Claro que eu fechei!

— Verdade?

— Uhum.

Ele se aproximou de mim e me beijou ruidosamente, respeitando todas as etapas do beijo, molhando minha boca devagar e aí sim invadindo-a conforme meu consentimento. Depois de me beijar a ponto de sufocar, Peter levantou minha blusa e revelou aquilo que tanto queria ver.

— Olha o que temos aqui! Caramba, são enormes!

Eu ri, com timidez:

— Apenas satisfatórios.

— Enormes ou satisfatórios, quero colocar minha boca neles.

— Não se esqueça de que temos um visitante.

— Não estou nem aí para ele.

Ele começou pelo lado esquerdo, molhando-o e pincelando-o bastante com a língua antes de colocar os lábios nele. Eu olhava para a entrada a todo momento, pois não tinha certeza se a porta estava fechada mesmo. Porém, teve um momento que o avanço de Peter foi tão prazeroso que eu simplesmente fechei os olhos. Senti sua mão no meu joelho, e devagarzinho ele saiu percorrendo o longo caminho das minhas coxas até minha intimidade, tocando-a por cima da calcinha (eu estava usando saia, o que facilitava o processo). Ele afundou o dedo, demarcando aquela parte que dividia minha intimidade ao meio.

— O que acha de a gente fazer igual àquele dia, hein?

Fiquei com vergonha de responder que sim, mas ele entendeu como tal e afastou minha calcinha para o lado. Não teve tempo de começar o que ia fazer, pois escutamos o barulho de algo derramando. Achei que ele tivesse batido em algum copo de refrigerante, e nem me importava, qualquer coisa eu limpava depois, mas ele simplesmente saltou de cima de mim e a primeira coisa que tinha vindo na minha mente era que mamãe tinha voltado do serviço, só que não era isso: sentado em sua cadeira de rodas, sem dizer uma palavra, muito sério, Alfred se mijava todo, e aquilo que escutamos derramar era nada mais, nada menos, do que sua urina.

Fiquei tão chocada que acho que demorei uns cinco segundos para sair da posição em que estava. Quando me dei conta disso, baixei a saia, cobri os seios com as mãos e fiquei encarando-o, arfante, constrangida e apavorada. Peter, para o meu espanto (eu estava de olhos fechados e, portanto, desatualizada do que ele estava fazendo), guardava de volta o seu material dentro da cueca, gerando assim a surpreendente conclusão de que ele iria fazer “aquilo” sem me avisar. Encarei-o de modo acusador, e ele saiu olhando para mim e em seguida para Alfie e, tomando sua jaqueta da ponta da mesa, disse, em um riso que tentava imitar deboche, mas era puro medo:

— Essa porra de nerd fodido é maluco! Fica aí com essa tua versão dO Exorcista que eu vou me mandar, tá doido!

Dito isto, ganhou a saída em três passos, abriu e fechou a porta – que, estava provado, não estava mesmo trancada – em segundos.

Foi constrangedor demais higienizar Alfie, sua cadeira de rodas e limpar toda a sujeira que ele deixou, e esse processo levou horas. Não me atrevi a dizer uma palavra sequer para censurá-lo, porque agora ele tinha um grave segredo meu nas mãos. Ele não tentou falar comigo e nem eu com ele, o que achei ótimo.

Eu estava secando o assento de sua cadeira de rodas com um secador de cabelo quando mamãe chegou do trabalho.

— Opa, estavam se divertindo? — ela perguntou, ao ver a pipoca quase intacta na mesa de centro.

— Nós começamos a assistir um filme, mas Alfie ficou cansado logo.

Ao ver que eu secava a cadeira de rodas dele, mamãe viu aquilo com estranheza:

— O que houve?

— Um acidente com o refrigerante, nada de mais.

— Onde está Alfie agora?

— Eu o ajudei com o banho e agora ele está deitado. Deixa ele lá, até a D. Melissa aparecer.

— Ah, que pena. Eu trouxe doces, achei que vocês fossem gostar!

— Pode me dar aqui, eu entrego para ele quando ele acordar.

— Muito bem. Eu vou mudar essa roupa, que está me matando!

Suspirei, aliviada. Fui até o meu quarto e verifiquei se Alfie realmente dormia. Lá estava ele, dormindo com aquele pijama de nuvens e anjinhos que era quase uma ironia do que ele era agora. Tentei pegar meu diário sem ele ver. Queria registrar e ao mesmo tempo desabafar com alguém tudo o que estava acontecendo. Enquanto comia o doce que mamãe trouxe para mim, escrevia sobre a coisa tenebrosa que tinha acontecido na sala claro, com seus devidos atenuantes. Não falei literalmente o que aconteceu em detalhes, apenas coloquei um termo genérico como “estávamos namorando no sofá quando Alfie chegou e fez...”. Eu só queria me respaldar, porque quando eu falasse com alguém sobre tudo o que estava acontecendo, precisava de provas.

D. Melissa chegou poucos minutos depois de eu acabar. Mamãe estava assistindo um sitcom qualquer e eu não me atrevi a acompanhá-la. Tentei, mas olhar para aquele sofá onde tudo aconteceu me atordoava. Cada ponto da sala era, para mim, algo próximo do cenário de um filme de terror, só que real.

— Boa noite! Cheguei!

— Oi, Melissa! Entra. Como estamos indo?

— Ele veio me deixar aqui perto. Insistiu para entrar, mas eu disse que você poderia estar dormindo, afinal está tão tarde – ela confidenciou, com a voz jovial e risonha de uma adolescente. — Onde está Alfie?

— Annie falou que ele estava dormindo na cama dela.

— Vou ter que acordá-lo.

— Ah, fique aqui comigo, vamos encerrar este episódio, depois você chama ele!

— Tudo bem. É melhor assim, você está certa. Vamos deixar ele dormir um pouco.

— Eu acho que Alfie está precisando de um descanso de verdade. Interrompê-lo talvez não seja bom – opinei – Não é melhor deixá-lo dormir aqui hoje?

D. Melissa e mamãe se entreolharam e me encararam com surpresa.

— Mas ele está dormindo desde que eu cheguei, minha filha! Ele estava assim mesmo tão cansado? — mamãe questionou, desconfiada.

— N-não, eu só pensei que…

Sem me dizer mais nada, a mãe de Alfie foi averiguar seu estado correndo. Ela desconfiava de que eu o tivesse maltratado de alguma forma o que, considerando meu histórico, eu não poderia ficar muito ofendida. Todas fomos até o meu quarto e ao contrário do que pensavam, Alfie dormia com a paz do justos. D. Melissa tateou a testa do filho e afastou seus cabelos, procurando hematomas em seu rosto, eu acho. Eu não sei o que ela pensou, mas baixei a cabeça e fiquei em silêncio. Naquela situação, era tudo o que eu poderia fazer. Considerando o quanto eu estava exausta por ter cuidado dele, eu que deveria estar ali deitada.

Mas o pior aconteceu, ele acordou.

