Believe in Yourself
21 Solidão
...
— Blaze.
Por um instante, a gata pensou que alguém sussurrava ao seu ouvido. Mas era algo na sua mente. Não a sua mente, mas alguém nela.
— Blaze, você consegue me ouvir?
— Silver? C-como? Você está bem?
— Eu estou ótimo. Estou na verdade bem acima de você, nas vigas.
— O quê? Como você veio parar aqui? Como se recuperou tão rápido?
—Blaze, por favor, não dá para te explicar agora. Por favor, preciso que ajude Tails e Amy. Eles precisam de você mais do que nunca.
De repente, a felina sentiu o estado de apatia inundar os cantos da sua mente mais uma vez.
— O que eu posso fazer? Eu sou só uma fraca, inútil e digna de pena.
— Você sabe que isso não é verdade! – Blaze realmente teve a impressão de que Silver realmente estivesse gritando ao pé de seu ouvido. – Não escute essa tal de Lumina. Ela manipulou você. Ela pode até saber muito sobre o passado, mas está distorcendo as informações para te derrubar e te persuadir.
— Não, Silver... Por toda minha vida eu sempre senti essa fraqueza dentro de mim, como uma assombração. O que ela falou não deixa de ser verdade!
— Se você é fraca, então acho que estou falando com a Blaze errada.
Ela sentiu o seu coração se apertar após ouvir aquelas palavras.
— Sabe, a Blaze que eu conheço é destemida e luta por seus ideais, e faz de tudo para não decepcionar os que estão à sua volta. A Blaze que conheço é forte, muito forte. Apesar da sua infância triste e fracassada, cresceu sem esquecer daquilo que sempre foi de mais importante na sua vida: ajudar a quem precisa. A gata que conheci jamais deixaria seus amigos na mão numa situação de perigo. Ela morreria tentando.
Blaze mordeu o lábio inferior e sentiu aquelas palavras fazerem efeito dentro de si, espantando a dormência. Estava tão absorta em suas próprias mágoas, que não havia percebido nada mais ao seu redor. É claro que Tails e Amy deviam estar precisando de sua ajuda e não ajudá-los era um erro intolerante. Ela não poderia mais ficar parada, precisava ajudá-los.
...
— E foi isso que aconteceu. – Silver estava sentado na mesa do quarto de Amy no hotel. – Foi preciso um tempo até poder convencê-la a se levantar e nos ajudar.
— Mas como você achou a gente? – Perguntou Amy.
Silver levantou o braço direito, esticando-o. Fez uma leve careta de dor. A pancada na parede me fez um pequeno estrago. – Pensou ele. Mas disfarçou rapidamente antes de continuar a falar.
— Eu acordei creio que pouco tempo depois que vocês saíram. Falo isso porque a enfermeira que apareceu em meu quarto quando acordei perguntou se queria que ela os chamasse. Eu disse que sim. Alguns minutos depois ela acabou voltando apenas com o café da manhã e me disse que não havia encontrado vocês. Ela estranhou porque eu nunca havia sido deixado pelos três ao mesmo tempo. Eu deduzi então que vocês haviam saído em missão.
— Quer dizer que você simplesmente saiu do hospital? – Sugeriu Amy.
— Pessoal, eu sei que pode até parecer loucura, mas eu acordei com a plena certeza de que estava bem e completamente recuperado. Para mim o coma foi a forma da minha mente me proteger dos danos invasivos que eu sofri. A própria enfermeira parecia muito impressionada comigo. Meu único mal estar físico naquele momento era a falta de alimentação.
À medida que a história avançava, Silver sentia as palmas das suas mãos suarem dentro das luvas. Resolveu ir até à janela e sentir a brisa que invadia o quarto. Logo depois, continuou:
— Ainda assim, eu me senti muito culpado e não conseguia parar de pensar em tudo que aconteceu. Eu sabia que precisaria encontra-los pra dar alguma explicação do meu sumiço. E assim que fui deixado só, eu vi minha oportunidade de fugir do hospital. – Silver viu surgir nos rostos de Amy e Tails expressões de censura e desaprovação. – Calma, pessoal, eu tô ótimo! É sério! Não sinto mais nada! Como eu disse, eu até meio que sabia que estava em coma. Enfim... última lembrança que tenho antes de procurá-los, foi de sair correndo do hospital de Denfire. Só.
Silver foi obrigado a fechar um pouco da janela, pois a brisa havia se tornado em um vento gelado, e ele já estava sentindo frio.
— Eu acredito que vocês não devam saber, mas meus poderes aumentaram bastante de uns tempos para cá. Adquiri algumas habilidades telepáticas, e uma delas é algo como um buscador. Quanto mais eu estou ligado à mente de alguém, mais forte fica o radar, que pode funcionar a vários quilômetros de distância. Mas não é tão simples assim quanto parece. Ele não é como um mapa, é mais como um radar que manda um sinal fraco entre alguns instantes de silêncio. Se o alvo está se movimentando muito fica mais complicado ainda, então encontrá-los não foi nada fácil. Como minha mente estava mais ligada à Blaze, eu pude rastreá-la lentamente, seguindo esse sinal até encontrar a cabana.
Amy, prestando bastante a atenção, questionou mais uma vez:
— E como você mandou aquela mensagem pra ela? Digo, antes de tudo isso acontecer, quando nem estávamos aqui em Lively, Blaze já estava tendo essas visões, mesmo antes de chegarmos aqui.
Silver suspirou:
— Como disse, porque Blaze pôs sua confiança em mim, a sua mente se ligou à minha. Quando eu estava tentando encontrar uma maneira de contata-los, eu senti que poderia mandar um pedido de socorro, mesmo que não fosse diretamente pra Blaze. Confesso que jamais tinha tentado algo assim. Mas depois que essa marca no meu braço apareceu, eu percebi que poderia ter alguma chance. Então eu fiz isso. Claro, foram dias de tentativa, enviando sempre a mesma mensagem. Eu tinha que lidar com toda aquela oscilação entre momentos de lucidez e loucura. Parecia funcionar melhor quando estava dormindo. E funcionou porque vocês conseguiram me encontrar e... – O semblante de Silver aos poucos foi se obscurecendo, e após um leve engasgo ele baixou a cabeça. – Desculpe... Eu quase matei vocês, eu sinto muito, muitíssimo mesmo...
Tails e Amy sabiam que Silver não tinha culpa. Mas o que aconteceu, ainda assim, era recente e doloroso.
— Tudo bem, Silver. Esqueça isso. – Amy sorriu confortando-o. Logo perguntou a ambos. – E como vocês prenderam Lumina?
Tails, mesmo abatido, demonstrou uma pequena empolgação ao começar a falar:
— Foi fácil. Assim que eu fui jogado longe pelo âmbar, eu fiquei inconsciente por alguns segundos. Como eu estava deitado de costas, ao abrir meus olhos pude perceber uma movimentação silenciosa bem acima de mim. Mas foi só quando recuperei a visão que eu vi Silver caminhando sobre as vigas. Ele me disse telepaticamente para esperar um instante, preparar a arma e agir no seu sinal. Assim que ele fez as janelas se fecharem, eu disparei a arma em Lumina. Depois, só precisávamos de alguém para vedar seus olhos sem abrir a janela. Ninguém podia enxergar nada naquela escuridão exceto...
— Blaze – Silver completou, ainda entristecido.
O silêncio tomou conta do quarto. Não havia como mascarar o sentimento de derrota que permeava entre eles. Blaze havia sido levada.
A mente de Tails estava prestes a enlouquecer. – Por que Blaze? Por que agora? – O raposo segurava com firmeza uma caneca de porcelana, e seus olhos fitavam o chá calmante. À medida que ele apertava seus punhos, sentia que poderia quebrá-la ali mesmo. Logo sua mente se abriu para mais um raciocínio. – Por que a marca nos tornozelos? E por que em Lumina e em Silver as marcas estão nos pulsos?— O raposo repousou a xícara sobre a pequena mesa ao lado, e abriu o seu laptop. Navegou em meio à rede, se perdendo no meio de milhões de páginas que no fim das contas não atribuíram significado algum a nenhuma de suas perguntas. Pra aliviar a frustração, resolveu escrever um e-mail. Após um último clique no botão "enviar", fechou seu aparelho e saiu do quarto.
Tails foi até o seu apartamento para arrumar seus pertences e finalizar sua estadia ali. O raposo não precisava de um vidente para descobrir que o próximo planeta a ser visitado era o misterioso Shield.
Lively só trouxera mais dor e questionamentos, mas os amigos precisavam de respostas.
...
Naquela tarde ensolarada Knuckles, como o habitual, permanecia sentado ao pé da Master Emerald. A brisa fresca anunciava um dia tranquilo como qualquer outro, mas uma folha de papel amassada que jazia ao lado do altar provou exatamente o contrário. Cream lhe entregara a mensagem poucas horas atrás, e não havia como negar que ela lhe afligia bastante:
Pessoal, as coisas aqui não andam nada boas. Fomos atrás de informações e Blaze acabou sendo sequestrada também. Quanto à Silver, ele acordou e está bem. Estou pensando em sairmos para Shield daqui a alguns minutos, ver se encontramos algo por lá. Não vamos desistir de Sonic. Jamais.