— Mamãe? — e lá estava o Alfie bonzinho, com sua vozinha meiguinha e inocente.

— Como você está, meu amor?

— Eu me sinto muito bem, mamãe.

— Que bom! Já que acordou, vamos para casa?

— Precisamos mesmo ir agora? Eu queria tanto falar da tarde agradável que passamos eu, Annie e o amigo que ela trouxe!

Ouvir aquilo foi algo próximo de tomar um soco no estômago. Mamãe olhou para mim com uma cara de “do quê que ele está falando?”. Sorri dentro das minhas limitações e expliquei:

— O Peter, um colega de sala. Ele disse que perdeu a exibição de um filme no cinema, e eu falei que tínhamos o DVD em casa – falei, gesticulando nervosamente – O filme da Juno.

— Tome cuidado, mocinha. Que bom que Alfie estava aqui para te proteger de qualquer investida!

— Ah mãe, por favor!

— É verdade! Olha, foi “assistindo filme” que eu transei com meu primeiro namorado… E esse filme Juno, não é daquela adolescente que fica gestante?

Quase botei para fora o doce que eu tinha comido, ainda mais depois de Alfie me dar um sorriso sinistro que ninguém mais viu.

— Diga aí, Alfie! Annie e esse tal amigo não fizeram nada de anormal?

— Mãe! — errei até o tom da voz nessa hora – A senhora não confia em mim?

— Estou brincando, Annie! Não achei que fosse se aborrecer, mas uma coisa é certa: tome cuidado com esse negócio de amigOs meninOs!

— Alfie é um garoto, se a senhora não sabe!

— É um anjo! Ele não é como os outros garotos, você sabe disso.

— É, sei – falei encarando Alfie, que baixava a cabeça e sorria discretamente.

(…)

Chegava o sábado, dia em que conheceríamos o tal de Adam, o namorado de D. Melissa. Nesse dia, como estava de folga, ela cuidou sozinha da apresentação pessoal do filho. Eu esperava que Alfie estivesse usando uma de suas típicas roupas de caipira, mas, diferente do que eu imaginava, ele trajava um suéter de mangas longas azul marinho por cima de uma camisa social branca em combinação com uma calça preta e sapatos All Star da mesma cor. Assemelhava-se a um estudante de colégio particular, e ficou muito bonito vestido daquele jeito. Tudo nele iria bem se ele não estivesse com aquela cara triste. Ele geralmente dissimulava diante da mãe que estava feliz, mas naquele dia não conseguiu.

— Olá, pessoal! – Adam cumprimentou nossa caravana.

Estávamos todos esperando em frente à casa de D. Melissa. Adam alugou um carro adaptado para deficientes físicos, de modo que Alfie poderia passear conosco sem problemas. D. Melissa enlaçou o namorado num abraço e o beijou quando viu o tipo de carro que ele trouxe com ele. Antes de Adam chegar, ela estava justamente conversando conosco que estava preocupada com isso. Eu e mamãe aplaudimos e demos alguns risinhos de contentamento e assobios ao ver os dois tão felizes.

— Wow! Então, este é o famoso Alfie? Como vai, garoto?

Inspirei profundamente, satisfeita. O Alfie emburrado seria desmascarado! Até que enfim, todo mundo ia ver que era verdade tudo aquilo que eu estava dizendo dele! Mas ele, ao contrário do que eu esperava, sorriu da forma mais fingida que pôde fazer e disse, simpático:

— E aí?

Esse “E aí?” era natural, informal e economizava palavras. Bem adequado a quem queria se poupar sem causar estranheza em adultos, pois era uma expressão tipicamente adolescente. Os dois trocaram um aperto de mãos. Notei que a mão de Alfie mal tocava a de Adam, mas ele não parece ter percebido.

— Quando Melissa me falava de Alfie, eu imaginei que se tratasse de um garotinho, pois ela fala de você como se fosse um. Confesso que estou meio surpreso!

Alfie retribuiu a observação com um sorriso cínico e esticado que, para todos os inocentes em volta, soou como a personificação da sinceridade.

— Bom, vamos andando? — ele convidou a todos, gaguejando ao se dar conta da gafe para com Alfie: — Ehr…

— Ele entendeu o que você quis dizer – Melissa se apressou em falar no lugar do filho.

— E essas duas? Você deve ser a Annette, a menina que cuida tão bem do nosso Alfie campeão aqui – Adam disse, tocando no ombro do futuro enteado e tentando parecer íntimo. Dada a cara de Alfie, fiquei com vergonha por ele.

— Sim, sou a Annie, e esta é a minha mãe, Janet.

— Muito prazer. Espero que vocês gostem do lugar para onde nós vamos. Eu e Melissa não temos palavras para agradecer tudo o que vocês têm feito por ela e sua família!

— O prazer é todo meu – mamãe disse, sorridente – Melissa e eu somos amigas desde a adolescência, e tem uma lenda que diz que, se você consegue ser amiga de uma pessoa por mais de três anos depois do colegial, ela será sua amiga para o resto da vida!

— É verdade, eu me lembro de quando dizíamos isso! — D. Melissa assentiu, tão risonha quanto minha mãe, como se a menção a essa crendice evocasse alguma lembrança agradável e antiga. — Bom, vamos logo! Ajude-me com a rampa, porque eu sinceramente não sei onde mexer!

— Claro, claro… — e Adam acionou os comandos que permitia a Alfie se acomodar num espaço na parte de trás do carro – Por favor, entrem – ele nos convidou a subir, e assim ficaram ele e D. Melissa nos bancos da frente e eu, mamãe e Alfred no banco de trás.

Tenho certeza de que essa posição, por mais que fosse necessária devido à disposição dos mecanismos do próprio veículo, serviria como base para algum comentário amargo de Alfie mais tarde. Eu estava começando a entender como funcionava essa nova versão dele.

(…)

O restaurante, conforme descrito pelo namorado da mãe de Alfie, era agradável, discreto e privativo. Não fomos incomodados com o barulho das outras mesas, pois fomos conduzidos a um dos dois ambientes isolados disponíveis. Ele era fechado sem ser claustrofóbico: um lindo aquário que também fazia as vezes de parede dividia nosso ambiente do outro e pequenas muretas com plantinhas separavam esses dois lugares das mesas restantes. O ponto onde estávamos era ligeiramente mais alto e refinado do que o restante. Uma rampa que dava volta por todo aquele espaço denotava um interesse na acessibilidade e conforto de clientes como Alfie, numa subida que não era íngreme. Tenho certeza de que Adam escolheu aquele lugar pensando nisso.

— Nossa, querido! Não sei nem o que dizer! Aqui é tão lindo!

— Eu não conhecia este restaurante! — mamãe comentou – Olha, eu gostei. Quero vir aqui mais vezes, ainda mais porque eu cometi o pecado de não trazer minha câmera fotográfica!

— Eu acho que podemos dar um jeito nisso! – Adam exclamou, tirando do bolso do casaco uma câmera digital.

— Uau! — não pude deixar de expressar minha surpresa, ao ver o exato modelo de câmera que eu vinha cobiçando há meses.