Fiquem bem.
Tails.
Agora, a Blaze também. — pensou o equidna.
Os olhos de Knuckles estavam fixos no belíssimo céu, mas ele não conseguia apenas admirá-lo. Aquele pequeno ponto no céu sempre iria lhe parecer fora do normal, por mias que estivesse há dias por lá.
A cada dia que passa, aquilo se aproxima mais ainda daqui.
Desnorteado, o equidna pensava em si mesmo para afastar os pensamentos turbulentos daquela situação. A vida que qualquer pessoa acharia monótona era seu refrigério, seu porto seguro. É claro que já houve mais de uma vez que sentir vontade de abandoná-la. Mas alguns dias Knuckles nem via o tempo passar e até brincava com as grandes nuvens de algodão suave que pairavam no céu. Outros não e hoje era um dia como estes.
Mirando naquele ponto avermelhado, ele sabia que o assunto era sério. Envolvia um perigo indescritível, algo completamente fora da sua realidade. Queria, mais do que tudo, poder resolver isso. Em um sobressalto levantou-se e pôs seu punho pesado sobre a maior esmeralda conhecida até agora. O equidna tentou manter sua mente vazia por pelo menos alguns minutos. Até que a resposta chegou:
— Knuckles?
— Nossa, até que enfim...
— Desculpe, estava desconcentrada. Alguma notícia sobre Sonic?
— Sobre Sonic não. Amy, Blaze e Tails saíram à procura de pistas e de Silver mas...
Silêncio.
— O quê? Knuckles?
— Blaze acabou sendo sequestrada também...
— Não...
— Eu sei. É terrível. Mas eles também recuperaram Silver, ele ficou em coma por um bom tempo, e agora já está acordado. Eu queria que você os ajudasse... Se não me engano estão saindo para Shield em breve.
— Claro que sim... Eles precisam de conforto e apoio nesse momento. Eu entendo que as coisas não estão nada boas. Além disso, eu também preciso passar para eles novas informações. Não se preocupe, tudo bem?
— Certo. Muito obrigado, eu sabia que minha raça não iria decepcionar. – Disse o equidna, satisfeito.
— Não é nada, é minha obrigação... Até mais, Knuckles.
— Até logo, Tikal.
...
A tarde estava nublada e o ar permanecia carregado com partículas de água que refrescavam o ambiente. Enquanto Tails estava na sala de comando, Amy estava ali, sozinha com Silver, que estava terminando de colocar a última caixa do equipamento de Tails no Cyclone. A ouriça contava e explicava tudo que havia acontecido até ali e ele a ouvia atentamente.
Apesar de saber que toda aquela carga de informações poderia gerar um surto de fúria no ouriço a qualquer momento, Amy não conseguia parar de falar, como se estivesse desabafando, e isso fez com que ela prosseguisse até o fim. Após todos os assuntos postos em seu devido lugar, ela tinha algumas dúvidas.
— Silver?
— Hum?
Ela fitou o ouriço prateado por breves segundos. Não havia como negar que ele era dotado de uma beleza impressionante, próxima ou até mesmo maior que a de Sonic – com mais calma, poderia jurar que eles tinham algo de muito semelhante na expressão. Ele sentou-se em uma das caixas e desviou seus olhos dourados da ouriça, que também não se arriscava a encará-lo por muito tempo com medo de ver aquele olhar sombrio novamente.
— Escute... Eu venho mantendo contato com aquela amiga nossa que lhe falei, a Tikal... Ela disse que a alma protetora do planeta Denfire é Volcano, assim como ela é de Mobius.
— Volcano?
— Sim. O pai de Blaze. Ela já falou com você sobre isso?
— Nunca. – Silver cuspiu a palavra. – Ela não se abre nesse quesito. Tirando o pouco que sei sobre sua infância, ela prefere nunca conversar sobre. Acho que ela se sente impotente.
— Entendo. O que acho estranho é que Tikal fala com todos nós sempre que pode. Mas ela me disse que Blaze atrapalha a comunicação com ele. Como se estivesse se negando a conversar.
Silver não respondeu e fez um movimento com a cabeça que se assimilava a uma indecisão. Logo levantou-se e fechou a porta que permitia a brisa entrar na nave. Virou-se com uma expressão embaraçosa e disse:
— Amy, me desculpe novamente, mas eu não consigo fingir que nada aconteceu. Não dá pra ignorar o fato de que eu quase matei vocês. Isso me deixa extremamente envergonhado, e eu posso ver em seus olhos que você ainda não se sente à vontade.