— Tenho certeza de que Solomon vai adorar este lugar!

— Eu queria que viéssemos aqui quando papai fosse me visitar! — sugeri.

— Então, vou falar daqui para ele.

— Fico feliz que tenham gostado – Adam disse, com um sorriso simpático – O que está achando, Alfie?

Alfie, que estava concentrado demais odiando tudo, foi pego de surpresa:

— Ei, filho! Adam está falando com você.

— Desculpe? — ele olhou para a mãe e para o namorado dela com aquele misto de inocência e cinismo que tinha passado a ser sua nova identidade.

— Ele quer saber se você está gostando do ambiente.

— Ah? Sim, estou sim. Obrigado por nos trazer aqui, Adam. Estou muito feliz.

A fala dele foi tão mecânica que era como se ele estivesse lendo um texto que deram para ele usar. De uma forma esquisita, todo mundo parecia alheio a esse novo Alfie. Mesmo minha mãe, tão esperta, sorriu a essa resposta dele e ela e D. Melissa trocaram um sorriso aliviado por Alfie supostamente estar aceitando bem o novo romance da mãe. Adam, como todos, parecia não suspeitar de nada. Éramos literalmente só eu e Alfie sabendo que nada do que ele dizia ali era real.

Mas ele não conseguiu fingir por muito mais tempo. Na mesa, Alfie era o único silencioso. Os outros conversaram sobre tudo: sobre a casa que Adam estava arrumando para que D. Melissa e Alfie morassem com ele e sua filha (sim, descobrimos que ele tinha uma filha universitária que só passava na casa do pai nas férias, mas tinha um quartinho cativo em qualquer lugar que ele vivesse), sobre as traições do meu pai (das quais hoje minha mãe fala com um certo humor graças a Solomon, mas que antes, em meio a uma e outra dose de bebida, lhe arrancava lágrimas), sobre as cartas e telefonemas que mamãe e Melissa trocaram nos anos em que elas estiveram geograficamente afastadas, sobre o irmão mais velho de Alfie (D. Melissa acabou chorando e foi consolada por minha mãe e pelo namorado) e sobre o casamento fracassado de Adam, um assunto inconvenientemente trazido à tona do nada por Alfie, que fez perguntas crueis com vernizes de inocência que ninguém conseguiu refrear (Onde está a mãe da sua filha? Como foi que vocês se separaram? Por que não está com ela hoje?). Adam não deu muitos detalhes, mas pelo que entendi nas entrelinhas do que ele falou, ele deve ter sido traído e sofrido um abalo financeiro dos grandes com a separação.

— Mas estou bem agora, eu só precisava conhecer alguém como a Mel – o namorado de D. Melissa desconversou.

— Nossas histórias são muito parecidas, por isso que eu acho que nos demos bem – ela confessou, doce e encabulada como uma jovenzinha.

— Sr. Adam, eu posso fazer um pedido? Eu queria poder passar as fotos que tiramos hoje para o meu notebook. Eu não sei quando nos encontraremos todos novamente, por isso…

— Claro, Annie. Tome a câmera, aqui está também o cabo.

— Ah, Annie! Que estranho, por que trouxe o notebook para um jantar? Esses jovens não aguentam ficar desconectados.

— Mamãe, a senhora sabe eu sempre ando com ele! Eu ia trazer também minha câmera, mas foquei tanto no note que esqueci de trazê-la comigo. Não a encontrava de jeito nenhum e estava em cima da hora. E eu particularmente não gosto de foto de webcam, não sai nítida como de câmera fotográfica. Mas tudo isso foi até bom, porque a câmera do namorado da D. Melissa é muito melhor do que a minha!

— Pode crer que essa é das boas. Se precisar de ajuda e dicas fotográficas, estou à disposição para compartilhar o que sei. Essa câmera tem recursos muito bons.

— É, só que eu não tenho uma dessas, e…

— Olha, mocinha, eu sei onde você está querendo chegar!

— Não, mãe! Espera, você não tá pensando que eu…

Todos riram, enquanto eu tentava me justificar e só piorava as coisas. Adam tomou a namorada pelos ombros e beijou sua testa enquanto ela ria.

— Vocês são tão lindos juntos! — mamãe comentou, comovida, e a cara que Alfie fez para ela nessa hora me deu medo – Eu proponho um brinde ao casal! À redenção e ao amor dos dois!

— Não posso beber por causa da gravidez, Janet.

— Ah, vai! Uma tacinha de champanhe não fará mal.

D. Melissa e Adam trocaram um sorriso e ele, com um aceno de fronte, a incentivou. Ela acatou a sugestão e um coro de risos e salva de palmas se seguiu ao beijo que eles deram depois do brinde. Alfie, em vez de aplaudir, ficou olhando para os dois com aquela expressão vaga que eu sei que escondia um turbilhão de ódio.

— Alfie, está tudo bem? — a mãe dele perguntou, preocupada, ao vê-lo quieto.

— Não, eu só estava… não é nada.

— Alfie quer ir ao banheiro – eu disse, categórica, retirando o cabo da câmera de Adam do meu notebook e o guardando de volta dentro da mochila.

— O q…? — Alfred balbuciou, confuso.

— Vamos lá. Eu sei que você quer ir e está com vergonha de pedir.

— Annie! Não é melhor deixar seu notebook aqui? É melhor não levar peso, filha.

— N-não, está tudo bem, mãe – gaguejei, ao me lembrar de um e-mail que Peter me mandou e que eu não queria correr o risco de que alguém visse.

Alfie deu uns dois encontrões com a mesa para me evitar, mas eu o conduzi contra sua vontade. Eu não pretendia fazer isso, mas também não ia obrigar a mãe dele a vê-lo com aquela cara de merda quando eu sabia que aquilo era só um capricho dele para chamar a atenção de todos para si mesmo.

— Eu posso fazer isso, Annette.

Meu Deus, como eu odiava quando me chamavam pelo nome!

— Não precisa se incomodar, D. Melissa. Pode deixar que eu o levo. Aproveitem o jantar, a gente já volta.

Isso mesmo, continue se esfregando no seu namorado enquanto seu filho está desejando morrer e falando um monte de absurdos a cada aproximação que você tem com esse homem na frente dele.

— Vamos, Alfie!

— Eu não preciso de…

Ele não teve tempo de terminar, eu simplesmente o arrastei.

— Eu não disse que queria vir ao banheiro – Alfie disse, assim que entramos no box dos banheiros masculinos.

— Eu também não me lembro de ter perguntado – respondi.

Bruscamente, eu virei sua cadeira de rodas de frente para mim. Estoico, ele não mexeu um músculo sequer do rosto.

— O que você está querendo com isso, hein?

— Com isso o quê?

— Você viu como deixou o namorado da sua mãe desconfortável?

— E daí? Prefiro um estranho desconfortável do que minha mãe se metendo com outro homem violento sem ter sido avisada disso!

— Olha, Adam é um cara legal! Você não tinha o direito de fazer o que fez!

— Como pode saber que ele é legal?

— Eu apenas sei, tá? E se você não estivesse focado na própria amargura, também saberia! Seu problema não é zelo não, Alfie. É ciúme! Estava acostumado a ser o queridinho da mamãe, agora vai ter que dividir atenção com um bebê recém nascido! Sabe o que é isso? É a natureza mandando você amadurecer! Aja como o homem da casa, porque, querendo ou não, você é isso agora!

Sem me responder, ele beliscava uma pelinha no canto da unha.

— Alfie! — eu o sacudi pelos ombros, forçando-o a me encarar — O que você prefere: aquela mãe triste, sobrecarregada e envelhecida de antes ou essa agora, alegre, esperançosa e cheia de vida?

Ele abriu a boca algumas vezes como se fosse dizer algo, mas ficou sem me responder outra vez.

— Eu sabia! Você é um merdinha egoísta. Quer saber de uma coisa, Alfie? — voltei-me para o espelho e, ligando a torneira da pia, comecei a ajeitar as ondas do cabelo com água – Eu acho que, no fundo, você está irritado porque sua mãe está dando um rumo na própria vida sem consultar nem você, nem seu pai! E homens surtam com isso! Não podem ver a mulher que sempre cuidou deles cuidando de si mesma! Sua mãe está ótima, linda, feliz e se você fosse um bom filho, estaria contente por ela!

Um rapaz que saía do banheiro passou por nós me olhando com estranheza. Apontando Alfie, esclareci:

— Estou aqui como acompanhante. Desculpe o incômodo.

— Ah… tá… — ele falou, todo desconfiado, lavando as mãos e enxugando-as com pressa.

O rapaz correu em direção à saída, e eu fiquei sem entender esse comportamento.

— Qual é a desse cara?

Eu e Alfie falamos ao mesmo tempo:

Ele: Eu invejo essa criança que vai nascer.

Eu: Será que ele pensou que eu iria acusá-lo de assédio ou coisa parecida?

Voltei-me para Alfie, atordoada com o que ele disse:

— Como é?

— Eu invejo essa criança que vai nascer. Foi o que eu disse.

— Ele é seu irmão, Alfie. Ou irmã, não sei. Mas você precisa dar um jeito nessas suas ideias de ultimamente! Você está assustador!

— Ele vai começar do zero. Como um computador formatado para o modo de fábrica, ou um boneco jogando em modo hack. Quando você acaba de nascer, você é apenas um bebê de quem as pessoas cuidam sem questionar. Ninguém diz ainda se você é inteligente, bonito, forte, popular… você só inspira um cuidado…

— … incondicional – completei, ao ver sua dificuldade para encontrar a palavra certa.

— É. E ele ainda vai ter a chance de não fracassar, entende? Você não vai conseguir olhar para ele pequeno e decidir se ele vai ser bom como meu irmão mais velho ou ruim como eu, porque ele vai ser só um bebê.

— Seu irmão não está mais aqui, Alfie, mas você está! Isso mostra que ser bom não ajudou ele em nada! Aliás, se ele fosse como você poderia estar vivo, pois não seria admitido no Exército!

Levei as mãos ao rosto, sem graça com a minha observação insensível:

— Desculpa.

— Eu queria começar de novo, voltar para essa época em que nada disso era importante. Queria ter outra chance. Eu não vivi nada…!

— Você não está morto, Alfie. Isso não é o fim da linha!

Ele me olhou com os olhos tristes, mas forçando aquele sorriso odioso que ele vinha fazendo sempre agora:

— Você trocaria de lugar comigo, Ann? Você preferia estar sentada aqui só para não morrer?

— Eu entendo que não deve estar sendo fácil, Alfie, mas…

— Eu preferia ter morrido naquele dia.

— Nunca mais diga uma coisa dessas!

— Eu preferia ter morrido naquele dia! Eu não queria que meus últimos dias fossem assim!

Mais uma vez, para fugir dos fatos, eu ignorei essa coisa óbvia que ele falou.

— Não é justo! Eu já tinha tão pouco tempo!

— Meu Deus, pare de se lamentar! Pare de olhar só para você! Depois de passar sei lá quantos anos lidando com o monstro do seu pai, sua mãe conheceu um cara legal e agora é você que quer ferrar com a vida dela? Eu não te entendo! Sério! Não estou dizendo que eu ficaria feliz com essa sua nova realidade, mas ficaria pelo menos feliz pela minha mãe, se ela tivesse passado por tudo o que a D. Melissa passou! Ela está bem! Seja grato!

— Se eu estiver feliz ou triste, nada vai mudar… Ela nem olha mais para mim!

— Você está sendo injusto e mimado – puxei seus pulsos, revelando as lágrimas que ele queria enxugar – Tudo o que sua mãe fez e faz é pensando em você!

— Eu quero ir para casa! Eu só quero descansar e esquecer isso tudo!…

— Quê? Ah, você só pode estar brincando! Você está é querendo boicotar o jantar da sua mãe com essas exigências descabidas!

Ele não me respondeu, apenas ficou soluçando e limpando discretamente os olhos. Um novo rapaz entrou no banheiro acompanhado de um amigo, e eles se entreolharam, deram dois passos para trás e foram investigar se a imagem indicadora do sexo dos usuários daquele ambiente estava correta. Fingi ajeitar algo na gola da roupa de Alfie para encobrir seu rosto coberto de lágrimas e repeti a mesma coisa que disse para o garoto anterior quando eles entraram meio relutantes:

— Eu só estou acompanhando ele.

— Ah, sim, eu achava que estava entrando no lugar errado!

— Eu também! — o outro riu.

Sorri para os dois, corri até a porta e verifiquei se alguém mais ia entrar. Ao ver que não, cochichei para Alfie:

— Quer saber? Já que eu estou aqui mesmo, vou mijar rapidinho. Se você não quer usar o banheiro, eu quero. Segura isso daqui para mim – tirei a minha mochila das costas e a coloquei no colo de Alfie.

Aquela conversa me deu náuseas, então sim, passei um tempo considerável por lá e fiz bem mais do que apenas mijar como anunciei. Talvez depois daquilo o próprio Alfie quisesse usar o banheiro. Fosse como fosse, eu ia estar pronta para cuidar dele.

— Obrigada, Alfie, agora vamos!

Tomei minha mochila de seu colo, e a primeira coisa que estranhei foi o peso: estava leve demais.

— Alfie… o meu notebook! O que você fez com meu notebook?

— Notebook…? Está falando daquele que estava ali no canto da pia? Eu vi que tinha um notebook ali e, como achei que alguém tivesse esquecido, fui perguntando de cada cara que entrava aqui se seria de algum deles. Teve um que confirmou e o levou embora – ele falou tranquilamente, dando de ombros, como se estivesse falando de algo que aconteceu literalmente tal como ele disse.

— O qu…? Alfie…!