— Não se preocupe Silver. – Amy sorriu com franqueza e firmeza. – Não é culpa sua, já disse. Por mais que eu ainda não me sinta segura, eu confio que as coisas vão melhorar com o tempo. Tenha paciência.
— Sim, eu sei. Em troca, prometo vou viajar a Denfire e procurar algo que ajude na busca por Sonic e Blaze.
— Não é necessário, Silver. – Tails surgiu do nada, parecia ter atravessado as paredes carregando seu minicomputador. — Escutem isso...
— O que foi? – Amy estava un pouco mais animada agora.
— Andei vagando em tudo que eu descobri... Li agora na internet que mais meteoros entraram na órbita, adivinhem de onde?
Amy deu de ombros.
— Em Denfire. – Silver e Amy ficaram boquiabertos. – E foi isso que me ajudou a descobrir. Eu andei analisando as listas e cheguei a uma conclusão sobre o texto do pilar. – Tails trouxe o laptop para visão deles. – "Os quatro irão se unir, e a rosa se tornará única para ser dominada." Obviamente ela está falando do Eixo Rosa Negra. Então eu pensei no seguinte: Se eles vão destruir ou invadir os planetas, poderiam ter feito isso antes... A verdade é que se o objetivo é uma invasão, teriam que primeiro capturar os quatro indivíduos protetores dos planetas porque só assim eles poderiam dominá-los. Sonic já foi tirado então, os meteoros entraram na órbita, assim como em Lively depois que o guardião foi sequestrado e agora em Denfire quando pegaram Blaze.
— Nossa, faz sentido. – Amy estava estarrecida. – Mas como você sabe que o guardião de Lively foi levado?
— Muita pesquisa. Procurei nos arquivos de desaparecidos e nas notícias do mesmo dia em que os meteoros entraram em órbita com Lively. O nome que mais apareceu em uma semana inteira de manchetes era Quake Tyler. É um albatroz bastante conhecido por aqui, mas não por ser um lutador herói das batalhas como Sonic ou Blaze. Ele na verdade é um líder do comércio e do dinheiro, o mais bem sucedido do ramo. Utiliza o que ganha para ajudar o planeta. Ele é uma lenda venerada da filantropia, e desapareceu sem mais nem menos, no mesmo dia em que o meteoro apareceu aqui.
Tails fechou o flip e prosseguiu:
— Se em Shield ainda não há meteoro ou qualquer ameaça, significa que todos nós temos quer ir pra lá para avisar e proteger o guardião. Demolish colocava esses enigmas para nos distrair, mas agora que temos essa carta na manga podemos forçá-lo a lutar de frente conosco! – Tails irradiava determinação e orgulho em dizer tais palavras. Prosseguiu:
— Pyro logo mandará um dos seus para Shield, e acredito que ele até mesmo já esteja lá, infiltrado de alguma forma. Então devemos ser rápidos e ter cuidado triplicado. Tudo bem?
Os amigos assentiram, e era visível a fagulha de esperança que queimava em seus corações. Para eles, não havia nada mais honroso que lutar por aquilo que mais almejavam, nem que fosse até a morte. Todos os objetivos estavam alinhados.
Após alguns minutos, quando Tails já estava próximo de fazer a contagem da partida, Amy pensou um pouco e lembrou-se de algo que por pouco havia esquecido. Resolveu fazer os seus parceiros aguardaren um pouco mais.
— Esperem, vou ali rápido, eu me esqueci de uma coisa. – Amy ativou a porta de saída da nave, que se levantou imediatamente. Ela pulou da grande nave, e já no chão, pôs se a correr.
As rosas coloridas de Lively duram aproximadamente cinco anos após sua evolução completa. – Pensou nas palavras do livreto que recebera de presente da sua grande amiga Cream. As imagens belíssimas que estampavam as páginas pareciam vívidas em sua mente, ficando ainda mais à medida que corria, e chegava mais perto da roseira que vira quando chegou em Lively.
Por fim, quando se aproximou dela, a ouriça teve uma surpresa. Algumas das rosas estavam faltando, mas para seu conforto a rosa lilás continuava ali, intacta e perfeita. Amy sorriu e se abaixou para retirar a rosa com cuidado. Sua cautela era semelhante a uma operação de muito risco. E assim que terminou e levantou-se, carregou a sua rosa nos braços até o Cyclone.
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