Desesperada, levei as mãos à cabeça. As lágrimas vieram aos meus olhos imediatamente. O problema maior ali não era o notebook, aquele era um aparelho velho de uns dois anos e meio, três anos, eu estava precisando mesmo de um pretexto para trocar ele, não era essa a questão. (Sem falar que eu tinha um computador de mesa comprado pelo meu pai que eu mal usava, mas estava ali para qualquer eventualidade). O problema maior estava nas mensagens quentes que eu vinha trocando com Peter e com um amigo virtual, e na minha galeria cheia de fotos seminuas que enviei aos dois.

— Você sabe o que acabou de fazer? Você sabe? — eu o agarrei e o sacudi violentamente.

Ele apenas ria. Empurrei sua cadeira de rodas com toda a força na direção da parede. Se ele se machucou, não se importou, pois continuou rindo. Agarrei seu rosto por entre minhas unhas e repeti a mesma pergunta:

— Você sabe o que você acabou de fazer, seu idiota retardado???

— Uma vez, eu escutei suas duas amigas conversando. A Susanna e a Richelle. Elas estavam comentando sobre aquela líder de torcida que sofreu um acidente com a coreografia e quebrou os dentes da frente. Você lembra? A ruivinha. Katherine, eu acho. Foi no ano passado. A Richelle falou que esse era o maior medo da vida dela. A Susanna respondeu que o maior medo dela era perder o próprio notebook. Fiquei pensando muito no porquê de ela ter dito isso. Quantas coisas terríveis aquele objeto deveria esconder! Será que o seu também é assim, Ann?

Sem forças para continuar aquele contato, pois eu temia matá-lo, eu o soltei devagar e dei passos para trás.

— Eu sempre me perguntei por que as pessoas depositam seus maiores segredos em computadores, diários e gente que não dá para confiar. É como se implorassem para ser traídas!

— Cala essa boca antes que eu te mate, seu psicopatinha de merda! Filho da puta! Lixo fracassado, eu nunca deveria ter proposto cuidar de você! Deveria ter deixado você se ferrar! — gritei, chutando a roda de sua cadeira e machucando meu pé com isso.

Massageando a ponta dos dedos e dando pulos de dor, continuei:

— Eu vou seguir a dica das meninas, não vou mais te ajudar com as tarefas! E trate de arrumar outra idiota para ajudar a limpar sua bunda! Por mim, você vai ficar de ano, numa sala bem distante da minha! Eu nunca mais quero te ver! Vou até ligar pro meu pai e pedir para morar com ele! Você vai ver só!

— Anne, eu já terminei. Podemos voltar – ele me disse docilmente, como se tivesse acabado de usar o banheiro e estivesse me convidando a levá-lo de volta para junto dos demais à mesa.

— Está pensando que vai dar a palavra final? É você que depende de mim aqui! Eu dou as cartas, não você!

— Então, está tudo bem sua mãe saber que você estava nua com um cara por cima de você no sofá?

Eu fiquei na frente da porta do banheiro e passei a chave para mais ninguém entrar.

— Você não se atreveria a…

— Eu estou cansado, acho que vou dizer para a minha mãe que já quero ir para casa. Não aguento mais ficar sentado, eu quero me deitar – ele me confidenciou, como se tivesse apagado tudo o que disse antes.

Abaixando-se um pouco, ele ergueu a barra da calça comprida, revelando um inchaço enorme na parte inferior da perna, pouco abaixo do joelho. Eu o havia machucado feio com aquele chute que dei achando que tinha batido só na roda. Contendo a voz estremecida pela dor, ele me encarou e disse, forçando um sorriso nos lábios:

— Annie, a sua mãe não vai gostar de como você tem me tratado. Na verdade, nem a minha.

Assustada com o resultado da minha violência, agachei-me diante dele, tomei sua perna e examinei mais de perto o ferimento que provoquei. O inchaço tinha ganhado uma tonalidade meio esverdeada, e no canto inferior, próxima a uma das cicatrizes de cirurgia que ele fez, estava uma mancha meio arroxeada. Enquanto eu tateava sua perna, Alfie levava as duas mãos à boca, para evitar manifestar qualquer sinal de dor.

— Está doendo muito?

Ele não respondeu, apenas deixou escapar um ruidoso suspiro quando repousei novamente seu pé no apoio. Tentei sondar sua expressão, mas ele tentava olhar para mim sério como vinha fazendo todos os dias desde o acidente, e isso não me dava pista nenhuma. As lágrimas já começavam a brotar dos meus olhos outra vez. Eu estava apavorada por toda a lista de motivos possíveis, agora.

— Desculpa – apalpei seu rosto, enxugando um suor frio que descia de sua testa com as pontas dos polegares – Alfie, me escuta, isso é sério: de 1 a 10, quanto isso está doendo?

— Seis – ele respondeu num fio de voz, com os olhos para baixo para evitar me encarar.

Com certeza não era só isso. Ele arfava discretamente, disfarçando uma dor que eu sabia que era extrema. Eu não sabia o que fazer com aquela informação, e, a bem da verdade, também não sabia o que fazer com as mãos, que se agitavam e se fechavam sozinhas, alheias à minha vontade. Resolvi pensar em mim e reuni coragem para fazer a proposta que eu ia ter que fazer, de qualquer modo:

— Alfie – minha voz saiu mais grave do que eu imaginava, e eu repeti o nome dele no tom mais suave e despreocupado que consegui simular: — Alfie… eu deixo para lá a história do notebook, tá? Mas não conta isso para ninguém…

Cerrando os olhos e balançando a cabeça em assentimento, ele topou. Dessa vez, ele não estava com aquele sorriso desprezível na cara, o que facilitou eu ter alguma empatia por ele. Tirei seus óculos para me certificar de que ele não tinha nenhuma lágrima nos olhos e enxuguei o que parecia ser resultado daquele pranto anterior, onde ele confessou seus pensamentos acerca do irmão ou irmã que estava vindo.

— Vamos voltar – insisti em manter um tom calmo, embora parecesse que a menor fagulha ali ia nos levar a uma explosão sem precedentes – Eles estão nos esperando.

Quando cheguei à mesa junto com Alfie, eu não sabia dizer qual de nós dois era o mais silencioso. A conversa seguiu correndo solta – adultos são sempre tão desatentos para as linguagens corporais de gente da nossa idade! — e a única vez que posso dizer que alguém estranhou meu comportamento foi quando Adam me ofertou seu cabo e sua câmera novamente para eu copiar as fotos, pois ele insistia que naquele curto período de tempo não tinha como eu copiar todas as imagens pro meu computador.

— Já está tudo salvo. Pode deixar – respondi, forçando um sorriso.

De resto, eu achava que o jantar continuaria sem maiores incidentes porque mamãe, D. Melissa e seu namorado conversavam e riram muito. Alfie por vezes até parecia entretido com a conversa deles, mas nada opinava, e eu notei, seu sorriso era o tempo todo aquele riso falso que não chegava aos olhos; ele parecia uma cobra pronta a dar o bote. De qualquer modo, eu estava mortificada de estresse e entendia plenamente a vontade de Alfie chegar em casa, deitar e dormir, pois também me sentia assim. A aflição corroía meus intestinos e inflamava meus ossos, e cada segundo que passava era pior do que o anterior. Minha cabeça começava a doer. Num dado momento, eu comecei a chorar, mas disfarcei as lágrimas ora tocando no cabelo, ora fingindo retocar a maquiagem diante do espelhinho de mão que tirei da bolsa. Absolutamente ninguém percebeu como eu estava, e eu não sabia dizer se me sentia furiosa ou grata por isso. Quanto mais eu lembrava das coisas que estavam naquele notebook, mais apavorada eu ficava por perdê-lo.

Mas para Alfie não bastava somente fazer e acontecer no banheiro, ele começou a tocar discretamente onde eu bati e a dizer bem assim:

— Mamãe… eu queria dizer uma coisa.

Ele chamou umas três vezes até ser notado e, quando foi, eu perdi o controle da respiração. Minhas mãos começaram a tremer e as lágrimas escorreram mais do que a catarata do Niágara, pois eu estava morrendo de medo de ser delatada. Enxuguei os olhos da forma mais discreta que pude e sorri. Percebi que Adam franziu o cenho – ele estava percebendo que algo estranho estava acontecendo. Mas ele voltou novamente seus olhos para o futuro enteado e disse, simpático e sorridente:

— Alfie quer falar, vamos ouvir o que ele tem a dizer!

— Eu queria dizer uma coisa sobre esta noite…

— Pode falar, meu amor. O que foi?

— Alfie quer passar a noite na minha casa – eu o interrompi, tentando esculpir um sorriso na minha cara que era pura tensão – Como fazíamos antigamente, quando nós éramos crianças.

— Ah – mamãe deu de ombros, decepcionada, achando o pedido comum – Claro, querido! Nem precisa pedir uma coisa dessas!

— Alfie, você não está abusando, ficando na casa da Annette o tempo todo?

— Imagina, D. Melissa. É um prazer.

Alfie inspirou fundo, refreando a vontade de rir. Ele se moveu na direção da mesa, acho que queria se debruçar por cima dela e dizer mais alguma coisa, mas segurei sua coxa e o mantive no mesmo lugar. Eu o encarei com ferocidade e ele, com aquele rostinho assustado, quase me fez lembrar o meu amigo dos velhos tempos. Instintivamente, eu o afaguei no rosto, mas ele se desviou do meu carinho. Não importava. O que eu mais queria dele, tinha conseguido: o seu silêncio sobre nosso mais novo segredo.

Por insistência de D. Melissa, pedimos uma sobremesa depois da refeição principal. Ela não queria mesmo abandonar o restaurante, e minhas impressões pessoais sobre aquela noite somadas aos meus sapatos que estavam matando meus pés me obrigaram a me manifestar sobre a hora de ir embora.

— É verdade, tenho que acordar cedo porque amanhã é o nosso dia de faxina. Está bem tarde, e acho que já incomodamos demais – mamãe assentiu, limpando com um guardanapo as gotículas que deixou cair da mousse em cima da mesa – Então vamos? — ela me chamou.

— Eu levo vocês – Adam se ofereceu, como se não fosse óbvio. Nós e D. Melissa morávamos lado a lado, e seria deselegante ele, o único portador de um carro adaptado, não levar Alfie.

Mesmo assim, eu e mamãe agradecemos. Quisemos pagar nossa parte na conta, mas Adam insistiu que aquela noite era por conta dele e que, por favor, não nos incomodássemos em bancar nada. Já pensando no notebook novo que eu ia ter que comprar, essa grana que poupamos vinha a calhar.

(…)

No caminho, eu vinha imaginando pretextos para justificar a perda do note. Ninguém estranhou o fato de eu não estar falante como sempre. O problema dos adultos é achar que, quando a vida deles está em ordem, a de todo mundo também está. Alfie – eu não sei como ele conseguia fazer aquilo – estava comunicativo e sorridente, como se o novo relacionamento da mãe fosse visto por ele com bons olhos, sua maior mentira até hoje. Eu me pergunto sempre como ele conseguiu suprimir tanto pessimismo e amargura. De certa forma, aquele Alfie altruísta que se sacrificava pelos outros ainda existia. Poupar a mãe de tudo o que ele realmente pensava foi, de certa forma, um gesto nobre. Porém, o que ele não disse para sua mãe, descarregou em mim em dobro.

(…)

Adam nos auxiliou com as tábuas que serviam de apoio às rodas da cadeira de Alfred. Como era tarde da noite, deu bastante trabalho, mas conseguimos combinar a força física dos adultos com a lanterna do meu celular e obtivemos um bom resultado: Alfie subiu para a varanda da minha casa sem se machucar.

— Preciso mandar adaptar isso – disse minha mãe, envergonhada, como se fosse uma obrigação nossa cuidar de Alfie, e não meramente uma gentileza.

— Boa noite, filho – D. Melissa deu um beijo na testa de Alfie, e foi com certa revolta que a vi entrar no carro do namorado outra vez em vez de ir para sua casa.

Se mamãe gostou ou não gostou disso não falou nada, mas eu já estava começando a achar tenso a gente servir de babá para o Alfie enquanto D. Melissa aproveitava a noite com o namorado, livre do filho e de suas infinitas necessidades. Esse período me fez refletir uma coisa, e eu vou dar os créditos dessa frase ao próprio Alfie, que a disse logo que viu que eu estava pensando a mesma coisa que ele:

— A felicidade tira um pouco da vergonha das pessoas.

Mamãe e eu ficamos na sala enquanto Alfie tomava um banho de banheira no banheiro do quarto da mamãe. Era um capricho simples que ele reclamou do nada, e àquela altura da noite – ele alegou que não se sentia limpo o suficiente tomando banho com a cadeira plástica. Com uma cortesia santa, mamãe disse que ele poderia ficar à vontade, colocando uma toalha limpa na borda da banheira e dizendo a ele que, assim que precisasse de ajuda, poderia nos chamar. Eu iria ajudá-lo, mas mamãe entendeu que eu ficando lá iria apressá-lo, por isso optou por deixá-lo mais à vontade.

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— Venha, vamos ver uma série – ela me convidou, me puxando pela mão.

— Achei que a senhora fosse querer dormir – eu respondi, preocupada, entendendo que na verdade ela não queria ver série nenhuma.

— O que você achou do namorado da Melissa?

— Oi? Não sei, mãe. Achei ele legal, prestativo. Pensou tudo de acordo com as necessidades do Alfie… acho que ele está preocupado em agradá-lo. Até demais, por sinal.

— Não acha que ele tentou falar com você mais do que o necessário?

Encarei minha mãe com um ceticismo quase cego. Mas entendi a preocupação dela e respondi tranquilamente:

— Ele também gosta de fotografia, mãe.

— Eu acho melhor você não puxar conversa para pedir dicas dele.

— Eu não vou fazer isso. Pela nossa diferença de idade, isso nem é adequado. Eu sei me cuidar, mãe.

— Ufa! Que bom. Fico mais aliviada. É que, sabe como é, você tem uma mãe com muuuitas ideias na cabeça...

— Essas ideias passam longe de ser verdade. Ah, mãe, o cara não tirava os olhos da D. Melissa! Você está preocupada à toa!

— Torço para que sim.

— Eu acho que você focou nessa sua desconfiança e ignorou uma coisa importante.

— Pode me dizer o quê?

— O Alfie.

— O que tem ele?

Olhei para a direção da porta do quarto dela, como se fosse possível Alfie vir até nós andando.

— Alfred não está nada feliz com o namoro da mãe.

— De novo isso, filha? Alfie está tão feliz, filha! Eu não sei de onde você tira essas coisas. Qual é o problema? Cuidar dele está dando trabalho?

— Mãe, não é nada disso! — eu me exaltei diante de sua cogitação injusta.

— Está difícil de acreditar nisso quando Alfie veio o caminho todo conversando com o tal de Adam! Ele está feliz sim, filha, é você que está com medo de perder seu amigo para uma terceira pessoa!

Inspirei fundo e puxei no fundo da mente os elementos de que consegui me lembrar:

— E naquela hora, que ele falou sobre o casamento anterior do Adam? Você não acha que ele fez perguntas muito invasivas e desagradáveis?

— Curiosidade, filha! Você sabe que o Alfie é um menino sem maldade que acaba falando as coisas sem filtro nenhum!

— Ele não foi ingênuo, mãe. Ele foi cruel, é diferente!

— Alfie não é assim, você sabe disso.

— Mãe, acredita em mim, ele não era assim. Mas, depois do acidente, ficou. Sabe o que ele disse sobre a criança que vai nascer? Que a inveja. Que queria estar no lugar dela!

— Ele só está sentindo falta da atenção que tinha da mãe em tempo integral, e que agora vai ser dividida com o bebê que vai nascer! Coisa de irmão mais velho, filha.

— Mãe! Eu não sei mais o que te falar, sabia? Nossa, será que vocês todos estão assim tão cegos?

(…)

Fui até o banheiro ver como Alfie estava. Ele tentava sair da banheira sozinho quando eu o encontrei. Usando os mesmos instrumentos de sempre, eu o ajudei a subir na cadeira de banho para ser vestido. Eu quase o deixei cair porque ele estava muito escorregadio, e sua perna machucada não nos ajudou. Ele gritou por um segundo quando a perna foi batida, mas eu cobri sua boca até a dor diminuir, ou pelo menos até ele se conformar com a ideia de não gritar. Não acho que mamãe tenha percebido qualquer coisa.

Após vesti-lo com o seu pijama listrado (não conseguia mais me constranger ao ver seu corpo, para mim isso já tinha se tornado comum), eu o ajudei a passar da cadeira de banho para a cadeira de rodas. Acomodei Alfie na minha cama e cobri um colchonete com um edredom para descansar lado a lado com ele. Fui até a cozinha pegar um copo d’água para tomar e vi minha mãe dormindo com o controle remoto na mão. Desliguei a TV e a cobri com um lençol felpudo. Arrastei-me de volta para o quarto, desmotivada ao pensar nela não tendo acreditado em mim. Fui para a minha “cama” com o meu celular na mão e fui olhar minhas mensagens mais recentes. Peter havia me metralhado de mensagens perguntando por que eu não respondia. Enviei a ele uma mensagem dizendo que precisava falar com ele pessoalmente.

“Como você vai falar comigo, com aquele idiota a tiracolo?”

“Segunda, no segundo tempo, você não vai para a sala. Eu vou estar te esperando atrás do colégio, na ponte que dá para o lago”

“Eu vou inventar que preciso ir ao banheiro, ou vou direto, logo que acabar a primeira aula. Vou ver ainda”

“O que você tem para me falar que não pode falar no MSN?”

“Eu prefiro não mexer no meu computador agora, vou te explicar o porquê nesse encontro”

“Cheia de mistérios agora”

“Se eu não puder mais falar pelo celular, o ‘motivo’ foi a causa disso também”

“Não entendi”

“Vou ter que parar de falar”

Eu estava tentando disfarçar a claridade do celular cobrindo minha cabeça com um edredom, mas sabe quando você se sente observado? Quando me descobri, não errei: os olhos aquilinos de Alfie me encaravam.

— Você tem alguma coisa a me dizer?

— Não.

— Então, o que está olhando?

— Eu não consigo dormir, só isso.

— Deve não estar conseguindo tirar da cabeça o que fez hoje.

— Se isso for verdade, como você conseguia dormir?

— Você não vai querer me dar lição de moral agora!

— O seu pai pode comprar um computador novo para você quando quiser.

— Olha, o problema não era o objeto em si, tá? Mas eu não quero ficar discutindo isso, não vou ficar te dando o prazer de saber em quanto você me prejudicou, tá?

— Você disse que iríamos dormir juntos como quando éramos crianças. Por que não estamos nos divertindo?

— Cara…!

— Você só disse aquilo para a mamãe não perceber que você me machucou, não é?

— Nossa, que genial você! Já pode concorrer ao Nobel agora!

— Anne…

— O que é?

— Você me odeia?

— Claro que não, Alfie!

— Por que não?

— Ah, sei lá! Para de ficar fazendo perguntas complicadas!

— Então, eu vou me esforçar mais.

— Se esforçar para quê? — perguntei, temendo a resposta que eu sabia que viria.

— Para você me odiar.

Fiquei em silêncio por vários minutos, eu nem sei quantos. Calculo que dei meia hora de silêncio entre esse comentário dele e minha próxima fala.

— Por que quer que eu te odeie, afinal?

— Porque assim as coisas vão ser mais fáceis.

— Que coisas, Alfie?

— Posso desligar esse abajur?

— Alfie, que coisas são essas?

Ele não me respondeu mais nada, e se estava acordado, fez de conta que estava dormindo.

Quando o dia amanheceu, eu me levantei, escovei meus dentes, tomei um banho e Alfie continuava deitado. Isso era incomum, porque mal me percebia levantar, ele já dava um jeito de sentar na cama e pedir a comadre e um caneco com água para escovar os dentes.

— Ele deve estar com muito sono mesmo – pensei, ao vê-lo no mesmo lugar que estava quando eu me levantei.

Mas quando fui sacudi-lo para acordá-lo e dar início às suas higienes matinais que eu percebi que a coisa era um pouco mais grave do que eu pensava. Ele estava fervendo de febre, com um abatimento indisfarçável (e eu duvido muito que ele ia querer colaborar com a narrativa de que tudo estava bem estando daquele jeito) e, para piorar – eu não sei explicar como isso aconteceu no intervalo de poucas horas – Alfie estava magro como se tivesse perdido uns cinco quilos ou mais durante a noite.

— Alfie! — eu o balancei desesperadamente.

— Para – ele me respondeu com a voz fraca – Tá doendo…

— O que está doendo?

Arranquei o cobertor de cima dele para verificar o estado de sua perna, mas diferente do que eu pensava, o inchaço estava mais baixo e as escoriações seguiam um padrão de melhora significativo.

— Sua perna está melhor – observei, sem disfarçar o alívio na voz – Então, o que está doendo, Alfie?

— Minha cabeça, está doendo muito. Apaga a luz, por favor!

Fui até a sala e mamãe ainda dormia. Eu me lembro de tê-la sacudido e comunicado o estado de Alfie. Ela correu até a mesa, pegou seu celular e mandou uma mensagem, acredito que para avisar a D. Melissa. Depois, correu até o banheiro, enxaguou o rosto, fez bochechos com enxaguante bucal e aí sim foi verificar o estado de Alfie. Todo esse processo demorou menos de um minuto, e devo reconhecer que sua agilidade me impressionou.

— Alfie?

— Não, mãe! Não ligue a luz!

— Por quê?

— Ele diz que a claridade está incomodando ele!

Na verdade, no fundo do meu ser, eu estava preocupada que ela visse o hematoma que ele tinha na perna. Eu não conseguia me lembrar se eu tinha ou não coberto o Alfie de volta, nem puxado a barra do seu pijama para baixo outra vez.

— Alfie? — mamãe aproximou sua mão da testa do Alfie, e demonstrou surpresa com a temperatura.

— Está muito alta, não é?

— Será que ele passou mal porque ontem demoramos muito no restaurante? Nossa, eu sabia que alguém no estado dele não poderia…

— Como assim, mãe, alguém no estado dele?

Sem me responder, mamãe mais uma vez tomou seu celular nas mãos e dessa vez, em vez de mandar mensagem, ligou para a amiga.

A conversa das duas se resumiu a poucas trocas de frases e consistiu em mamãe imediatamente e sem rodeios comunicando a febre de Alfie e encerrando a ligação com a ordem:

— Venha logo!

Depois disso, fiquei cerca de duas semanas sem ver Alfie. Bati várias vezes à porta de D. Melissa pedindo para vê-lo, e quando perguntei para mamãe onde ela estaria colocando meu amigo, já que eu era a cuidadora oficial dele, ela me respondeu sem me olhar na cara que ele estava na casa de parentes.

— Que parentes são esses que não surgiram para cuidar dele antes que eu me propusesse a fazer isso?

— Eu não sei, filha. Foi o que a Melissa disse que aconteceu! Eu não sei de nada para além disso!

— É claro que sabe, mãe! Naquele dia, você disse claramente “um garoto no estado de Alfie”! O que isso quer dizer? Fala!

— Eu tenho um encontro com o Solomon! Volto antes das onze, eu prometo.

Sem me dar respostas, mamãe correu apressadamente em direção à saída. Eu não pude deixar de observar que ela não estava vestida adequadamente para um encontro. Quando se encontrava com o colega-namorado, ela tinha um jeito bem característico de se vestir: roupas justas e seu inseparável batom vermelho. Naquele dia, sua maquiagem estava comedida e suas roupas eram folgadas e ela fazia uso de um grosso suéter de lã. Mamãe também estava sem a sua bolsa transversal, que era onde ela carregava sua numerosa quantidade de cartões de crédito, item indispensável nos seus encontros. Ela tinha nas mãos apenas a necessaire básica que era comum para ir em passeios curtos não muito longes de casa. Algo não estava me cheirando bem nisso tudo.

(…)

Uma coisa que talvez alguns não consigam se lembrar é que eu tinha um encontro com Peter marcado para a primeira segunda-feira que sucedia o dia em que Alfie passou mal. Então: não deu certo. Primeiro, porque ele não foi até o local combinado quando chegou o dia. Depois, porque Peter foi representar a escola em um torneio estadual de basquete, esporte no qual ele era destaque.

Alguns dias se passaram e eu já tinha até esquecido desse assunto, quando Richelle e as meninas chegaram em mim e me disseram para eu dar uma olhada na rede social da escola, um ambiente virtual próprio que esteticamente era uma mistura de blog e fórum e tinha mais de três mil usuários entre novatos, veteranos e ex-alunos do colégio. Um grupo de moderadores recebia os conteúdos por e-mail e repostava as fofocas enviadas pelos estudantes em tempo real. A da vez era a vitória da equipe de Peter no referido torneio de basquete, mas não era essa a novidade maior em si. Numa das fotos onde ele segurava um troféu na mão, Peter era beijado e parecia estar retribuindo uma garota vestida como líder de torcida.

— Acho que vão falar disso o mês todo – disse-me Richelle, com aquele tom debochado que eu sabia que tinha a intenção de provocar uma reação da minha parte.

— A gente só ficou algumas vezes, eu não tinha nada sério com ele – rebati, tentando soar indiferente.

— Você não vai confrontá-lo quando ele voltar da viagem?

— Para quê? Já não está aí a foto dele com outra? Eu acho que ele não precisa mais me dizer nada depois disso.

As meninas se entreolharam às minhas costas, fazendo pouco da minha indiferença. Acrescentei, para informação delas:

— Eu já estou trocando mensagens com outro cara, também. É até bom ele estar com essa menina, porque isso me economiza de terminar com ele!

Graças a esse acontecimento, continuei sem ter a quem confidenciar minha situação com Alfie.

(…)

Quando Alfie voltou e eu perguntei o que ele tinha, ele respondeu que teve uma gripe muito forte; sua mãe disse que ele teve uma pneumonia leve.

— Alfie está com a imunidade baixa. É melhor que não faça mais passeios longos, especialmente se forem à noite. Eu vou avisar Adam sobre isso.

— Onde ele esteve o tempo todo que não ficou sabendo? — perguntei atrevidamente, esquecendo-me de que estava questionando alguém que não era da minha idade.

— Filha! — mamãe me censurou, o que não foi bem necessário, já que fiquei imediatamente envergonhada da minha ousadia.

— Bom, Adam ficou cuidando das coisas na confeitaria, enquanto me liberava para ficar com Alfie o tempo todo. De vez em quando, ele dava uma passada por lá.

— Ah sim – assenti, de olhos baixos.

— Obrigada por nos visitarem – D. Melissa disse isso numa clara intenção de nos expulsar de sua casa – Como eu estou liberada para ficar com meu filho por esses tempos, eu prefiro que ele fique comigo.

— Claro – concordei, com um misto de alívio e despeito. Eu já tinha me acostumado a cuidar de Alfie e era estranho ser dispensada da atividade. Era como se eu tivesse feito algo errado – quer dizer, era como se tivessem descoberto isso.

— Bom, vamos deixar vocês descansarem, então. Que bom que está tudo bem com Alfie.

— Sim, ele só precisa dormir um pouco. O menor trajeto possível já o põe indisposto.

— Diga ao Alfie que nós desejamos melhoras.

— Obrigada, Annette – D. Melissa respondeu naquele tom seco e formal que em nada lembrava o tom maternal que tinha nos tempos que me chamava de “Annie”.

Apressada diante desse jeito desagradável de falar, corri para fora.